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domingo, 13 de fevereiro de 2022

 

Victor Bauer


Tu Vinhas

Não me fizeste sofrer 

mas esperar.


Naquelas horas 

emaranhadas, cheias 

de serpentes, 

quando 

a alma me caía e eu me afogava, 

tu vinhas-te aproximando, 

tu vinhas nua e arranhada, 

tu chegavas ensanguentada ao meu leito, 

noiva minha, 

e então 

caminhávamos toda a noite dormindo 

e, quando acordávamos, 

estavas intacta e nova, 

como se o vento grave dos sonhos 

acendesse de novo 

o fogo da tua cabeleira 

e em trigo e prata submergisse 

teu corpo até torná-lo deslumbrante.


Eu não sofri, meu amor, 

esperava-te apenas. 

Tu precisavas de mudar de coração 

e de olhar 

depois de tocares a profunda 

zona do mar que meu peito te entregou. 

Precisavas de sair da água 

pura como uma gota erguida 

por uma onda noturna.


Noiva minha, tu precisaste 

de morrer e de nascer, eu esperava-te. 

Não sofri a procurar-te, 

sabia que virias, 

mas outra, com o que adoro 

da mulher que não adorava, 

com teus olhos, tuas mãos e tua boca, 

mas com outro coração, 

que amanheceu a meu lado 

como se sempre tivesse estado ali 

para continuar comigo para sempre.



Pablo Neruda 

— Os Versos do Capitão (1952)

sábado, 26 de dezembro de 2015

O Vento na Ilha



O vento é um cavalo
Ouça como ele corre
Pelo mar, pelo céu.
Quer me levar: escuta
como recorre ao mundo
para me levar para longe.

Me esconde em teus braços
por somente esta noite,
enquanto a chuva rompe
contra o mar e a terra
sua boca inumerável.

Escuta como o vento
me chama calopando
para me levar para longe.

Com tua frente a minha frente,
com tua boca em minha boca,
atados nossos corpos
ao amor que nos queima,
deixa que o vento passe
sem que possa me levar.

Deixa que o vento corra
coroado de espuma,
que me chame e me busque
galopando na sombra,
entretanto eu, emergido
debaixo teus grandes olhos,
por somente esta noite
descansarei, amor meu.

Pablo Neruda

domingo, 15 de dezembro de 2013

Jon PAUL  


Ao golpe da onda contra a pedra indócil
estala a claridade e estabelece sua rosa
e o círculo do mar se reduz a um cacho,
a uma só gota de sal azul que tomba.

Oh radiante magnólia desatada na espuma,
magnética viageira cuja morte floresce
e eternamente volta a ser e a não ser nada:
sal roto, deslumbrante movimento marinho.

Juntos tu e eu, amor meu, selamos o silêncio,
enquanto o mar destrói suas constantes estátuas
e derruba suas torres de enlevo e brancura,

porque na trama destes tecidos invisíveis
da água entornada, da incessante areia,
sustentamos a única e acossada ternura.


Pablo Neruda

sábado, 2 de novembro de 2013

Poema 1

Renso Castaneda


Cuerpo de mujer, blancas colinas, muslos blancos,
te pareces al mundo en tu actitud de entrega.
Mi cuerpo de labriego salvaje te socava
y hace saltar el hijo del fondo de la tierra.
Fui solo como un túnel. De mí huían los pájaros
y en mí la noche entraba su invasión poderosa.
Para sobrevivirme te forjé como un arma,
como una flecha en mi arco, como una piedra en mi honda.
Pero cae la hora de la venganza, y te amo.
Cuerpo de piel, de musgo, de leche ávida y firme.
Ah los vasos del pecho! Ah los ojos de ausencia!
Ah las rosas del pubis! Ah tu voz lenta y triste!
Cuerpo de mujer mía, persistirá en tu gracia.
Mi sed, mi ansia sin limite, mi camino indeciso!
Oscuros cauces donde la sed eterna sigue,
y la fatiga sigue, y el dolor infinito.


Pablo Neruda,  20 poemas de amor y una canción desepserada

***

Corpo de mulher, alvas colinas, coxas brancas,
Ao mundo te assemelhas em teu ato de entrega.
O meu corpo selvagem de camponês te escava
E faz saltar o filho das entranhas da terra.

