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domingo, 26 de março de 2023

 


E se às vezes, nos degraus de um palácio, na grama verde de um fosso, na solidão triste do seu quarto, você acorda, a embriaguez já diminuída ou desaparecida, pergunte ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, pergunte que horas são e o vento, a onda, a estrela, o pássaro, o relógio lhe responderão: “É hora de embriagar-se!

Charles Baudelaire

domingo, 11 de novembro de 2012

Spleen

Arantza Sestayo


Quand le ciel bas et lourd pèse comme un couvercle
Sur l'esprit gémissant en proie aux longs ennuis,
Et que de l'horizon embrassant tout le cercle
Il nous verse un jour noir plus triste que les nuits;

Quand la terre est changé en un cachot humide,
Où l'Espérance, comme une chauve-souris,
S'en va battant les murs de son aile timide
Et se cognant la tête à des plafonds pourris;

Quand la pluie étalant ses immenses traînées
D'une vaste prison imite les barreaux,
Et qu'un peuple muet d'infâmes araignées
Vient tendre ses filets au fond de nos cerveaux,

Des cloches tout à coup sautent avec furie
Et lancent vers le ciel un affreux hurlement,
Ainsi que des esprits errants et sans patrie
Qui se mettent à geindre opiniâtrément.

- Et de longs corbillards, sans tambours ni musique,
Défilent lentement dans mon âme; l'Espoir,
Vaincu, pleure, et l'Angoisse atroce, despotique,
Sur mon crâne incliné plante son drapeau noir.

Charles Baudelaire

***

Spleen

Quando o céu baixo cai, pesado como tampa,
Sobre a mente que sofre a dor de um longo açoite,
Toldando do horizonte sua inteira rampa,
Fazendo o dia negro, mais triste que a noite,

Quando a terra se torna uma gelada cela,
Lugar onde a Esperança, imitando o morcego,
Vai roçando no muro a asa com cautela,
Ferindo-se no teto podre sem sossego;

Quando a chuva desdobra cortinas enormes,
De uma vasta prisão imitando a muralha,
E um povo calado de aranhas disformes
No fundo da cabeça tece sua malha,

Badaladas de sino irrompem com furor
E lançam para o céu um urro de heresia,
Almas penadas sem volta e sem amor,
A gritar e gemer de pé, por teimosia.

-- E um longo funeral, sem música ou tambor,
Desfila devagar na alma; a Esperança
Vencida chora e a Angústia carniceira
Finca no crânio meu sua negra bandeira.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Le Balcon / A Varanda



Mère des souvenirs, maîtresse des maîtresses,
Ô toi, tous mes plaisirs! ô toi, tous mes devoirs!
Tu te rappelleras la beauté des caresses,
La douceur du foyer et le charme des soirs,
Mère des souvenirs, maîtresse des maîtresses!

Les soirs illuminés par l'ardeur du charbon,
Et les soirs au balcon, voilés de vapeurs roses.
Que ton sein m'était doux! que ton coeur m'était bon!
Nous avons dit souvent d'impérissables choses
Les soirs illumines par l'ardeur du charbon.

Que les soleils sont beaux dans les chaudes soirées!
Que l'espace est profond! que le coeur est puissant!
En me penchant vers toi, reine des adorées,
Je croyais respirer le parfum de ton sang.
Que les soleils sont beaux dans les chaudes soirées!

La nuit s'épaississait ainsi qu'une cloison,
Et mes yeux dans le noir devinaient tes prunelles,
Et je buvais ton souffle, ô douceur! ô poison!
Et tes pieds s'endormaient dans mes mains fraternelles.
La nuit s'épaississait ainsi qu'une cloison.

Je sais l'art d'évoquer les minutes heureuses,
Et revis mon passé blotti dans tes genoux.
Car à quoi bon chercher tes beautés langoureuses
Ailleurs qu'en ton cher corps et qu'en ton coeur si doux?
Je sais l'art d'évoquer les minutes heureuses!

Ces serments, ces parfums, ces baisers infinis,
Renaîtront-ils d'un gouffre interdit à nos sondes,
Comme montent au ciel les soleils rajeunis
Après s'être lavés au fond des mers profondes?
-- Ô serments! ô parfums! ô baisers infinis!

