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terça-feira, 29 de janeiro de 2013

To imagination




When weary with the long day's care,
And earthly change from pain to pain,
And lost and ready to despair,
Thy kind voice calls me back again:
Oh, my true friend! I am not lone,
While thou canst speak with such a tone!

So hopeless is the world without;
The world within I doubly prize;
Thy world, where guile, and hate, and doubt,
And cold suspicion never rise;
Where thou, and I, and Liberty,
Have undisputed sovereignty.

What matters it, that, all around,
Danger, and guilt, and darkness lie,
If but within our bosom's bound
We hold a bright, untroubled sky,
Warm with ten thousand mingled rays
Of suns that know no winter days?

Reason, indeed, may oft complain
For Nature's sad reality,
And tell the suffering heart, how vain
Its cherished dreams must always be;
And Truth may rudely trample down
The flowers of Fancy, newly-blown:

But, thou art ever there, to bring
The hovering vision back, and breathe
New glories o'er the blighted spring,
And call a lovelier Life from Death,
And whisper, with a voice divine,
Of real worlds, as bright as thine.

I trust not to thy phantom bliss,
Yet, still, in evening's quiet hour,
With never-failing thankfulness,
I welcome thee, Benignant Power;
Sure solacer of human cares,
And sweeter hope, when hope despairs!


Emily Brontë

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Emily Brontë, O Morro dos Ventos Uivantes

