Mostrando postagens com marcador Franz Kafka. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Franz Kafka. Mostrar todas as postagens

sábado, 13 de abril de 2024


 É bom quando nossa consciência sofre grandes ferimentos, pois isso a torna mais sensível a cada estímulo. Penso que devemos ler apenas livros que nos ferem, que nos afligem. Se o livro que estamos lendo não nos desperta como um soco no crânio, por que perder tempo lendo-o? Para que ele nos torne felizes, como você diz? Oh Deus, nós seríamos felizes do mesmo modo se esses livros não existissem. Livros que nos fazem felizes poderíamos escrever nós mesmos num piscar de olhos. Precisamos de livros que nos atinjam como a mais dolorosa desventura, que nos assolem profundamente – como a morte de alguém que amávamos mais do que a nós mesmos –, que nos façam sentir que fomos banidos para o ermo, para longe de qualquer presença humana – como um suicídio. Um livro deve ser um machado para o mar congelado que há dentro de nós.


Franz Kafka

segunda-feira, 13 de novembro de 2023


 "Quem possui a faculdade de ver a beleza não envelhece."

(der sich die Fähigkeit erhält, das Schöne zu erkennen, wird nie alt werden.)


 Franz Kafka

terça-feira, 26 de abril de 2022

Franz Kafka - Portrait of  Milton Glaser. 
 Em novembro de 1919 Franz Kafka escreveu uma longa carta a seu pai.

“querido pai,

Você me perguntou recentemente por que eu afirmo ter medo de você.  Como de costume, eu não soube responder. Em parte, justamente por causa desse medo. Eu era uma criança medrosa, é claro que apesar disso também era teimoso como o são todas as crianças. Certamente minha mãe mimou-me. Mas eu não posso crer que era uma criança difícil de lidar. Nem que uma palavra amável, um silencioso levar pela mão, um olhar bondoso não pudessem conseguir de mim tudo o que quisessem. O que eu teria necessitado a qualquer tempo e em qualquer lugar era o incentivo. Eu já estava esmagado pela simples materialidade do seu corpo. Você havia subido tão alto contando apenas com a própria força, que eu tinha confiança ilimitada na sua opinião pessoal. Da poltrona você regia o mundo. Sua opinião era a certa, todas as outras disparatadas, extravagantes, absurdas, anormais.

Você assumia pra mim o que há de enigmático em todos os tiranos, cujo direito está fundado não no pensamento, mas na própria pessoa. Logo cedo você me interditou a palavra. Sua ameaça: “nenhuma palavra de contestação!” e a mão erguida no ato me acompanharam desde sempre, na sua presença eu adquiri um modo de falar entrecortado  e finalmente eu silenciei, porque na sua presença já não podia falar e nem pensar. Se eu queria fugir de você tinha que fugir também da família, até de minha mãe. Sempre era possível encontrar nela proteção, mas só em relação a você. Ela lhe amava demais e lhe dedicava demasiada fidelidade para que, numa luta contra o filho, pudesse ter por muito tempo um poder espiritual autônomo. Eu estava continuamente em desgraça. Ou eu obedecia-lhe os comandos, o que era uma desgraça, ou desafiava, o que também era uma desgraça. Eu já perdi minha autoconfiança diante de você e substitui por um ilimitado sentimento de culpa.


Franz Kafka

quarta-feira, 20 de abril de 2022

 