Fui um túnel vazio. De mim fugiam pássaros
E a noite me infiltrava sua invasão resoluta.
Para sobreviver forjei-te qual uma arma,
Uma flecha em meu arco, e pedra em minha funda.

Tomba porém a hora da vingança, e eu te amo.
Corpo de pele, de musgo, de leite ávido e firme.
Ah os vasos do peito! Ah os olhos da ausência!
Ah as rosas do púbis! Ah tua voz lenta e triste!

Corpo de mulher minha, persisto em tua graça.
Minha ânsia sem limites, meu caminho indeciso!
Sulcos escuros onde a sede eterna corre,
Onde a fadiga corre, e a dor esse infinito.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Não me sinto mudar



Não me sinto mudar. Ontem eu era o mesmo.
O tempo passa lento sobre os meus entusiasmos
cada dia mais raros são os meus cepticismos,
nunca fui vítima sequer de um pequeno orgasmo

mental que derrubasse a canção dos meus dias
que rompesse as minhas dúvidas que apagasse o meu nome.
Não mudei. É um pouco mais de melancolia,
um pouco de tédio que me deram os homens.

Não mudei. Não mudo. O meu pai está muito velho.

As roseiras florescem, as mulheres partem
cada dia há mais meninas para cada conselho
para cada cansaço para cada bondade.

Por isso continuo o mesmo. Nas sepulturas antigas
os vermes raivosos desfazem a dor,
todos os homens pedem de mais para amanhã
eu não peço nada nem um pouco de mundo.

Mas num dia amargo, num dia distante
sentirei a raiva de não estender as mãos
de não erguer as asas da renovação.

Será talvez um pouco mais de melancolia
mas na certeza da crise tardia
farei uma primavera para o meu coração.


Pablo Neruda, in "Cadernos de Temuco"

sábado, 24 de agosto de 2013

A essência da poesia



Não aprendi nos livros qualquer receita para a composição de um poema; e não deixarei impresso, por meu turno, nem sequer um conselho, modo ou estilo para que os novos poetas recebam de mim alguma gota de suposta sabedoria. Se narrei neste discurso alguns sucessos do passado, se revivi um nunca esquecido relato nesta ocasião e neste lugar tão diferentes do sucedido, é porque durante a minha vida encontrei sempre em alguma parte a asseveração necessária, a fórmula que me aguardava, não para se endurecer nas minhas palavras, mas para me explicar a mim próprio.

Encontrei, naquela longa jornada, as doses necessárias para a formação do poema. Ali me foram dadas as contribuições da terra e da alma. E penso que a poesia é uma ação passageira ou solene em que entram em doses medidas a solidão e solidariedade, o sentimento e a ação, a intimidade da própria pessoa, a intimidade do homem e a revelação secreta da Natureza. E penso com não menor fé que tudo se apoia - o homem e a sua sombra, o homem e a sua atitude, o homem e a sua poesia - numa comunidade cada vez mais extensa, num exercício que integrará para sempre em nós a realidade e os sonhos, pois assim os une e confunde.

E digo igualmente que não sei, depois de tantos anos, se aquelas lições que recebi ao cruzar um rio vertiginoso, ao dançar em torno do crânio de uma vaca, ao banhar os pés na água purificadora das mais elevadas regiões, digo que não sei se aquilo saía de mim mesmo para se comunicar depois a muitos outros seres ou era a mensagem que os outros homens me enviavam como exigência ou desafio. Não sei se aquilo o vivi ou escrevi, não sei se foram verdade ou poesia, transição ou eternidade, os versos que experimentei naquele momento, as experiências que cantei mais tarde.

De tudo aquilo, amigos, surge um ensinamento que o poeta deve aprender dos outros homens. Não há solidão inexpugnável. Todos os caminhos conduzem ao mesmo ponto: à comunicação do que somos. E é necessário atravessar a solidão e aspereza, a incomunicação e o silêncio para chegar ao recinto mágico em que podemos dançar com hesitação ou cantar com melancolia, mas nessa dança ou nessa canção acham-se consumados os mais antigos ritos da consciência; da consciência de serem homens e de acreditarem num destino comum.

