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sábado, 7 de agosto de 2010

Nicolas Ségur, O leito conjugal (4)


O ser humano é campo de mil sementes imponderáveis que grelam, amadurecem nele sem que o suspeitemos. Ignoramos os outros, mas talvez nos ignoremos a nós mesmos ainda mais. Crendo ter vida estabilizada, sentimentos duráveis, faculdades de julgamento, estamos na realidade à mercê de uma porta que se abre, de uma lufada de temporal, da expressão de dois olhos, da luz de um sorriso, e demais, de nossas hereditariedades, de nossos ímpetos, de vagos instintos, desse infinito de elementos que se agitam em nós e fora de nós. [...] Acontece, às vezes, que encontramos assim um rosto que é como resposta a um sonho que ideávamos, a um desejo recôndito, a uma aspiração latente. Os quatro olhos cruzaram-se, e os olhares entraram nos seres como um fermento, como uma obsessão, como um mal.

Nicolas Ségur, O leito conjugal

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Nicolas Ségur, O Leito Conjugal



O ciúme! Este sentimento atenua-se, com o tempo, nos seres que refletem. Não mais causa dramas senão nos primitivos, nos impulsivos. Éramos ciumentos porque estávamos acostumados a considerar que a mulher, pelo fato de partilhar do nosso prazer, era coisa nossa, um objeto que nos pertencia e que não podíamos consentir em ceder a outrem. Quando a noção de que a mulher é livre ao mesmo título que nós, que é nossa igual, for adotada por todos – que digo! – quando se tornar evidente, em vez de ciúme, será dor que sentiremos perante o seu abandono. Já hoje a cólera dos maridos enganados não mais provém, na mor parte dos casos, senão do receio que têm da opinião pública, e não do seu amor lesado. Temos medo de sentirmo-nos em estado de inferioridade, de vermo-nos ridicularizados. Mas também por esse lado as convenções sociais modificam-se, perdem-se uma após outra. O ridículo ligado à pessoa do marido enganado escapa de mais em mais às novas gerações. O adultério cessará, por assim dizer, de chamar a atenção, pelo menos nas grandes cidades. O que perdurará será apenas o poder do sentimento, o invencível domínio do amor que aliena um coração.

 Nicolas Ségur, O Leito Conjugal

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Nicolas Ségur, O leito conjugal




“Outrora, o casamento era indissolúvel, baseado de um lado sobre o domínio do homem, que era pilar-mestre da casa, o único responsável, e doutro lado, sobre a inferioridade da mulher, a quem só incumbia embalar humildemente o senhor, servi-lo, assegurar a sua continuidade. Nessa época, u’a mulher que se mostrava infiel cometia um crime perante seu senhor e era uma generosidade suprema, da parte deste, o fato de a perdoar. Em nossos dias, com a faculdade do divórcio, [...] e com a decadência dos privilégios masculinos, o casamento tornou-se simples pacto, um modo de associação.

U’a mulher [...] rivaliza com qualquer homem, quanto à educação, à capacidade e ao talento. Rivaliza com ele até mesmo pela firmeza de caráter e punho forte com o qual se avantaja a domar a vida. [...] A maioria dos maridos engana sua mulher. Por que, pois, tendo-se alçado ao mesmo nível social que nós e não mais estando mesmo retidas pelas barreiras morais que faziam suas antepassadas deterem-se, não nos enganariam as mulheres? Por que não pretenderiam elas os memos direitos que nós? Tenhamos coragem de confessar que, em nossa época, o único obstáculo que se opõe ao livre derrame dos instintos da mulher é sua escravatura sensual a um homem, o qual, criando para ela a ilusão do amor, obriga-a mui naturalmente à felicidade. Sim, somente o perpétuo atolar-se produzido pela misteriosa demência que se chama amor, pode manter puros os liames do casamento. [...] Perdoar é, talvez, o único meio que doravante resta ao homem para reter a mulher. E, entretanto, sabes por ti mesmo quanto é difícil perdoar a traição da mulher que se ama."

Nicolas Ségur, O leito conjugal