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sexta-feira, 29 de julho de 2022

Poema


Senhora de muito espanto,

vestindo coisas longínquas

e alguns farrapos de sono,


eu vim para te dizer

que inutilmente contemplo

na planície de teus olhos

o incêndio do meu orgulho.


Senhora de muito espanto,

sentada além do crepúsculo

e perfeitamente alheia

a realejos e manhãs.


Eu vim para te mostrar

que se inaugurou um abismo

vertical e indefinido

que vai do meu lábio arguto

ao chumbo do teu vestido.


Senhora de muito espanto

e alguns farrapos de sono,

onde o céu é coisa gasta

que ao meu gesto se confunde.


Um dia perdi teu corpo

nas cores do mapa-múndi.


Carlos Pena

terça-feira, 26 de abril de 2022

Soneto do Desmantelo Azul

Victoria Stoyanova


Então, pintei de azul os meus sapatos

por não poder de azul pintar as ruas,

depois, vesti meus gestos insensatos 

e colori as minhas mãos e as tuas,


Para extinguir em nós o azul ausente

e aprisionar no azul as coisas gratas,

enfim, nós derramamos simplesmente

azul sobre os vestidos e as gravatas.


E afogados em nós, nem nos lembramos

que no excesso que havia em nosso espaço

pudesse haver de azul também cansaço.


E perdidos de azul nos contemplamos

e vimos que entre nós nascia um sul

vertiginosamente azul. Azul.


Carlos Pena Filho

quarta-feira, 3 de julho de 2013

A Mesma Rosa Amarela

Emma Uber Art


Você tem,
Quase tudo dela,
O mesmo perfume,
A mesma cor,
A mesma rosa amarela,
Só não tem o meu amor.
Mas nesses dias de carnaval,
Para mim você vai ser ela,
O mesmo perfume a mesma cor,
A mesma rosa amarela,
Mas não sei o que será,
Quando chegar a lembrança dela,
E de você apenas restar,
A mesma rosa amarela


Capiba/ Carlos Pena filho

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Testamento do Homem Sensato



Quando eu morrer, não faças disparates 
nem fiques a pensar: “Ele era assim...”
Mas senta-te num banco de jardim, 
calmamente comendo chocolates. 

Aceita o que te deixo, o quase nada 
destas palavras que te digo aqui: 
Foi mais que longa a vida que eu vivi, 
para ser em lembranças prolongada. 

Porém, se um dia, só, na tarde em queda, 
surgir uma lembrança desgarrada, 
ave que nasce e em vôo se arremeda, 

deixa-a pousar em teu silêncio, leve 
como se apenas fosse imaginada, 
como uma luz, mais que distante, breve. 


Carlos Pena Filho

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Soneto do desmantelo azul

Markus Klinko


Então, pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos 
e colori as minhas mãos e as tuas,

Para extinguir em nós o azul ausente
e aprisionar no azul as coisas gratas,
enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas.

E afogados em nós, nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço.

E perdidos de azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul. Azul.


Carlos Pena Filho

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Poema


SVETLANA VALUEVA



Senhora de muito espanto,
vestindo coisas longínquas
e alguns farrapos de sono,

eu vim para te dizer
que inutilmente contemplo
na planície de teus olhos
o incêndio do meu orgulho.

Senhora de muito espanto,
sentada além do crepúsculo
e perfeitamente alheia
a realejos e manhãs.

Eu vim para te mostrar
que se inaugurou um abismo
vertical e indefinido
que vai do meu lábio arguto
ao chumbo do teu vestido.

Senhora de muito espanto
e alguns farrapos de sono,
onde o céu é coisa gasta
que ao meu gesto se confunde.

Um dia perdi teu corpo
nas cores do mapa-múndi.


Carlos Pena Filho 

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

A Rosa, no íntimo

andrey razoomovsky


Entro em teu breve sono, onde os minutos
são três pássaros líquidos e enorme,
e descubro os gelados aquedutos
 guardiães do silêncio, enquanto dormes.

Pouso a cabeça nos teus lábios sujos
de mundo e tempo, e vejo que possuis
em teus seios, dois bêbados marujos
desesperados, sós, raros, azuis.

Enfim, além (no além de tuas pernas
onde Deus repousou a sua face,
cansado de inventar coisas eternas)

desvendo, ao desespero de quem passe,
a rosa que és, a mística e sombria
a noturna e serena rosa fria.


Carlos Pena Filho


sábado, 14 de abril de 2012



Primeiro Poema no Vazio


Buscava tudo o que havia
de nunca mais encontrar
em sua face macia
em seu leve caminhar,
nas rotas claras do dia
nos verdes sulcos do mar
e de tudo quanto havia
de nunca mais encontrar
restou a forma vazia
suspensa no seu olhar
e a tênue melancolia
de quem não se soube achar
nas rotas claras do dia
nos verdes sulcos do mar.




Segundo Poema no Vazio


Este vento que chegou
talvez da costa irlandesa
e entrando pela janela
debruçou-se em minha mesa,
e fez agora esse gesto
de entre alegria e surpresa,
é o mesmo que há muitos anos
lavou teu rosto, Teresa,
e te deixou sob a pele
essa invisível tristeza
de quem descobre o que existe
de mágoa, atrás da beleza
e por isso se arremessa,
água solta da represa,
e embora deixando os olhos
nos objetos da mesa
perde o pensamento e a sombra
na fria costa irlandesa.


Carlos Pena Filho
imagens: Antonio Sgarbossa