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domingo, 14 de setembro de 2014
O existencialismo é um humanismo
O existencialista declara frequentemente que o homem é angústia. Tal afirmação significa o seguinte: o homem que se engaja e que se dá conta de que ele não é apenas aquele que escolheu ser, mas também um legislador que escolhe simultaneamente a si mesmo e a humanidade inteira, não consegue escapar ao sentimento de sua total e profunda responsabilidade. É fato que muitas pessoas não sentem ansiedade, porém nós estamos convictos de que essas pessoas mascaram a ansiedade perante si mesmas, evitam encará-las; certamente muitos pensam que, ao agir, estão apenas engajando a si próprios e, quando lhes pergunta: mas se todos fizerem o mesmo? Eles encolhem os ombros e respondem: nem todos fazem o mesmo. Porém, na verdade, devemos sempre perguntar-nos: o que aconteceria se todo mundo fizesse como nós? E não podemos escapar a essa pergunta inquietante a não ser através de uma espécie de má-fé. Aquele que mente e se desculpa dizendo: nem todo mundo faz o mesmo, é alguém que não está em paz com sua consciência, pois o fato de mentir implica um valor universal atribuído à mentira. Mesmo quando ela se disfarça, a angústia aparece. É esse tipo de angústia que Kierkegaard chamava a angústia de Abraão. Todos conhecem a história: um anjo ordena a Abraão que sacrifique seu filho. Está tudo certo se foi realmente um anjo que veio e disse: Tu és Abraão e sacrificará teu filho. Porém, pra começar, cada qual pode perguntar-se: será que era verdadeiramente um anjo? Ou: será que sou mesmo Abraão? Que provas tenho? Havia uma louca que tinha alucinações: falava-lhe pelo telefone dando ordens. O médico pergunta: “Mas afinal, quem fala com você?. Ela responde: “Ele diz que é Deus”. Que provas tinha ela que de fato era Deus? E um anjo aparece, como saberei que é um anjo? E se escuto vozes, o que me prova que elas vem do céu e não do inferno? Ou do subconsciente ou de um estado patológico? O que prova que elas se dirigem a mim? Quem pode provar-me que fui eu, efetivamente, o escolhido para impor a minha concepção do homem e a minha própria escolha à humanidade? Não encontrei jamais, prova alguma, nenhum sinal que possa convencer-me. Se uma voz se dirige a mim sou sempre eu mesmo que terei que decidir que essa voz é a voz de um anjo; se considero que determinada ação é boa. Sou eu mesmo que escolho afirmar se ela é boa ou má. Nada me designa para ser Abraão, e no entanto, sou a cada instante obrigado a realizar atos exemplares. Tudo se passa como se a humanidade inteira estivesse de olhos fixos em cada homem e se regrasse por suas ações. E cada homem deve perguntar a si próprio: sou eu realmente, aquele que tem o direito de agir de tal forma que os meus atos sirvam de norma para a humanidade? E, se ele não fizer a si mesmo esta pergunta, é porque estará mascarando sua angústia. Não se trata de uma angústia que conduz ao quietismo, à inação. Trata-se de uma angústia simples, que todos aqueles que um dia tiveram responsabilidades conhecem bem. Quando por exemplo um chefe militar assume a responsabilidade de uma ofensiva e envia para a morte certo número de homens, ele escolhe fazê-lo e, no fundo, escolhe sozinho. Certamente que certas ordens vêm de cima, porém são abertas demais e exige uma interpretação - responsabilidade sua – que depende a vida de dez, catorze ou vinte homens. Não é possível que não exista certa angústia na decisão tomada. Todos os chefes conhecem essa angústia. Mas isso não os impede de agir, muito pelo contrário: é a própria angústia que constitui a condição de sua ação, pois ela pressupõe que eles encarem a pluralidade dos possíveis e que, ao escolher um caminho, eles se deem conta de que ele não tem valor a não ser o de ter sido escolhido. Veremos que esse tipo de angústia - a que o existencialismo descreve – se aplica também por uma responsabilidade direta para com os outros homens engajados pela escolha. Não se trata de uma cortina entreposta entre nós e a ação, mas parte constitutiva da própria ação.
O existencialismo é um humanismo
Jean-Paul Sartre
Tradutora: Rita Correia Guedes
L’existencialisme est un humanisme
quinta-feira, 6 de março de 2014
O existencialismo é um humanismo (trecho)
Dostoievski escreveu: “Se Deus não existisse tudo seria permitido” . Eis o ponto de partida do existencialismo. De fato, tudo é permitido se deus não existe e, por conseguinte, o homem está desamparado porque não encontra nele próprio nem fora dele, nada a que se agarrar. Para começar, não encontra desculpas, com efeito se a existência precede a essência nada poderá jamais ser explicado por referência a uma natureza humana dada e definitiva; ou seja, não existe determinismo, o homem é livre, o homem é a liberdade. Por outro lado, se deus não existe, não encontramos já prontos , valores ou ordens que possam legitimar a nossa conduta . Assim não teremos nem atrás de nós nem na nossa frente , no reino luminoso dos valores, nenhuma justificativa e nenhuma desculpa. Estamos sós, sem desculpa. É o que posso expressar dizendo que o homem está condenado a ser livre . Condenado porque não se criou a si mesmo, e como, no entanto é livre, uma vez que foi lançado ao mundo, é responsável por tudo que faz. O existencialismo não acredita no poder da paixão. Ele jamais admitirá que uma bela paixão é uma corrente devastadora, que conduz o homem, fatalmente, a determinados atos, e que, consequentemente, é uma desculpa. Ele considera que o homem é responsável por sua paixão. O existencialista não pensará nunca, também, que o homem pode conseguir o auxílio de um sinal qualquer que o oriente no mundo, pois considera que é o próprio homem que decifra o sinal como bem entende. Pensa, portanto, que o homem sem apoio e sem ajuda está condenado a inventar o homem a cada instante.
Jean-Paul Sartre, O existencialismo é um humanismo
quinta-feira, 25 de abril de 2013
O Existencialismo é um humanismo
O existencialismo ateu que eu represento é mais coerente. Afirma que, se Deus não existe, há pelo menos um ser no qual a existência precede à essência, um ser que existe antes de poder ser definido por qualquer conceito: este ser é o homem, ou, como diz Heidegger, a realidade humana. O que significa, aqui, dizer que a existência precede à essência? Significa que numa primeira instância o homem existe, encontra a si mesmo, surge no mundo, e só posteriormente se define. O homem, tal como o existencialista o concebe só não é passível de uma definição porque, de início, não é nada: só posteriormente será alguma coisa e será aquilo que ele fizer de si mesmo. Assim, não existe natureza humana, já que não existe um Deus para concebê-la. O homem é tão-somente, não apenas como ele se concebe, mas também como ele se quer; como ele se concebe após a existência, como ele se quer após esse impulso para a existência. O homem nada mais é do que aquilo que ele faz de si mesmo: é esse o primeiro princípio do existencialismo. É também a isso que chamamos de subjetividade: a subjetividade de que nos acusam. Porém nada mais queremos dizer que a dignidade do homem é maior do que a da pedra ou da mesa. Pois, queremos dizer que, antes de mais nada, o homem existe, ou seja, o homem é, antes de mais nada, aquilo que se projeta num futuro e que tem consciência de estar projetando num futuro. De início, o homem é um projeto que se vive a si mesmo subjetivamente, ao invés de musgo, podridão ou couve-flor; nada existe antes desse projeto; não há nenhuma inteligibilidade no céu, e o homem será apenas o que ele projetou ser. Não o que ele quis ser, pois entendemos vulgarmente o querer como uma decisão consciente que, para quase todos nós, é posterior àquilo que fizemos de nós mesmos. Eu quero aderir a um partido, escrever um livro, casar-me, tudo isso são manifestações de uma escolha mais original, mais espontânea do que aquilo que chamamos de vontade. Porém, se realmente a existência precede à essência, o homem é responsável pelo que é. Desse modo, o primeiro passo do existencialismo é o de pôr todo homem na posse do que ele é, de submetê-lo à responsabilidade total de sua existência. Assim, quando dizemos que o homem é responsável por si mesmo, não queremos dizer que o homem é apenas responsável pela sua estrita individualidade, mas que ele é responsável por todos os homens. A palavra subjetivismo tem dois significados (...). Subjetividade significa, por um lado, escolha do sujeito individual por si próprio, e por outro lado, impossibilidade em que o homem se encontra em transpor os limites da subjetividade humana. É esse segundo significado que constitui o sentido profundo do existencialismo. Ao afirmarmos que o homem se escolhe a si mesmo, queremos dizer que cada um de nós se escolhe, mas queremos dizer também que, escolhendo-se, ele escolhe todos os homens. De fato, não há um único de nossos atos que, criando o homem que queremos ser, não esteja criando, simultaneamente, a imagem de um homem tal qual julgamos que ele deva ser. Escolher ser isto ou aquilo é afirmar concomitantemente o valor do que estamos escolhendo, pois não podemos nunca escolher o mal; o que escolhemos é sempre o bem e nada pode ser bom para nós se não o ser para todos. Se, por um lado, a existência precede a essência, e se nós queremos existir ao mesmo tempo que moldamos a nossa imagem, essa imagem é válida para todos e para todas a nossa época.
Jean-Paul Sartre, O existencialismo é um humanismo
quarta-feira, 13 de março de 2013
A náusea, Jean-Paul Sartre
Sexta-feira, Três horas
Por um pouco não caí na armadilha do espelho. Evitei, mas é para tropeçar na armadilha do vidro: desocupado de mãos a abanar, aproximo-me da janela. As obras, A paliçada, a estação velha - a estação velha, a paliçada, obras. Bocejo com tanta força que me vem uma lágrima aos olhos. Tenho na mão direita o cachimbo e na esquerda a bolsa de tabaco. Era preciso encher o cachimbo. Mas falta-me a coragem. Deixo cair os braços, encosto a testa ao vidro. Aquela velha, além, irrita-me. (...). Às vezes para com um ar amedrontado, como se um perigo invisível tivesse roçado por ela. Ei-la por baixo da minha janela; o vento cola-lhe as saias aos joelhos. Para, compõe o lenço. Tremem-lhe as mãos. Lá vai outra vez: agora vejo-a de costas. Vejo um bicho-de-conta. Suponho que vai virar à direita, para o Boulevard Noir. Tem ainda uns cem metros a percorrer para o que precisará, pelo andar com que vai, duns bons dez minutos; dez minutos durante os quais ficarei como estou, a olhar para ela, de testa colada ao vidro. Vai parar vinte vezes, retomar a marcha, parar outra vez... Vejo o futuro. Está ali, pousado na rua, mais próximo um tudo-nada que o presente. Que necessidade tem de realizar? Que vantagem é que isso lhe dará? A velha afasta-se, trôpega, para, compõe uma madeixa que lhe saiu debaixo do lenço. Recomeça a andar: ainda agora estava além, agora está aqui... torna-se-me tudo confuso: eu vejo ou prevejo os gestos dela? Já não distingo o presente do futuro, e, todavia, há uma duração, uma realização, que opera pouco a pouco; a velha avança na rua deserta, desloca os seus grandes sapatos de homem. É isso o tempo, o tempo inteiramente nu, que acede lentamente à existência que faz esperar, e que, quando chega, nos enfastia, porque conhecemos então que já estava ali havia muito. A velha aproxima-se da esquina da rua; é apenas, agora, um montinho de pano preto. Pois bem, sim, concedo, há nisto - algo novo: ela não estava ali há bocadinho. Mas é um novo desbotado, sem viço, que nunca poderá surpreender. A velha vai dobrar a esquina da rua, leva imenso tempo a dobrá-la - uma eternidade. Tiro-me da janela e percorro o quarto, titubeante; deixo-me apanhar pelo espelho, olho para, mim, tenho nojo: mais uma eternidade. Finalmente, escapo à minha imagem, atiro-me para cima da cama. Olho para o teto; queria dormir. Calmo. Calmo. Deixei de sentir o deslizar, o roçar do tempo. Vejo imagens no teto. Primeiro, círculos de luz, depois cruzes... É um borboletear. E lá vem outra imagem a formar-se; esta, no fundo dos meus olhos: um grande animal de joelhos. Vejo-lhe as patas da frente, e como uma albarda. O resto está mal definido. Todavia, reconheço a figura: é um camelo que vi em Marraquexe, amarrado a uma pedra. Tinha-se ajoelhado e levantado seis vezes a seguir; os garotos riam e excitavam-no, com a voz. Há dois anos era maravilhoso: bastava fechar os olhos, logo a cabeça me zumbia como uma colmeia: revia caras, árvores, casas, uma japonesa de Kamaishi a lavar-se, nua, uma barrica, um russo morto, com um largo ferimento na fronte e um charco vermelho ao lado que era todo o seu sangue. Sentia, por evocação, o gosto do cuscus, o cheiro a azeite que enche ao meio-dia, as ruas de Burgos, o aroma do funcho que flutua nas de Tetuão, o assobiar dos pastores gregos; ficava emocionado. Há muito tempo que essa alegria se gastou. Irá renascer hoje? Um sol tórrido, na minha cabeça, desloca-se rigidamente como uma chapa de lanterna mágica. Segue-o um fragmento de céu azul; depois de alguns estremeções, o sol imobiliza-se, fico todo dourado por dentro. De que dia vivido em Marrocos (ou na Argélia?, ou na Síria?) se desligou, de súbito este brilho? Deixo-me afundar no passado.