(...)

Há exatamente cem anos, um pobre e esplêndido poeta, o mais atroz dos desesperados, escreveu esta profecia: “Ao amanhecer, armados de uma ardente paciência, entraremos nas esplêndidas cidades.”

Acredito nesta profecia de Rimbaud, o vidente. Venho de uma obscura província, de um país separado de todos os outros pela sua talhante geografia. Fui o mais abandonado dos poetas e a minha poesia foi regional, dolorosa e chuvosa. Mas sempre ti­ve confiança no homem. Jamais perdi a esperança. Por isso talvez tenha chegado até aqui com a minha poesia, e também com a minha bandeira.

Em conclusão, devo dizer aos homens de boa vontade, aos trabalhadores, aos poetas, que todo o futuro foi expressado nes­sa frase de Rimbaud: só com uma ardente paciência conquista­remos a esplêndida cidade que dará luz, justiça e dignidade a todos os homens.

Assim a poesia não terá cantado em vão.


Pablo Neruda , In "Nasci para Nascer"

sábado, 10 de agosto de 2013

Tu Vinhas

Vicente Romero Redondo


Não me fizeste sofrer 
mas esperar. 

Naquelas horas 
emaranhadas, cheias 
de serpentes, 
quando 
a alma me caía e eu me afogava, 
tu vinhas-te aproximando, 
tu vinhas nua e arranhada, 
tu chegavas ensanguentada ao meu leito, 
noiva minha, 
e então 
caminhávamos toda a noite dormindo 
e, quando acordávamos, 
estavas intacta e nova, 
como se o vento grave dos sonhos 
acendesse de novo 
o fogo da tua cabeleira 
e em trigo e prata submergisse 
teu corpo até torná-lo deslumbrante. 

Eu não sofri, meu amor, 
esperava-te apenas. 
Tu precisavas de mudar de coração 
e de olhar 
depois de tocares a profunda 
zona do mar que meu peito te entregou. 
Precisavas de sair da água 
pura como uma gota erguida 
por uma onda noturna. 

Noiva minha, tu precisaste 
de morrer e de nascer, eu esperava-te. 
Não sofri a procurar-te, 
sabia que virias, 
mas outra, com o que adoro 
da mulher que não adorava, 
com teus olhos, tuas mãos e tua boca, 
mas com outro coração, 
que amanheceu a meu lado 
como se sempre tivesse estado ali 
para continuar comigo para sempre. 


Pablo Neruda, in "Os Versos do Capitão"

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Tus Pies / Teus pés

Konstantin Razumov



Cuando no puedo mirar tu cara
miro tus pies.

Tus pies de hueso arqueado,
tus pequeños pies duros.

Yo sé que te sostienen,
y que tu dulce peso sobre ellos se levanta.

Tu cintura y tus pechos,
la duplicada púrpura de tus pezones,
la caja de tus ojos que recién han volado,
tu ancha boca de fruta,
tu cabellera roja, pequeña torre mía.

Pero no amo tus pies
sino porque anduvieron sobre la tierra
y sobre el viento
y sobre el agua,
hasta que me encontraron.

***

Quando não te posso contemplar
Contemplo os teus pés.

Teus pés de osso arqueado,
Teus pequenos pés duros,

Eu sei que te sustentam
E que teu doce peso
Sobre eles se ergue.

Tua cintura e teus seios,
A duplicada púrpura
Dos teus mamilos,
A caixa dos teus olhos
Que há pouco levantaram voo,
A larga boca de fruta,
Tua rubra cabeleira,
Pequena tôrre minha.

Mas se amo os teus pés
É só porque andaram
Sobre a terra e sobre
O vento e sobre a água,
Até me encontrarem.

Pablo Neruda

terça-feira, 23 de abril de 2013

Cierto cansancio


“No quiero estar cansado solo,
quiero que te canses conmigo.
Cómo no sentirse cansado
de cierta ceniza que cae
en las ciudades de otoño,
algo que ya no quiere arder,
y que en los trajes se acumula
y poco a poco va cayendo
destiñendo los corazones.

