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domingo, 10 de março de 2024


 Talvez a minha solidão seja excessiva, mas eu detestei sempre as coisas mundanas.

Estar com as pessoas apenas para gastar as horas é-me insuportável.


Eugénio de Andrade


É apenas o começo. Só depois dói,

e se lhe dá nome.

Às vezes chamam-lhe paixão. Que pode

acontecer da maneira mais simples:

umas gotas de chuva no cabelo.

Aproximas a mão, os dedos

desatam a arder inesperadamente,

recuas de medo. Aqueles cabelos,

as suas gotas de água são o começo,

apenas o começo.

Antes do fim terás de pegar no fogo

e fazeres do inverno

a mais ardente das estações.


Eugénio de Andrade


Amor desta tarde que arrefeceu

as mãos e os olhos que te dei;

amor exato, vivo, desenhado

a fogo, onde eu próprio me queimei;


amor que me destrói e destruiu

a fria arquitetura desta tarde

- só a ti canto, que nem eu já sei

outra forma de ser e de encontrar-me.


Só a ti canto que não há razão

para que o frio que me queima os olhos

me trespasse e me suba ao coração;


só a ti canto, que não há desastre

donde não possa ainda erguer-me

para encontrar de novo a tua face.


Eugénio de Andrade

sexta-feira, 15 de setembro de 2023


 Diz homem, diz criança, diz estrela.

Repete as sílabas

onde a luz é feliz e se demora.

Volta a dizer: homem, mulher, criança.

Onde a beleza é mais nova.


Eugénio de Andrade

quarta-feira, 18 de maio de 2022

Até amanhã

 


Respira. Um corpo horizontal,

tangível, respira.

Um corpo nu, divino,

respira, ondula, infatigável.


Amorosamente toco o que resta dos deuses.

As mãos seguem a inclinação

do peito e tremem,

pesadas de desejo.


Um rio interior aguarda.

Aguarda um relâmpago,

um raio de sol,

outro corpo.


Se encosto o ouvido à sua nudez,

uma música sobe,

ergue-se do sangue,

prolonga outra música.


Um novo corpo nasce,

nasce dessa música que não cessa,

desse bosque rumoroso de luz,

debaixo do meu corpo desvelado.


ANDRADE, Eugénio de. "Até amanhã". 

In:_____. Poesia. Porto: Modo de Ler, 2011.

sábado, 23 de abril de 2022

 

Jon PAUL  


Como se houvesse uma tempestade

escurecendo os teus cabelos, ou se preferes,

a minha boca nos teus olhos carregada de flor e dos teus dedos;

como se houvesse uma criança cega aos tropeções dentro de ti, eu falei em neve, e tu calavas a voz onde contigo

me perdi.

Como se a noite viesse e te levasse, eu era só fome o que sentia; digo-te adeus, como se não voltasse ao país

onde o teu corpo principia.

Como se houvesse nuvens sobre nuvens, e sobre as nuvens mar perfeito, ou se

preferes, a tua boca clara singrando largamente no meu peito.


Eugénio de Andrade

sábado, 14 de agosto de 2021

Os livros

A reclining woman reading - Albert Ritzberger

 

Os livros. A sua cálida,

terna, serena pele. Amorosa

companhia. Dispostos sempre

a partilhar o sol

das suas águas. Tão dóceis,

tão calados, tão leais,

tão luminosos na sua

branca e vegetal e cerrada

melancolia. Amados

como nenhuns outros companheiros

da alma. Tão musicais

no fluvial e transbordante

ardor de cada dia.


Eugénio de Andrade

terça-feira, 28 de junho de 2016

O lugar mais perto

Ariel Thilly


O corpo nunca é triste; 
o corpo é o lugar 
mais perto onde o lume canta. 
É na alma que a morte faz a casa. 


Eugénio de Andrade
In Ofício de Paciência, 1994 

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Sílaba a sílaba



Eis sílaba a sílaba de uma cor perversa
o tempo quase nu para levar à boca.

Como se fora minha a respiração do trevo
alcanço a linha de água.

Habito onde o ar dói
as próprias mãos acesas.


Eugénio de Andrade
In Véspera da Água, 1973

terça-feira, 1 de abril de 2014

Vastos Campos

Olga Gouskova 


Vou fazer-te uma confidência, talvez tenha já começado a envelhecer e o desejo, esse cão, ladra-me agora menos à porta. Nunca precisei de frequentar curandeiros da alma para saber como são vastos os campos do delírio. Agora vou sentar-me no jardim, estou cansado, setembro foi mês de venenosas claridades, mas esta noite, para minha alegria, a terra vai arder comigo. Até ao fim.