Jean-Paul Sartre, A Náusea
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
Jean-Paul Sartre, A Náusea
Levanto-me, mexo-me sob esta luz pálida; vejo-a resvalar pelas minhas mãos e pelas mangas do meu casaco: não se imagina a que ponto ela me causa aversão. Bocejo. Acendo o candeeiro que está em cima da mesa: talvez a sua luz possa sobrepor-se à do dia. Não pode: o candeeiro mal consegue formar, à roda da base, uma poça desprezível. Apago; levanto-me. Na parede há um
buraco branco, o espelho. É uma ratoeira. Sei que vou lá cair. Já está. A coisa cinzenta acaba de surgir no espelho. Aproximo-me e olho para ela; já não posso desviar-me. É o reflexo da minha cara. Muitas vezes, nestes dias, perdidos, fico a contemplá-lo. Não percebo nada desta cara. As dos outros têm um sentido. A minha, não. Nem posso decidir se é bonita ou feia. Acho que é feia, porque me disseram. Mas não é propriedade que me salte à vista. A bem dizer, até me surpreende que se lhe possam atribuir qualidades desse gênero, como se se chamasse bonito ou feio a um bocado de terra ou a um bloco de rocha. Há, todavia, uma coisa cuja vista dá prazer; por cima das regiões moles das faces, acima da testa: é esta bela labareda vermelha que me doura o crânio, são os meus cabelos. Isto sim, é agradável de se ver. É, pelo menos, uma cor nítida: estou contente por ser ruivo. Ali está ela, no espelho, salta aos olhos, irradia fogo. Muita sorte tenho eu: se a minha testa suportasse uma dessas cabeleiras sem brilho que não chegam a decidir-se entre castanho e louro, a minha expressão perder-se-ia no vago, dar-me-ia vertigens. O meu olhar desce lentamente, com enfado, por esta testa, por estas faces: não encontra nada de firme, afoga-se. Evidentemente, aquilo é um nariz, aquilo são uns olhos, aquilo uma boca, mas nada disso tem sentido, nem sequer expressão humana. Todavia, Anny e Vélines achavam que eu tinha um ar de vivacidade; devo estar habituado demais à minha cara. A minha tia Bigeois dizia-me, quando eu era pequeno: «Se olhares muito tempo para o espelho, acabas por ver um macaco.» Olhei muito, muito tempo, com certeza: o que lá vejo está muito abaixo do macaco, na fronteira do mundo vegetal, ao nível dos pólipos. Tem vida, não digo que não; mas não é nessa vida que Anny pensava: noto na imagem do espelho uns leves estremeções, vejo uma carne desenxabida que se distende e palpita com abandono. Os olhos, principalmente, de tão perto, são horríveis. São uma coisa vítrea, mole, cega, orlada de vermelho; parecem escamas de peixe. Amparo-me, com todo o meu peso, à moldura de faiança, aproximo a minha cara do espelho até lhe tocar. Os olhos, o nariz e a boca desaparecem: já nada resta humano. Rugas escuras de ambos os lados do inchaço febril dos lábios, gretas, montículos. Uma sedosa penugem branca corre sobre os grandes declives das bochechas; dois pêlos saem das narinas: é uma carta geológica em relevo. E, apesar de tudo, este mundo lunar é-me familiar. Não posso dizer que lhe reconheça os pormenores. Mas o conjunto produz-me uma impressão de coisa já vista que me entorpece: resvalo lentamente para o sono. Tento reagir: uma sensação viva e brusca libertar-me-ia. Espalmo a mão esquerda na face, puxo pela pele; desenha-se no espelho uma careta. Uma metade inteira do meu rosto cede, o lado esquerdo da boca torce-se e incha, destapando um dente, a órbita abre-se sobre um globo branco, sobre uma carne cor-de-rosa e ensanguentada. Não é o que eu procurava: nada de forte, nada de novo; tudo doce, indeciso, já visto! Estou prestes a adormecer de olhos abertos; já a cara cresce, cresce no espelho, torna-se um imenso halo pálido a boiar na luz...
O que me faz acordar bruscamente é que estou a perder o equilíbrio. Dou por mim a cavalo numa cadeira, de frente para trás, ainda estonteado. Os outros homens terão tanta dificuldade como eu em julgar o seu rosto? Parece-me que vejo o meu, como sinto o corpo, numa sensação surda e orgânica. E os outros? (...) As pessoas que vivem em sociedade aprenderam a ver-se, nos espelhos, tal como aparecem aos seus amigos. Eu não tenho amigos: será por isso que a minha carne é tão nua? Dir-se-ia - sim, dir-se-ia a natureza sem os homens. Perdi o gosto pelo trabalho; já não posso fazer nada, senão esperar a noite. Cinco e meia, Isto está mau, muito mau: cá está ela, a porcaria da Náusea. E, desta vez, é diferente: deu-me num café. Os cafés eram até aqui o meu único refúgio, porque estão sempre cheios de gente e bem iluminados: já nem isso me resta; quando estiver encurralado no meu quarto, já não terei para onde ir. Vinha com ideias de ir para o quarto com a patroa, mas, mal tinha empurrado a porta, Madeleine, a criada, gritou-me: «A patroa não está cá, foi dar umas voltas que tinha a dar.» Senti uma viva decepção no sexo, um longo cocegar desagradável. Ao mesmo tempo, sentia a camisa roçar-me contra a ponta dos mamilos, e era cercado, arrastado, por um lento turbilhão colorido, um turbilhão de névoa, de luzes no fumo, nos espelhos, com os assentos que brilhavam ao fundo; e não via porque é que aquilo se passava ali, nem porque se passava assim. Estava no limiar da porta, hesitava; depois produziu-se um remoinho, uma sombra passou no teto, e senti-me empurrado para diante. Era como se flutuasse, estava encadeado pelas brumas luminosas que, vindas de todos os lados, me penetravam ao mesmo tempo. Madeleine aproximou-se a boiar, despiu-me o sobretudo, e notei que ela tinha arrepiado os cabelos para trás e posto brincos: não a reconhecia. Olhava-lhe para as grandes bochechas que se chegavam cada vez mais para as orelhas. Na covinha das bochechas, abaixo das maçãs do rosto, havia duas manchas cor-de-rosa, bem isoladas, com ar de se aborrecerem no meio daquela carne pobre. As bochechas deslocavam-se, chegavam-se para as orelhas, e Madeleine sorria: «Sr. Antoine, que é que toma?»
Então a Náusea acometeu-me, deixei-me cair no assento, nem sequer já sabia onde estava; via as cores girarem lentamente à minha volta, tinha vontade de vomitar. E aqui está: desde então que a Náusea não me deixa; a Náusea apossou-se de mim.
Paguei. Madeleine levou-me o pires. O meu copo esmaga contra o mármore uma poça de cerveja amarela, onde flutua uma bolha. O assento está desencaixado, no sítio em que me sentei, e sou obrigado, para não escorregar, a fincar as solas dos sapatos no chão, com força. Está frio. À minha direita, uns sujeitos jogam as cartas sobre um pano de lã. Não os vi, ao entrar; senti simplesmente que estava ali uma trouxa morna, meio sobre o assento, meio sobre a mesa do fundo, com pares de braços a agitar-se. Pouco depois, Madelaine levou-lhe as cartas, o pano e as fichas numa tigela de madeira. São três ou cinco, não sei, não tenho coragem para os olhar. Partiu-se uma mola dentro de mim: posso mover os olhos, mas não a cabeça. A minha cabeça está mole, elástica, dir-se-ia que me assenta no pescoço, sem estar presa; se a virar, deixo-a cair.
Mesmo assim, ouço uma respiração curta, e vejo, de vez em quando, com o ratinho do olho, um clarão rubicundo coberto de pelos brancos. É a mão de alguém. Quando a patroa não está, é o primo que toma o lugar dela ao balcão. Chama-se Adolphe. Comecei a olhar para ele quando me ia sentar, e continuei, porque não podia virar a cabeça. Está em camisa, com suspensórios cor de malva; tem as mangas arregaçadas até acima do cotovelo Os suspensórios destacam-se mal da camisa azul; estão apegados, enterrados no azul, mas a sua humildade é falsa: na verdade, não se deixam passar despercebidos; irritam-me com a sua obstinação de carneiros, como se, destinados a chegar ao roxo, tivessem parado a meio sem abandonar as suas pretensões. Tem-se vontade de lhes dizer: «Vá lá, façam-se roxos, e não se fale mais nisso.» Mas não, ficam na incerteza, teimando num esforço que não levam até ao fim. Aí às vezes, o azul que os cerca desbota sobre eles, e encobre-os inteiramente: fico um instante sem os ver. Mas é uma onda apenas; depressa o azul desmaia aqui e além, e vejo reaparecer uns ilhéus duma cor de malva, hesitante, que se dilatam, se reúnem e reconstituem os suspensórios. O primo Adolphe não tem olhos: as suas pálpebras, empapuçadas e reviradas à beira, mal deixam ver a esclerótica. Sorri com um ar sonolento; de vez em quando, assopra, gane e agita-se debilmente como um cão a sonhar. A sua camisa de algodão azul sobressai alegremente do fundo cor de chocolate que é a parede. Também isso me faz náuseas. Ou antes: é isso a Náusea. A Náusea não está dentro de mim: sinto-a além, na parede, nos suspensórios, em toda a parte à minha volta. Constitui um todo com o café; sou eu que estou dentro dela.
Jean-Paul Sartre, A Náusea
buraco branco, o espelho. É uma ratoeira. Sei que vou lá cair. Já está. A coisa cinzenta acaba de surgir no espelho. Aproximo-me e olho para ela; já não posso desviar-me. É o reflexo da minha cara. Muitas vezes, nestes dias, perdidos, fico a contemplá-lo. Não percebo nada desta cara. As dos outros têm um sentido. A minha, não. Nem posso decidir se é bonita ou feia. Acho que é feia, porque me disseram. Mas não é propriedade que me salte à vista. A bem dizer, até me surpreende que se lhe possam atribuir qualidades desse gênero, como se se chamasse bonito ou feio a um bocado de terra ou a um bloco de rocha. Há, todavia, uma coisa cuja vista dá prazer; por cima das regiões moles das faces, acima da testa: é esta bela labareda vermelha que me doura o crânio, são os meus cabelos. Isto sim, é agradável de se ver. É, pelo menos, uma cor nítida: estou contente por ser ruivo. Ali está ela, no espelho, salta aos olhos, irradia fogo. Muita sorte tenho eu: se a minha testa suportasse uma dessas cabeleiras sem brilho que não chegam a decidir-se entre castanho e louro, a minha expressão perder-se-ia no vago, dar-me-ia vertigens. O meu olhar desce lentamente, com enfado, por esta testa, por estas faces: não encontra nada de firme, afoga-se. Evidentemente, aquilo é um nariz, aquilo são uns olhos, aquilo uma boca, mas nada disso tem sentido, nem sequer expressão humana. Todavia, Anny e Vélines achavam que eu tinha um ar de vivacidade; devo estar habituado demais à minha cara. A minha tia Bigeois dizia-me, quando eu era pequeno: «Se olhares muito tempo para o espelho, acabas por ver um macaco.» Olhei muito, muito tempo, com certeza: o que lá vejo está muito abaixo do macaco, na fronteira do mundo vegetal, ao nível dos pólipos. Tem vida, não digo que não; mas não é nessa vida que Anny pensava: noto na imagem do espelho uns leves estremeções, vejo uma carne desenxabida que se distende e palpita com abandono. Os olhos, principalmente, de tão perto, são horríveis. São uma coisa vítrea, mole, cega, orlada de vermelho; parecem escamas de peixe. Amparo-me, com todo o meu peso, à moldura de faiança, aproximo a minha cara do espelho até lhe tocar. Os olhos, o nariz e a boca desaparecem: já nada resta humano. Rugas escuras de ambos os lados do inchaço febril dos lábios, gretas, montículos. Uma sedosa penugem branca corre sobre os grandes declives das bochechas; dois pêlos saem das narinas: é uma carta geológica em relevo. E, apesar de tudo, este mundo lunar é-me familiar. Não posso dizer que lhe reconheça os pormenores. Mas o conjunto produz-me uma impressão de coisa já vista que me entorpece: resvalo lentamente para o sono. Tento reagir: uma sensação viva e brusca libertar-me-ia. Espalmo a mão esquerda na face, puxo pela pele; desenha-se no espelho uma careta. Uma metade inteira do meu rosto cede, o lado esquerdo da boca torce-se e incha, destapando um dente, a órbita abre-se sobre um globo branco, sobre uma carne cor-de-rosa e ensanguentada. Não é o que eu procurava: nada de forte, nada de novo; tudo doce, indeciso, já visto! Estou prestes a adormecer de olhos abertos; já a cara cresce, cresce no espelho, torna-se um imenso halo pálido a boiar na luz...
