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domingo, 16 de novembro de 2014



A poesia fugiu do mundo.
O amor fugiu do mundo —
Restam somente os homens,
Pequeninos, apressados, egoístas e inúteis.
Resta a vida que é preciso viver.
Resta a volúpia que é preciso matar.
Resta a necessidade de poesia, que é preciso contentar.


Augusto Frederico Schmidt

terça-feira, 1 de outubro de 2013

O amor

Nydia Lozano


O amor é frágil
O amor é humilde
O amor é claro
O amor é simples
O amor se vai
Foge e se perde
Subitamente
De repente
O amor é insólito
E inseguro
Surge e se esvai
É cinza
É ouro
É ardência, é fogo
E é nada


Augusto Frederico Schmidt
In “Um século de poesia”

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Ouço uma fonte



Ouço uma fonte
É uma fonte noturna
Jorrando.
É uma fonte perdida
No frio.

É uma fonte invisível.
É um soluço incessante,
Molhado, cantando.

É uma voz lívida.
É uma voz caindo
Na noite densa
E áspera.

É uma voz que não chama.
É uma voz nua.
É uma voz fria.
É uma voz sozinha.

É a mesma voz.
É a mesma queixa.
É a mesma angústia,
Sempre inconsolável.

É uma fonte invisível,
Ferindo o silêncio,
Gelada jorrando,
Perdida na noite.
É a vida caindo
No tempo!


Augusto Frederico Schmidt

terça-feira, 22 de maio de 2012

O Fim da Solidão

imagem: Boris Geer



A borboleta amarela e preta
Se agitava, dançava, tremia
Em torno do ser esguio, mortificado
Pelo frio do mundo.

Era já na hora indecisa, mas um sol
Retardatário manchava de ouro o chão sombrio.

Revejo a face escura e pálida
Manchada pelo líquen, pelo pó
Das velhas folhas.

Revejo o olhar inocente e duro
Subitamente surpreendido pela ternura,
O olhar prisioneiro do tempo cruel,
Tocado pelo amor, animado pelo espanto do amor,
O olhar de fugitivo do abandonado,
De repente vencido pela certeza de que
Findara sua longa solidão.


Augusto Frederico Schmidt

sábado, 12 de maio de 2012

O Amor ficava próximo...





O amor ficava próximo.
Muitas vezes ouvíamos
Sua voz ansiosa
Procurando se revelar,
Ouvíamoso seu frêmito.
Sabíamos que ele estava triste
Por não rompermos as fronteiras
Que nos separavam.
Ele queria a fusão absoluta
E impossível.
Queria que sentíssemos
indistintamente
Que fôssemos um único ser,
Que nos confundíssemos
E nos penetrássemos.


No entanto, raramente,
Vivíamos a unidade.
Nossas almas pousavam
Raramente no mesmo galho,
E embora vivêssemos no mesmo ninho
Tínhamos consciência de que nos preparávamos
Para os grandes voos
Solitários.


Augusto Frederico Schmidt

imagens: Romina Dughero 

quinta-feira, 10 de maio de 2012

imagem: Diana-Melnikova



Passa a saudade do que foi e é morto.
Passa a glória que eu quis e me fugiu.
Passam as próprias visões do mundo e a vida,
E é sonho quanto tive em minhas mãos.

Passam as flores nascidas mais perfeitas.
Passam a beleza, e a dor, passam tormentos.
Passa essa angústia diante do eterno nada.
Que não passa, Senhor, todo momento?

De incerteza em incerteza, a vida corre,
E nos mudamos nós, de instantes em instantes.
O que foi, ele próprio, sofre, muda.

Só não passa este amor tão passageiro.
Só não muda este amor que é tão mudável.
Só este amor incerto é certo em mim.


Augusto Frederico Schmidt

terça-feira, 1 de maio de 2012

Vejo a Aurora Surgir nesses teus Olhos...

imagem: Shaun Stubley


Vejo a aurora nesses teus olhos
Ainda há pouco tão triste e sombrios.
Vejo as primeiras luzes matutinas
Nascendo, aos poucos, nos teus grandes olhos!

Vejo a deusa triunfal chegar serena,
Vejo o seu corpo nu, radioso e claro,
Vir crescendo em beleza e suavidade
Nas longínquas paragens dos teus olhos.

E estendo as minhas mãos tristes e pobres
Para tocar a imagem misteriosa
Desse dia que vem, em ti, raiando;

E sinto as minhas mãos, ó doce amada,
Molhadas pelo orvalho que roreja
Do teu olhar de estranhas claridades!