Diante da Lei havia um guardião. A esse guardião dirigiu-se um homem do interior e lhe pediu que o deixasse entrar na Lei. O guardião disse, entretanto, que não podia lhe conceder a entrada naquela ocasião. O homem pensou e depois perguntou se ele então poderia entrar mais tarde. "É possível," disse o guardião, "mas não agora." Dado que o portão para a Lei fica aberto como de hábito e o guardião vigiava a sua entrada, o homem abaixou-se para ver o interior. Quando o guardião percebeu, riu e lhe disse: "Se tanto te seduz, tenta entrar, malgrado a minha proibição. Porém, presta bem atenção: eu sou poderoso. E sou apenas o mais reles dos guardiães. Em cada salão há um guardião mais poderoso que o outro. Eu sequer suporto o olhar do terceiro." Não contava com tais dificuldades o homem do interior; a Lei deveria ser acessível para todos e a toda hora, pensou ele, mas ao observar com rigor o guardião no seu casaco de pele, o seu nariz grande e agudo, a barba escura, tênue, comprida e desarrumada, achou melhor esperar pela autorização. O guardião deu-lhe um banco e o deixou sentar-se perto. Lá permaneceu dias e anos. Tentou entrar várias vezes, cansando o guardião com seus pedidos. O guardião lhe fazia pequenos interrogatórios com certa frequência, indagava-lhe sobre sua terra natal e sobre muitas outras coisas, eram perguntas despropositadas, como se fosse o trato de bons cavalheiros e enfim lhe dizia mais uma vez que ainda não poderia deixá-lo entrar. O homem, que com muito de valor se equipou para sua viagem, serviu-se de tudo para subornar o guardião. Ele tudo aceitava, mas lhe dizia: "Apenas aceito para não achares que foste negligenciado." Durante os vários anos, o homem observou o guardião quase incessantemente. Esqueceu-se dos demais guardiães, como se aquele fosse o único obstáculo para entrar na Lei. Nos primeiros anos, ele maldizia o lamentável acaso com ímpeto e em voz alta, mais tarde, à medida em que envelhecia, resmungava de si para si. Tornou-se pueril e, como já tinha passado anos estudando o guardião e reconhecia até as pulgas no colarinho de seu casaco, apelou a elas para que lhe ajudassem a persuadir o guardião. Sua vista por fim se esvaía e ele não sabia ao certo se escurecia à sua volta ou se eram os olhos que o iludiam. Pôde, todavia, bem reconhecer um clarão no escuro, que inextinguível irrompia portão afora. Ele já não vive mais. Antes da sua morte, reuniram-se na sua mente todas as experiências do período para uma pergunta, que até então ele não havia feito ao guardião. Fez-lhe sinal, pois não conseguia mais erguer o corpo enrijecido. O guardião teve que se inclinar em sua direção, já que a diferença de estatura tinha se acentuado para dissabor do homem. "O que ainda queres saber?" perguntou o guardião, "tu és insaciável." "Todos aspiram à Lei," disse o homem, "como pode, em tantos anos, ninguém além de mim ter buscado entrar nela?" O guardião reconheceu que o homem já estava no fim e, para alcançar ainda a audição extenuante, vociferou: "Aqui ninguém pôde entrar antes porque esta entrada era destinada somente a ti. Agora já posso ir-me e trancá-la."


Franz Kafka, 1914. 

segunda-feira, 14 de abril de 2014

O Livre Arbítrio


Um homem é dotado de livre arbítrio e de três maneiras: em primeiro lugar, era livre quando quis esta vida; agora não pode evidentemente rescindi-la, pois ele não é o que a queria outrora, exceto na medida em que completa a sua vontade de outrora, vivendo.
Em segundo lugar, é livre pelo fato de poder escolher o caminho desta vida e a maneira de o percorrer.
Em terceiro lugar, é livre pelo fato de na qualidade daquele que vier a ser de novo um dia, ter a vontade de se deixar ir custe o que custar através da vida e de chegar assim a ele próprio e isso por um caminho que pode sem dúvida escolher, mas que, em todo o caso, forma um labirinto tão complicado que toca nos menores recantos desta vida.
São esses os três aspectos do livre arbítrio que, por se oferecerem todos ao mesmo tempo formam apenas um e de tal modo que não há lugar para um arbítrio, quer seja livre ou servo.

Franz Kafka, in "Os Aforismos de Zurau ou Reflexões no Pecado, Esperança, Sofrimento, e o Caminho da Verdad"

domingo, 24 de março de 2013





"Cessa de Correr! Se não cessas de correr, marulhando no ar tépido com as tuas mãos como natatórios, olhando furtivamente tudo diante de que passas no meio-sono apressado, acontecer-te-á também um dia deixar passar diante de ti o carro. Se te mantiveres firme, pelo contrário, com o poder do teu olhar fazendo crescer as raízes em profundidade e em comprimento - nada então te poderá eliminar - em virtude não das raízes mas da força do teu olhar que escruta - será então que verás o longínquo imutavelmente obscuro de onde nada pode surgir a não ser precisamente uma vez este carro que rola para ti, que se aproxima, cada vez maior e que, no próprio instante em que entras em tua casa, enche o mundo enquanto mergulhas nele como uma criança no banco acolchoado de uma diligência que corre através da tempestade e da noite."