O que me faz acordar bruscamente é que estou a perder o equilíbrio. Dou por mim a cavalo numa cadeira, de frente para trás, ainda estonteado. Os outros homens terão tanta dificuldade como eu em julgar o seu rosto? Parece-me que vejo o meu, como sinto o corpo, numa sensação surda e orgânica. E os outros? (...) As pessoas que vivem em sociedade aprenderam a ver-se, nos espelhos, tal como aparecem aos seus amigos. Eu não tenho amigos: será por isso que a minha carne é tão nua? Dir-se-ia - sim, dir-se-ia a natureza sem os homens. Perdi o gosto pelo trabalho; já não posso fazer nada, senão esperar a noite. Cinco e meia, Isto está mau, muito mau: cá está ela, a porcaria da Náusea. E, desta vez, é diferente: deu-me num café. Os cafés eram até aqui o meu único refúgio, porque estão sempre cheios de gente e bem iluminados: já nem isso me resta; quando estiver encurralado no meu quarto, já não terei para onde ir. Vinha com ideias de ir para o quarto com a patroa, mas, mal tinha empurrado a porta, Madeleine, a criada, gritou-me: «A patroa não está cá, foi dar umas voltas que tinha a dar.» Senti uma viva decepção no sexo, um longo cocegar desagradável. Ao mesmo tempo, sentia a camisa roçar-me contra a ponta dos mamilos, e era cercado, arrastado, por um lento turbilhão colorido, um turbilhão de névoa, de luzes no fumo, nos espelhos, com os assentos que brilhavam ao fundo; e não via porque é que aquilo se passava ali, nem porque se passava assim. Estava no limiar da porta, hesitava; depois produziu-se um remoinho, uma sombra passou no teto, e senti-me empurrado para diante. Era como se flutuasse, estava encadeado pelas brumas luminosas que, vindas de todos os lados, me penetravam ao mesmo tempo. Madeleine aproximou-se a boiar, despiu-me o sobretudo, e notei que ela tinha arrepiado os cabelos para trás e posto brincos: não a reconhecia. Olhava-lhe para as grandes bochechas que se chegavam cada vez mais para as orelhas. Na covinha das bochechas, abaixo das maçãs do rosto, havia duas manchas cor-de-rosa, bem isoladas, com ar de se aborrecerem no meio daquela carne pobre. As bochechas deslocavam-se, chegavam-se para as orelhas, e Madeleine sorria: «Sr. Antoine, que é que toma?»
Então a Náusea acometeu-me, deixei-me cair no assento, nem sequer já sabia onde estava; via as cores girarem lentamente à minha volta, tinha vontade de vomitar. E aqui está: desde então que a Náusea não me deixa; a Náusea apossou-se de mim.
Paguei. Madeleine levou-me o pires. O meu copo esmaga contra o mármore uma poça de cerveja amarela, onde flutua uma bolha. O assento está desencaixado, no sítio em que me sentei, e sou obrigado, para não escorregar, a fincar as solas dos sapatos no chão, com força. Está frio. À minha direita, uns sujeitos jogam as cartas sobre um pano de lã. Não os vi, ao entrar; senti simplesmente que estava ali uma trouxa morna, meio sobre o assento, meio sobre a mesa do fundo, com pares de braços a agitar-se. Pouco depois, Madelaine levou-lhe as cartas, o pano e as fichas numa tigela de madeira. São três ou cinco, não sei, não tenho coragem para os olhar. Partiu-se uma mola dentro de mim: posso mover os olhos, mas não a cabeça. A minha cabeça está mole, elástica, dir-se-ia que me assenta no pescoço, sem estar presa; se a virar, deixo-a cair.
Mesmo assim, ouço uma respiração curta, e vejo, de vez em quando, com o ratinho do olho, um clarão rubicundo coberto de pelos brancos. É a mão de alguém. Quando a patroa não está, é o primo que toma o lugar dela ao balcão. Chama-se Adolphe. Comecei a olhar para ele quando me ia sentar, e continuei, porque não podia virar a cabeça. Está em camisa, com suspensórios cor de malva; tem as mangas arregaçadas até acima do cotovelo Os suspensórios destacam-se mal da camisa azul; estão apegados, enterrados no azul, mas a sua humildade é falsa: na verdade, não se deixam passar despercebidos; irritam-me com a sua obstinação de carneiros, como se, destinados a chegar ao roxo, tivessem parado a meio sem abandonar as suas pretensões. Tem-se vontade de lhes dizer: «Vá lá, façam-se roxos, e não se fale mais nisso.» Mas não, ficam na incerteza, teimando num esforço que não levam até ao fim. Aí às vezes, o azul que os cerca desbota sobre eles, e encobre-os inteiramente: fico um instante sem os ver. Mas é uma onda apenas; depressa o azul desmaia aqui e além, e vejo reaparecer uns ilhéus duma cor de malva, hesitante, que se dilatam, se reúnem e reconstituem os suspensórios. O primo Adolphe não tem olhos: as suas pálpebras, empapuçadas e reviradas à beira, mal deixam ver a esclerótica. Sorri com um ar sonolento; de vez em quando, assopra, gane e agita-se debilmente como um cão a sonhar. A sua camisa de algodão azul sobressai alegremente do fundo cor de chocolate que é a parede. Também isso me faz náuseas. Ou antes: é isso a Náusea. A Náusea não está dentro de mim: sinto-a além, na parede, nos suspensórios, em toda a parte à minha volta. Constitui um todo com o café; sou eu que estou dentro dela.
Jean-Paul Sartre, A Náusea
terça-feira, 15 de janeiro de 2013
Jean-Paul Sartre, A náusea
SEXTA-FEIRA
Três horas. Três horas é sempre tarde ou cedo para aquilo que queremos fazer. Um momento do dia, bem particular. Hoje, então, é intolerável. Um sol frio branqueia a poeira dos vidros. Um céu pálido, mesclado de branco. De manhã, os regatos estavam gelados. Estou perto do calorífero, a fazer uma digestão pesada; sei de antemão que o dia está perdido. Não farei nada que preste, exceto, talvez, à noitinha. É por causa do sol que apura vagamente umas brumas brancas, sujas, suspensas no ar por cima das obras; que entra pelo meu quarto, muito louro, muito pálido, e me expõe, em cima da mesa, quatro reflexos baços, e falsos. O meu cachimbo é duma madeira sarapintada de verniz dourado que começa por atrair os olhos com uma aparência de alegria: atentamos nela, e o verniz derrete-se; fica apenas um grande rasto desmaiado sobre um pedaço de pau. E é assim com tudo, até com as minhas mãos. Quando está sol, como agora, o que eu devia fazer era ir-me deitar. O pior é que dormi como um bruto a noite passada e não tenho sono. Gostei tanto do céu de ontem, um céu estreito, negro de chuva, que vinha encostar-se aos vidros, como um rosto ridículo e comovente! Este sol que está não é ridículo, antes pelo contrário. O que me agrada nele é sobretudo a claridade que desce sobre os ferros oxidados das obras sobre as tábuas podres da paliçada, luz avara e modesta semelhante ao olhar que se deita, depois duma noite sem dormir, às decisões tomadas no entusiasmo da véspera, às páginas escritas sem emendas, duma só penada. Os quatro cafés do Boulevard Victor-Noir, que brilham de noite, ao lado uns dos outros, e que são muito mais do que simples cafés - aquários, barcos, estrelas ou grandes olhos brancos, perderam a sua graça ambígua. Um dia ideal para fazer um exame interior: esta claridade fria que o sol projeta, como uma sentença sem indulgência, sobre as criaturas, entra em mim pelos olhos, estou iluminado, por dentro, por uma luz depauperante. Bastar-me-ia um quarto de hora, tenho a certeza, para chegar ao asco supremo por mim próprio.
Jean-Paul Sartre, A náusea
sexta-feira, 4 de janeiro de 2013
A náusea - Jean-Paul Sartre
Logo, eu estava no parque público. De repente, tive uma iluminação um estalo e ficou tudo claro e cristalino a existência tinha se revelado, ela não era mais uma categoria abstrata e inofensiva. Era a própria substancia e a raiz das coisas.
As raízes, o banco do jardim, a relva escassa, tudo se desvanecia, a individualidade das coisas era apenas aparência um verniz. O verniz tinha desaparecido, eu via massas monstruosas e moles em desordem nuas, de uma assustadora obscenidade.
Se existíamos, era preciso existir a podridão a dilatação, a obscenidade. Em um outro mundo, círculos e árias de música, mantém linhas puras e fixas.
Mas nos atinge somo existentes, incomodados, envergonhados de nós mesmos sem razão de ser, todos nós existentes, confusos meio inquietos, como se fossemos demais e incomodássemos.
Demais: É a única ligação que estabeleço entre as árvores, as grades, as pedras. E eu lânguido, obsceno acalentando pensamentos tristes, eu também era demais, as árvores flutuavam em direção aos céus, eu esperava que, a qualquer momento, seus troncos cansados se dobrassem até o chão e virasse uma massa só, elas não queriam existir, mas não podiam fazer nada quanto a isso, tinham que continuar, a seiva circulava a contragosto, lentamente as raízes entravam na terra, mas elas pareciam que iriam largar tudo e se aniquilar, cansadas e velhas, as árvores continuavam a existir de má vontade, por serem fracas demais para morrer. Por que a morte só poderia vir do exterior.
Só acordes de música podem trazer orgulhosamente a morte em si mesmos como necessidade intrínseca.
“Tudo que existe nasce sem motivo se prolonga por fraqueza e tem um encontro com a morte, o essencial e a contingência, por definição, a existência não é necessária, existir é apenas” estar lá” Os existentes aparece, se deixam encontrar, mas não se pode nunca deduzi – los”.
Tudo é gratuito: este jardim, esta cidade e eu próprio. Quando a gente se dá conta disso o coração fica pesado e tudo começa a rodar.
Fiquei no banco perplexo, achatado por essa profusão de seres sem origem, por toda parte, desabrochamentos, minhas orelhas fervilhavam de existência, minha própria carne palpitava, pulsava e se abandonava à germinação universal. Era repugnante.
Jean-Paul Sarte, A Náusea
quarta-feira, 31 de outubro de 2012
Jean-Paul Sartre, A idade da razão
“Uma vida”, pensou Mathieu, “ é feita com futuro, como os corpos são feitos com vácuo.” Baixou a cabeça. Pensava na própria vida. O futuro penetrara-a até a medula. Tudo estava nela em suspenso, em sursis. Os dias mais recuados de sua infância , o dia em que dissera: “serei livre”, o dia em que dissera: “serei grande”, apareciam-lhe, ainda agora, com seu futuro particular, como um pequenino céu pessoal e bem redondo em cima deles, e esse futuro era ele, ele tal e qual era agora, cansado e amadurecido. Tinham direitos sobre ele e através de todo aquele tempo decorrido mantinham suas exigências, e ele tinha amiúde remorsos abafantes, porque o seu presente negligente e cético era o velho futuro dos dias do passado. Era ele que eles tinham esperado vinte anos, era dele, desse homem cansado, que uma criança dura exigira a realização de suas esperanças; dependia dele que os juramentos infantis permanecessem infantis para sempre ou se tornassem os primeiros sinais de um destino. Seu passado sofria sem cessar os retoques do presente; cada dia vivido destruía um pouco mais os velhos sonhos de grandeza, e cada novo dia tinha um novo futuro; de esperança em espera, de futuro em futuro, a vida de Mathieu deslizava docemente... em direção a que?