Estoy cansado del mar duro
y de la tierra misteriosa.
Estoy cansado de las gallinas:
nunca supimos lo que piensan,
y nos miran con ojos secos
sin concedernos importancia.

Te invito a que de una vez
nos cansemos de tantas cosas,
de los malos aperitivos
y de la buena educación.

Cansémonos de no ir a Francia,
cansémonos de por lo menos
uno o dos días en la semana
que siempre se llaman lo mismo
como los platos en la mesa,
y que nos levantan, a qué?
y que nos acuestan sin gloria.

Digamos la verdad al fin,
que nunca estuvimos de acuerdo
con estos días incomparables
a las moscas y a los camellos.

He visto algunos monumentos
erigidos a los titanes, 
a los burros de la energía.
Allí los tienen sin moverse
con sus espadas en la mano
sobre sus tristes caballos.
Estoy cansado de las estatuas.
No puedo más con tanta piedra.

Si seguimos así llenando
con los inmóviles el mundo,
¿cómo van a vivir los vivos?

Estoy cansado del recuerdo.

Quiero que el hombre cuando nazca
respire las flores desnudas,
la tierra fresca, el fuego puro,
no lo que todos respiraron.
¡Dejen tranquilos a los que nacen!
¡Dejen sitio para que vivan!
No les tengan todo pensado,
no les lean el mismo libro,
déjenlos descubrir la aurora
y ponerle nombre a sus besos.

Quiero que te canses conmigo
de todo lo que está bien hecho.
De todo lo que nos envejece.
De lo que tienen preparado
para fatigar a los otros.

Cansémonos de lo que mata
y de lo que no quiere morir.”

Pablo Neruda 

domingo, 21 de abril de 2013

Oda a la Poesia

Natan Suglob Photography


Cerca de cincuenta años
caminando
contigo, Poesía.
Al principio
me enredabas los pies
y caía de bruces
sobre la tierra oscura
o enterraba los ojos
en la charca
para ver las estrellas.
Más tarde te ceñiste
a mí con los dos brazos de la amante
y subiste
en mi sangre
como una enredadera.
Luego
te convertiste
en copa.

Hermoso
fue
ir derramándote sin consumirte,
ir entregando tu agua inagotable,
ir viendo que una gota
caída sobre un corazón quemado
y desde sus cenizas revivía.
Pero no me bastó tampoco.
Tanto anduve contigo
que te perdí el respeto.
Dejé de verte como
náyade vaporosa
te puse a trabajar de lavandera,
a vender pan en las panaderías,
a hilar con las sencillas tejedoras,
a golpear hierros en la metalurgia.
Y seguiste conmigo
andando por el mundo,
pero tú ya no eras
la florida
estatua de mi infancia.
Hablabas
ahora
con voz férrea.
Tus manos
fueron duras como piedras.
Tu corazón
fue un abundante
manantial de campanas,
elaboraste pan a manos llenas,
me ayudaste a no caer de bruces,
me buscaste
compañía,
no una mujer,
no un hombre,
sino miles, millones.
Juntos, Poesía,
fuimos
al combate, a la huelga,
al desfile, a los puertos,
a la mina,
y me reí cuando saliste
con la frente manchada de carbón
o coronada de aserrín fragante
de los aserraderos.
Y no dormíamos en los caminos.
Nos esperaban grupos
de obreros con camisas
recién lavadas y banderas rojas.

Y tú, Poesía,
antes tan desdichadamente tímida,
a la cabeza
fuiste
y todos
se acostumbraron a tu vestidura
de estrella cotidiana,
porque aunque algún relámpago delató tu familia
cumpliste tu tarea,
tu paso entre los pasos de los hombres.
Yo te pedí que fueras
utilitaria y útil,
como metal o harina,
dispuesta a ser arado,
herramienta,
pan y vino,
dispuesta, Poesía,
a luchar cuerpo a cuerpo
y a caer desangrándote.

