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domingo, 12 de março de 2023

Invocação ao amor



Pedir-te a sensação

a água

o travo

aquele odor antigo

de uma parede

branca

Pedir-te da vertigem

a certeza

que tens nos olhos

quando me desejas

Pedir-te sobre a mão

a boca inchada

um rasto de saliva

na garganta

Pedir-te que me dispas

e me deites

de borco e os meus seios

na tua cara

Pedir-te que me olhes

e me aceites

me percorras

me invadas

me pressintas


Pedir-te que me peças

que te queira

no separar das horas

sobre a língua


Maria Teresa Horta 

quarta-feira, 29 de junho de 2022

Dádiva


Oferece-me nos lábios

os teus olhos


a planta

é no sentir teu corpo

de asceta


Recordarei amanhã

e depois recordarei

como se fosses


como se fosses

és

a intimidade antiga

que predisse inclinada

pelas tuas mãos


tu

a ruiva sensação

de seres-me idêntico


oferece

o outono liquefeito no

teu corpo


e esta liberdade-noite

de te saber autêntico


Maria Teresa Horta, in CIDADELAS SUBMERSAS

domingo, 29 de maio de 2022

Hino



É para ti

que crio os hinos 

e os oceanos

a persistência opaca

da noite

o vício das árvores


Os cabelos pretos 

que desprendo

são para ti que invento

o extinto 

roxo

dos teus lábios


É para ti que crio

o orvalho branco

dos meus espasmos

onde tu és deus 

e eu apenas nua

a dar-te o líquido instinto 

das gargantas


Como os meus seios arqueados 

lua


Maria Teresa Horta, 

In As Palavras do Corpo, 2012

domingo, 8 de agosto de 2021

Inquietação

Marco Busoni

Quero-me inquieta

de sol

a intransigência da vida

penetrou-me

bastarda de mim mesma

noites incompletas

onde me exijo urgência


Maria Teresa Horta 

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Resistência

Con la rosa tra le labbra (1895) Ettore Tito 


Ninguém me castra a poesia
se debruça e me põe vendas
censura aquilo que escrevo
nem me assombra os poemas

Ninguém me apaga os versos
nem amordaça as palavras
na invenção de voar
por entre o sonho e as letras

Ninguém me cala na sombra
deitando fogo aos meus livros
me ameaça no medo
ou me destrói e algema

Ninguém me aquieta a escrita
na criação de si mesma
nem assassina a musa 
que dentro de mim se inventa


Maria Teresa Horta
in «Poesis», D, Quixote, 2017

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Insubmissão


Dorina Costras

Somos corsárias
febris
por areias dos desertos

Seguimos estrelas cadentes
e montando os nossos sonhos
cumprimos roteiros incertos

Vamos atrás das paixões
com o faim à cintura
e a pena no coração

Para escrevermos poesia
invertendo o cantochão

Com a arte da insídia
olhamos o horizonte alucinando
os oásis, abismando sortilégios

Escutamos os clamores
os oceanos celestes
nos silêncios dos desertos

Buscamos os infiéis
com olhos de expiação

Somos hábeis e seguras
ambíguas, doces, cruéis
nós partimos sem regresso

Ora flibusteiras
em horas de cerração
entre a paixão e o inverso

Ora piratas do limbo
abandonando os arquétipos

A cimitarra à cintura
e o júbilo no coração
pelo avesso dos versos

Somos a rosa e o espinho
a sombra no seu desvão

Entre o fuso e o enigma
a navalha entreaberta
e os nevoeiros secretos

Somos corsárias
sonhando
nas areias dos desertos


Maria Teresa Horta

domingo, 1 de novembro de 2015

Feminino


Edouard Bisson (1856-1936) - Les fleurs du matin, 1903


São as ninfas
são as musas
as mulheres com o seu riso

As Dríades e as Nereides
Crineias nas suas fontes
e as mulheres despertando

Dentro do próprio sumiço

São as deusas, as sereias
enfeitiçando o cantar
as mulheres tecendo as teias

Penélope Euterpe Eurídice
de meiga pele ambarina
as mulheres correndo em busca

Na sua pressa felina

São sibilas, amazonas
profetisas, feiticeiras
as mulheres querendo voar

Com os espíritos femininos
valquírias de espada honrosa
de mulheres ousando o risco