Em direção a nada.(...)
“Se eu morresse hoje”, pensou repentinamente Mathieu, “ninguém saberia se estava realmente liquidado ou se tinha ainda possibilidade de me salvar.”
Jean-Paul Sartre, Idade da razão
Em direção a nada.(...)
“Se eu morresse hoje”, pensou repentinamente Mathieu, “ninguém saberia se estava realmente liquidado ou se tinha ainda possibilidade de me salvar.”
Jean-Paul Sartre, Idade da razão
quinta-feira, 22 de março de 2012
Jean-Paul Sartre, A Náusea
TERÇA-FEIRA, 30 DE JANEIRO
Nada de novo. Trabalhei das nove à uma na Biblioteca. Pus em ordem o capítulo XII e tudo quanto se prende com a estada de Rollebon na Rússia, até à morte de Paulo I. É trabalho acabado: não voltarei a mexer-lhe antes da passagem a limpo. É uma e meia. Estou no Café Mably, a comer uma sanduíche; tudo parece mais ou menos normal. De resto, nos cafés tudo é sempre normal, e especialmente no Café Mably, por causa do gerente, o Sr. Fasquelle, que traz sempre pintada na cara uma expressão acanalhada muito positiva e reconfortante. Daqui a nada é a hora da sua sesta: já tem os olhos vermelhos, mas conserva o andar vivo e decidido. Passeia entre as mesas e aproxima-se, confidencialmente, dos fregueses: «Está tudo à vontade de V. Exa.?» Sorrio de o ver tão vivo: à hora em que o estabelecimento se esvazia, esvazia-se também a cabeça dele. Das duas às quatro o café fica deserto; então o Sr. Fasquelle dá alguns passos como embrutecido, os criados apagam as luzes, e ele resvala pela inconsciência: este homem, assim que fica sozinho, adormece. Ainda estão na casa uns vinte fregueses, rapazes solteiros, engenheiros modestos, empregados. Almoçam todos rapidamente em pensões de família, a que chamam o seu rancho, e, como têm necessidade dum pouco de luxo, vêm aqui, depois da refeição, tomar um café e jogar ao poker de ases; fazem um certo barulho inconsistente que não me incomoda. Também estes, para existir, precisam de se reunir uns com os outros. Eu então vivo sozinho, absolutamente sozinho. Nunca falo a ninguém; não me dão nada, não dou nada a ninguém. O Autodidata não conta. É verdade que há Françoise, a patroa do Rendez-vous dos Ferroviários. Mas pode dizer-se que falo com ela? Às vezes, depois de jantar, quando vem servir-me uma cerveja, pergunto-lhe: «Esta noite você tem tempo?» Nunca diz que não, e então sigo-a a um dos quartos grandes do 1.º andar, que ela aluga à hora ou ao dia. Não lhe pago senão o quarto. Ela goza (precisa dum homem por dia, e, além de mim, tem muitos outros) e eu purgo-me assim de certas melancolias cuja causa conheço perfeitamente. Mas mal trocamos algumas palavras. Para quê? Cada um por si; aos olhos dela, de resto, continuo a ser, antes de mais nada, um freguês do café. Diz-me assim, ao despir o vestido: «Ouça lá, você conhece um aperitivo chamado Bricot? É que houve dois fregueses, esta semana, que pediram. A rapariga não sabia, veio prevenir-me. Eram caixeiros viajantes; foi coisa que beberam em Paris, com certeza. Mas não gosto de comprar sem saber.Se não se importa, não tiro as meias» Dantes - mesmo muito tempo depois de me ter deixado -, Anny inspirava os meus pensamentos, como se eu quisesse ser-lhe útil. Agora já não penso por ninguém; nem sequer me ocupo a procurar palavras. Mais ou menos depressa, uma corrente flui dentro de mim, mas não retenho nada, deixo andar. A maior parte das vezes, como não se prendem a palavras, os meus pensamentos ficam em estado de nevoeiro. Desenham formas vagas e engraçadas, depois imergem, e esqueço-me logo deles. Estes rapazes fazem a minha admiração: contam, ao beber o seu café, histórias nítidas e verossímeis. Se lhes perguntarem o que fizeram ontem, não se perturbam: põem-nos ao corrente em duas palavras. No lugar deles, eu titubearia. É verdade que há muitíssimo tempo que ninguém se preocupa com o que faço. Quando se vive sozinho, deixa de se saber o que seja narrar: a verossimilhança desaparece ao mesmo tempo que os amigos. E os acontecimentos também: deixamo-los afundarem-se; vêem-se surgir bruscamente pessoas que se põem a falar e se retiram, mergulhamos em histórias sem pés nem cabeça: que execrável testemunha se seria nestes casos! Mas não se perde nada, em compensação, de quanto é inverosímil, de tudo em quanto, nos cafés, não se poderia acreditar. Por exemplo, sábado à tarde, eram umas quatro horas, pelas tábuas que servem de passeio nas obras da estação nova, uma mulherzinha vestida de azul-celeste corria às recuadas, a rir, dizendo adeus com um lenço. Ao mesmo tempo, um negro, de impermeável creme, sapatos amarelos e chapéu verde, dobrava a esquina da rua, a assobiar. A mulher, sempre às recuadas, veio esbarrar com ele, mesmo por baixo duma lanterna que está pendurada na paliçada e se acende de noite. Havia portanto ali, ao mesmo tempo, aquela paliçada que cheira tanto a madeira molhada, aquela lanterna, aquela mulherzinha loura nos braços dum negro, sob um céu de fogo. Se estivessem comigo três ou quatro pessoas, suponho que teríamos reparado no choque, em todas essas cores desmaiadas, no belo casaco azul que parecia um edredão, no impermeável claro, nos vidros vermelhos da lanterna; teríamos rido da estupefação que se desenhava naqueles dois rostos de criança. É raro um homem só ter vontade de rir: aquele conjunto animou-se para mim dum sentido muito forte e até feroz, mas puro. Depois desmanchou-se; ficou só a lanterna, a paliçada e o céu: mas subsistia ainda uma certa beleza. Uma hora depois, a lanterna estava acesa, levantara-se vento, o céu escurecera; já nada restava do caso. Nada disto é muito original; nunca recusei estas emoções inofensivas; pelo contrário. Para as sentir, basta ficar-se sozinho um momento, só o preciso para nos desembaraçarmos, na altura oportuna, da verosimilhança. Antes conservava-me muito perto das pessoas, à superfície da solidão, bem decidido, em caso de alarme, a refugiar-me no meio delas: no fundo, até aqui, era um amador. Agora há em toda a parte coisas como aquele copo de cerveja, além, em cima da mesa. Quando o vejo, tenho vontade de dizer: «Ferrados! Não brinco mais.» Compreendo perfeitamente que fui longe de mais. Acho que não se pode manter a solidão quietinha no seu lugar. Não quer dizer que eu vá olhar para debaixo da cama antes de me deitar, nem que receie ver a porta do quarto abrir-se bruscamente ao meio da noite. Somente, apesar de tudo, estou inquieto: há talvez meia hora que evito olhar para aquele copo de cerveja. Olho para cima, para baixo, para a esquerda, para a direita. Mas o copo, não quero vê-lo. E sei muito bem que nenhum destes homens que me cercam, solteiros como eu, pode prestar-me o menor auxílio: é tarde demais, já não posso refugiar-me entre eles. Viriam dar-me palmadinhas nas costas, dir-me-iam: «Então, que é que tem este copo de cerveja? É como todos os outros. Biselado, com uma asa, tem gravado um escudozinho com uma pá, e por cima do escudo está escrito spatenbrüu.» Tudo isto eu sei, mas sei também que há outra coisa. Quase nada. Mas já não posso explicar o que vejo. A ninguém. É isso: vou deslizando suavemente para o fundo da água, direto ao medo. Estou sozinho no meio destas vozes alegres e razoáveis. Todos estes fulanos passam o seu tempo a explicar-se uns aos outros, a reconhecer com contentamento que são da mesma opinião. Que importância que ligam, meu Deus, ao fato de pensarem todos juntos as mesmas coisas. Basta ver a cara que fazem quando passa pelo meio deles um desses homens com olhos de paigo, que parece que andam a olhar para dentro, e com quem, de forma nenhuma, se pode chegar a acordo. Quando eu tinha oito anos, e brincava no Luxemburgo, havia um que vinha sentar-se numa guarita situada junto ao gradeamento que margina a Rua Auguste-Cornte. Não dizia nada, mas, de vez em quando, estendia uma perna e olhava para o pé com um ar de terror. Esse pé tinha calçada uma bota, mas o outro estava enfiado numa pantufa. O guarda disse ao meu tio que esse homem era um antigo censor. Tinham-no reformado, porque viera ler as notas do período, nas aulas, em traje de acadêmico. Tínhamos um medo horrível dele, porque sentíamos que estava sozinho. Um dia sorriu para Robert, estendendo os braços para ele, de longe: por um pouco, Robert não desmaiou. Não era o ar miserável do tipo que nos metia medo, nem o tumor que tinha no pescoço, e que constantemente esfregava na beira do colarinho: é que sentíamos que ele gerava na cabeça pensamentos de caranguejo ou de lagosta. E a nós aterrorizava-nos que se pudessem alimentar pensamentos de lagosta quanto à guarita, quanto aos nossos arcos, quanto aos tufos de arbustos. É isso então o que me espera? Aborreço-me, pela primeira vez, de estar sozinho. Gostava de falar a alguém do que me está a acontecer, antes que seja tarde, antes de meter medo aos rapazes pequenos. Gostava que Annv. estivesse aqui. É curioso: acabo de escrever dez páginas, e não disse a verdade - não disse, pelo menos, a verdade toda. Se escrevi, por baixo da data, «Nada de novo», foi com a consciência a protestar: com efeito, uma pequena história, que não é vergonhosa nem extraordinária, recusava-se a sair. «nada de novo.» Admiro-me de como se pode mentir com a verdade na mão. Evidentemente, não se produziu nada de novo. se assim quisermos: esta manhã, às oito e um quarto, ao sair do Hotel Printania para ir à Biblioteca, quis apanhar um papel que estava no chão, e não pude. É tudo; nem isso constitui um acontecimento. Sim, mas, para dizer a verdade toda, fiquei profundamente impressionado: pensei que deixara de ser livre. Na Biblioteca procurei libertar-me dessa ideia, e não consegui. Quis fugir-lhe indo para o Café Mably. Esperava que ela se dissipasse com as luzes. Mas a ideia ficou onde estava, em mim, pesada e dolorosa. Foi ela que me ditou as páginas precedentes. Por que é que não falei dela? Deve ter sido por orgulho, e também um pouco por inépcia. Não tenho o costume de contar a mim próprio o que me vai sucedendo; por isso não recordo bem a sucessão dos acontecimentos, não distingo o que é importante. Mas, agora, acabou-se: reli o que tinha escrito no Café Mably, e tive vergonha: não quero segredos, nem estados de alma, nem inefáveis; não sou virgem, nem padre, para brincar à vida interior. Não há grande coisa a dizer: não pude apanhar o papel, mais nada. Gosto imenso de apanhar do chão castanhas, trapos já velhos, principalmente papéis. Sinto prazer em pegar neles, em fechá-los na mão; pouco falta para os levar à boca, como fazem as crianças. Anny ficava furiosa quando me via levantar por uma ponta bocados de papel pesados e sumptuosos, mas provavelmente sujos de trampa. No Verão ou no começo do Outono encontram-se nos jardins pedaços de jornal que o sol crestou, secos e quebradiços como folhas caídas, tão amarelos que os diriam passados por ácido pieriço. Outras páginas, no Inverno, aparecem pisadas, trituradas, maculadas, voltam à teiia. Outras novinhas ou, às vezes, lustrosas, muito brancas, palpitantes, alentam no chão como cisnes, mas já a terra por baixo a vai atolando. Torcem-se, arrancam-se da Lama, mas é para se irem estatelar um pouco mais longe, definitivamente. Tudo isso dá prazer apanhar. Às vezes limito-me a talear essas folhas, olhando-as de muito perto, outras vezes rasgo-as para lhes ouvir o largo crepitar, ou então, se- e«tão muito úmidas, deito-lhes fogo, o que tem a sua dificuldade; depois limpo a palma das mãos cheias de lama a uma parede ou ao tronco duma árvore. Ora bem, hoje pusera-me eu a olhar para as bolas fulvas dum oficial de cavalaria que vinha a sair do quartel. Ao segui-las com os olhos, vi um papel que estava caído ao lado duma poça. Julguei que o oficial. com o calcanhar, fosse enterrar o papel na lama, mas não: dum passo só, ultrapassou o papel e a poça. Aproximei-me: era uma página de papel pautado arrancada certamente dum caderno escolar. A chuva tinha-a repassado e retorcido; estava cheia de bolhas e de tumefações, como uma mão queimada. O traço vermelho da margem desbotara, tornando-se uma umidade cor-de-rosa; em alguns sítios a tinta tinha escorrido. A parte de baixo da página estava escondida sob uma crosta de lama. Abaixei-me; já sentia o prazer de mexer naquela massa tenra e fresca que me rolaria entre os dedos em bolinhas cinzentas .. Não pude. Fiquei curvado um segundo; ainda li: «Ditado - O Mocho Branco»; depois endireitei-me, de braços caídos. Já não sou livre, já não posso fazer o que quero. Os objetos não deviam impressionar-nos o tato, visto que não vivem. Servimo-nos deles, pomo-los no seu lugar, vivemos no meio deles: são úteis, nada mais. E a mim, os objetos tocam-me; é insuportável. Tenho medo de entrar em contato com eles, como se fossem animais vivos. Agora percebo; lembro-me melhor do que senti, no outro dia à beira-mar, quando tinha a pedra na mão. Era uma espécie de enjoo adocicado. Que desagradável que era! E a sensação vinha da pedra, tenho a certeza, passava da pedra para as minhas mãos. Sim, é isso. Era exatamente isso: uma espécie de náusea nas mãos.