Franz Kafka, in "Meditações"

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Franz Kafka, A metamorfose


A irmã tocava com tanta beleza! O rosto dela estava inclinado para o lado; perscrutadores e tristes, seus olhares seguiam as linhas da partitura. Gregor rastejou mais um pedaço à frente e manteve a cabeça colada ao chão, no provável intuito de encontrar os olhares dela. Era ele um animal, uma vez que a música o tocava tanto? Parecia-lhe que enfim se abria para ele o caminho ao alimento almejado e desconhecido. Estava decidido a chegar até a irmã, puxá-la pela saia a fim de lhe indagar com isso se ela não queria talvez vir a seu quarto com o violino, pois ninguém na sala pagava por sua música tanto quanto ele desejava pagar. Não queria mais deixá-la sair de seu quarto, pelo menos não enquanto estivesse vivo; sua figura assustadora pela primeira vez teria de se tornar útil; ele queria estar em todas as portas de seu quarto ao mesmo tempo e bufar contra todos os agressores, no entanto, a irmã não deveria ficar com ele obrigada, mas de livre e espontânea vontade; ela deveria ficar sentada ao lado dele sobre o canapé, o ouvido inclinado para ele, e ele queria lhe confiar então que havia tido o firme propósito de mandá-la ao conservatório e que teria comunicado isso a todos no Natal passado – será mesmo que o Natal já havia passado?-, se não tivesse acontecido a desgraça, sem se preocupar com qualquer tipo de discurso contrário. Depois dessa explicação a irmã haveria de romper em lágrimas de comoção e Gregor se ergueria até alcançar os seus ombros para beijar seu pescoço, que ela trazia livre, sem fita ou colarinho, desde que passara a trabalhar na loja.

Franz Kafka, A metamorfose

sábado, 29 de dezembro de 2012

Franz Kafka, A metamorfose

Jogar a coberta para o lado foi bem simples; ele precisou apenas inspirar um pouco e ela caiu sozinha. Mas os passos seguintes se mostraram difíceis, sobretudo porque ele estava incomumente largo. Teria necessitado fazer uso dos braços e das pernas, a fim de se levantar; ao invés delas, no entanto, ele possuía apenas várias perninhas, que se movimentavam sem parar em todas as direções e que ele, além de tudo, não conseguia dominar. Quando queria dobrar uma delas, a mesma era a primeira a se esticar; quando enfim lograva fazer o que intencionava com a referida perna, todas as outras trabalhavam, como se fossem livres, na maior e mais dolorosa das agitações:. “Apenas não ficar debalde na cama”, disse Gregor a si mesmo.

Primeiro quis sair da cama com a parte inferior de seu corpo, mas essa parte inferior, que ele aliás ainda não havia visto e a respeito da qual sequer conseguia ter uma ideia um pouco mais precisa, mostrou-se demasiado difícil de ser movimentada; a coisa ia bem devagar; e quando ele, enfim, de um modo quase selvagem e juntando todas as suas forças, jogou-se à frente sem tomar precauções, acabou escolhendo a direção errada e bateu com violência aos pés da cama; a dor ardente que sentiu ensinou-lhe que justamente a parte inferior de seu corpo de momento talvez fosse a mais sensível.

Por causa disso tentou tirar da cama primeiro a parte superior de seu corpo e virou a cabeça com cautela em direção à beira do leito. Conseguiu fazê-lo com facilidade, e apesar de sua largura e de seu peso, sua massa corporal acabava seguindo os movimentos da cabeça. Mas quando enfim segurava a cabeça para fora da cama, ao ar livre, teve medo de seguir indo adiante desse jeito, pois se acabasse por deixar-se cair ao chão dessa maneira, teria de acontecer um milagre para que a cabeça não resultasse machucada. E ele não poderia perder os sentidos justo agora, a nenhum preço; melhor seria ficar na cama.