- Sou muito infeliz!
- É pena - observei eu. - Você é difícil de contentar. Tantos amigos, tão poucas preocupações e não consegue dar-se por satisfeita?
- Nelly, queres guardar um segredo meu? - prosseguiu ela, ajoelhando-se junto de mim e erguendo para meu rosto seus cativantes olhos, com um daqueles olhares que afugentam o mau humor, mesmo quando se tem carradas de razão para estar descontente.
- É coisa que valha a pena? - perguntei, menos agastada.
- Sim, pois me atormenta e preciso aliviar-me! Tenho necessidade de saber o que devo fazer. Hoje Edgar Linton pediu-me em casamento e eu lhe dei uma resposta. Agora, antes que eu te diga se respondi sim ou não, responde-me qual deveria ter sido a resposta. 
- Na verdade, Srta. Catarina, como posso eu saber?
Certamente, depois do espetáculo que você lhe preparou esta tarde, devo dizer que seria conveniente recusá-lo. E uma vez que, depois daquilo, lhe tenha ele feito o pedido, só sendo duma estupidez incurável ou de uma temeridade louca. 
- Se falas assim, não direi mais uma palavra - replicou ela, meio agastada, levantando-se. - Aceitei , Nelly. Depressa, dize-me se fiz bem ou mal!
- Você deu o sim? Então para que discutir mais o assunto? Você deu sua palavra e não pode retratar-se.
- Mas dize-me se fiz bem... dize-me! - exclamou ela num tom irritado, esfregando as mãos e franzindo as sobrancelhas.
- É preciso considerar muitas coisas antes de poder responder convenientemente a essa pergunta - respondi eu, de modo sentencioso. - Antes de tudo, gosta do Sr. Edgar?
- Quem não o amaria? Sem dúvida, eu o amo.
(...)
 - Amo o chão que ele pisa, o ar  que respira, tudo quanto toca e tudo quanto diz. Amo todos os seus olhares e todos os seus gestos, amo-o todo inteiro, completamente. Aí está!
- E por quê?
- Ora! Estás brincando e isso é muito mau de tua parte! Para mim não é brinquedo! - disse a moça, fechando a cara e voltando-se para o lado do fogo.
- Estou muito longe de querer brincar, Srta. Catarina. Você gosta do Sr. Edgar por que é bonito, jovem, alegre, rico e também a ama. Esta última razão, aliás, não vale nada. Você gostaria dele sem isso, provavelmente. E, mesmo com isso, você não o amaria se ele não possuísse os outros quatro atrativos.
- Não, decerto. Teria apenas piedade dele... detestá-lo-ia talvez, se fosse feio e rústico.
- Mas há muitos outros rapazes bonitos, ricos, no mundo... Mais bonitos talvez e mais ricos do que ele. Que coisa a impediria de gostar deles?
- Se há outros, estão longe do meu alcance! Nunca encontrei outro igual a Edgar.
- Pode ser que venha a encontrar. E, demais, ele não será sempre bonito e jovem, e pode ser que também não seja rico toda a vida.
- Mas ele o é agora e eu tenho que ver apenas com o presente. Gostaria que falasses com um pouco mais de bom senso.
- Está bem. Isto decide a questão. Se você só tem que preocupar-se com o presente, case com o Sr. Linton.
- Não preciso do teu consentimento para isso... Hei de casar com ele. Mas, afinal, não me disseste se fiz bem ou não.
- Muitíssimo bem, se é que a gente só se casa pelo presente. E agora, vamos saber porque você se diz infeliz. Seu irmão ficará contente, o velho e a velha não farão objeção, penso eu. Você deixará uma casa sem ordem e sem conforto por outra opulenta e respeitável. Gosta de Edgar e ele gosta de você. Tudo parece simples e fácil. Onde está o obstáculo?
- Aqui e aqui! - respondeu Catarina, batendo com uma mão na fronte e a outra no peito. - Por toda a parte onde a alma vive. Na minha alma e no meu coração, estou convencida de que fiz mal.
- Isso é muito estranho! Não posso compreender. 
- É o meu segredo. Mas, se não zombares de mim, explicarei. Não o posso fazer claramente, mas dar-te-ei uma ideia do que sinto.
- Sentou-se junto de mim novamente. Sua fisionomia tornou-se mais triste e mais grave e as  mãos trançadas tremiam.
- Nelly, nunca sonhaste sonhos estranhos? - perguntou ela, de repente, depois de alguns  minutos de reflexão.
- Sim, uma vez ou outra. 
- Eu também. Tenho na minha vida sonhado coisas cuja lembrança não mais me abandonou e que modificaram minhas ideias. Infiltraram-se em mim, como vinho na água, e  alteraram a cor de meus pensamentos. Eis um desses sonhos. Vou contar-te... mas toma cuidado para não sorrir de nenhum de seus pormenores.
- Oh! não diga nada, Srta. Catarina! Nossa vida já é bastante triste para que ainda a enchamos de fantasmas e visões para nos perturbar. Vamos, vamos, alegre-se, seja você mesma! Olhe para o pequeno Hareton! Ele não sonha nada de terrível. Como sorri ele docemente no seu sono!
- Sim. Mais docemente ainda seu pai blasfema na solidão! Tu te lembras dele, com certeza, quando era igualzinho a essa coisinha reconchuda, assim tão jovem e tão inocente. No entanto, Nelly, eu te obrigarei a ouvir-me. Não demora muito e eu me sinto incapaz de alegrar-me esta noite.
- Não quero ouvir, não quero ouvir! - repeti vivamente.
Tinha superstições com sonhos naquele tempo, e ainda hoje tenho. Além disso, Catarina estava com um ar que não lhe era habitual e que me fazia temer alguma coisa em que eu veria uma profecia ou preveria uma terrível catástrofe. Mostrou-se embaraçada e não prosseguiu. Aparentando abordar outro assunto, depois de curta pausa, recomeçou.
- Se eu estivesse no céu, Nelly, seria extremamente infeliz.
- Porque você não é digna de ir pra lá. Todos os pecadores seriam infelizes no céu.
- Mas não é por isto. Sonhei uma vez que estava lá.
- Já lhe disse que não quero ouvir seus sonhos, Srta. Catarina! Vou deitar-me - interrompi eu de novo.
Ela pôs-se a rir e obrigou-me a tornar a sentar-me, porque eu fizera menção de deixar minha cadeira.
- Não é nada - exclamou ela. - Ia só dizer que o céu não me pareceu minha verdadeira residência. Dilacerava o coração de tanto chorar no desejo de voltar para a terra e os anjos ficaram tão aborrecidos com isso, que me precipitaram no meio da charneca, no alto de O Morro dos Ventos Uivantes, onde despertei, chorando de alegria. Eis o que te explicará meu segredo, tão bem como o teria feito meu outro sonho. Não me interessa casar com Edgar Linton, como não me interessava estar no céu. E se o sujeito perverso que aqui vive não houvesse degradado tanto Heathcliff, eu não teria pensado nisso. Agora degradaria eu mesma, se casasse com Heathcliff. Assim ele nunca saberá como eu o amo. E isso não porque seja belo, Nelly, mas porque ele é mais eu do que eu mesma. Seja de que forem feitas nossas almas, a dele e a minha são as mesmas e a de Linton é tão diferente como um raio de lua de um clarão, ou como a geada do fogo.
(...)
De que me serviria ter eu vindo ao mundo se me confinasse no que aqui está? Minhas grandes infelicidades neste mundo têm sido as infelicidades de Heathcliff. Aguardei-as e senti-as todas desde sua origem. É ele a minha grande razão de viver. Se tudo perecesse, mas Ele ficasse, eu continuaria a existir. E, se tudo permanecesse e ele fosse aniquilado, o mundo inteiro se tornaria para mim uma coisa totalmente estranha. Eu não seria mais parte desse mundo. Meu amor por Linton é como a folhagem dos bosques: o tempo o transformará, estou bem certa, como o inverno muda as árvores. Meu amor por Heathcliff assemelha-se aos rochedos imotos que jazem por baixo do solo: fonte de alegria pouco aparente mas necessária. Nelly, eu sou Heathcliff! Ele está sempre, sempre, em meu pensamento. Não como um prazer, visto como nem sempre sou um prazer para mim mesma, mas como o meu próprio ser.