Jean-Paul Sartre, A Náusea
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
“Não, não é cara ou coroa. O que quer que aconteça, é através de mim que há de acontecer”.
Ainda que se deixasse levar, desamparado, desesperado, mesmo que se deixasse transportar como um saco de carvão, teria escolhido a sua perdição. Era livre, livre, inteiramente, com liberdade de ser um animal ou uma máquina, de aceitar, de recusar, de tergiversar, casar, dar o fora, arrastar-se durante anos com aquela cadeira aos pés. Podia fazer o que quisesse, ninguém tinha o direito de aconselhá-lo. Só haveria para ele Bem e Mal se os inventasse. Em torno dele as coisas se haviam agrupado, aguardavam sem um sinal, sem a menor sugestão. Estava só em meio a um silêncio monstruoso, só e livre, sem auxílio nem desculpa, condenado a decidir-se sem apelo possível, condenado à liberdade para sempre."
Jean-Paul Sartre, Idade da razão
terça-feira, 20 de setembro de 2011
Jean-Paul Sartre, A Idade da Razão
Encolheu-se. Desejara desaparecer. Um guarda ergueu o bastão e o táxi parou. Mathieu olhava reto para a frente, mas não via as árvores, olhava para seu amor.
Era amor. Agora era amor. Mathieu pensou: “Que foi que fiz?” cinco minutos antes aquele amor não existia; havia entre ambos um sentimento raro e precioso, sem nome, que não se exprimia por meio de gestos. E eis que ele fizera um gesto, o único que não devia fazer, aliás não o fizera propositadamente, aquilo viera sozinho. Um gesto e aquele amor aparecera diante de Mathieu como um grande objeto importuno e já vulgar. Doravante, Ivich pensaria: “Ele é como os outros”, e, a partir daquele momento, Mathieu amaria Ivich como as demais mulheres que amara.”Que pensará ela?” Ela estava a seu lado, rígida e silenciosa, e entre eles havia o gesto, “tenho horror a que me toquem”, o gesto desajeitado e terno, que já comportava a impalpável obstinação das coisas passadas, “Ela está por conta, me despreza e pensa que sou como os outros. Não era o que eu queria dela”, pensou com desespero. Mas já não conseguia lembrar o que queria antes. Era o amor, simplesmente, com seus desejos simples e suas condutas vulgares, e Mathieu é que o fizera nascer com inteira liberdade. “Não é verdade”, pensou com força, “não a desejo, nunca a desejei.” Mas já sabia que ia desejá-la. Acaba sempre assim. “Olharei suas pernas, seus seios, e um dia...” (...)
O táxi parara. Ivich abriu a porta e desceu. Mathieu não a seguiu imediatamente. Contemplava com espanto aquele amor novinho em folha, e já velho, aquele amor de homem casado, envergonhado e matreiro, humilhante para ela, humilhado de antemão, ele já o acolhia como uma fatalidade. Desceu afinal, pagou e alcançou Ivich, que o esperava à entrada. Se ao menos ela pudesse esquecer. Deitou-lhe um olhar furtivo e achou que ela tinha uma expressão dura. “Na melhor das hipóteses”, pensou, “alguma coisa acabou entre nós.” Mas não tinha vontade de evitar amá-la. Entraram na exposição sem trocar palavra.
Jean-Paul Sartre, A Idade da Razão
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
Jean-Paul Sartre, A Idade da razão
... você está casado, Mathieu – disse ele com força.
- Isso é novidade – disse Mathieu.
- Sim, está casado, só que pretende o contrário por causa de suas teorias. Adquiriste hábitos com essa mulher. Quatro vezes por semana vais tranquilamente encontrá-la e passas a noite com ela. E isso dura há sete anos. Não tem mais nada de aventura. Você a estima, sente que tem obrigações para com ela, não a quer abandonar. Estou certo de que não procuras unicamente o prazer; por maior que tenha sido, deve ter-se embotado. Na realidade, deves sentar-te à noite junto dela e contar longamente os acontecimentos do dia, pedir conselhos nos momentos difíceis.
- Evidentemente – disse Mathieu, erguendo os ombros.
- Pois bem, podes dizer-me em que isso difere do casamento? O fato de não morarem juntos? (...) com isso você ganha a comodidade, uma aparência de liberdade. Tens todas as vantagens do casamento e aproveitas os princípios para recusar os inconvenientes. Recusas regularizar a situação, o que é muito fácil e cômodo, pois, se alguém sofre, não é você. (...) Sabes o que não entendo? Você, tão disposto sempre a profligar uma injustiça, você humilha essa mulher há anos, pelo mero prazer de afirmar que estás de acordo com teus princípios. Se realmente subordinasses tua vida a tuas ideias! Mas eu te repito, estás casado, tens um apartamento agradável, recebes bons vencimentos em dia certo, não tens nenhuma inquietação quanto ao futuro, porque o Estado te garante uma aposentadoria. E gostas dessa vida calma, regrada, uma vida de funcionário.
- Escuta – disse Mathieu - , há um mal-entendido entre nós; pouco me importa ser ou não burguês, O que eu quero, apenas... – acabou a frase entre os dentes - é conservar a minha liberdade.
- Eu imaginava – disse Jacques – que a liberdade consistia em olhar de frente as situações em que a gente se meteu voluntariamente e aceitar as responsabilidades. Não é por certo tua opinião: condenas a sociedade capitalista, e, entretanto, és funcionário nessa sociedade. Proclamas uma simpatia de princípio pelos comunistas, mas tens cuidado em não te comprometeres. Nunca votaste. Desprezas a classe burguesa e, no entanto, és um burguês, filho e irmão de burgueses, e vives como um burguês.
Mathieu fez um gesto, mas Jacques não se deixou interromper.
- Estás, no entanto, na idade da razão, meu caro Mathieu – disse com uma piedade ralhadora. – Mas isso você também o esconde, quer fazer-se de mais moço. Aliás... talvez seja injusto. Talvez não tenhas ainda a idade da razão, é uma idade moral, a que cheguei antes de ti. (...) você nada mais tem de mocinho, não te vai bem a vida boêmia. Aliás, o que é isso, a boemia? Era muito divertido há cem anos, agora... um punhado de desajustados sem perigo para ninguém e que perderam o trem, simplesmente. Você está na idade da razão, Mathieu, está ou deveria estar – repetiu distraidamente.
**********
És livre. Mas para que te serve a liberdade, se não para tomar posição? Você gastou trinta e cinco anos na sua limpeza e o resultado dela é um vácuo. És um corpo estranho, sabes? – continuou com um sorriso amigo. – vives no ar, cortaste os laços burgueses e não te ligaste ao proletariado, flutuas, és um abstrato, um ausente. Não deve ser muito divertido, todos os dias...
(...)- Você renunciou a tudo para ser livre. Dê mais um passo, renuncie à própria liberdade. E tudo te será devolvido.
(...)
- Você é bem real – disse Mathieu. - Tudo aquilo que você toca parece real. Desde que entraste no meu quarto ele parece verdadeiro e me enoja.
Acrescentou subitamente:
- És um homem.
- Um homem? – indagou Brunet, surpreso. – O contrário fora inquietante. Que quer dizer com isso?
- Nada, a não ser que escolheste ser um homem.
Um homem de músculos fortes e elásticos, que pensava por meio de curtas e severas verdades, um homem reto, sóbrio, seguro de si, terreno refratário às angélicas tentações da arte, da psicologia, da política, um homem inteiriço, um homem apenas. E Mathieu ali estava, diante dele, indeciso, mal envelhecido, mal cozido, assediado por todas as vertigens do inumano. E pensava: “Eu não pareço um homem”.
Brunet levantou-se.
- Pois faze como eu – disse. – que te impede de fazê-lo? Ou imaginas que poderás viver a vida inteira entre parênteses?
(...)
Vocês são todos iguais, vocês, os intelectuais. Tudo desmorona, os fuzis vão disparar sozinhos e vocês, serenos, reivindicam o direito de ser convencidos. Ah! Se ao menos você pudesse ver-se com meus olhos, compreenderia que não se pode perder tempo. (...) Finges lamentar o teu ceticismo, mas não te desfazes dele. É teu conforto moral. Quando o atacam, a ele te apegas avidamente.
(...)
Não tenho nada a defender; não me envaideço de minha vida e não tenho um níquel. Minha liberdade? Ela me pesa. Há anos que sou livre à toa. Morro de vontade de trocá-la por uma convicção. De bom grado trabalharia com vocês, isso me afastaria de mim mesmo e tenho necessidade de me esquecer um pouco. E depois, penso como você que não se é homem enquanto não se encontra alguma coisa pela qual se está disposto a morrer.
(...)
...quero permanecer livre. É o que posso dizer. Mas posso dizer também: tive medo, prefiro minha cortina verde, prefiro tomar ar, à tarde, no meu balcão, e não desejaria que isso mudasse. Agrada-me indignar-me contra o capitalismo, mas não desejo que o suprimam, porque não teria mais motivos de indignação. Agrada-me sentir-me desdenhoso e solitário de indignação. Agrada-me dizer “não”, sempre “não”, e teria medo que se construísse um mundo viável porque teria que dizer “sim” e fazer como os outros. Por cima ou por baixo: quem julgaria?
Jean-Paul Sartre, A Idade da razão
sexta-feira, 5 de agosto de 2011
Jean-Paul Sartre, A Idade da Razão
Verão. O ar estava morno e denso. Mathieu caminhava pelo meio da rua, sob um céu de um azul límpico. Seus braços remavam, e era como se abrissem pesadas cortinas de ouro. Verão. O verão dos outros. Para ele um dia sombrio começava. (...) “Verão!” O céu assombrava a rua, era um fantasma mineral; os transeuntes flutuavam no céu e seus rostos flamejavam. Mathieu respirou um cheiro vivo, de poeira nova. Piscou e sorriu. Verão! Deu alguns passos; o asfalto escuro e mole, marcado de pontos brancos, colou-se à sola de seus sapatos. Marcelle estava grávida. Não era mais o mesmo verão. (...) “Estou velho. Eis-me arriado em cima de uma cadeira, comprometido até o pescoço na vida e não acreditando em nada. (...) Estou aqui, saboreio-me, um gosto desconhecido de sangue e água ferruginosa, meu gosto, eu sou meu próprio gosto, eu existo. Existir é isso: beber-se a si próprio sem sede.Trinta e quatro anos. Há trinta e quatro anos que eu me saboreio, e estou velho. Trabalhei, esperei, tive o que queria: Marcelle, Paris, independência. Está tudo acabado. Não quero mais nada. (...) “ Assim é que eles me vêem, eles, Marcelle, Daniel, Brunet, Jacques. O homem que quer ser livre. Come, bebe, como qualquer outro, é funcionário, não faz política, lê L’Oeuvre e Le Populaire e está em dificuldades financeiras. Mas quer ser livre, como outros desejam uma coleção de selos. A liberdade é seu jardim secreto. Sua pequena conivência para consigo mesmo. Um sujeito preguiçoso e frio, algo quimérico, razoável no fundo, que malandramente construiu pra si próprio uma felicidade medíocre e sólida, feita de inércia, e que ele justifica de quando em vez mediante reflexões elevadas. Não é isso que eu sou?”
