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domingo, 11 de janeiro de 2015

O poeta é a mãe das armas


O Poeta é a mãe das armas
& das Artes em geral —
alô, poetas: poesia
no país do carnaval;
Alô, malucos: poesia
não tem nada a ver com os versos
dessa estação muito fria.

O Poeta é a mãe das Artes
& das armas em geral:
quem não inventa as maneiras
do corte no carnaval
(alô, malucos), é traidor
da poesia: não vale nada, lodal.

A poesia é o pai da artimanha de sempre:
quentura no forno quente
do lado de cá, no lar
das coisas malditíssimas;
alô poetas: poesia!
poesia poesia poesia poesia!
O poeta não se cuida ao ponto
de não se cuidar: quem for cortar meu cabelo
já sabe: não está cortando nada
além da MINHA bandeira ////////// =
sem aura nem baúra, sem nada mais pra contar.
Isso: ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. a
r: em primeiríssimo, o lugar.

poetemos pois

Torquato Neto, /8/11/71 & sempre, em "Os Últimos Dias de Paupéria", (Organização Wally Salomão e Ana Maria Silva de Araújo Duarte). São Paulo: Max Limonad, 1982.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Literato cantabile

Catrin Welz Stein



Agora não se fala mais
toda palavra guarda uma cilada
e qualquer gesto é o fim
do seu início;
agora não se fala nada
e tudo é transparente em cada forma
qualquer palavra é um gesto
e em sua orla
os pássaros de sempre cantam assim,
do precipício:

a guerra acabou
quem perdeu agradeça
a quem ganhou.
não se fala. não é permitido
mudar de ideia. é proibido.
não se permite nunca mais olhares
tensões de cismas crises e outros tempos
está vetado qualquer movimento
do corpo ou onde que alhures.
toda palavra envolve o precipício
e os literatos foram todos para o hospício.
e não se sabe nunca mais do fim. agora o nunca.
agora não se fala nada, sim. fim, a guerra
acabou
e quem perdeu agradeça a quem ganhou.


Torquato Neto, Torquatália

sábado, 11 de janeiro de 2014

Na praça procurou-se pelos pombos



Na praça procurou-se pelos pombos
(como num último pedir de moribundo
- e os pombos dormiam.
Dormiam muito sós nos seus silêncios
e nos seus medos
de quem
de cima
(calado)
observa tudo
e sentia aquela angústia
propriedade particular dos deuses.
E faziam amor
sem coisa alguma mais do que amor.
Sem cicatrizes impressas em nenhum lombo.
Sem momentos despejados na areia.
Sem músicos.
Sem cruzeiros...


Torquato Neto In: O Fato e A Coisa. p.81
Rio, março, 1963.

sábado, 19 de outubro de 2013

Soneto da contradição enorme

Anna Dittman


Faço força em esconder o sentimento
Do mundo triste e feio que eu vejo.
Tento esconder de todos o desejo
Que eu não sinto em viver todo o momento

Que passa. Mas que nunca passa inteiro.
Deixa comigo o rosto da lembrança
E o fantasma de só desesperança
Que me empurra e de mim me faz obreiro

De sonhos. Faço força em esconder
Do mundo, a dor, a mágoa e a cabeça
Que pensa tão-somente em não viver.

Faço força mas sei que não consigo
E em versos integral eu me derramo
Para depois sofrer. E então, prossigo.


Torquato Neto

terça-feira, 16 de julho de 2013

Tome nota

Cler Raichuk


por todas as ruas
onde ando sozinho
eu ando sozinho
com você
e você
se é que se lembra
( se lembra)
olha assim pra mim
como capa de revista
pelo rabo-do-olho
de artista,
e sorri.
Eu acho tudo muito legal
Mas a verdade
É que o nome normal disso aí
É :
s-a-u-d-a-d-e;
pois bem:
sei que vou sozinho
sei que vou também sozinho
mas acontece
que parece
que você
é como se é que fosse
o próprio caminho


Torquato Neto

domingo, 24 de abril de 2011

"Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.”

Carlos Drummond de Andrade

***

"Quando nasci veio um anjo safado
O chato dum querubim
E decretou que eu tava predestinado
A ser errado assim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim."

Chico Buarque de Holanda

***

"Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir."

Adélia Prado

***

"Quando eu nasci
um anjo louco muito louco
veio ler a minha mão
não era um anjo barroco
era um anjo muito louco, torto
com asas de avião."

Torquato Neto

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

A Virtude


A virtude é a mãe do vício
conforme se sabe;
acabe logo comigo
ou se acabe.

A virtude e o próprio vício
- conforme se sabe -
estão no fim, no início
da chave.

Chuvas da virtude, o vício,
conforme se sabe;
é nela própriamente que eu me ligo,
nem disco nem filme:
nada, amizade. Chuvas de virtude:
chaves.

(amar-te/ a morte/ morrer:
há urubús no telhado e carne seca
é servida: um escorpião encravado
na sua própria ferida, não escapa: só escapo
pela porta de saída).

A virtude, a mãe do vício
como eu tenho vinte dedos,
ainda, e ainda é cedo:
você olha nos meus olhos
mas não vê nada, se lembra?

A virtude
mais o vício: início da
MINHA
transa, início, fácil, termino:
"como dois mais dois são cinco"
como Deus é precipício,
durma,
e nem com Deus no hospício
(durma) nem o hospício
é refúgio. Fuja.



Torquato Neto
em "Os Últimos Dias de Paupéria"

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Cogito


eu sou como eu sou
pronome pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível

eu sou como eu sou
agora sem grandes segredos
dantes sem novos secretos
dentes nesta hora

eu sou como eu sou
presente desferrolhado
indecente feito um pedaço
de mim

eu sou como eu sou
vidente e vivo
tranqüilamente
todas as horas do fim.


Torquato Neto


“Escute, meu chapa: um poeta não se faz com versos. É o risco, é estar sempre a perigo sem medo, é inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades pelo menos maiores, é destruir a linguagem e explodir com ela (…). Quem não se arrisca, não pode berrar.”
“Tenho saudade, como os cariocas, do dia em que sentia e achava que era dia de cego. De modo que fico sossegado por aqui mesmo, enquanto durar. Pra mim, chega! Não sacudam demais o Thiago, que ele pode acordar”. Thiago tinha dois anos quando Torquato se matou.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Notícia



o momento é horrivelmente eufórico.
vazio entretanto.
hemorragias incuráveis
de lacrimogêneas futilidades
desfilam com os impassíveis elefantes.
árvores espiam. nuvens gotejam.
formigas dormem parindo formigas.
mulheres se coçam.
tudo é tão vazio que dá pena...
angústias sobem até à boca
e a gente as engole
uma
uma.
meninas milionárias.
toumanovas embrionárias
mas faveladas.
vermelho
negro.
noir et rouge.
a lua se acende para que voem os aviões.
Sinatra persiste em cantar bem.
o globo informa:
- tudo muito oco. 


Torquato Neto
Rio, 11.5.62