Charles Baudelaire

***

A Varanda

Mãe da recordação, amante das amantes,
tu, minha devoção! Tu, todo o meu prazer!
Sei que recordarás os mais belos instantes,
a quentura do lar, o tom do entardecer,
mãe da recordação, amante das amantes!

No fim da tarde, à luz das brasas do carvão
e na varanda escura em rósea sombra imersa
tão doce era tua voz! Tão bom teu coração!
Eternamente vou lembrar nossa conversa
no fim da tarde, à luz das brasas do carvão.

Como é bonito o sol na tarde acalorada!
Como é profundo o céu e forte o coração!
Curvado sobre ti, rainha adorada,
aspirava do sangue o perfume são.
Como é bonito o sol na tarde acalorada!

A noite se fechava assim como uma flor.
Meus olhos no escuro os teus adivinhavam
e eu bebia o teu ar, ó veneno! ó licor!
Nas minhas doces mãos os teus pés cochilavam.
A noite se fechava assim como uma flor.

Sei a arte de ter de volta esses momentos,
reviver o passado imerso em teu calor.
Para que procurar os teus encantamentos
longe do colo doce e do seio de amor?
Sei a arte de ter de volta esses momentos!

As juras, os perfumes e os beijos sem fim
poderão ressurgir das mais profundas mágoas
como os sóis que no céu renascem para mim
depois de se lavarem no fundo das águas?
-- Ó juras! ó perfumes! ó beijos sem fim

tradução: Jorge Pontual

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Le Jet d'eau



Tes beaux yeux sont las, pauvre amante!
Reste longtemps, sans les rouvrir,
Dans cette pose nonchalante
Où t'a surprise le plaisir.
Dans la cour le jet d'eau qui jase
Et ne se tait ni nuit ni jour,
Entretient doucement l'extase
Où ce soir m'a plongé l'amour.

La gerbe épanouie
En mille fleurs,
Où Phoebé réjouie
Met ses couleurs,
Tombe comme une pluie
De larges pleurs.

Ainsi ton âme qu'incendie
L'éclair brûlant des voluptés
S'élance, rapide et hardie,
Vers les vastes cieux enchantés.
Puis elle s'épanche, mourante,
En un flot de triste langueur,
Qui par une invisible pente
Descend jusqu'au fond de mon coeur.

La gerbe épanouie
En mille fleurs,
Où Phoebé réjouie
Met ses couleurs,
Tombe comme une pluie
De larges pleurs.

Ô toi, que la nuit rend si belle,
Qu'il m'est doux, penché vers tes seins,
D'écouter la plainte éternelle
Qui sanglote dans les bassins!
Lune, eau sonore, nuit bénie,
Arbres qui frissonnez autour,
Votre pure mélancholie
Est le miroir de mon amour.

La gerbe épanouie
En mille fleurs,
Où Phoebé réjouie
Met ses couleurs,
Tombe comme une pluie
De larges pleurs.

*
O Chafariz

Teus olhos cansados, amada,
não abras agora pra me ver
na pose despreocupada
em que te pegou o prazer.
A água a jorrar no jardim,
que murmura noite e dia,
mantém mansamente em mim
o gozo que o amor irradia.

Ramo d'água sonora,
buquê de flores
que a lua decora
com suas cores,
chuva de pranto chora
os meus amores.

Assim, tua alma incendiada
no clarão ardente do cio
voa no céu sem temer nada,
bem-aventurado vazio!
Depois, morrendo, se espraia,
onda de morna mansidão,
descendo a invisível praia
que vai dar no meu coração.

Ramo d'água sonora,
buquê de flores
que a lua decora
com suas cores,
chuva de pranto chora
os meus amores.

Quando a noite te faz mais terna,
como é doce, sobre os teus seios,
escutar a saudade eterna
que soluça nos lagos cheios!
Lua, noite, água sonora,
árvores de leve rumor,
vossa melancolia agora
é o espelho do meu amor.

Ramo d'água sonora,
buquê de flores
que a lua decora
com suas cores,
chuva de pranto chora
os meus amores.