Y ahora,
Poesía,
gracias, esposa,
hermana o madre
o novia,
gracias, ola marina,
azahar y bandera,
motor de música,
largo pétalo de oro,
campana submarina,
granero
inextinguible,
gracias,
tierra de cada uno
de mis días,
vapor celeste y sangre
de mis años,
porque me acompañaste
desde la más enrarecida altura
hasta la simple mesa
de los pobres,
porque pusiste en mi alma
sabor ferruginoso
y fuego frío,
porque me levantaste
hasta la altura insigne
de los hombres comunes,
Poesía,
porque contigo
mientras me fui gastando
tú continuaste
desarrollando tu frescura firme,
tu ímpetu cristalino,
como si el tiempo
que poco a poco me convierte en tierra
fuera a dejar corriendo eternamente
las aguas de mi canto.


Pablo Neruda

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

O oleiro

Jean-Pierre Leclercq



Todo teu corpo tem
taça ou doçura destinada a mim.

Quando levanto a mão
encontro em cada ponto uma paloma
que me buscava, como
se tu fosses, amor, feita de argila
só para as minhas mãos de ceramista.

Teus joelhos, teus seios,
tua cintura,
me fazem falta como no vão
de uma terra sedenta
da qual foi desprendida
uma forma,
e juntos
somos completos como um rio único,
como uma única areia.



(Pablo Neruda - tradução de Thiago de Mello)

sexta-feira, 30 de novembro de 2012



AMOR, quantos caminhos até chegar a um beijo,
que solidão errante até tua companhia!
Seguem os trens sozinhos rodando com a chuva.
Em Taltal não amanhece ainda a primavera.

Mas tu e eu, amor meu, estamos juntos,
juntos desde a roupa às raízes,
juntos de outono, de água, de quadris,
até ser só tu, só eu juntos.

Pensar que custou tantas pedras que leva o rio,
a desembocadura da água de Boroa,
pensar que separados por trens e nações

tu e eu tínhamos que simplesmente amar-nos,
com todos confundidos, com homens e mulheres,
com a terra que implanta e educa os cravos.


Pablo Neruda
Tradução Carlos nejar

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Soneto LXXXIX

Graça Loureiro


Quando eu morrer quero tuas mãos em meus olhos:
quero a luz e o trigo de tuas mãos amadas
passar uma vez mais sobre mim seu viço:
sentir a suavidade que mudou meu destino.

Quero que vivas enquanto eu, adormecido, te espero,
quero que teus ouvidos sigam ouvindo o vento,
que cheires o amor do mar que amamos juntos
e que sigas pisando a areia que pisamos.

Quero que o que amo continue vivo
e a ti amei e cantei sobre todas as coisas,
por isso segue tu florescendo, florida,

Para que alcances tudo o que meu amor te ordena,
para que passeie minha sombra por teu pelo,
para que assim conheçam a razão de meu canto.


Pablo Neruda 

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Mariposa de otoño

“Mariposas” by Elena Dudina



La mariposa volotea
y arde —con el sol—; a veces.

Mancha volante y llamarada,
ahora se queda parada
sobre una hoja que la mece.

Me decían: —No tienes nada.
No estás enfermo. Te parece.

Yo tampoco decía nada.
Y pasó el tiempo de las mieses.

Hoy una mano de congoja
llena de otoño el horizonte.
Y hasta de mi alma caen hojas.

Me decían: —No tienes nada.
No estás enfermo. Te parece.

Era la hora de las espigas.
El sol, ahora,
convalece.

Todo se va en la vida, amigos.
Se va o perece.

Se va la mano que te induce.
Se va o perece.

Se va la rosa que desates.
También la boca que te bese.

El agua, la sombra y el vaso.
Se va o perece.

Pasó la hora de las espigas.
El sol, ahora, convalece.

Su lengua tibia me rodea.
También me dice: —Te parece.

La mariposa volotea,
revolotea,
y desaparece.


Pablo Neruda

domingo, 4 de novembro de 2012




Aquí estoy con mi pobre cuerpo frente al crepúsculo
que entinta de oros rojos el cielo de la tarde:
mientras entre la niebla los árboles obscuros
se libertan y salen a danzar por las calles.

Yo no sé por qué estoy aquí, ni cuando vine
ni por qué la luz roja del Sol lo llena todo:
me basta con sentir frente a mi cuerpo triste
la inmensidad de un cielo de luz teñido de oro,

la inmensa rojedad de un sol que ya no existe,
el inmenso cadáver de una tierra ya muerta,
y frente a las astrales luminarias que tiñen el cielo,
la inmensidad de mi alma bajo la tarde inmensa.