 Emily Brontë, O Morro dos Ventos Uivantes
Os Imortais da Literatura Universal
Tradução: Oscar Mendes

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Estâncias



Já me reprovaram e volto sempre 
Aos primeiros sentimentos que nasceram comigo; 
Deixo de correr atrás do ouro e do conhecimento, 
Para sonhar apenas com maravilhas impossíveis. 

Mas hoje, 
Não descerei mais ao império das sombras; 
Tenho medo de sua frágil e decepcionante 
Imensidão, 
E meu sonho, povoado com legiões inumeráveis, 
Torna esse mundo sem forma estranhamente próximo. 

 Caminharei, 
E ficarão para trás as antigas veredas 
Do heroísmo, 
E os caminhos já exaustos da 
Moralidade, 
E o imprevisto aglomerado de faces obscuras, 
Ídolos em bruma de um passado já longínquo. 


 Caminharei, 
Onde só agradar a minha alma caminhar, 
(não posso suportar a escolha de outro guia) 
Onde os rebanhos se acinzentam 
 No verde das campinas 
Onde o vento alucinado vergasta o flanco das 
Montanhas. 

 Que pode revelar a montanha solitária? 
Nada exprime sua glória e sua dor. 

 Minha alma dormia,quando a terra despertou, 
E o círculo do céu ao círculo da terra, 
Confundindo-se, ao mundo deram nascimento.


Emily Brontë

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Emily Bronte, O morro dos ventos uivantes

- há mais de um mês que gelo – disse ela, apoiando a palavra, com todo o desdém.
Ela mesma puxou uma cadeira e colocou-a a boa distância de nós dois. Depois de se ter aquecido, olhou em torno de si e descobriu certo número de livros no aparador. Logo se levantou, pondo-se nas pontas dos pés para alcançá-los. Mas achavam-se por demais altos. Seu primo, depois de haver observado algum tempo seus esforços, acabou por ousar auxiliá-la. Ela estendeu o vestido e ele pôs no seu regaço os primeiros volumes que lhe caíram às mãos.
Isso era um grande passo para o rapaz. Ela não lhe agradeceu. Ele, porém, sentia-se todo feliz por haver ela aceitado seu auxílio. Atreveu-se a ficar por trás dela, enquanto examinava os livros, e mesmo a inclinar-se e mostrar o que lhe feria a imaginação em certas velhas gravuras que eles continham. A impertinência com que ela lhe afastava o dedo, ao voltar as páginas, não o ofendia. Contentou-se com recuar um pouco e contemplá-la, em vez de olhar para o livro. Ela continou a ler, ou a procurar alguma coisa para ler. Quanto a ele, concentrou sua atenção pouco a pouco em observar-lhe os cabelos espessos e sedosos. Não podia ver-lhe o rosto, nem ela tampouco podia vê-lo. Sem bem dar-se conta talvez do que fazia, mais atraído, como uma criança para uma vela, acabou por passar do olhar ao tato. Avançou a mão e acariciou uma madeixa, tão docemente como se o fizesse a um pássaro. A maneira por que ela estremeceu e se voltou ao sentir aquela carícia parecia indicar que lhe haviam enterrado um punhal no pescoço.
- Sai imediatamente! Como ousa tocar-me? Que faz aqui atrás de mim? – exclamou ela, num tom de desgosto. – Não posso suportá-lo
[...]
O amor próprio de Harreton não podia suportar por mais tempo aquela tortura. Ouvi, sem desaprová-lo inteiramente, que ele infligia uma correção moral à língua insolente de Catarina. A coisinha ruim havia feito o que pudera para ferir os sentimentos delicados, embora incultos, de seu primo, e um argumento físico era o único meio que ele tinha de descontar o que sofria fez e retribuir o pago devido a quem o agredira. Agarrou em seguida os livros e jogou-os no fogo. Li no seu rosto o quanto lhe custava fazer aquele sacrifício a seu mau humor. Enquanto os livros eram consumidos, imagino que ele sonhava no prazer que eles lhe haviam proporcionado, no triunfo e no prazer crescente que esperava deles. E acreditei adivinhar também o aguilhão de seus estudos secretos. Ele se havia contentado com seu labor cotidiano, com as rudes satisfações da vida animal, até que Catarina cruzasse seu caminho. Da vergonha de ser desprezado por ela, da esperança de ser por ela aplaudido, haviam nascido então aspirações mais altas. Mas, em vez de preservá-lo do desdém e de atrair-lhe o louvor, seus esforços para elevar-se haviam produzido um resultado exatamente o contrário.

