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quarta-feira, 12 de outubro de 2022

«O silêncio do mundo»



O mundo sempre esconde os seus segredos

na folha amarelada pelo outono,

nas madeiras que sobram dos naufrágios,

nas grutas, nos viadutos, nos espelhos

que nos contemplam nas barbearias

e nos duplicam, a nós que somos múltiplos.

E eu digo ao mundo: fala, ó grande mudo

diante de nós postado na manhã

e defrontando com o seu silêncio

o nosso grande pasmo de viver.

Apesar dos rumores escorridos

no dia claro que atrai os navios,

na noite negra das fornicações,

do besouro que zumbe além do bosque,

e do fragor das guerras e do trânsito,

o mundo é só silêncio e só segredo

neste longo degredo que começa

com o pranto no berço e só termina

no mistério do nada, no silêncio do pó.


Lêdo Ivo

quarta-feira, 24 de agosto de 2022

 

Pasquale Picazio


Oceano secreto

Quando te amo 

obedeço às estrelas. 

Um número preside 

nosso encontro na treva. 

Vamos e voltamos 

como os dias e as noites 

as estações e as marés 

a água e a terra. 

Amor, respiração 

do nosso oceano secreto. 


Lêdo Ivo, em "Crepúsculo Civil", 1990.

sexta-feira, 6 de maio de 2022



Fique o amor onde está; seu movimento

nas equações marítimas se inspire

para que, feito o mar, não se retire

das verdes áreas de seu vão lamento.


Seja o amor como a vaga ao vago intento

de ser colhida em mãos; nela se mire

e, fiel ao seu fulcro, não admire

as enganosas rotações do vento.


Como o centro de tudo, não se afaste

da razão de si mesmo, e se contente

em luzir para o lume que o ensolara.


Seja o amor como o tempo — não se gaste

e, se gasto, renasça, noite clara

que acolhe a treva, e é clara novamente.


          Lêdo Ivo, De Cântico 

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

DURAÇÃO

Dotty Carringi


Toda vida é breve

por mais que ela dure

entre a areia e o vento.


Todo amor é leve

mais leve que a neve

que cai sobre a relva.


Toda vida é treva

por mais que a ilumine

a luz de cem velas.


Todo fruto é amargo:

morde-o a morte com

seu único dente.


Toda eternidade

não dura um minuto

na manhã serena.


          Ledo Ivo 

De Curral de Peixe (1991-1995)

sábado, 16 de agosto de 2014

Girassol



Em minha mão fechada cabe o dia,
o fogo aleatório dos instantes
e o silêncio que espalham os amantes
quando termina a festa e nada resta

da luz petrificada entre as montanhas.
Em minha mão aberta cabe a sombra
largada pela vida que me espera
além do inverno, quando a primavera

devolve ao caule a rosa fenecida
e o que foi volta a ser, e toda perda
retorna como um lucro imerecido.

A minha mão sustenta um girassol.
Sou sobra e o excesso, como o vento
ou como a luz incômoda do sol.


Lêdo Ivo, in "Curral de Peixe",

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

A mudança

Christiane Vleugels

 
Mudo todas as horas.
E o tempo, sem demora,
muda mais do que fia.

Mudo mas permaneço
bem longe das mudanças.
Como uma flor, floresço.
Sou pétala e esperança.

Mudo e sou sempre o mesmo,
igual a um tiro a esmo.
Como um rio que corre.

Sem sair de onde estou,
de tanto mudar sou
o que vive e o que morre.


Lêdo Ivo, in "Plenilúnio"

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Girassol

Nydia Lozano 


Em minha mão fechada cabe o dia,
o fogo aleatório dos instantes
e o silêncio que espalham os amantes
quando termina a festa e nada resta

da luz petrificada entre as montanhas.
Em minha mão aberta cabe a sombra
largada pela vida que me espera
além do inverno, quando a primavera

devolve ao caule a rosa fenecida
e o que foi volta a ser, e toda perda
retorna como um lucro imerecido.

A minha mão sustenta um girassol.
Sou sobra e o excesso, como o vento
ou como a luz incômoda do sol.


 Lêdo Ivo, in "Curral de Peixe", 1995

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

O ofício de viver

Ennio_Montariello


Vou sempre além de mim mesmo
em teu dorso, ó verso.
O que não sou nasce em mim
e, máscara mais verdadeira
do que o rosto, toma conta
de meus símbolos terrestres.
Imaginação! teu véu
envolve humildes objetos
que na sombra resplandecem.
Vestíbulo do informulável ,
poesia, és como a carne,
atrás de ti é que existes.
E as palavras são moedas.
Com elas, tudo compramos,
a árvore que nasce no espaço
e o mar que não escutamos,
formas tangíveis de um corpo
e a terra em que pisamos.

Se inventar é o meu destino,
invento e invento-me. Canto.


Lêdo Ivo

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Ledo Ivo, O Aluno Relapso




Eu era o primeiro da aula; ele, o último.