Charles Baudelaire, tradução Jorge Pontual

terça-feira, 25 de setembro de 2012

A que está sempre sorrindo

Nikola Borissov Photography



Teu ar, teu gesto, tua fronte
São belos qual bela paisagem;
O riso brinca em tua imagem
Qual vento fresco no horizonte.

A mágoa que te roça os passos
Sucumbe à tua mocidade,
À tua flama, à claridade
Dos teus ombros e dos teus braços.

As fulgurantes, vivas cores
De tua vestes indiscretas
Lançam no espírito dos poetas
A imagem de um balé de flores.

Tais vestes loucas são o emblema
De teu espírito travesso;
Ó louca por quem enlouqueço,
Te odeio e te amo, eis meu dilema!

Certa vez, num belo jardim,
Ao arrastar minha atonia,
Senti, como cruel ironia,
O sol erguer-se contra mim;

E humilhado pela beleza
Da primavera ébria em cor,
Ali castiguei numa flor
A insolência da Natureza.

Assim eu quisera uma noite,
Quando a hora da volúpia soa,
Às frondes de tua pessoa
Subir, tendo à mão um açoite,

Punir-te a carne embevecida,
Magoar o teu peito perdoado
E abrir em teu flanco assustado
Uma larga e funda ferida,

E, como êxtase supremo,
Por entre esses lábios frementes,
Mais deslumbrantes, mais ridentes,
Infundir-te, irmã, meu veneno!


Charles Baudelaire

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Réversibilité



Ange plein de gaieté, connaissez-vous l'angoisse,
La honte, les remords, les sanglots, les ennuis,
Et les vagues terreurs de ces affreuses nuits
Qui compriment le coeur comme un papier qu'on froisse?
Ange plein de gaieté, connaissez-vous l'angoisse?

Ange plein de bonté, connaissez-vous la haine,
Les poings crispés dans l'ombre et les larmes de fiel,
Quand la Vengeance bat son infernal rappel,
Et de nos facultés se fait le capitaine?
Ange plein de bonté connaissez-vous la haine?

Ange plein de santé, connaissez-vous les Fièvres,
Qui, le long des grands murs de l'hospice blafard,
Comme des exilés, s'en vont d'un pied traînard,
Cherchant le soleil rare et remuant les lèvres?
Ange plein de santé, connaissez-vous les Fièvres?

Ange plein de beauté, connaissez-vous les rides,
Et la peur de vieillir, et ce hideux tourment
De lire la secrète horreur du dévouement
Dans des yeux où longtemps burent nos yeux avide!
Ange plein de beauté, connaissez-vous les rides?

Ange plein de bonheur, de joie et de lumières,
David mourant aurait demandé la santé
Aux émanations de ton corps enchanté;
Mais de toi je n'implore, ange, que tes prières,
Ange plein de bonheur, de joie et de lumières!

*

Reversibilidade

Anjo da alegria, sabes que a desgraça,
O remorso, soluços, tédio e vergonha,
E o vago terror de uma noite medonha
Fazem do coração um papel que se amassa?
Anjo da alegria, sabes a desgraça?

Anjo da compaixão, conheces o rancor,
Os punhos que se fecham, lágrimas de fel,
Quando a vingança solta o infernal tropel
E nossas vidas doma, como um ditador?
Anjo da compaixão, conheces o rancor?

Anjo da salvação, conheces o delírio
Daqueles que têm febre e, como exilados,
Arrastam-se no hospício sobre os pés cansados
Movendo os lábios secos, implorando alívio?
Anjo da salvação, conheces o delírio?

Anjo da perfeição, as rugas não conheces?
O medo de ficar velho, a crueldade
De ler o horror secreto da piedade
No olhar onde o nosso bebia benesses?
Anjo da beleza, as rugas não conheces?

Anjo pleno de luz, gozo e seduções,
Davi agonizante pediria vida
Aos aromas da tua pessoa querida;
Mas a ti só imploro, anjo, orações,
Anjo pleno de luz, gozo e seduções!


Charles Baudelaire
 tradução Jorge Pontual

terça-feira, 10 de julho de 2012

A Destruição




Sem cessar a meu lado o Demônio se agita,
E nada ao meu redor como um ar impalpável;
Eu o levo aos meus pulmões, onde ele arde e crepita,
Inflando-os de um desejo eterno e condenável.