Tinha dezesseis anos. Era um animal, um estúpido. Estava deitado na areia em Arcachon, contemplava as ondas compridas e chatas do oceano. Acabara de sovar um jovem bordelês que lhe jogara pedras. Ele o obrigara a comer areia. Sentado à sombra dos pinheiros, arquejante, as narinas cheias de odor da resina, tivera a impressão de ser uma pequena exploração suspensa no ar, redonda, abrupta, inexplicável. Dissera a si mesmo: “Serei livre”; ou antes, não dissera coisa alguma, mas era o que quisera dizer, e fora uma aposta, uma promessa. Apostara que toda a sua vida se pareceria com aquele momento excepcional. Tinha vinte e um anos, lia Spinoza no seu quarto, e era terça-feira de carnaval. Grandes carros multicores passavam na rua, cheios de bonecos de papelão. Erguera os olhos e apostara de novo, com aquela ênfase filosófica que lhe era agora peculiar, a ele e a Brunet: “Eu me salvarei”. Dez, cem vezes ele tornara a fazer a aposta. As palavras mudavam com a idade e as modas intelectuais, mas era uma só e mesma aposta. E a seus próprios olhos Mathieu não era um sujeito pesadão que ensinava filosofia a rapazes num ginásio, nem o irmão de Jacques Delarue, o advogado, nem o amante de Marcelle, nem o amigo de Daniel e Brunet. Era unicamente aquela aposta.
“Que aposta?” Pousou a mão sobre os olhos cansados de luz. Já não sabia mais. Tinha agora – dia a dia mais amiudados – longos momentos de exílio. Para compreender sua aposta precisava estar nos seus melhores dias.- Bola, faz favor.
Uma bola de tênis rolou-lhe aos pés, um menino corria atrás com a raqueta na mão. Mathieu apanhou a bola e lançou-a ao garoto. Por certo não estava num desses dias. Vegetava naquele calor abafante, sofria a velha e monótona sensação do cotidiano. Inutilmente repetia as frases que o exaltavam antes: “Ser livre. Ser a causa de si próprio, poder dizer: sou porque quero; ser o próprio começo”. Eram palavras vazias e pomposas, palavras irritantes de intelectual.
Levantou-se. Levantava-se um funcionário, um funcionário em dificuldades financeiras e que ia encontrar-se com a irmã de um de seus ex-alunos. Pensou: “Estará tudo acabado? Serei apenas um funcionário?” Esperara tanto tempo. Seus últimos anos tinham sido uma vigília. Esperara através de mil e uma preocupações cotidianas. Naturalmente, durante esse tempo andara atrás de mulheres, viajara e ganhara a vida. Mas através de tudo isso sua única preocupação fora manter-se disponível. Para uma ação. Um ato. Um ato livre e refletido que acarretaria o destino de sua vida e seria o início de uma nova existência. Nunca pudera amarrar-se definitivamente a um amor, a um prazer, nunca fôra realmente infeliz; sempre lhe parecera estar alhures, ainda não nascido completamente. Esperava. E enquanto isso, devagar, sub-repticiamente, os anos tinham chegado, e o haviam envolvido. Trinta e quatro anos. “Com vinte e cinco é que eu deveria ter-me comprometido. Como Brunet. Sim, mas nessa idade não se tem plena consciência do que se faz. Vai-se na onda. Eu não queria ir na onda. Pensava partir para a Rússia , abandonar os estudos, aprender um ofício. O que cada vez o retivera fôra a ausência de motivos para fazê-lo. Sem motivos a decisão teria sido uma burrada. Continuaria a esperar.
Barquinhos a vela giravam no tanque, açoitados de quando em vez pelo repuxo. Parou para olhar o carrossel náutico. Pensou: “Não espero mais. Ela tem razão. Estou liquidado. Esvaziei-me, esterelizei-me para ser apenas uma espera. Agora estou vazio. Mas não espero mais nada”
Junto do repuxo um barquinho parecia perdido, inclinava-se, afundava lentamente. Todos riam. Um guri tentava salvá-lo com uma vara...
Jean-Paul Sartre, A Idade da Razão
quinta-feira, 28 de julho de 2011
A Idade da razão
... Tinha grandes olhos azuis de boneca e uma boca infantil, mas sob seus olhos de porcelana havia rugas, bem como em torno da boca: as narinas eram finas como se estivessem agonizantes e os cabelos, que, de longe, se assemelhavam a um halo dourado, mal se escondiam o crânio. Boris contemplou com horror aquela criança glabra. “Já foi jovem”, pensou. Havia sujeitos que pareciam feitos para ter trinta e cinco anos – Mathieu, por exemplo - , porque nunca tinham tido adolescência. Mas quando um camarada fôra realmente moço ficava marcado para o resto da vida. A gente aguentava até vinte e cinco anos. Depois... era horrível. Pôs-se a olhar para Lola e bruscamente lhe disse:
- Lola, olhe para mim. Eu te amo.
Os olhos de Lola tornaram-se cor-de-rosa, ela pisou nos pés de Boris. Disse apenas:
- Querido.
Ele teve vontade de gritar: “Aperte-me, force-me a sentir que eu te amo!” Mas Lola não dizia nada, estava sozinha agora, era sua vez. Sorria vagamente, baixara as pálpebras e seu rosto se fechara sobre sua felicidade. Um rosto calmo e deserto. Boris sentiu-se abandonado e o pensamento imundo invadiu-o de novo: “Não quero, não quero envelhecer”. No ano passado estava sossegado, nunca pensava nessas histórias bestas. Agora era sinistro, sentia sem cessar a mocidade escorregar-lhe entre os dedos. Até os vinte e cinco anos. “Tenho ainda cinco na frente, pensou.” (...)
“Eu também, talvez, terei barriga. Não poder mais olhar-me num espelho, sentir os próprios gestos secos e quebradiços como se a gente fosse de madeira morta...” E cada instante vivido usava mais um pouco sua mocidade. “Se ao menos eu pudesse economizar-me, viver bem devagar, lentamente, talvez ganhasse alguns anos. (...)
Apertou Lola contra seu peito e sentiu a doçura espessa dos seios.
- ah! – murmurou Lola.
Ela se inclinara para trás e ele estava fascinado por aquela cabeça pálida de lábios carnudos, uma cabeça de Medusa. Pensou: “São seus últimos dias de sol”. E apertou-a mais fortemente. “Uma dessas manhãs ela desmontará de repente.” Não lhe tinha mais raiva; sentia-se nela, rígido e magro, todo músculos, envolvia-a nos seus braços e a protegia contra a velhice. Depois teve um instante de sono e desvario: olhou os braços de Lola, brancos como os cabelos de uma velha, pareceu-lhe segurar a velhice nas mãos, e que era preciso apertá-la com toda a força, até sufocá-la.
- Como você me aperta! – disse Lola, feliz. – Você me machuca. Quero você...
Jean-Paul Sartre, A Idade da razão
domingo, 24 de abril de 2011
Jean-Paul Sartre, A Náusea
Levanto-me a custo; no espelho, por cima da cabeça do veterinário, vejo deslizar um rosto que não parece humano. Daqui a pouco vou ao cinema. O ar faz-me bem: não tem o gosto de açúcar, nem o cheiro avinhado do vermute. Mas, santo Deus, que frio que está! São sete e meia, não tenho fome, e o cinema só começa às nove. Que hei-de fazer entretanto? É preciso andar depressa para aquecer. Hesito: por trás de mim o boulevard conduz ao coração da cidade, aos grandes ornamentos de fogo das ruas centrais, ao Palácio Paramount, ao Imperial, aos Armazéns Jahan. Nada disso me tenta: são horas do aperitivo; por agora, estou farto das coisas vivas, dos cães, dos homens, de todas as massas moles que se movem espontaneamente. Viro à esquerda, vou mergulhar naquela boca, além, à ponta da fila dos candeeiros a gás: vou seguir pelo Boulevard Noir até à Avenida Galvani. Sopra dessa boca um vento glacial: lá ao fundo só há pedras e terra. As pedras são duras e não se mexem. Há um bocado de caminho aborrecido: no passeio da direita, uma massa vaporosa, cinzenta, com rastos de fumo, faz um ruído como o de uma concha aplicada à orelha; é a estação velha. A sua presença fecundou os cem primeiros metros do Boulevard Noir - desde a Avenida da Redoute até à Rua Paradis -, fez lá nascer uns dez candeeiros e, ao lado uns dos outros, quatro cafés, o Rendez-vous dos Ferroviários e mais três, que elanguescem todo o dia, mas se iluminam de noite, e projetam retângulos luminosos no pavimento. Tomo mais três banhos de luz amarela, vejo sair da mercearia e retrosaria Rabache uma velha que cobre a cabeça com um lenço e se põe a correr: cheguei ao fim. Estou à beira do passeio da Rua Paradis, ao lado do último candeeiro. A tira de betume interrompe-se bruscamente. Do outro lado da rua é o negrume e a lama. Atravesso a Rua Paradis. O meu pé direito mergulha numa poça de água; encharquei a peúga; o passeio começa. Ninguém habita esta região do Boulevard Noir. O clima é aqui muito frio, o solo muito ingrato para a vida se fixar nele e se desenvolver. As três oficinas de serração dos irmãos Soleil (os irmãos Soleil forneceram a abóbada a lambril da Igreja de Santa Cecília do Mar, que custou cem mil francos) tão a oeste, com todas as portas e todas as janelas, para a doce Rua Jeanne-Berthe-Cceuroy, e enchem-na do seu ronronar. Para o Boulevard Victor-Noir viram, as três, as costas, onde vai dar a fila dos muros. Estes edifícios bordam o passeio da esquerda durante quatrocentos metros: nem uma janela, nem uma trapeira sequer. Desta vez meti os dois pés na água. Atravesso a rua: no outro passeio, um único candeeiro a gás, como um farol na extrema língua da terra, ilumina uma paliçada desconjuntada, a que já faltam várias tábuas. Pedaços de cartazes aderem ainda à madeira. Um belo rosto cheio de ódio faz esgares num num fundo verde que, rasgado, tomou a forma duma estrela; por baixo do nariz, alguém sarapintou um bigode de pontas retorcidas. Noutro pedaço de papel pode-se ainda decifrar a palavra «noviço», em caracteres brancos, donde caem gotas vermelhas, talvez gotas de sangue. Pode ser que a cara e a palavra tenham feito parte do mesmo cartaz. Agora o cartaz está lacerado, desapareceram os laços simples e intencionais que os uniam, mas outra unidade se estabeleceu por si própria entre a boca torcida, as gotas de, a terminação «viço»: dir-se-ia que uma paixão criminosa e sem descanso procura exprimir-se por meio destes sinais misteriosos. Entre as tábuas podem ver-se brilhar as luzes da via férrea. Uma parede comprida continua a paliçada. Uma parede sem aberturas, sem portas, sem janelas, que, duzentos metros mais adiante, é interrompida por uma casa.