Pablo Neruda

***

Aqui estou com meu pobre corpo frente ao crepúsculo
que entinta de ouros vermelhos o céu da tarde:
enquanto entre a névoa as árvores escuras
se libertam e saem a dançar pelas ruas.

Eu não sei por que estou aqui, nem quando vim,
nem por que a luz vermelha do sol preenche tudo;
basta-me sentir frente a meu corpo triste
a imensidão de um céu de luz tingido de ouro,

a imensa vermelhidão de um sol que não mais existe,
o imenso cadáver de uma terra já morta,
e frente às astrais luminárias que tingem o céu,
a imensidão de minha alma sob a tarde imensa.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Poema XIV

Jackie Hall 


Juegas todos los días con la luz del universo.
Sutil visitadora, llegas en la flor y en el agua.
Eres más que esta blanca cabecita que aprieto
como un racimo entre mis manos cada día.

A nadie te pareces desde que yo te amo.
Déjame tenderte entre guirnaldas amarillas.
Quién escribe tu nombre con letras de humo entre las estrellas del sur?
Ah déjame recordarte cómo eras entonces, cuando aún no existías.

De pronto el viento aúlla y golpea mi ventana cerrada.
El cielo es una red cuajada de peces sombríos.
Aquí vienen a dar todos los vientos, todos.
Se desviste la lluvia.

Pasan huyendo los pájaros.
El viento. El viento.
Yo sólo puedo luchar contra la fuerza de los hombres.
El temporal arremolina hojas oscuras
y suelta todas las barcas que anoche amarraron al cielo.

Tú estás aquí. Ah tú no huyes.
Tú me responderás hasta el último grito.
Ovíllate a mi lado como si tuvieras miedo.
Sin embargo alguna vez corrió una sombra extraña por tus ojos.

Ahora, ahora también, pequeña, me traes madreselvas,
y tienes hasta los senos perfumados.
Mientras el viento triste galopa matando mariposas
yo te amo, y mi alegría muerde tu boca de ciruela.

Cuanto te habrá dolido acostumbrarte a mí,
a mi alma sola y salvaje, a mi nombre que todos ahuyentan.
Hemos visto arder tantas veces el lucero besándonos los ojos
y sobre nuestras cabezas destorcerse los crepúsculos en abanicos girantes.

Mis palabras llovieron sobre ti acariciándote.
Amé desde hace tiempo tu cuerpo de nácar soleado.
Hasta te creo dueña del universo.
Te traeré de las montañas flores alegres, copihues,
avellanas oscuras, y cestas silvestres de besos.

Quiero hacer contigo
lo que la primavera hace con los cerezos.



Pablo Neruda 
20 poemas de amor y una canción desesperada


terça-feira, 12 de junho de 2012

Angela Blank


Se não fosse  porque têm cor-de-lua teus olhos,
de dia com argila, com trabalho, com fogo,
e aprisionada tens a agilidade do ar,
se não fosse porque uma semana és de âmbar.

se não fosse porque és o momento amarelo
em que o outono sobe pelas trepadeiras
e és ainda o pão que a lua fragrante
elabora passeando sua farinha pelo céu,

oh, bem-amada, eu não te amaria!
Em teu abraço eu abraço o que existe,
a areia, o tempo, a árvore da chuva,

e tudo vive para que eu viva:
sem ir tão longe posso ver tudo:
vejo em tua vida todo o vivente.