Às vezes, ao saber do amor que a arte me inspira,
Assume a forma da mulher que eu vejo em sonhos,
E, qual tartufo afeito às tramas da mentira,
Acostuma-me a boca aos seus filtros medonhos.

Ele assim me conduz, alquebrado e ofegante,
Já dos olhos de Deus afinal tão distante,
Às planícies do Tédio, infindas e desertas,

E lança-me ao olhar imerso em confusão
Trajes imundos e feridas entreabertas
- O aparato sangrento e atroz da Destruição!



Charles Baudelaire, "As Flores do Mal"
Tradução de Ivan Junqueira.


quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

A Beleza



De um sonho escultural tenho a beleza rara,
E o meu seio, — jardim onde cultivo a dor,
Faz despertar no Poeta um vivo e intenso amor,
Com a eterna mudez do marmor' de Carrara

Sou esfinge subtil no Azul a dominar,
Da brancura do cisne e com a neve fria;
Detesto o movimento, e estremeço a harmonia;
Nunca soube o que é rir, nem sei o que é chorar.

O Poeta, se me vê nas atitudes fátuas
Que pareço copiar das mais nobres estátuas,
Consome noite e dia em estudos ingentes..

Tenho, p'ra fascinar o meu dócil amante,
Espelhos de cristal, que tornaram deslumbrante
A própria imperfeição: — os meus olhos ardentes!


Charles Baudelaire, in "As Flores do Mal"
Tradução de Delfim Guimarães


quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Causerie

Franz Stuck

Vous êtes un beau ciel d’automne, clair et rose !
Mais la tristesse en moi monte comme la mer,
Et laisse, en refluant, sur ma lèvre morose
Le souvenir cuisant de son limon amer.

-- Ta main se glisse en vain sur mon sein qui se pâme ;
Ce qu’elle cherche, amie, est un lieu saccagé
Par la griffe et la dent féroce de la femme.
Ne cherchez plus mon cœur ; les bêtes l’ont mangé.

Mon cœur est un palais flétri par la cohue ;
On s’y soûle, on s’y tue, on s’y prend aux cheveux !
— Un parfum nage autour de votre gorge nue !…

Ô Beauté, dur fléau des âmes, tu le veux !
Avec tes yeux de feu, brillants comme des fêtes,
Calcine ces lambeaux qu’ont épargnés les bêtes !

Charles Baudelaire

**

Conversa

Você é um belo céu de outono, claro e rosa!
Mas a tristeza em mim sobe como o mar
E deixa ao refluir, sobre a língua morosa,
A lembrança amarga do sal a queimar.

- Sua mão nada encontra no meu peito em dor;
O que ela quer, amiga, já foi arrancado
Pelas unhas e dentes ferozes do amor.
Não há mais coração, por feras devorado.

Meu coração, palácio que a ralé tomou,
E ali saqueia, mata, tudo a pó reduz!
A Beleza, flagelo, assim determinou!

- Um perfume flutua nos seus seios nus!...
Com seus olhos de fogo, brilhantes esferas,
Calcine a cicatriz deixada pelas feras!

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Recueillement



Sois sage, ô ma Douleur, et tiens-toi plus tranquille.
Tu réclamais le Soir; il descend; le voici;
Une atmosphère obscure enveloppe la ville,
Aux uns portant la paix, aux autres le souci.

Pendant que des mortels la multitude vile
Sous le fouet du Plaisir, ce bourreau sans merci,
Va cueillir des remords dans la fête servile,
Ma Douleur, donne-moi la main; viens par ici,

Loin d'eux. Vois se pencher les défuntes Années,
Sur les balcons du ciel, en robes surannées;
Surgir du fond des eaux le Regret souriant;

Le Soleil moribond s'endormir sous une arche,
Et, comme un long linceul traînant à l'Orient,
Entends, ma chère, entends la douce Nuit qui marche.

***

Recolhimento

Sossega, minha Dor, não desesperes não.
Reclamavas da luz; já se vai; finda o dia.
A cidade mergulha na escuridão
que alguns atormenta e outros alivia.