Porém quando – depois de passar pelas mesmas dificuldades – voltou a estar, suspirando, na mesma posição de antes, tornando a ver suas perninhas se moverem e lutarem umas contra as outras, talvez ainda mais nervosas do que antes, não encontrando possibilidades de botar ordem e tranquilidade nessa arbitrariedade, tornou a dizer para si mesmo que era impossível continuar na cama e que o mais racional seria sacrificar tudo – ainda que a esperança que restasse fosse mínima – para enfim se livrar da cama. Mas ao mesmo tempo não deixou de lembrar de vez em quando, no intervalo dos movimentos, que reflexões calmas, inclusive as mais calmas, ainda são melhores do que decisões desesperadas. Em tais momentos, direcionava os olhos de modo tão afiado quanto possível à janela, mas lamentavelmente havia pouca confiança e vivacidade a tomar da visão da neblina matinal, que chegava a esconder o outro lado da ruela estreita. “já são sete horas”, disse a si mesmo ao ouvir o despertador bater de novo, “já sete horas e ainda uma neblina dessas”. E por um momentinho permaneceu deitado quieto, respirando bem fraco, como se esperasse do silêncio total a volta das circunstâncias reais e naturais.


Franz Kafka, A metamorfose

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Franz Kafka, A metamorfose

Certa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, Gregor Samsa encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso. Estava deitado sobre suas costas duras como couraça e, quando levantou um pouco a cabeça, viu seu ventre abaulado, marrom, dividido em segmentos arqueados, sobre o qual a coberta, prestes a deslizar de vez, apenas se mantinha com dificuldade. Suas muitas pernas, lamentavelmente finas em comparação com o volume do resto de seu corpo, vibravam desamparadas ante seus olhos.

“O que terá acontecido comigo?”, ele pensou. Não era um sonho. Seu quarto, um quarto humano direito, apenas um pouco pequeno demais, encontrava-se silencioso entre as quatro paredes bem conhecidas. Sobre a mesa, na qual se espalhava, desempacotada, uma coleção de amostras de tecido – Samsa era caixeiro-viajante - , estava a imagem que ele havia recortado havia pouco tempo de uma revista ilustrada e posto numa moldura bonita e dourada. Ela mostrava uma dama que, escondida num chapéu de pele e numa estola de pele, sentava ereta e levantava aos espectadores um regalo também de pele, dentro do qual sumia todo o seu antebraço.

O olhar de Gregor dirigiu-se então para a janela, e o tempo nublado – ouviam-se os pingos da chuva baterem sobre a calha da janela – deixou-o bastante melancólico. “Que tal se eu seguisse dormindo mais um pouco e esquecesse de toda essa bobajada”, pensou; mas isso era totalmente irrealizável, uma vez que estava habituado a dormir sobre o lado direito e em seu estado atual não conseguia se colocar nessa posição. Por mais força que fizesse na tentativa de se jogar para o lado direito, balançava voltando sempre a ficar na posição de costas. Deve ter tentado fazê-lo cerca de cem vezes; fechou os olhos a fim de não precisar ver mais suas pernas se debatendo, e apenas desistiu quando passou a sentir no lado uma dor leve e sombria, que jamais havia sentido. 


"Oh, Deus", pensou ele, "que profissão extenuante que fui escolher! Entra dia, sai dia, e eu sempre de viagem. As agitações do negócio são muito maiores do que propriamente o trabalho em casa, e ainda por cima impuseram sobre mim essa praga de ter de viajar, os cuidados com as conexões de trem, a comida ruim e desregulada, contatos humanos sempre cambiantes, que nunca serão duradouros e jamais afetuosos. Que o diabo leve tudo isso!" Sentiu um leve comichão acima, sobre o ventre, deslocou-se devagar sobre as costas, aproximando-se da guarda da cama, a fim de poder levantar melhor a cabeça; encontrou o lugar que comichava; ele mostrava-se tomado por uma série de pontinhos brancos e pequenos, que ele não logrou avaliar donde vinham; quis tocar o local com uma das pernas, mas logo puxou-a de volta, pois o contato lhe dava calafrios.