Com alegria nervosa

São sílfides com voz de vento
são as ondinas nadando
seguindo a rota dos rios

As salamandras ardendo
de si mesmas sequiosas
Morgana com os seus filtros

De invenção harmoniosa

São adivinhas da água
sufragistas, feministas
na haste do pensamento

Renascendo com vagares
à sombra da própria seda
na chama rubra da tenda

São as mulheres do meu tempo

Mudando a eternidade
e a vida em seu sustento
sem jamais cicatrizarem

Os séculos de esquecimento



Maria Teresa Horta
In «Poemas do Brasil», 2009, Editora Brasiliense, S. Paulo 

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Antonio Tordesillas

O desejo revolvido
A chama arrebatada
O prazer entreaberto
O delírio da palavra

Dou voz liberta aos sentidos
Tiro vendas, ponho o grito
Escrevo o corpo, mostro o gosto
Dou a ver o infinito

 
Maria Teresa Horta
In As palavras do corpo, 2012

sexta-feira, 30 de maio de 2014

A lonjura do poema

Arturo Samaniego


A desmesura do corpo
a lonjura do poema

A largura do mar alto
em carta
de rota e pena

A luxúria da memória
a saudade do perdido
feito de nós e de olvido

De se escrever português
em páginas
de verso e vidro

No seu trabalho
e resguardo
de passado e de sigilo

Feito de língua
materna
leite de peito despido

De cantares e do contar
em versos
de linho e livro

Com palavras de poetas
de cristal e aventura
imagens e descobertas

De rimar e de remar
num oceano de perigo


Maria Teresa Horta - (21 de Março de 2014)

sábado, 11 de janeiro de 2014

Fazer amor com a poesia


 Ouka Fukui


Deito-me com as palavras
beijo a boca dos poemas
quando a razão desvaria

Manipulo a linguagem
tomo a nudez dos meus versos
faço amor com a poesia


Maria Teresa Horta

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Arrebatamento

Howard Rogers


Eu não quero a ternura
quero o fogo
a chama da loucura desatada
quero a febre dos sentidos
e o desejo
o tumulto da paixão arrebatada

Eu não quero só o olhar
quero o corpo
abismo de navalha que nos mata
quero o cume da avidez
e do delírio
sequiosa faminta apaixonada

Eu não quero o deleite
do amor
quero tudo o que é voraz
Eu quero a lava


Maria Teresa Horta

terça-feira, 27 de agosto de 2013

O teu sorriso

Elzbieta Wilk


Na maneira mais hábil
de sorrires
há o capricho hábil
duma faca
o sentido da lâmina
ou a marca
que deixas no rosto
sem sentires


Maria Teresa Horta


sexta-feira, 26 de julho de 2013

Delírio




O desejo revolvido
A chama arrebatada
O prazer entreaberto
                    O delírio da palavra

Dou voz liberta aos sentidos
Tiro vendas, ponho o grito
Escrevo o corpo, mostro o gosto
                 Dou a ver o infinito


Maria Teresa Horta, in As palavras do corpo

domingo, 21 de julho de 2013

Insubmissão

taras loboda

Somos corsárias
febris
… por areias dos desertos
Seguimos estrelas cadentes
e montando os nossos sonhos
cumprimos roteiros incertos
Vamos atrás das paixões
com o faim à cintura
e a pena no coração
Para escrevermos poesia
invertendo o cantochão
Com a arte da insídia
olhamos o horizonte alucinando
os oásis, abismando sortilégios
Escutamos os clamores
os oceanos celestes
nos silêncios dos desertos
Buscamos os infiéis
com olhos de expiação
Somos hábeis e seguras
ambíguas, doces, cruéis
nós partimos sem regresso
Ora flibusteiras
em horas de cerração
entre a paixão e o inverso
Ora piratas do limbo
abandonando os arquétipos
A cimitarra à cintura
e o júbilo no coração
pelo avesso dos versos
Somos a rosa e o espinho
a sombra no seu desvão
Entre o fuso e o enigma
a navalha entreaberta
e os nevoeiros secretos
Somos corsárias
sonhando
nas areias dos desertos


