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sábado, 6 de junho de 2009

Culpa...




...pessoas há que desperdiçam sua passagem pelo mundo atormentadas pela culpa. Nem é mais o mundo, que um grande tanque cheio de culpados imaginários e reais e de seres a quem ensinaram sentir-se (quando muito) causadores ou responsáveis. Maldita seja a noção de culpa com que gerações precedentes nos marcaram e esmagaram! Maldito seja quem chama causa de culpa e quem se aceita culpado apenas por ser o responsável! Culpa é a carga genética mais dolorosa que inculcaram nos homens e nos povos. Culpados são condenados ao inferno em vida. É preciso acender uma estrela e banir o sentimento de culpa do coração e do inconsciente humano! É preciso mergulhar uma margarida nas águas salgadas do mar e com ela purificar os que se sentem culpados, ou os que já nasceram culpados do que ainda não fizeram, ou os que foram gerados na culpa por pais portadores de penas por eles não controladas! Culpa é raro e sério demais para ser vulgarizada assim. É culpado quem mata. Não é culpado quem ofende. Não é culpado quem defende. Não Não tem culpa quem não pode fazer mais do que faz ou quem foi relegado à miséria, à ignorância, à morte em vida. Não é culpado quem não consegue. Não é culpado o que fracassa. Não é culpado nem o que erra se o faz de boa fé.Culpa é assunto dos deuses que nos punem por interferir nele. E a dor ou a paralisia do ser, decorrentes dessa punição são internas e paralisam vidas inteiras.


Arthur da Távola

sábado, 9 de maio de 2009

A Mulher e Seus Climas



A mulher não é ela. É o clima dela.
Melhor do que perfumes é o cheirinho de banho recente que se descobre no cabelo e na nuca ou de capim cheiroso espalhado no armário e herdado pela blusa ou camisola.
Nada de voz aguda. Um tom médio para grave é preferível. Uma gota de rouquidão incentiva.
Nada de perfeições! Nem de corpo, nem de inteligência e espírito. Só de carácter. Mulher mau carácter é tão raro quanto repulsivo. O importante é mesmo ter algo de errado no corpo ou no rosto, atraentes. Certos pequenos erros acentuam traços ou detalhes que, isolados, crescem muito e ganham o todo. O lábio um pouco mais grosso, seios com bicos estrábicos, alguma penugem de que ela não goste mas necessária, o nariz um pouco maior do que ela desejaria, tudo isso aquece a atracção.
Carinho tem hora. Não hora marcada, mas hora adivinhada. Carinho fora de hora, eriça. Olhar de uma tristeza tão antiga quanto encarnações é forte factor de atracção.
Lágrimas a postos. Sempre. Por favor, nenhuma bronca com barriguinha ou descuido nosso. Nada de exigências ascéticas, dietéticas, apologéticas ou ideológicas. Mulher que atrai e mantém o seu homem é a que gosta mais de alguns defeitos dele do que de uma perfeição idealizada ou basbaque certinho demais. Mas honradez ele deve ter...
Mulher deve falar como quem insinua em vez de ordenar. Pedir como quem ajuda; saber esperar. E não pode ficar falando "eu acho" toda hora, nem descuidar-se das unhas dos pés.
Pudor é essencial. Mas um pudor velado, revelado apenas na linguagem subtil mas eloquente de seu corpo, no modo de se encolher na cadeira ou cruzar os pés. Rebolados, só os muito suaves e discretos. Mas evidentes.
Ser friorenta é indispensável.
Se for possível preferir o silêncio - entre reclamar e reivindicar, salvo quando tenha muita razão, melhor ainda. Se não for assim, que venha a bronca, mas com mansidão. E depois não permaneça a resmungar.
Que goste de eventuais e raros pilequinhos, jamais de alcoolismo. Que ame beijar. Aprecie e valorize gentileza e adore ser deixada cruzar a porta na frente.
Pisar firme, mas leve. Mulher não deve chegar, deve aparecer. Não deve entrar, deve aproximar-se. Não deve mastigar, deve sorver. E por favor, cuspir, jamais. Só no consultório dentário...
Ar de brincadeira antes de amar é receita infalível. E dormir o mais encolhidinho possível e depois acordar solta, confiante no sono.
Em viagens é essencial cuidar da gente. E guardar sempre uma surpresa para ser dada de repente.
Sim, ser bela nada tem com ser bonita. É muito mais. Porque a mulher não é apenas ela. É também o clima dela.


Artur da Távola

terça-feira, 7 de abril de 2009

Vida é conflito

imagem: haleh bryan

Quanto mais vivo, mais me convenço de que viver é a possibilidade de se aprender a compreender e a enfrentar conflito. Vida é conflito, e conflito não quer dizer briga, como se diz. Conflito é luta consigo mesmo.
O que tem solução não é conflito: é problema, impasse. O conflito é um complexo de conteúdos, que perduram além e adiante da solução, e que aumentam tanto quando há, como quando não há solução.
O conflito é, pois, um enigma existencial! Nunca tem resposta total, por isso vida é drama.
Drama é se viver na impossibilidade de solucionar a maioria dos conflitos que nos cercam. O mito é o material interno do conflito, a lavrar-lhe no íntimo, impossível de apreensão ou compreensão plenas.
Desafiado pelo conflito, o ser humano empreende a tentativa de solução, pois foi dotado de uma mente que também é lógica e racional, e, entre as suas imperfeições, possui a de não conseguir conviver com a dúvida.
O homem é um ser que não consegue viver com o que lhe é matéria-prima: a dúvida. Porém sem ela não vive, vegeta.
Não há, pois, solução - a não ser parcial - para os conflitos. A vida é a sucessão deles e quanto mais o ser consiga a contrição e a auto-reflexão, iluminar-se-á em cada fase e se enriquecerá de dúvida, de impasse e de suplício, transformando sua existência numa luta rica.
Compreender a dificuldade e a impossibilidade de plenitude em qualquer resposta é descobrir o caminho da existência madura, forte, porque capaz de enfrentar a certeza de que vida é drama e suplício (não no sentido de sofrimento ou martírio, mas de trabalho existencial e tarefa de conviver com o conflito).
Fazê-lo (ao conflito) parte do ser é única maneira de minimizar seus efeitos e enriquecer-se com suas verdades contraditórias.
É da capacidade de enfrentar todas as dores da verdade que fazemos a "corrente sem elos" de nosso amadurecimento, o que não quer dizer que solucionamos nossos conflitos e, sim, que temos a coragem de neles mergulhar para melhorarmos, doendo. ao mesmo tempo em que descobrindo as felicidades possíveis.


Artur da Távola