Cumulado pelos elogios dos professores e o orgulho fami­liar, eu invejava, do fundo do coração, o colega turbulento senta-do emblematicamente no último banco.

Ele fumava nos recreios, desafiando o olhar suspeitoso dos vigilantes (e, entre duas tragadas enérgicas, proclamava atrevida­mente a inexistência de Deus), envolvia-se em episódios truculen­tos, vangloriava-se de proezas sexuais nem sempre ortodoxas. Seu rendimento escolar era praticamente nulo, e os professores, irmãos maristas, submetiam-no a continuados exercícios de humi­lhação. Mas eu o invejava; ele significava, para mim, a aventura e a transgressão.

Uma tarde de domingo, o acaso nos fez caminhar juntos pe­las ruas da cidade. Não lembro o que conversamos — do longo passeio, que só terminou ao sol-posto, ficou apenas a recordação de que ele me ofereceu um cigarro, por mim recusado.

O encontro inesperado repercutiu na mesa familiar e chegou aos ouvidos dos irmãos maristas, pela boca de alguns piedosos delatores. Fui advertido de que deveria evitar a companhia indig­na, licenciosamente aparelhada para desviar-me dos estudos e do bom caminho.

Da avalancha de notas más que lhe juncou a trajetória esco­lar, resultou a sua reprovação, no fim do ano. Perdi-o de vista.

Quarenta anos depois, numa viagem a Maceió, voltei a en­contrar o aluno relapso. Ele pertencia à nobre linhagem dos alagoanos que, amando a terra natal como as cobras amam seus ninhos de pedra, não emigram. Era professor de Direito e desem­bargador, rico e respeitado, de tendências políticas cerradamente conservadoras ou mesmo autoritárias. Considerava a religião um freio indispensável para sustar os desatinos humanos, e entendia que só o pulso forte das instituições militares tinha o poder de conjurar a vocação deletéria da sociedade civil e evitar a anarquia nacional.

O desenho final não correspondera ao rascunho da ado­lescência. Nem sequer fumava, como se os cigarros furtivos do tempo de colégio tivessem sido incluídos na sua lista de conde­nações e olvidos.

Vivre avilit — toi esta frase de Henri de Régnier que ressoou na minha memória no instante em que o vi passar, severo e com­passado, rumo ao Tribunal de Justiça. O Rimbaud sem gênio se convertera num intolerante julgador dos outros homens.

A vida rouba os nossos sonhos, mas há algo que a grande ladra não consegue levar. A deserção formidável fizera de mim o herdeiro do aluno relapso. O sentimento de aventura e trans­gressão, de que ele se despojara em sua metamorfose espiritual, passara a ser meu.

Eu desmentira os vaticínios que rodeavam a minha austera reputação de primeiro da aula, tomando-me um poeta, e era ago­ra, na idade madura, o aluno relapso que secretamente desejara ser na adolescência.

O ato de viver não me envileceu.


Ledo Ivo, O Aluno Relapso

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Os Frutos da Imobilidade

paul kelley



Entre a tarde e a arquitetura,
a oclusão e a consonlância,
canto-me dormido no horizonte
na viagem de olhos cerrados
para as catástrofes do sono.
E meu coração que é sombrio
como um sol visto às avessas
tem canção ininterrupta,
fanal de sino acordado
ou os instantes plantados
no dia do dia seguinte.
Canto o tráfico do que sou
diante da luz da aurora,
a mulher do meu amor
e eu sempre seguro e calmo.
Luz no caminho noturno
que cheira a mato pisado.
O romper do dia sustenta-me
com seus címbalos de mármore.
Não entoo o desencontro
no amor da tarde, ou a cadeia
que nasce de tuas palavras.
Canto a canção que me envolve
com os teus textos cruzados
como o trânsito na chuva
em uma rua chanfrada.
Não me inclino às harmonias
descobertas no tédio, elipses
de voos incomunicáveis.
No vasto chão do acaso
eu lúcido apanho a rosa.
Ei melodia! e o mar
ao meu lado comparece
com todos os seus navios
inclusive os naufragados
que retornam com seus mastros
aos preâmbulos das nuvens.
Guardando um sol no meu peito,
falo de amor, compareço
aos espelhos dos instantes
onde a vida se reflete
em termos de diamante.
E aos torvelinhos de outubro
- momentos que são pirâmides -
canto a vida em que pereço
entre dois pavimentos.


Lêdo Ivo

domingo, 12 de agosto de 2012

Soneto das Alturas

Lily Cole


As minhas esquivanças vão no vento
alto do céu, para um lugar sombrio
onde me punge o descontentamento
que no mar não deságua, nem no rio.

Às mudanças me fio, sempre atento
ao que muda e perece, e ardente e frio,
e novamente ardente é no momento
em que luz o desejo, poldro em cio.

Meu corpo nada quer, mas a minh'alma
em fogos de amplidão deseja tudo
o que ultrapassa o humano entendimento.