Maria Teresa Horta

sexta-feira, 8 de março de 2013

Pequena Cantiga à Mulher


Pierre-Auguste Renoir


Onde uma tem
O cetim
A outra tem a rudeza

Onde uma tem 
A cantiga
A outra tem a firmeza

Tomba o cabelo
Nos ombros

O suor pela
Barriga

Onde uma tem
A riqueza
A outra tem
A fadiga

Tapa a nudez
Com as mãos

Procura o pão
Na gaveta

Onde uma tem
O vestígio
Tem a outra 
A pele seca

Enquanto desliza
O fato
Pega a outra na
Enxada

Enquanto dorme
Na cama
A outra arranja-lhe
A casa


 Maria Teresa Horta

domingo, 4 de novembro de 2012

Ritual do Amor

Jack Vettriano

I

A fímbria do vestido
a fenda do vestido

As pernas cruzadas
na racha entreaberta

Os braços erguidos
e o vestido
subido nas coxas que já despe

II

Depois é a penumbra
e o vestido
a tirar pela cabeça
amarrotado

As mãos abocanhando
o cimo do vestido
no desatino - na pressa
que as invade

Acesa a carne
no ócio dessa tarde
liberta enfim da seda do vestido

que em vez de seda é sede
e é a tarde
acesa enfim no corpo sem vestido


III

A fímbria do vestido
a fenda do vestido

na febre em que
se despe
e é tirado
no hálito do quarto

ou atirado
e cai devagar
depois de ser despido

IV

Aos pés
está o vestido
amachucado

depois os joelhos no vestido

as coxas brandas e doces
no tecido
que vai cedendo ao gosto dessa tarde


V

A fímbria do vestido
a fenda do vestido

que se ergue
do chão
amarfanhado

o vestido que mal foi despido
conheceu do corpo
o peso do seu ato

VI

Assim volta à maneira
de vesti-lo
tornar a descê-lo pelos braços

cortando logo a tarde
e a ternura
perdida na penumbra desse quarto


VII

Quanta saudade
da seda do vestido
que à pele adere
num outro abraço

Baraço entorpecido
nos sentidos
secreta maneira
de tolher os passos


VIII

A fímbria do vestido
a fenda do vestido

Já só memória
o corpo todo
nu

Dissimulado agora pelo vestido
que os dedos abandonam
um a um


IX

A fímbria do vestido
a fenda do vestido

que o gesto alisa
ao descer o fato

Vestido que na fímbria
ainda é vestido
mas não na fenda
onde já se abre


Maria Teresa Horta

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Eternidade



Será a tua cama
a minha cama
aquela onde revolvo
um sono acidentado?

Onde dormes de lado
ou vigias
o modo alheio que a madrugada
abre

Será tua a proposta
deste encontro
ou será meu este amor
que arde?

Uma flor de fogo
que incendeia
a nossa cama antes do fim
da tarde

Se é tua a dúvida
e minha esta certeza
daquilo que despimos
e na cama tarda?

O vestido descendo pelas ancas
sendo
da sede o que segura
e na seda aguarda

Será tua a vitória
e minha esta derrota
de não poder segurar-te
a vida inteira?

Por mais que queira
a eternidade guarda
o tempo que por ela
já se esgueira


Maria Teresa Horta

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Dádiva

Elena Plenkina



Oferece-me nos lábios
os teus olhos

a planta
é no sentir teu corpo
de asceta

Recordarei amanhã
e depois recordarei
como se fosses

como se fosses
és
a intimidade antiga
que predisse inclinada
pelas mãos

tu
a ruiva sensação
de seres-me idêntico

oferece-me
o outono liquefeito no
teu corpo

e esta liberdade - noite
de te saber autêntico



Maria Teresa Horta

sábado, 20 de agosto de 2011

Minha senhora de mim

Guy Bourdin

Comigo me desavim
minha senhora
de mim

sem ser dor ou ser cansaço
nem o corpo que disfarço

Comigo me desavim
minha senhora
de mim

nunca dizendo comigo
o amigo nos meus braços

Comigo me desavim
minha senhora
de mim

recusando o que é desfeito
no interior do meu peito


Maria Teresa Horta

quarta-feira, 23 de março de 2011

Docemente

Donna Tuten

Docemente
disponho dos teus braços

dos peixes que navegam
docemente

Docemente
disponho em minha face

a faca dos teus olhos
docemente.

Docemente
canso, disponho do cansaço

primeiro do teu afago
docemente

Docemente
afago, a tua boca apago

e vou negando a minha
docemente.


Maria Teresa Horta