Enquanto dos mortais a reles multidão,
escrava do Prazer, carrasco sem perdão,
vai colhendo remorsos na mísera orgia,
aceita, minha Dor, esta mão que te guia

pra longe deles. Vê como os Anos finados
nos olham lá do céu com seus velhos brocados;
no fundo d'água, a Saudade sorridente;

o sol mortiço sob a ponte se deitar;
e, como mortalha que avança do Oriente,
ouve, cara, ouve a doce Noite chegar.



Charles Baudelaire
 tradução Jorge Pontual


terça-feira, 21 de junho de 2011

A une passante

Yuri Yarosh 


La rue assourdissante autour de moi hurlait.
Longue, mince, en grand deuil, douleur majestueuse,
Une femme passa, d'une main fastueuse
Soulevant, balançant le feston et l'ourlet;

Agile et noble, avec sa jambe de statue.
Moi, je buvais, crispé comme un extravagant,
Dans son oeil, ciel livide où germe l'ouragan,
La douceur qui fascine et le plaisir qui tue.

Un éclair... puis la nuit! -- Fugitive beauté
Dont le regard m'a fait soudainement renaître,
Ne te verrai-je plus que dans l'éternité?

Ailleurs, bien loin d'ici! trop tard! jamais peut-être!
Car j'ignore où tu fuis, tu ne sais où je vais,
Ô toi que j'eusse aimée, ô toi qui le savais!

Charles Baudelaire

***

À uma passante

O alarido da rua me ensurdecia.
Longa, magra, enlutada, altaneira dor,
Ela passou, com um gesto superior,
Balançando os punhos de passamanaria,

Ágil e nobre, no caminhar de vestal.
E eu bebia, como quem mal se aguenta,
No seu olhar, céu negro prenhe de tormenta,
O afeto que fascina e o prazer mortal.

Um raio... e logo o breu! Fugidia beldade,
Cujo olhar me fez renascer de uma só vez,
Só poderei rever-te na eternidade?

Longe daqui! Tarde demais! Jamais talvez!
Não sabes onde vou e não sei onde ias,
Tu que eu teria amado, tu que o sabias!

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Les Bijoux

Konstantin Razumov 


La très-chère était nue, et, connaissant mon coeur,
Elle n'avait gardé que ses bijoux sonores,
Dont le riche attirail lui donnait l'air vainqueur
Qu'ont dans leurs jours heureux les esclaves des Mores.

Quand il jette en dansant son bruit vif et moqueur,
Ce monde rayonnant de métal et de pierre
Me ravit en extase, et j'aime à la fureur
Les choses où le son se mêle à la lumière.

Elle était donc couchée et se laissait aimer,
Et du haut du divan elle souriait d'aise
À mon amour profond et doux comme la mer,
Qui vers elle montait comme vers sa falaise.

Les yeux fixés sur moi, comme un tigre dompté,
D'un air vague et rêveur elle essayait des poses,
Et la candeur unie à la lubricité
Donnait un charme neuf à ses métamorphoses;

Et son bras et sa jambe, et sa cuisse et ses reins,
Polis comme de l'huile, onduleux comme un cygne,
Passaient devant mes yeux clairvoyants et sereins;
Et son ventre et ses seins, ces grappes de ma vigne,

S'avançaient, plus câlins que les Anges du mal,
Pour troubler le repos où mon âme était mise,
Et pour la déranger du rocher de cristal
Où, calme et solitaire, elle s'était assise.

Je croyais voir unis pour un nouveau dessin
Les hanches de l'Antiope au buste d'un imberbe,
Tant sa taille faisait ressortir son bassin.
Sur ce teint fauve et brun le fard était superbe.

-- Et la lampe s'étant résignée à mourir,
Comme le foyer seul illuminait la chambre,
Chaque fois qu'il poussait un flamboyant soupir,
Il inondait de sang cette peau couleur d'ambre!

Charles Baudelaire

***
As Jóias

A bem amada, nua, sabe o que quero eu.
Despiu-se, mas deixou as jóias musicais
Que lhe dão o esplendor, o ar de quem venceu,
Da escrava mourisca que rege as bacanais.

Quando lança ao dançar seu timbre sedutor,
Esse mundo vivo de pedra e de metal
Deixa-me em êxtase, e eu amo com furor
As coisas em que o som e a luz vibram igual.