Augusto Frederico Schmidt

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Quando

paulo césar (olhares)


Quando repousarás em mim como a poesia
nos grandes poetas
Como a pureza na alma dos santos
Como os pássaros nas torres das igrejas?
Quando repousará o teu amor no meu amor?
Quando penetrará tua luz nos meus olhos
vazios,
Como o sol nos pântanos
Como o sorriso nos tristes


Como o Cristo no mundo em pecado?



Augusto Frederico Schmidt

segunda-feira, 26 de março de 2012

Silêncios

imagem: haleh bryan


Estes silêncios que chegam sobre nossos males,
Este gelo que nos invade subitamente,
Este cansaço que sinto crescer em ti,
Toda esta melancolia surda que nos separa,
Não vem do nosso amor
Nosso amor está guardado pelos sete anjos:
Os sóis não o poderão queimar,
A sombra e o tédio não o poderão envolver
O cansaço não o poderá tomar,
Porque ele não é do tempo.
Sofremos: é a angústia de nos sentirmos separados do nosso amor.
Sentimos: é a fadiga, porque vamos subindo a sua procura.
E estes silêncios são a poeira que desce dos grandes movimentos
Que o nosso amor realiza para além do tempo.


Augusto Frederico Schmidt

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Rosas

Garmash_Gardenof - Feelings


Frágeis filhas da Aurora e do Mistério,
Rosas que despertais virgens e frescas,
Sorrindo entre os espinhos e as folhagens,
Nos roseirais sadios e viçosos.

Rosas débeis, que os ventos assassinam,
Sois a forma e a expressão do próprio efêmero,
Na luta natural incerta e cega.
Sois o instante de Pausa e Sutileza.

Rosas que as mãos da noite despetalam,
Sois o triunfo do Amor e da Harmonia
Sois a imagem tranqüila da Beleza.

Rosas que alimentais meu olhar enfêrmo,
Rosas, vós sois da terra humilde e escura
Um gesto puro, um alto pensamento!


Augusto Frederico Schmidt

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Soneto cigano

Jesús Helguera


Lembra-me sempre a viagem, a grande, a estranha viagem.
As mulheres brincavam e riam ao pé das enormes fogueiras.
Rostos da cor do bronze, olhares misteriosos,
E mãos escuras para todos os misteres.

Lembra-me sempre a viagem, as estradas perdidas
Por onde seguíamos atrás das auroras ingênuas
Que corriam cantando, e atrás das horas fugidias
— Horas que pareciam dançar ao ruído de pandeiros.

Era tudo uma grande inocência e descuido.
O futuro sombrio, as ambições, os medos,
Não me lembro de os ter sentido nesses tempos.

Colhíamos, então, flores e frutos nos caminhos,
Amávamos o amor nas morenas mulheres,
E adormecíamos à mercê dos ventos e das chuvas


Augusto Frederico Schmidt

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Elegia




Entrou na sala e ficou em pé tocando piano,
Sua mão pequena batia no teclado duramente.
Lembro que estava de vermelho
Lembro que tinha nas tranças finas uma fita preta
Lembro que era de tarde
E entrava pelas janelas abertas o vento do
mar.
Não lembro se tinha flores perto dela
Mas nascia um perfume do seu corpo.
Que amor o meu!


Augusto Frederico Schmidt

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Disappointed Love, 1891 - Francis Danby

Como falarei desta saudade sem chorar?
Como falarei desse mundo perdido
Sem chorar, sem me lamentar, sem fugir
Desta tranquilidade que tão tarde me chegou?

Depois de ter-me desesperado tanto e em vão?
Como falarei dessas paisagens que eu guardei
No coração longínquo, dessas paisagens
Do meu tão pobre e tão perdido mundo?

Como olharei, nesta hora, distraído e distante,
Esses recantos que o amor tornava tão belos,
Tão encantados, tão mágicos, tão irreais, outrora?

Como tocarei nesses trechos iluminados da memória,
onde o coração pulsou mais forte, onde os meus olhos
conheceram a doce, a triste, a inexplicável alegria do amor?


Augusto Frederico Schmidt

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Desconhecida

John Paul


De repente é a viagem!
É o vento que brinca com as últimas árvores visíveis.
E há um pássaro que segue longamente meu navio
E que depois, exausto, retorna.

Quem és tu que, outrora, não conhecia
E que me levas nos teus braços,
Para onde, não sei?