E embora nada atinja, não se acalma
e, sendo alma, transpõe meu corpo mudo,
e aos céus pede o inefável e não o vento.



Lêdo Ivo
Acontecimento do soneto,1948

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Soneto da Mulher e a Nuvem

Arthur Braginsky



 Nuvem no céu do nunca, nem tão branca
- assim era o amor, à minha espreita,
e era a mulher, de nuvens sempre feita
e de véus e pudor que o amor arranca.
Não pude amá-la, pois não era franca
a sua carne que o amor aceita,
nuvem que um céu de amor sempre atravanca
e entre praias e pântanos se deita.
Bruma de carne, em vão céu de tormento,
parindo fogo aos meus dezesseis anos,
assim foi ela, sem deixar seu nome.
Nunca foi minha, e só em pensamento
eu pude dar-lhe o amor de desenganos
que me deixou no corpo espanto e fome.


Lêdo Ivo, As imaginações, 1944


sexta-feira, 6 de julho de 2012

Soneto do Poeta Brasileiro




Não sou viril somente nas poesias.
Quero dormir contigo, pois teus pés
amassavam pitangas e trazias
no corpo inteiro a marca das marés.
Disseste que comigo casarias
- amor na cama, beijos, cafunés.
Entre-sombras de carne oferecias
tão navegáveis como igarapés.
Minha morena até dizer que não,
o nosso amor demais me recordava
duas lagoas onde me banhei.
Sou macho e brasileiro, coração:
em teu olhar eu nu e forte estava
e foi assim, morena, que te amei.


Lêdo Ivo 

sexta-feira, 29 de junho de 2012

As Iluminações

Arthur Braginsky


Desabo em ti como um bando de pássaros.
E tudo é amor, é magia, é cabala.
Teu corpo é belo como a luz da terra
na divisão perfeita do equinócio.
Soma do céu gasto entre dois hangares,
és a altura de tudo e serpenteias
no fabuloso chão esponsálício.
Muda-se a noite em dia porque existes,
feminina e total entre os meus braços,
como dois mundos gêmeos num só astro.


Lêdo Ivo

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Soneto da Conciliação

Marcus Ohlsson


Que o amor não me iluda, como a bruma
que esconde uma imprevista segurança.
Antes, sustente o chão em que descansa
o que se irá, perdido como a espuma.
Veja que eu me elegi, mas sem nenhuma
razão de assim fazer, e sem lembrança
de aproveitar apenas a esquivança
de que o amor não prescinde em parte alguma.

Que também não se alheie ao que esclarece
o motivo real, de uma oferta,
reunir o acessório e o imprescindível.

Antes, atente a tudo o que se tece
distante do seu dia inconsumível
que dá certeza à noite mais incerta.


Lêdo Ivo

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Balada Insolente



Ao amor, como ao banho
deve-se ir nu
levando-se contudo
cálcio e Poesia.
E deve-se exigir
mais que a morte,
a vida; movimentos
livres e respiração.
Que, neste momento,
a Poesia seja
riso e não lágrimas.
Nunca assaz louvada,
que ela esteja sempre
a serviço da vida
sem trair os homens.
Poesia e cálcio.
Ao amor, que tem tudo,
deve-se ir sem nada,
levando-se no entanto
provisões de hormônios
até mesmo no olhar.
Na noite higiênica
o vento balança
grandes flores: cálcio.


Lêdo Ivo
(A jaula, em Ode ao silêncio, 1948.)

sábado, 9 de junho de 2012

Os dois estranhos

Paolo Scarano


Todos os amantes terminam separados.
O amor é um barco que veleja
a maré que se levanta quando a balsa fende a água unida na
laguna que suga os clarões da terra
o avanço de uma hélice na noite estrelada.
Aos que viram o dia abrir-se como uma cauda de um pavão
ou atravessam a tarde coberta de escamas
aos que ficam abraçados em camas estreitas
e partilham a respiração do êxtase ouvindo uma torneira gotejar
na sombra
está reservada a separação
como uma tatuagem que o tempo inscreve na anca bem-amada.
A porta antes fechada se abre para sempre
para que os corpos se cruzem e não se reconheçam.
Amor é escuridão. E quando a luz se acende
somos dois estranhos que evitam olhar-se.


Lêdo Ivo

quarta-feira, 25 de maio de 2011

by Jay Anacleto

O instante que se foi, sem que pudesses
de olhos secos gravar-lhe a melodia
ficou nessa lembrança em que amanheces
formando a noite com o esplendor do dia.

Atravessando as horas, sem que o houvesses
sentido, teu espírito sorria
tão claro ao sonho, como se estivesses
prestes a te mudar numa elegia.

E junto a mim choravas, esperando
que eu me fosse, deixando-te sozinha
quando na terra o tempo estacionasse.

Mas não cerraste os olhos, aguardando
o instante de chorar e de ser minha
quando o arcanjo da vida me acordasse.


Lêdo Ivo