Ela estava deitada e se deixava amar
E do alto do divã sorria de tocaia
Ao meu amor profundo e doce como o mar,
Que até ela subia como numa praia.

Olhos fixos em mim como um tigre domado,
Ela ensaiava poses com um ar sonhador;
E a inocência unida ao jeito debochado
A essas posições dava um novo sabor.

E o braço e a perna, e a coxa e os quadris,
Lisos como cetim, cisnes a ondular,
Enchiam os meus olhos sábios e gentis;
E o ventre e os seios, frutos do meu pomar,

Vinham mais tentadores que os anjos do Mal
Para abalar a paz em que estava minh'alma
E desalojá-la da torre de cristal
Onde ela se abrigara, solitária e calma.

Parecia-me que um novo traço unia
Suas ancas largas ao busto de um menino,
Tanto o corpo esguio realçava a bacia.
No seu rosto mestiço, o ruge era divino!

E a lâmpada de óleo já tendo morrido,
Como só a lareira iluminava a cena.
Cada vez que de lá vinha um rubro gemido,
Inundava de sangue essa pele morena!

terça-feira, 31 de maio de 2011

Le flacon

AnaMariaSanz

II est de forts parfums pour qui toute matière
Est poreuse. On dirait qu'ils pénètrent le verre.
En ouvrant un coffret venu de l'Orient
Dont la serrure grince et rechigne en criant,

Ou dans une maison déserte quelque armoire
Pleine de l'âcre odeur des temps, poudreuse et noire,
Parfois on trouve un vieux flacon qui se souvient,
D'où jaillit toute vive une âme qui revient.

Mille pensers dormaient, chrysalides funèbres,
Frémissant doucement dans les lourdes ténèbres,
Qui dégagent leur aile et prennent leur essor,
Teintés d'azur, glacés de rose, lamés d'or.

Voilà le souvenir enivrant qui voltige
Dans l'air troublé; les yeux se ferment; le Vertige
Saisit l'âme vaincue et la pousse à deux mains
Vers un gouffre obscurci de miasmes humains;

II la terrasse au bord d'un gouffre séculaire,
Où, Lazare odorant déchirant son suaire,
Se meut dans son réveil le cadavre spectral
D'un vieil amour ranci, charmant et sépulcral.

Ainsi, quand je serai perdu dans la mémoire
Des hommes, dans le coin d'une sinistre armoire
Quand on m'aura jeté, vieux flacon désolé,
Décrépit, poudreux, sale, abject, visqueux, fêlé,

Je serai ton cercueil, aimable pestilence!
Le témoin de ta force et de ta virulence,
Cher poison préparé par les anges! liqueur
Qui me ronge, ô la vie et la mort de mon coeur!


Charles Baudelaire

*

O Frasco

Para certos perfumes, qualquer material
É poroso. Penetram até no cristal.
Ao abrir uma caixa vinda do Oriente,
De fecho enferrujado a ranger estridente,

Ou na casa deserta um antigo armário
Recendendo a passado, a pó e sacrário,
Pode haver lá um frasco que ainda recorda,
De onde escapará uma alma que acorda.

Idéias a dormir, crisálidas primevas,
Vibrando levemente no fundo das trevas,
Abrem asas e voam colorindo o ar
De rosa-aurora, ouro-sol, azul-luar.

São lembranças inebriantes que se erigem
No ar turvo; os olhos fecham; a Vertigem
Toma conta da alma e a empurra com gana
Para o abismo escuro da essência humana;

No fundo desse abismo ela vê num ossário,
Qual Lázaro pungente rasgando o sudário,
Mover-se ao acordar a carcaça espectral
De um velho amor rançoso, doce e sepulcral.

Assim, quando eu estiver perdido na memória
Dos homens, num porão, numa arca simplória,
Quando estiver jogado fora, reles frasco
Troncho, feio, rachado, sujo, sebo, asco,

Serei teu ataúde, amável pestilência!
Guardião da tua força, tua virulência,
Veneno filtrado pelos anjos! Licor
A me queimar, vida e morte do meu amor!