Deslizou até voltar à sua posição anterior. "Esse acordar cedo", pensou ele, "faz a gente ficar meio abobado. O homem tem de ter seu sono. Outros viajantes vivem como mulheres de harém. Quando eu, por exemplo, volto ao hotel pouco antes do meio-dia, a fim de transcrever as encomendas feitas, esses senhores recém estão tomando seu café. Queria ver se eu tentasse proceder assim com meu chefe; iria para a rua na mesma hora. Aliás, quem sabe se isso não seria bom para mim. Se eu não me contivesse por causa de meus pais, já teria pedido as contas há tempo; teria me apresentado ao chefe e lhe exposto direitinho o que penso, do fundo do meu coração. Ele teria de cair da escrivaninha! É um jeito bem peculiar o dele, de sentar-se sobre a escrivaninha e falar do alto abaixo com seu empregado, que além do mais tem de se aproximar bastante por causa das dificuldades auditivas do chefe. Bem, a esperança ainda não está de todo perdida; quando eu tiver juntado o dinheiro a fim de quitar a dívida de meus pais com ele – acho que isso demorará ainda uns cinco ou seis anos –, eu encaminho a coisa sem falta. Aí então terá sido feito o grande corte. Por enquanto, em todo caso, tenho de levantar, pois meu trem sai às cinco."




Franz Kafka, A metamorfose

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Franz Kafka, A metamorfose




"Gregor não chegou a entrar na sala de estar, mas, de dentro de seu quarto, apoiou-se à folha da porta, de modo que só podia ser vista a metade de seu corpo e sobre ela a cabeça inclinada para o lado, com a qual espreitava os outros lá fora. Nesse meio tempo o dia amanhecera de vez e ficara bem mais claro; visível, do outro lado da rua, mostrava-se o recorte, infindável do edifício cinza-enegrecido oposto – era um hospital -, com suas janelas regulares rompendo de maneira dura a fachada; a chuva ainda caía, mas apenas em pingos grandes, visíveis um a um, e literalmente jogados de forma isolada sobre a terra. Os talheres do café da manhã jaziam em abundância sobre a mesa, pois para o pai o café da manhã era a refeição mais importante do dia, e ele se demorava nela durante horas a ler diferentes jornais. Justo na parede oposta pendia uma fotografia de Gregor, de seus tempos de serviço militar, que o mostrava como tenente, mão na espada, sorrindo despreocupado, e invocando respeito para sua postura e uniforme. A porta que dava para a sala de espera estava aberta e podia-se olhar – visto que a porta de entrada também estava aberta – pelo vestíbulo da casa afora até o início da escada que descia."

*
"Inexorável, o pai o empurrava para trás emitindo silvos como se fosse um selvagem. Mas Gregor ainda não tinha nenhuma prática em caminhar de ré, e só conseguia fazê-lo com muita lentidão. Se Gregor apenas pudesse se virar, estaria logo dentro de seu quarto, mas ele temia impacientar seu pai com a perda de tempo empenhada nessa operação, e a cada instante a bengala na mão do pai o ameaçava com um golpe fatal nas costas ou na cabeça. Ao final das contas, no entanto, não restou a Gregor outra coisa a fazer, uma vez que percebera com horror que não lograva sequer manter a direção ao caminhar de ré; de modo que começou a se virar, lançando olhares incessantes e angustiados a seu pai e tentando movimentar-se o mais rápido possível, mas alcançando fazê-lo apenas com muito vagar. Talvez o pai tenha percebido suas boas intenções, pois não perturbou no ato, e até, pelo contrário, ajudou-o no movimento giratório, dando umas pancadinhas aqui e ali com a ponta de sua bengala, mas mantendo-se à distância. Se pelo menos não fosse aquele sibilar insuportável do Pai! Por causa dele Gregor perdeu totalmente a cabeça. Já havia se virado quase por completo quando, sempre ouvindo aquele sibilar, chegou a se confundir, voltando a se virar um pouquinho na direção contrária. Quando, no entanto, enfim se encontrou, feliz, com a cabeça ante a abertura da porta, deu-se conta de que seu corpo era demasiado largo para conseguir passar por ela assim no mais. Ao pai, na situação em que se encontrava, naturalmente também não ocorreu, nem de longe, abrir a outra folha da porta, a fim de arranjar espaço suficiente para que Gregor conseguisse passar. Sua ideia fixa era fazer apenas com que Gregor entrasse o mais rápido possível para dentro de seu quarto. Jamais permitiria também os preparativos circunstanciais que Gregor necessitava para se erguer e talvez, desse modo, conseguir passar pela porta. Ao invés disso, agora impelia Gregor fazendo uma barulheira ainda maior, como se não houvesse nenhum obstáculo à sua frente; a Gregor aquilo já soava como se não fosse apenas a voz de um único pai, no momento parecia de verdade que a coisa não estava mais para brincadeira, e Gregor forçou sua entrada – acontecesse o que quisesse acontecer – pela porta. Um dos lados de seu corpo elevou-se, ele estava deitado em posição oblíqua na abertura da porta; um de seus flancos ficou bastante esfolado, na porta branca e ficaram manchas horríveis e em pouco estava entalado no vão de entrada e não conseguia mais se mover sozinho; as perninhas de um dos lados pendiam tremembundas, soltas ao ar, enquanto as do outro lado se encontravam apertadas dolorosamente ao chão; foi aí que seu pai lhe desferiu um violento golpe por trás – desta vez salvador de verdade – e ele voou, sangrando em abundância, quarto adentro. A porta ainda foi fechada com a bengala, depois enfim ficou tudo em silêncio."