Quem és tu que ainda há pouco não existias
E que me olhas com esses olhos antigos e íntimos
Que contemplaram comigo o nascimento do tempo?

Quem és tu?


Augusto Frederico Schmidt

domingo, 24 de abril de 2011

A Ausente



Samuel Melton Fisher (1860-1939).


Os que se vão, vão depressa,
Ontem, ainda, sorria na espreguiçadeira.
Ontem dizia adeus, ainda, da janela.
Ontem, vestia, ainda, o vestido tão leve cor-de-rosa.

Os que se vão, vão depressa.
Seus olhos grandes e pretos há pouco brilhavam.
Sua voz doce e firme faz pouco ainda falava,
Suas mãos morenas tinham gestos de bênçãos.
No entanto, hoje, na festa, ela não estava.
Nem um vestígio dela, sequer.
Decerto sua lembrança nem chegou, como os convidados —
Alguns, quase todos, indiferentes e desconhecidos.

Os que se vão, vão depressa.
Mais depressa que os pássaros que passam no céu,
Mais depressa que o próprio tempo,
Mais depressa que a bondade dos homens,
Mais depressa que os trens correndo nas noites escuras,
Mais depressa que a estrela fugitiva
Que mal faz um traço no céu.
Os que se vão, vão depressa.
Só no coração do poeta, que é diferente dos outros corações,
Só no coração sempre ferido do poeta
É que não vão depressa os que se vão.

Ontem ainda sorria na espreguiçadeira,
E o seu coração era grande e infeliz.
Hoje, na festa, ela não estava, nem a sua lembrança.
Vão depressa, tão depressa os que se vão…


Augusto Frederico Schmidt

quarta-feira, 16 de março de 2011

Federica Erra


Às vezes me abandono inteiramente a saudades estranhas
E viajo por terras incríveis, incríveis.
Outras vezes porém qualquer coisa à-toa –
O uivo de um cão na noite morta,
O apito de um trem cortando o silêncio,
Uma paisagem matinal,
Uma canção qualquer surpreendida na rua –
Qualquer coisa acorda em mim coisas perdidas no tempo
E há no meu ser uma unidade tão perfeita
Que perco a noção da hora presente, e então

Sou o que fui.
E sou o que serei.


Augusto Frederico Schmidt

domingo, 27 de fevereiro de 2011

O grande momento


A varanda era batida pelos ventos do mar
As árvores tinham flores que desciam para a
morte, com a lentidão das lágrimas.
Veleiros seguiam para crepúsculos com as
asas cansadas e brancas se despedindo,
O tempo fugia com uma doçura jamais de
novo experimentada
Mas o grande momento era quando os meus
olhos conseguiam
entrar pela noite fresca dos seus olhos...


Augusto Frederico Schmidt

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Elegia

By Elena Filatov


As árvores em flor, todas curvadas,
Enfeitarão o chão que vais pisar.
E a passarada cantará contente
Bem lindos cantos só em teu louvor.

A natureza se fará toda carinho
Para te receber, meu grande amor.

Virás de tarde, numa tarde linda –
Tarde aromal de primavera santa.
Virás na hora em que o sino ao longe
Anuncia tristonho o fim do dia.

Eu estarei saudoso à tua espera
E me perguntarás, pasma, sorrindo:
Como eu pude adivinhar quando chegavas,
Se era surpresa, se de nada me avisaste?

Ah, meu amor! Foi o vento que trouxe o teu perfume
E foi esta inquietação, esta mansa alegria
Que tomou meu solitário coração ...


Augusto Frederico Schmidt

domingo, 21 de novembro de 2010

Poema



Encontraremos o amor depois que um de nós abandonar
os brinquedos.
Encontraremos o amor depois que nos tivermos despedido
E caminharmos separados pelos caminhos.
Então ele passará por nós,
E terá a figura de um velho trôpego,
Ou mesmo de um cão abandonado,
O amor é uma iluminação, e está em nós, contido em nós,
E são sinais indiferentes e próximos que os acordam do
seu sono subitamente.


Augusto Frederico Schmidt

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Noiva

Pat Brennan 

Noiva, acaso és, a real afogada?
És a louca do rio, noiva?
Se não és, por que cantas assim
E te enfeitas de flores?
Se não és, noiva, por que morres?
Por que levam teu corpo branco
Para tão longe – noiva – para tão longe?
Se tu és a que eu copnheci menina
Por que não estás dormindo sobre o meu
peito,
sossegada, noiva


Augusto Frederico Schmidt