(tradução: Jorge Pontual)

domingo, 15 de maio de 2011

Elevação

by Liliana Sanchez 

Elevação

Por sobre os pantanais, os vales orvalhados,
Por sobre o éter e o mar, por sobre o bosque e o monte,
E muito além do sol, muito além do horizonte,
Para além dos confins dos tetos estrelados,

Meu espírito, vais, com toda agilidade,
Como um bom nadador deleitado na onda,
Sulcas alegremente a imensidão redonda,
Levado por indizível voluptuosidade.

Bem longe deves voar destes miasmas tão baços;
Vai te puruficar por um ar superior,
E bebe, como um puro e divino licor,
O claro fogo que enche os límpidos espaços.

E por trás do pesar e dos tédios terrenos
Que gravam de seu peso a existência dolorosa,
Feliz este que pode de asa vigorosa
Lançar-se para os céus lúcidos e serenos!

Aquele cujo pensar, como a andorinha veloz
Rumo ao céu da manhã em vôo ascensional,
Que plana sobre a vida a entender afinal
A linguagem da flor e da matéria sem voz!

Charles Baudelaire

.**
Élévation

Au-dessus des étangs, au-dessus des vallées,
Des montagnes, des bois, des nuages, des mers,
Par-delà le soleil, par-delà les éthers,
Par-delà les confins des sphères étoilées,

Mon esprit, tu te meus avec agilité,
Et, comme un bon nageur qui se pâme dans l’onde,
Tu sillonnes gaîment l’immensité profonde
Avec une indicible et mâle volupté.

Envole-moi bien loin de ces miasmes morbides,
Va te purifier dans l’air supérieur,
Et bois, comme une pure et divine liqueir,
Le feu clair qui remplit les espaces limpides.

Derrière les ennuis et les vastes chagrins
Qui chargent de leur poids l’existence brumeuse,
Heureux celui qui peut d’une aile vigoureuse
S’enlacer vers les champs lumineux et sereins!

Celui dont les pensers, comme des alouettes,
Vers les cieux le matin prennent un libre essor,
- Qui plane sur la vie et comprend sans effort
Le langage des fleus et des choses muettes!


Charles Baudelaire

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Intangível


Feng Chiang Jiang

Quero-te como quero à abóbada noturna,
Ó vazo de tristeza, ó grande taciturna!
E tanto mais te quero, ó minha bem amada,
Por te ver a fugir, mostrado-te empenhada
Em fazer aumentar, irônica, a distância

Que me separa a mim da celestial estância.
Bem a quero atingir, a abóbada estrelada,
Mas, se julgo alcançar, vejo-a mais afastada!
Pois se eu adoro até - ferro monstro, acredita! -
O teu frio desdém, que te faz mais bonita!



Charles Baudelaire

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

A musa doente

lěng jūn

O que tens essa manhã, ó musa de ar magoado?
Teus olhos estão cheios de visões noturnas,
E vejo que em teu rosto afloram lado a lado
A loucura e a aflição, frias e taciturnas.

Teria o duende róseo ou o súcubo esverdeado
Te ungido com o medo e o mel de suas urnas?
O sonho mau, de um punho déspota e obcecado,
Nas águas te afogou de um mítico Minturnas ?

Quisera eu que, vertendo o odor da exuberância,
O pensamento fosse em ti uma constância
E que o sangue cristão te fluísse na cadência

Das velhas sílabas de uníssona freqüência,
Quando reinavam Febo, o criador das cantigas,
E o grande Pã, senhor do campo e das espigas.


Charles Baudelaire

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Les Yeux de Berthe


Os Olhos de Berta

Tu podes desprezar mesmo os olhos mais famosos,
Belos olhos de minha menina de onde se evade,
Doce como a noite, algo de bom que me invade,
Belos olhos, afoguem-me de encantos assombrosos!
Olhos de minha menina, arcanos adorados,
Que muito se parecem com essas grutas mágicas
Onde, atrás dos montes de sombras letárgicas,
Cintilam, vagamente, tesouros ignorados!
Minha menina tem os olhos azulados e vastos
Como tu, iluminados como tu, Noite imensa!
Os seus fogos são cismas de paixão intensa,
Que tremulam ao largo voluptuosos ou castos.