*
"Certa vez – já havia passado bem um mês desde a metamorfose de Gregor, e não existia, portanto, nenhum motivo especial para que a irmã ficasse espantada por causa do aspecto de Gregor -, ela veio um pouco mais cedo do que de costume encontrou Gregor quando ele, imóvel e completamente predisposto ao susto, olhava para fora da janela. Para Gregor, o comportamento da irmã não seria inesperado, se ela apenas tivesse desistido de entrar no quarto, uma vez que a posição dele a impedia de abrir logo a janela; mas ela não apenas não entrou no quarto, como também recuou e trancou a porta; um estranho poderia pensar que ela agira assim por pensar que Gregor estava à sua espreita a fim de mordê-la. Naturalmente Gregor se escondeu de imediato sob o canapé, mas teve de esperar até o meio-dia até que a irmã voltasse, e ela parecia bem mais inquieta do que de costume. Por causa disso ele percebeu que seu aspecto ainda era insuportável para ela, que com certeza continuaria a ser insuportável para ela, e que ela tinha de fazer muito esforço para dominar a vontade de fugir correndo  ante à visão do corpo dele, ainda que fosse a mínima de suas partes que sobressaía sob o canapé. A fim de poupá-la também dessa visão, ele um dia carregou sobre as costas – necessitou de quatro horas para o serviço – o lençol da cama, depositando-o sobre o canapé e arrumando-o de modo a cobrir por completo o móvel, e fazendo com que a irmã, mesmo que se acocorasse, não pudesse mais vê-lo. Caso o lençol não fosse necessário na opinião dela, então ela poderia afastá-lo, pois era suficientemente claro que não poderia fazer parte de um dos prazeres de Gregor o ato de encarcerar assim, de todo; mas ela deixou o lençol onde estava o Gregor inclusive acreditou ter surpreendido um olhar de agradecimento em seu rosto, quando certa vez afastou um pouco o lençol com a cabeça a fim de ver como a irmã acolhia a nova instalação.
Nas primeiras duas semanas os pais não conseguiram vencer a própria resistência em chegar até ele, e ele ouviu várias vezes como eles reconheciam plenamente os atuais serviços da irmã, ao passo que até então costumavam se irritar com ela, porque ela lhes parecia ser uma mocinha algo inútil. Agora, no entanto, os dois tinham por hábito esperar, tanto o pai quanto a mãe, ante o quarte de Gregor enquanto a irmã o arrumava; e mal ela havia saído, tinha de contar com precisão qual era o aspecto interior do quarto, o que Gregor havia comido, como ele havia se comportado dessa vez e se por acaso não era possível perceber uma pequena melhora."