Ultrapassei o campo de ação do candeeiro; entro na boca negra. Tenho a impressão, ao ver a minha sombra, a meus pés, fundir-se nas trevas, de mergulhar numa água gelada. Em frente de mim, muito ao fundo, através das camadas de negrume, distingo uma pálida mancha cor-de-rosa: é a Avenida Galvani. Volto-me; atrás do candeeiro a gás, muito ao longe, há um vago clarão: é a estação, com os quatro cafés. Atrás de mim, na minha frente, há pessoas a beber e a jogar cartas nas cervejarias. Aqui há apenas negrume. O vento traz-me com intermitências um repique solitário que vem de longe. Os ruídos domésticos, o ronco dos automóveis, os gritos, os latidos, pouco se afastam das ruas iluminadas, ficam ao calor. Mas este repique rompe as trevas e chega até aqui: é mais duro, menos humano que os outros ruídos. Paro para o ouvir. Tenho frio, doem-me as orelhas, devem estar todas encarnadas. Mas deixo de me sentir a mim próprio; ganha-me a pureza do que me cerca; nada aqui vive; o vento sopra, fogem na noite linhas inflexível. O Boulevard Noir não tem a cara indecente das ruas burguesas que se fazem galantes para os transeuntes. Ninguém pensou em enfeitá-lo: é apenas um reverso. O reverso Rua Jeanne-Berthe Cceuroy da Avenida Galvani. Nas proximidades da estação, ainda os Bouvillois cuidam dele um poucochinho; lavam-no uma vez por outra, por causa dos viajantes. Mas, logo adiante, abandonam-no, e ele escapa-se muito direito, cegamente, para ir esbarrar na Avenida Gavani. A cidade esqueceu-se dele. Às vezes, um grande caminhão cor de terra atravessa-o a toda a velocidade, com um ruído de trovoada. Nem assassínios se cometem aqui, pó faria de assassinos e de vítimas. O Boulevard Noir é desumano. Como um mineral. Como um triângulo. É uma sorte haver um boulevard assim em Bouviile. Geralmente só encontramos destas artérias nas capitais, em Berlim, para os lados de NeuUIn ou então de Friedrischshain - em Londres, atrás de Greenwich. Corredores direitos e sujos, em plena corrente de ar, com largos passeios sem árvores Ficam quase todos fora do perímetro, nesses estranhos bairros em que se fabricam as cidades, perto das estações de mercadorias, das estações de elétricos, dos matadouros, dos gasômetros. Dois dias depois de ter chovido, quando toda a cidade, úmida, está ao sol, e irradia um calor rejante, estão ainda muito frios, conservam a sua lama e as suas poças. Têm mesmo poças de água que nunca secam exceto um mês por ano, em Agosto. A Náusea ficou lá atrás, na luz amarela. Sou feliz este frio é tão puro, pura esta noite; não serei eu próprio uma onda de ar gelado? Não ter sangue, nem linfa, nem carne. Correr como um líquido por este longo canal, direito àquele clarão lá ao fundo. Não ser senão frio. Vem gente. Duas sombras. Que precisão tinham de vir para aqui? É uma mulher baixa a puxar um homem pela manga, fala com uma voz rápida e pequenina. Não percebo o que diz, por causa do vento. «Calas a boca, ou não?», diz o homem. Ela continua a falar. Bruscamente, o homem repele-a. Olham-se os dois, hesitantes, depois ele mete as mãos nas algibeiras e vai-se embora sem voltar a cabeça. O homem desapareceu. Três metros apenas me separam agora da mulher. De súbito, rasgam-na, arrancam-se dela uns sons roucos e graves que enchem toda a rua com uma violência extraordinária: «Charles, por favor, lembras-te do que eu te disse? Charles, anda cá, estou farta, não faças a minha desgraça!» Passo tão perto dela que poderia tocar-lhe. É... Mas como acreditar que esta carne em fogo, este rosto impregnado de sofrimento... Todavia, reconheço o lenço, o casaco e o grande sinal cor de pé de vinho que tem na mão direita; é ela, é Lucie, a mulher há dias. Não ouso oferecer-lhe auxílio, mas é preciso que ela possa reclamá-lo, se precisar: passo lentamente pela frente dela, fitando-a. Os seus olhos fixam-se em mim, mas ela não parece ver-me; tem o ar de quem se perdeu no seu sofrimento. Dou alguns passos. Volto-me... É ela, sim, é Lucie. Mas transfigurada, fora de si, sofrendo com uma louca generosidade, invejo-a. Está ali, muito direita, de braços abertos, como à espera dos estigmas; abre a boca, sufoca. Tenho a impressão de que as paredes cresceram, de ambos os lados da rua, que se aproximam, que ela está no fundo dum poço. Espero alguns instantes: tenho medo de que ela caia inanimada: é muito frágil para suportar esta dor insólita. Mas ela não se mexe, parece mineralizada como tudo o que a rodeia. Por um instante pergunto a mim próprio se não me tinha enganado com ela, se não é a sua verdadeira natureza que de súbito, me é revelada... Lucie emite um pequeno gemido. Leva a mão à garganta, arregalando os olhos espantados. Não, não é a si própria que vai buscar força para sofrer tanto. A força vem-lhe do exterior... é este boulevard. Era preciso agarrá-la pelos ombros, levá-la para as luzes, para o meio das pessoas, para as ruas doces e cor-de-rosa: aí não se pode sofrer tanto; ela amoleceria, recobraria o seu ar positivo e voltaria ao nível habitual dos seus sofrimentos.
Viro-lhe as costas. No fim de contas, ela tem sorte. Eu, há três anos que estou muito calmo. Já não posso receber nada destas solidões trágicas, senão um pouco de pureza inútil. Vou-me embora.
Jean-Paul Sartre, A Náusea
Ultrapassei o campo de ação do candeeiro; entro na boca negra. Tenho a impressão, ao ver a minha sombra, a meus pés, fundir-se nas trevas, de mergulhar numa água gelada. Em frente de mim, muito ao fundo, através das camadas de negrume, distingo uma pálida mancha cor-de-rosa: é a Avenida Galvani. Volto-me; atrás do candeeiro a gás, muito ao longe, há um vago clarão: é a estação, com os quatro cafés. Atrás de mim, na minha frente, há pessoas a beber e a jogar cartas nas cervejarias. Aqui há apenas negrume. O vento traz-me com intermitências um repique solitário que vem de longe. Os ruídos domésticos, o ronco dos automóveis, os gritos, os latidos, pouco se afastam das ruas iluminadas, ficam ao calor. Mas este repique rompe as trevas e chega até aqui: é mais duro, menos humano que os outros ruídos. Paro para o ouvir. Tenho frio, doem-me as orelhas, devem estar todas encarnadas. Mas deixo de me sentir a mim próprio; ganha-me a pureza do que me cerca; nada aqui vive; o vento sopra, fogem na noite linhas inflexível. O Boulevard Noir não tem a cara indecente das ruas burguesas que se fazem galantes para os transeuntes. Ninguém pensou em enfeitá-lo: é apenas um reverso. O reverso Rua Jeanne-Berthe Cceuroy da Avenida Galvani. Nas proximidades da estação, ainda os Bouvillois cuidam dele um poucochinho; lavam-no uma vez por outra, por causa dos viajantes. Mas, logo adiante, abandonam-no, e ele escapa-se muito direito, cegamente, para ir esbarrar na Avenida Gavani. A cidade esqueceu-se dele. Às vezes, um grande caminhão cor de terra atravessa-o a toda a velocidade, com um ruído de trovoada. Nem assassínios se cometem aqui, pó faria de assassinos e de vítimas. O Boulevard Noir é desumano. Como um mineral. Como um triângulo. É uma sorte haver um boulevard assim em Bouviile. Geralmente só encontramos destas artérias nas capitais, em Berlim, para os lados de NeuUIn ou então de Friedrischshain - em Londres, atrás de Greenwich. Corredores direitos e sujos, em plena corrente de ar, com largos passeios sem árvores Ficam quase todos fora do perímetro, nesses estranhos bairros em que se fabricam as cidades, perto das estações de mercadorias, das estações de elétricos, dos matadouros, dos gasômetros. Dois dias depois de ter chovido, quando toda a cidade, úmida, está ao sol, e irradia um calor rejante, estão ainda muito frios, conservam a sua lama e as suas poças. Têm mesmo poças de água que nunca secam exceto um mês por ano, em Agosto. A Náusea ficou lá atrás, na luz amarela. Sou feliz este frio é tão puro, pura esta noite; não serei eu próprio uma onda de ar gelado? Não ter sangue, nem linfa, nem carne. Correr como um líquido por este longo canal, direito àquele clarão lá ao fundo. Não ser senão frio. Vem gente. Duas sombras. Que precisão tinham de vir para aqui? É uma mulher baixa a puxar um homem pela manga, fala com uma voz rápida e pequenina. Não percebo o que diz, por causa do vento. «Calas a boca, ou não?», diz o homem. Ela continua a falar. Bruscamente, o homem repele-a. Olham-se os dois, hesitantes, depois ele mete as mãos nas algibeiras e vai-se embora sem voltar a cabeça. O homem desapareceu. Três metros apenas me separam agora da mulher. De súbito, rasgam-na, arrancam-se dela uns sons roucos e graves que enchem toda a rua com uma violência extraordinária: «Charles, por favor, lembras-te do que eu te disse? Charles, anda cá, estou farta, não faças a minha desgraça!» Passo tão perto dela que poderia tocar-lhe. É... Mas como acreditar que esta carne em fogo, este rosto impregnado de sofrimento... Todavia, reconheço o lenço, o casaco e o grande sinal cor de pé de vinho que tem na mão direita; é ela, é Lucie, a mulher há dias. Não ouso oferecer-lhe auxílio, mas é preciso que ela possa reclamá-lo, se precisar: passo lentamente pela frente dela, fitando-a. Os seus olhos fixam-se em mim, mas ela não parece ver-me; tem o ar de quem se perdeu no seu sofrimento. Dou alguns passos. Volto-me... É ela, sim, é Lucie. Mas transfigurada, fora de si, sofrendo com uma louca generosidade, invejo-a. Está ali, muito direita, de braços abertos, como à espera dos estigmas; abre a boca, sufoca. Tenho a impressão de que as paredes cresceram, de ambos os lados da rua, que se aproximam, que ela está no fundo dum poço. Espero alguns instantes: tenho medo de que ela caia inanimada: é muito frágil para suportar esta dor insólita. Mas ela não se mexe, parece mineralizada como tudo o que a rodeia. Por um instante pergunto a mim próprio se não me tinha enganado com ela, se não é a sua verdadeira natureza que de súbito, me é revelada... Lucie emite um pequeno gemido. Leva a mão à garganta, arregalando os olhos espantados. Não, não é a si própria que vai buscar força para sofrer tanto. A força vem-lhe do exterior... é este boulevard. Era preciso agarrá-la pelos ombros, levá-la para as luzes, para o meio das pessoas, para as ruas doces e cor-de-rosa: aí não se pode sofrer tanto; ela amoleceria, recobraria o seu ar positivo e voltaria ao nível habitual dos seus sofrimentos.
Viro-lhe as costas. No fim de contas, ela tem sorte. Eu, há três anos que estou muito calmo. Já não posso receber nada destas solidões trágicas, senão um pouco de pureza inútil. Vou-me embora.
Jean-Paul Sartre, A Náusea
sexta-feira, 22 de abril de 2011
“(…) a leitura é um pacto de generosidade entre o autor e o leitor; cada um confia no outro, conta com o outro, exige do outro tanto quanto exige de si mesmo. Essa confiança já é, em si mesma, generosidade: ninguém pode obrigar o autor a crer que o leitor fará uso de sua liberdade; ninguém pode obrigar o leitor a crer que o autor fez uso da sua. É uma decisão livre que cada um deles toma independentemente.”
Jean-Paul Sartre, “Que é a literatura?”
domingo, 20 de março de 2011
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
DIÁRIO
SEGUNDA-FEIRA, 29 DE JANEIRO DE 1932.