Pablo Neruda

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Te Amo



Te amo de uma maneira inexplicável 
de uma forma inconfessável 
de um modo contraditório 
Te amo 
Te amo , com meus estados de ânimo que são muitos 
e mudar de humor continuadamente 
pelo que você já sabe 
o tempo 
a vida 
a morte 
Te amo 
Te amo, com o mundo que não entendo 
com as pessoas que não compreendem 
com a ambivalência de minha alma 
com a incoerência dos meus atos 
com a fatalidade do destino
 com a conspiração do desejo 
com a ambigüidade dos fatos 
ainda quando digo que não te amo, te amo 
até quando te engano, não te engano
 no fundo levo a cabo um plano 
para amar-te melhor. 
Te amo. 
Te amo , sem refletir, inconscientemente 
irresponsavelmente, espontaneamente 
involuntariamente, por instinto 
por impulso, irracionalmente 
de fato não tenho argumentos lógicos 
nem sequer improvisados 
para fundamentar este amor que sinto por ti 
que surgiu misteriosamente do nada 
que não resolveu magicamente nada 
e que milagrosamente, pouco a pouco, com pouco e nada, 
melhorou o pior de mim 
Te amo. 
te amo com um corpo que não pensa 
com um coração que não raciocina 
com uma cabeça que não coordena 
Te amo
te amo incompreensivelmente 
sem perguntar-me porque te amo 
sem importar-me porque te amo 
sem questionar-me porque te amo 
Te amo 
simplesmente porque te amo 
eu mesmo não sei porque te amo



 Te amo de uma manera inexplicable
 De una forma inconfesable 
 De un modo contradictorio 
 Te amo Con mis estados de ánimo que son muchos 
Y cambian de humor continuamente 
 Por lo que ya sabes, 
 El tiempo 
 La vida 
 La muerta
 Te amo Con el mundo que no entiendo 
Con la gente que no compreende 
 Com la ambivalencia de mi alma 
 Con la incoherencia de mis actos 
 Con la fatalidad del destino
 Con la conspiración del desejo 
 Con la ambigüedad de los hechos 
 Aún cuando te digo que no te amo, te amo ainda 
 Hasta cuando te angaño, no te engaño 
 En el fondo, ilevo a cabo un plan 
 Para amarte mejor. 
Te amo. 
Sin reflexionar, inconscientemente, 
 irresponsablemente, espontáneamente 
 involutariamente, por instinto
 involuntariamente, por instinto 
 por impulso, irracionalmente 
En afecto no tengo argumentos lógicos 
 ni siquiera improvisados 
 Para fundamentar este amor que siento por ti, 
 que surgió misteriosamente de la nada, 
 Que no ha resuelto mágicamente nada 
 Y que milagrosamente, de a poco, con poco ya nada 
 Ha mejorado lo peor de mi 
 Te amo. 
Te amo con un cuerpo que no piensa 
 Con un corazón que no razona, 
 Con una cabeza que no coordina 
 Te amo incomprensiblemente
 Sin preguntarme por qué te amo 
 Sin importarme por qué te amo 
 Sin cuestionarme por qué te amo 
 Te amo sencillamente porque te amo 
 Yo mismo no se por qué te amo 


Pablo Neruda
imagens: Howard Schatz
 Laszlo Gulyas 

 
MATILDE, nome de planta ou pedra ou vinho,
do que nasce da terra e dura,
palavra em cujo crescimento amanhece,
em cujo estio rebenta a luz dos limões.
 
Nesse nome correm navios de madeira
rodeados por enxames de fogo azul-marinho,
e essas letras são a água de um rio
que em meu coração calcinado desemboca.
 
Oh nome descoberto sob uma trepadeira
como a porta de um túnel desconhecido
que comunica com a fragrância do mundo!
 
Oh invade-me com tua boca abrasadora,
indaga-me, se queres, com teus olhos noturnos,
mas em teu nome deixa-me navegar e dormir.


Pablo Neruda
Tradução de Carlos Nejar

sexta-feira, 6 de abril de 2012

La Infinita



Ves estas manos? Han medido
la tierra, han separado
los minerales y los cereales,
han hecho la paz y la guerra,
han derribado las distancias
de todos los mares y ríos,
y sin embargo
cuando te recorren
a ti, pequeña,
grano de trigo, alondra,
no alcanzan a abarcarte,
se cansan alcanzando
las palomas gemelas
que reposan o vuelan en tu pecho,



recorren las distancias de tus piernas,
se enrollan en la luz de tu cintura.
Para mí eres tesoro más cargado
de inmensidad que el mar y sus racimos
y eres blanca y azul y extensa como
la tierra en la vendimia.
En ese territorio,
de tus pies a tu frente,
andando, andando, andando,
me pasaré la vida.


Pablo Neruda
art: stephen pan

.