*
"- Tu, Gregor! – exclamou a irmã de punhos levantados e olhar ameaçados.
Desde a metamorfose eram as primeiras palavras  que a irmã endereçava diretamente a ele. Ela correu ao quarto vizinho a fim de buscar uma essência qualquer com a qual pudesse despertar a mãe do seu desmaio; Gregor também quis ajudar – para a salvação do quadro ainda havia tempo - , mas estava colado firmemente ao vidro e necessitou  se livrar dele com violência; depois correu também ao quarto vizinho, como se pudesse – do mesmo jeito que fazia em tempos passados – dar à irmã algum conselho; mas então teve de ficar parado atrás dela sem faze nada; enquanto vasculhava em diversos frasquinhos, ela ainda acabou levando um susto ao se virar; um dos frascos caiu no chão e quebrou; um estilhaço feriu Gregor no rosto, algum remédio corrosivo correu por ele; Grete cuidou apenas em pegar a maior quantidade possível de frasquinhos, sem se demorar por mais tempo, e correu com eles para dentro, onde estava a mãe; a porta ela bateu com o pé. Gregor ainda estava separado por uma tranca da mãe, que por culpa dele talvez estivesse próxima da morte; a porta ele não deveria abrir, caso não quisesse afastar a irmã, que tinha de ficar junto da mãe; ele não tinha nada a fazer de momento a não ser esperar; e acossado por autocensuras e apreensão, começou a rastejar, rastejou por tudo, paredes, móveis e Toto da sala até cair, enfim – dominado pelo desespero, ao sentir que o aposento inteiro começava a girar em volta dele -, sobre o meio da grande mesa."

Franz Kafka, A metamorfose (trechos)

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

O silêncio das Sereias

A fim de proteger-se das sereias, Ulisses entupiu os ouvidos de cera e mandou que o acorrentassem com firmeza ao mastro. É claro que, desde sempre, todos os outros viajantes teriam podido fazer o mesmo (a não ser aqueles aos quais as sereias atraíam já desde muito longe), mas o mundo todo sabia que de nada adiantava fazê-lo. O canto das sereias impregnava tudo — que dirá um punhado de cera –, e a paixão dos seduzidos teria arrebentado muito mais do que correntes e mastro. Nisso, porém, Ulisses nem pensava, embora talvez já tivesse ouvido falar a respeito; confiava plenamente no punhado de cera e no feixe de correntes, e, munido de inocente alegria com os meiozinhos de que dispunha, partiu ao encontro das sereias. As sereias, porém, possuem uma arma ainda mais terrível do que seu canto: seu silêncio. É certo que nunca aconteceu, mas seria talvez concebível que alguém tivesse se salvado de seu canto; de seu silêncio, jamais. O sentimento de tê-las vencido com as próprias forças, a avassaladora arrogância daí resultante, nada neste mundo é capaz de conter.
E, de fato, essas poderosas cantoras não cantaram quando Ulisses chegou, seja porque acreditassem que só o silêncio poderia com tal opositor, seja porque a visão da bem-aventurança no rosto de Ulisses — que não pensava senão em cera e correntes — as tenha feito esquecer todo o canto.
Ulisses, contudo, e por assim dizer, não ouviu-lhes o silêncio; acreditou que estivessem cantando e que somente ele estivesse a salvo de ouvi-las; com um olhar fugaz, observou primeiro as curvas de seus pescoços, o respirar fundo, os olhos cheios de lágrimas, a boca semi-aberta; mas acreditou que tudo aquilo fizesse parte das árias soando inaudíveis ao seu redor. Logo, porém, tudo deslizou por seu olhar perdido na distância; as sereias literalmente desapareceram, e, justo quando estava mais próximo delas, ele já nem mais sabia de sua existência.
Elas, por sua vez, mais belas do que nunca, esticavam-se, giravam o corpo, deixavam os cabelos horripilantes soprar livres ao vento, soltando as garras na rocha; não queriam mais seduzir, mas somente apanhar ainda, pelo máximo de tempo possível, o reflexo dos grandes olhos de Ulisses.
Se as sereias tivessem consciência, teriam sido aniquiladas então; mas permaneceram: Ulisses, no entanto, escapou-lhes.
Dessa história, porém, transmitiu-se ainda um apêndice. Diz-se que Ulisses era tão astuto, uma tal raposa, que nem mesmo a deusa do destino logrou penetrar em seu íntimo; embora isto já não seja compreensível ao intelecto humano, talvez ele tenha de fato percebido que as sereias estavam mudas, tendo então, de certo modo, oferecido a elas e aos deuses toda a simulação acima tão-somente como um escudo.