ACONTECEU-ME qualquer coisa; já não posso duvidar. Qualquer coisa que veio à maneira duma doença, não como uma vulgar certeza, não como uma evidência; que se instalou sorrateiramente, pouco a pouco. A dada altura senti-me um tanto esquisito, algo incomodado, mais nada. Tomado o seu lugar, essa coisa não mexeu mais, ficou como estava, e pude assim convencer-me de que não tinha nada, que tinha sido um rebate falso. Mas eis que o mal começa a propagar-se. Não acho que a profissão de historiador disponha para a análise psicológica. É um trabalho em que só se entra em jogo com sentimentos inteiros, aos quais se dão nomes genéricos, como Ambição, Interesse. Se eu tivesse, porém, uma sombra de conhecimento de mim próprio, era agora que devia utilizá-la. Nas minhas mãos, por exemplo, há qualquer coisa de novo, certa maneira de agarrar no cachimbo ou no garfo. Ou então é o garfo que tem agora uma maneira diferente de se deixar agarrar; não sei. Há bocadinho, quando ia entrar no meu quarto, detive-me repentinamente, porque senti na mão um objeto frio que me chamava a atenção, como se possuísse uma espécie de personalidade. Abri a mão, olhei: era simplesmente o fecho da porta. Hoje de manhã, na Biblioteca, quando o Autodidata, veio cumprimentar-me. *1 Ogier P..., de quem muitas vezes se falará neste diário. Era um ajudante de tabelião. Roquentin travara conhecimento com ele, em 1930, na Biblioteca de Bouville. Precisei duns dez segundos para o reconhecer. Via diante de mim uma cara desconhecida, apenas uma cara. E depois havia a mão dele, como um grande bicho branco na minha mão. Larguei-a logo, e o braço caiu molemente. Nas ruas há também uma quantidade de ruídos equívocos que perpassa. Produziu-se pois uma mudança durante estas últimas semanas. Mas onde? uma mudança que não se fixa em sítio nenhum. Fui eu que mudei? Se não fui, então foi este quarto, esta cidade, esta natureza; é preciso escolher. Acho que fui eu que mudei: é a solução mais simples. E mais desagradável também. Mas, enfim, tenho de reconhecer que sou sujeito a estas transformações súbitas. Sucede que só muito raras vezes penso; assim uma infinidade de pequenas metamorfoses vai-se acumulando em mim sem eu dar por isso. e depois, um belo dia, produz-se uma verdadeira revolução. Foi o que deu à minha vida estes solavancos, este aspecto incoerente. Quando saí de França, por exemplo, muita gente começou a dizer que a minha partida fora uma leviandade. E, quando voltei, bruscamente, após seis anos de viagem, de novo se podia ter falado de leviandade. Ainda me estou a ver, com Mercier, no gabinete daquele funcionário francês que se demitiu o ano passado, em consequência do caso Pétrou. Mercier dirigia-se a Bengala com uma missão arqueológica. Eu desejara sempre ir a Bengala, e ele instara comigo para que fosse ter com ele. Agora pergunto a mim próprio por quê. Creio que Mercier não tinha muita confiança em Portal e que contava comigo para o trazer debaixo de olho. Eu não via motivo para recusar. E mesmo se tivesse pressentido, na altura, esse pequeno conluio contra Portal, mais uma razão teria visto nisso para aceitar com entusiasmo. Pois bem, senti-me como paralisado, não podia dizer uma palavra. Estava a olhar para uma pequena estatueta khmeriana, assente numa toalha verde ao lado dum telefone. Parecia-me que estava cheio de linfa ou de leite morno. Mercier dizia-me com uma paciência angélica que velava uma ponta de irritação: «Não é? Tenho necessidade de obter uma resposta definitiva. Sei bem que você acabará por dizer que sim: valia mais aceitar já.» Mercier deixa crescer a barba, que é dum negro arruivado, e perfuma-a muito. A cada movimento da sua cabeça eu respirava uma baforada de perfume. E depois, bruscamente, acordei dum sono de seis anos. A estátua pareceu-me desagradável e estúpida, e senti que me aborrecia profundamente. Não conseguia compreender porque é que estava na Indochina. Que estava eu ali a fazer? Porque estava a falar com aquelas pessoas? Porque estava vestido duma maneira tão exótica? Tinha morrido a paixão que me submergia e arrastara durante anos; naquela altura sentia-me vazio. Mas não era isso o pior: defronte de mim, instalada com uma espécie de indolência, havia uma ideia volumosa e insípida. Não sei exatamente o que era, mas não podia olhá-la, a tal ponto ela me repugnava. Tudo isso se confundia para mim com o perfume da barba de Mercier. Reagi, num acesso de cólera contra ele; respondi secamente: «Agradeço-lhe, mas penso que já viajei bastante: agora tenho de voltar a França.» Dois dias depois tomava o barco para Marselha. Se não me engano, se todos os sinais que se vão acumulando são precursores duma nova transformação brutal da minha vida, então tenho medo. Não que a minha vida seja rica, importante, nem preciosa. Mas tenho medo do que vai nascer, apoderar-se de mim - e arrastar-me... arrastar-me para onde? Vou ter outra vez de partir, deixar tudo em meio, as minhas pesquisas, o meu livro? Voltarei a acordar daqui a alguns meses, daqui a alguns anos, derreado, desiludido, no meio de novas ruínas? Queria ver claramente o que se passa em mim, antes que seja tarde de mais.
Jean-Paul Sartre, A Náusea
terça-feira, 3 de agosto de 2010
Sartre Essencial
A escola filosófica de Jean Paul Sartre (1905-1980), o existencialismo, foi algo tão amplo quanto o movimento intelectual da Escola de Frankfurt. Em determinado período do século XX, os mais diferentes e divergentes filósofos se diziam existencialistas. A idéia básica do existencialismo de Sartre pode ser expressa pela frase “o homem está condenado à liberdade”. Nada poderíamos fazer, ao ter de tomar qualquer decisão, a não ser criarmos ou inventarmos a nossa própria saída para o possível impasse no qual estaríamos metidos, exercendo assim nossa liberdade e, enfim, nos responsabilizando pelas conseqüências de nosso ato. Ninguém poderia vir em nosso auxílio para nos eximir, depois, da responsabilidade da decisão que tomamos. Nada ofuscaria nossa liberdade, pois esta seria a única coisa efetivamente obrigatória em nossa vida. Todos os nossos atos – lingüísticos ou não – seriam de nossa responsabilidade, e de mais ninguém.
Uma compreensão errada do existencialismo que, não raro, esteve presente na históriaSartre da filosofia do século XX, foi a de evocar atenuantes de toda ordem para poder dizer que o homem não age livremente como Sartre dizia que ele age. Mas a liberdade a que o homem condenado, na acepção sartreana, não poderia ser atenuada por nada, uma vez que ela nunca foi pensada a partir do enfrentamento de barreiras psicológicas, históricas, ideológicas e coisas do tipo. Todas essas barreiras não podem ser evocadas; e isso por uma razão simples: nenhum homem conseguiria não exercer algo que é a essência da liberdade: a decisão. Um exemplo ajuda.
Você pode tomar uma decisão que é ruim ou boa para você, mas o que você não consegue fazer é não decidir (não decidir é, afinal, decidir não decidir – lembre-se). E uma vez optando, essa sua opção carrega todo o mundo junto com você, pois cria uma trilha, um rastro, um tipo de jurisprudência. Dali para frente, todo e qualquer homem pode fazer referência ao tipo de opção que você tomou para melhor ponderar a sua própria opção e para dizer assim: o ser humano toma tal caminho, pois eu sei quem tomou tal caminho.
Não haveria nenhum tipo de essência humana, segundo a qual um homem age de um modo ou de outro, ou mesmo não age – o que também é uma forma de ação. A única condição humana seria a de estar no mundo, de existir. A uma decisão X, então, se estabeleceria uma projeção daquele homem sobre o mundo. Sua existência seria projetada no mundo e daria uma via a mais para toda a humanidade caminhar – a via de X. Todos os homens, então, teriam sido redefinidos. O senso comum não existencialista pode dizer: o homem é aquele que por natureza toma (entre outras) a decisão X. E o existencialista diz diferente: o homem é aquele que decide e, se um decidiu por X, mais um caminho (além de tantos outros) está aberto para o homem.
Mais um exemplo, para que fique claro. Você está em um ônibus e o ponto que gostaria de descer está próximo. Você vê, então, um malfeitor entrar no ônibus e percebe que o ambiente ali não vai ficar bom. Sua pressa para descer aumenta e, enfim, realmente você havia planejado descer no próximo ponto. Todavia, quando o ônibus se aproxima do ponto, você nota que lá fora há uma confusão entre policiais e ladrões e um grande tiroteio. Descer ali seria altamente perigoso. Ficar resultaria, certamente, em ser assaltado, pois tudo indica, pela sua experiência, que o malfeitor não está ali no ônibus à toa. Pois bem, como decidir? Ficar? Descer e correr? Descer e ir para a esquerda, onde parece que estar mais calmo? Ou descer e ir para a direita, onde apesar de estar mais atribulado, é o lado da polícia? Ou simplesmente não descer? Nesta hora, o que ocorre é que você vai decidir – ninguém vai decidir por você. Não são as circunstâncias que estão decidindo por você. Você não pode acusar as circunstâncias por serem elas as responsáveis por sua decisão, pois quando não haveria circunstâncias? Acusar as circunstâncias, tomadas genericamente como “as circunstâncias”, implicaria em imaginar um mundo sem circunstâncias – mas no mundo de quem existe, todo o tempo é preenchido por circunstâncias. É você que está assumindo a sua existência, que é a sua vida no interior de todas as circunstâncias de quem está no mundo, e que vai decidir, pois isto é estar no mundo.
Feita a escolha, sua vontade, sua tomada de posição se faz presente no mundo, é projetada no mundo e abre uma via pela qual o mundo passa a ter um acontecimento a mais. Para o mundo, um fato; para você, uma situação que lhe trará conseqüências. Para a humanidade, uma via a mais. Não importam mais quais são as conseqüências – você deverá arcar com elaz. Você fez uma escolha e, fazendo a escolha, exerceu sua liberdade. Exerceu a liberdade como quem não tem outra saída senão optar e exercer a liberdade. Não há como culpar as circunstâncias e dizer “não escolhi, fiz o menos pior”. Pior ou melhor, a decisão foi sua. Não haveria sentido você imaginar poder decidir, sempre, sem as circunstâncias piores ou melhores. Pois se assim fosse, não haveria mundo, nem existência alguma. Se você pudesse optar e no ato de optar mudar as circunstâncias você não estaria optando e muito menos estaria em uma situação vital e natural, você estaria num mundo mágico. Se a cada opção você pudesse mudar as regras do jogo, ou seja, alterar o mundo de modo a dizer que, então, entre o bom e o ótimo você teria certeza que poderia optar, a vida não estaria ocorrendo. Se assim fosse, não valeria falar em liberdade ou em opção ou decisão – não estaria ocorrendo nada, não haveria o plano da existência.
A doutrina humanista que Sartre abraçou, portanto, era bastante diferente do Humanismo que acobertou os modernos. Para Descartes ou Rousseau o homem tinha, sim, uma essência. A razão lhe era inerente. Para Sartre, as determinações do homem não seriam dadas por nenhuma essência, nenhuma instância metafísica, mas somente pela existência. E a existência seria, enfim, viver e estar sob aquela condenação – a de ser livre.
Outra confusão que alguns fazem, ao começar a ler Sartre, é acreditar que ele, ao dizer que ao tomar uma decisão você carrega o mundo junto com você, está advogando algo parecido com um princípio do tipo kantiano. Um princípio assim seria aquele mais ou menos expresso nesta forma: eleger como lei universal aquilo que você toma como um regra para sua ação particular. Mas Sartre está longe desse universalismo kantiano. No pensamento sartriano, a idéia de que você leva toda a humanidade junto como você, na sua decisão, não tem referência a uma posição que tem o direito de se universalizar. O que ocorre quando você opta, para Sartre, é que um caminho seguido está dizendo a todos os homens: vocês ainda não experimentaram este caminho? Não? Bom, eu experimentei, ele é um caminho possível. E daí em diante, você abriu uma picada na floresta, uma senda no mundo das realizações dos homens. Uma opção com jurisprudência, com história, para outros. Ainda que nenhum homem venha a tomar uma decisão, em circunstâncias parecidas, como a que você tomou, a humanidade nunca mais poderá dizer que ela não tem aquela opção. Você, como membro da humanidade, deixou a história daquela opção gravada. O seu projeto ou, melhor dizendo, a sua projeção no mundo nunca mais poderá ser apagada. Nenhum grama vai nascer na trilha aberta por você, ainda que passe mil anos e que essa trilha não seja nunca mais percorrida. Você exerceu sua liberdade. Fez a liberdade valer. Fez a liberdade.
Sartre nunca pensou em uma noção de liberdade que não fosse exatamente esta: a liberdade só se faz presente no momento da decisão. Não há o “espírito da liberdade”. A liberdade é o ato de decidir, de negar uma possibilidade e afirmar outra. Este ato é o ato que consubstancia a liberdade; seja para qual lado a decisão penda, o ato que faz a própria liberdade ocorrer é o de decidir. Terminado o ato, a liberdade desaparece novamente, para ressurgir no ato seguinte de decisão.
Paulo Ghiraldelli Jr.
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