Eugénio de Andrade, in 'Poesia e Prosa

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Onde me levas, rio que cantei

TC. Chiu 

Onde me levas, rio que cantei,
esperança destes olhos que molhei
de pura solidão e desencanto?
Onde me levas ? que me custa tanto.

Não quero que conduzas ao silêncio
duma noite maior e mais completa.
com anjos tristes a medir os gestos
da hora mais contrária e mais secreta.

Deixa-me na terra de sabor amargo
como o coração dos frutos bravos.
pátria minha de fundos desenganos,
mas com sonhos, com prantos, com espasmos.

Canção, vai para além de quanto escrevo
e rasga esta sombra que me cerca.
Há outra fase na vida transbordante:
que seja nessa face que me perca.


Eugénio de Andrade, 
 in As Mãos e os Frutos

sábado, 19 de outubro de 2013

Pequena elegia de Setembro

Daniel F. Gerhartz


Estás sentada no jardim,
as mãos no regaço cheias de doçura,
os olhos pousados nas últimas rosas
dos grandes e calmos dias de setembro.

Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?

Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.

Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?

Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.


Eugénio de Andrade

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Litania

Daniel Ilinca


O teu rosto inclinado pelo vento;
a feroz brancura dos teus dentes;
as mãos, de certo modo, irresponsáveis,
e contudo sombrias, e contudo transparentes;

o triunfo cruel das tuas pernas,
colunas em repouso se anoitece;
o peito raso, claro, feito de água;
a boca sossegada onde apetece

navegar ou cantar, ou simplesmente ser
a cor dum fruto, o peso duma flor;
as palavras mordendo a solidão,
atravessadas de alegria e de terror,

são a grande razão, a única razão.


Eugénio de Andrade

terça-feira, 14 de maio de 2013

Sergey Karpenko


Entre a folha branca e o gume do olhar
a boca envelhece.

Sobre a palavra
a noite aproxima-se da chama.

Assim se morre dizias tu.
Assim se morre dizia o vento acariciando-te a
cintura.

Na porosa fronteira do silêncio
a mão ilumina a terra inacabada.

Interminavelmente.


Eugénio de Andrade 
Sobre a palavra , in Véspera da Água

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Talvez

 Irina Egorova 


Talvez nem tenha nome.
Anunciado só pelo frêmito
da folhagem.
O riso invisível, o grito
de um pássaro, o escuro
da voz. Certa doçura,
certa violência.
O espesso, volúvel
tecido da noite agora a roçar
o corpo da água. E por fim
a muito lenta paixão
do fogo, sufocada.
Era o verão.


Eugénio de Andrade

quinta-feira, 19 de julho de 2012

 Craig Srebnik


Respiro o teu corpo:
sabe a lua-de-água
ao amanhecer,
sabe a cal molhada,
sabe a luz mordida,
sabe a brisa nua,
ao sangue dos rios,
sabe a rosa louca,
ao cair da noite
sabe a pedra amarga,
sabe a minha boca.


Eugénio de Andrade

terça-feira, 10 de julho de 2012




Somos folhas breves onde dormem
aves de silêncio e solidão.
Somos só folhas ou o seu rumor.
Inseguros, incapazes de ser flor,
até a brisa nos perturba e faz tremer.
Por isso a cada gesto que fazemos
cada ave se transforma noutro ser.


Eugénio de Andrade

quinta-feira, 19 de abril de 2012

carsten-witte


Álamos.
Música
de matutina cal.

Doces vogais
de sombra e água
num verão de fulvos
lentos animais.

Calhandra matinal
no ar
feliz de junho.

Acidulada
música de cardos.

Música do fogo
em redor dos lábios.

Desatada,
à roda da cintura.

Entre as pernas
junta.

Música
das primeiras chuvas
sobre o feno.

Só aroma.
Abelha de água.

Regaço
onde o lume breve
duma romã brilha.

Música, levai-me:

Onde estão as barcas?
Onde são as ilhas?


Eugénio de Andrade

segunda-feira, 19 de março de 2012



Mostrai-me as anémonas, as medusas e os corais
Do fundo do mar.
Eu nasci há um instante…


Eugénio de Andrade

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012




Se deste outono uma folha,
apenas uma, se desprendesse
da sua cabeleira ruiva,
sonolenta,
e sobre ela a mão
com o azul do ar escrevesse
um nome,
somente um nome,
seria o mais aéreo
de quantos tem a terra,
a terra quente
e tão avara
de alegria.


Eugénio de Andrade