Franz Kafka

terça-feira, 6 de abril de 2010

Diante da Lei


Diante da lei há um guarda. Um camponês apresenta-se diante deste guarda, e solicita que lhe permita entrar na Lei. Mas o guarda responde que por enquanto não pode deixá-lo entrar. O homem reflete, e pergunta se mais tarde o deixarão entrar.
- É possível – disse o porteiro -  mas não agora.
A porta que dá para a Lei está aberta, como de costume; quando o guarda se põe de lado, o homem inclina-se para espiar. O guarda vê isso, ri-se e lhe diz:
- Se tão grande é o teu desejo, experimenta entrar apesar de minha proibição. Mas lembra-te de que sou poderoso. E sou somente o último dos guardas. Entre salão e salão também existem guadas, cada qual mais poderoso do que o outro. Já o terceiro guarda é tão terrível que não posso suportar seu aspecto. O camponês não havia previsto estas dificuldades; a Lei deveria ser sempre acessível para todos, pensa ele, mas ao observar o guarda, com seu abrigo de peles, seu nariz grande e como de água, sua barba longa de tártaro, rala e negra, resolve que mais lhe convém esperar. O guarda dá-lhe um banquinho, e permite-lhe sentar-se a um lado da porta. Ali espera dias e anos. Tenta infinitas vezes entrar, e cansa ao guarda com suas súplicas. Com freqüência o guarda mantém com ele breves palestras, faz-lhe perguntas sobre seu país, e sobre muitas outras coisas; mas são perguntas indiferentes, como as dos grandes senhores, e para terminar, sempre lhe repete que ainda não pode deixá-lo entrar. O homem, que se abasteceu de muitas coisas para a viagem, sacrifica tudo, por mais valioso que seja, para subornar ao guarda. Este aceita tudo, com efeito, mas lhe diz:
- Aceito para que não julgues que tenhas omitido algum esforço.
Durante esses longos anos, o homem observa quase continuamente ao guarda: esquece-se dos outros, e parece-lhe que este é o único obstáculo que o separa da Lei. Maldiz sua má sorte, durante os primeiros anos temerariamente e em voz alta; mais tarde, à medida que envelhece, apenas murmura para si. Retorna à infância, e como sua longa contemplação do guarda, chegou a conhecer até as pulgas de seu abrigo de pele, também suplica às pulgas que o ajudem e convençam ao guarda. Finalmente, sua vista enfraquece-se , e já não sabe se realmente há menos luz, ou se apenas o enganam seus olhos. Mas em meio da obscuridade distingue um resplendor, que surge inextinguível da porta da Lei. Já lhe resta pouco tempo de vida. Antes de morrer, todas as experiências desses longos anos se confundem em sua mente em uma só pergunta, que até agora não formou. Faz sinais ao guarda para que se aproxime, já que o rigor da morte endurece seu corpo. O guarda vê-se obrigado a baixar-se muito para falar com ele, porque a disparidade de estaturas entre ambos aumentou bastante com o tempo,, para detrimento do camponês.
- Que queres saber agora? – Pergunta o guarda – És insaciável.
- Todos se esforçam por chegar à Lei – diz o homem - ; como é possível então que durante tantos anos ninguém mais do que eu pretendesse entrar?
O guarda compreende que o homem já está para morrer, e para que seus desfalecentes sentidos percebam suas palavras, diz-lhe junto ao ouvido com voz atroadora:
- Ninguém podia pretender isso, porque esta entrada era somente para ti. Agora vou fechá-la.



Kafka, Diante da Lei, in A Colônia Penal.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Enfrentar-se a Si Próprio


 Ódio da introspecção ativa. Explicações da nossa alma, tais como: ontem eu estava assim e assado, por esta ou por aquela razão; hoje estou assim e assado, por qualquer outra razão. Não é verdade, nem por esta razão nem por aquela razão, e por isso também nem assim nem assado.
Enfrentar-se a si próprio calmamente, sem precipitações, viver como se tem de viver, não andar à caça do próprio rabo como o cão.
Adormeci nos arbustos. Um barulho acordou-me. Encontrei um livro nas minhas mãos, que tinha estado a ler. Deitei-o fora e levantei-me de um salto. Passava pouco do meio-dia; em frente da colina em que eu estava estendia-se uma grande planura com aldeias e lagos e sebes todas iguais, altas, que pareciam feitas de junco. Pus as mãos nas ancas, examinei tudo com o olhar, e ao mesmo tempo escutei o barulho.

Franz Kafka, in 'Diário (09 Dez 1913)'