Les Yeux de Berthe

Vous pouvez mépriser les yeux les plus célèbres,
Beaux yeux de mon enfant, par où filtre et s'enfuit
Je ne sais quoi de bon, de doux comme la Nuit!
Beaux yeux, versez sur moi vos charmantes ténèbres!
Grands yeux de mon enfant, arcanes adorés,
Vous ressemblez beaucoup à ces grottes magiques
Où, derrière l'amas des ombres léthargiques,
Scintillent vaguement des trésors ignorés!
Mon enfant a des yeux obscurs, profonds et vastes
Comme toi, Nuit immense, éclairés comme toi!
Leurs feux sont ces pensers d'Amour, mêlés de Foi,
Qui pétillent au fond, voluptueux ou chastes.


Charles Baudelaire

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Tristesses de la lune

 Christian Schloe. 

Ce soir, la lune rêve avec plus de paresse;
Ainsi qu'une beauté, sur de nombreux coussins,
Qui d'une main distraite et légère caresse
Avant de s'endormir le contour de ses seins,
Sur le dos satiné des molles avalanches,
Mourante, elle se livre aux longues pâmoisons,
Et promène ses yeux sur les visions blanches
Qui montent dans l'azur comme des floraisons.

Quand parfois sur ce globe, en sa langueur oisive,
Elle laisse filer une larme furtive,
Un poète pieux, ennemi du sommeil,

Dans le creux de sa main prend cette larme pâle,
Aux reflets irisés comme un fragment d'opale,
Et la met dans son cœur loin des yeux du soleil.


Esta noite, a lua sonha mais preguiçosa;
Como uma gata na almofada, veio
Antes de dormir, distraída e langorosa,
Acariciar o contorno de um seio,
Nas costas acetinadas, suaves avalanchas,
Em transe, entrega-se a longos espasmos,
Os olhos têm visões de brancas manchas,
Que explodem no céu azul como orgasmos.

Se, nesse globo, ociosa e lasciva,
Deixa escapar uma lágrima furtiva,
Um poeta muito piedoso, boêmio farol,

No oco das suas mãos guarda essa lágrima rala,
De reflexos irisados como um fragmento de opala,
E a esconde no coração, longe dos olhos do sol.


Charles Baudelaire
Trad. de Juremir Machado da Silva

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Le Serpent qui danse


Que j'aime voir, chère indolente,
De ton corps si beau,
Comme une étoffe vacillante,
Miroiter la peau!

Sur ta chevelure profonde
Aux âcres parfums,
Mer odorante et vagabonde
Aux flots bleus et bruns,

Comme un navire qui s'éveille
Au vent du matin,
Mon âme rêveuse appareille
Pour un ciel lointain.

Tes yeux, où rien ne se révèle
De doux ni d'amer,
Sont deux bijoux froids où se mêle
L'or avec le fer.

A te voir marcher en cadence,
Belle d'abandon,
On dirait un serpent qui danse
Au bout d'un bâton.

Sous le fardeau de ta paresse
Ta tête d'enfant
Se balance avec la mollesse
D'un jeune éléphant,

Et ton corps se penche et s'allonge
Comme un fin vaisseau
Qui roule bord sur bord et plonge
Ses vergues dans l'eau.

Comme un flot grossi par la fonte
Des glaciers grondants,
Quand l'eau de ta bouche remonte
Au bord de tes dents,

Je crois boire un vin de Bohême,
Amer et vainqueur,
Un ciel liquide qui parsème
D'étoiles mon cœur!


Charles Baudelaire

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

L´ homme et la mer


Homme libre, toujours tu chériras la mer!
La mer est ton miroir; tu contemples ton âme.
Dans le déroulement infini de sa lame,
Et ton esprit n´est pas un gouffre moins amer.

Tu te plais à plonger au sein de ton image;
Tu l´embrasses des yeux et des bras, et ton coeur
Se distrait quelquefois de sa propre rumeur
Au bruit de cette plainte indomptable et sauvage.

Vous êtes tous les deux ténébreux et discrets:
Homme, nul n´a sondé le fond de tes abimes;
O mer, nul ne connait tes richesses intimes,
Tant vous êtes jaloux de garder vos secrets!

Et cependant voilà des siècles innombrables
Que vous vous combatez sans pitié ni remord,
Tellement vous aimez le carnage et la mort,
O lutteurs éternels, ô frères implacables!


Charles Baudelaire