Emily Bronte, O morro dos ventos uivantes

terça-feira, 23 de novembro de 2010

O lago morto

Pintura De Comonian


O lago morto, o céu cinzento ao luar;
Pálida, lutando, coberta pelas nuvens,
A lua.

O murmúrio obstinado que cochicha e passa
(Dir-se-ia que tem medo de falar em alta voz).
Tão triste agora,
Recae sobre meu coração,
Onde a alegria morre como um rio deserto.

Minhas pobres alegrias...
Não as toqueis,
Floridas e sorridentes.

Lentamente, a raiz acaba de morrer.


Emily Brontë
(Tradução de Lúcio Cardoso)

terça-feira, 8 de junho de 2010

Emily Brontë, O morro dos ventos uivantes


... me pus a fechar as janelas, uma após outra. Ao chegar àquela em que ele se achava, perguntei, para atrair sua atenção, pois que ele não se mexia.
- Devo fechar esta?
Quando dizia isto, a luz clareou seu rosto. Oh! Sr. Lockwood, não posso exprimir o choque que senti diante daquela visão passageira! Aqueles profundos olhos negros! Aquele sorriso! Aquela palidez de fantasma! Acreditei ver não o Sr. Heathcliff, mas um espectro. No meu terror deixei a vela tombar de encontro à parede e fiquei no escuro.
- Sim, feche-a – respondeu ele, no seu tom habitual. – Ora, que falta de jeito! Por que conservava a vela horizontalmente? Vamos, depressa, traga outra.
Sai às carreiras, presa dum terror louco, e disse a José:
- O patrão deseja que você lhe leve uma luz e reacenda o fogo.
Eu não ousava voltar à sala naquele momento.
José juntou alguns tições na pá de ferro e partiu, mas voltou com eles quase imediatamente, trazendo também a bandeja com a ceia, e explicando que o Sr. Heathcliff ia deitar-se e não tinha precisão de nada até de manhã. Ouvimo-lo que, de fato, subia a escada no mesmo instante. Não se dirigiu, porém para seu quarto habitual, mas entrou no da cama de painéis, cuja janela, como já tive ocasião de dizer-lhe é bastante larga para dar passagem a uma pessoa. Veio-me a idéia de que ele meditava outra expedição noturna e que preferia que não suspeitássemos dela.


- Será ele um lobisomem ou um vampiro? – perguntava eu. Havia lido histórias a respeito desses horrendos demônios encarnados. Depois refleti que havia cuidado dele em sua infância, que fora testemunha de sua passagem à adolescência, que o havia seguido durante toda a sua existência e que era um absurdo ceder àqueles sentimentos de horror.
- Mas donde viera aquela criaturinha morena, recolhida por um homem de bem para ruína sua? – murmurou a superstição, no momento em que perdia a consciência da realidade, adormecendo. Meio a sonhar, esforçava-me por achar-lhe uma origem verossímel. Retomando as meditações a que estivera entregue quando acordada, repassava sua existência, sob todos os seus aspectos terríveis. Por fim figurei-me sua morte e seu funeral. A única lembrança que me resta é que estava muito aborrecida, porque era a mim que incumbia o encargo de compor a inscrição para seu túmulo, e que consultava a esse respeito o coveiro. Como não tinha ele nome de família, e não soubéssemos sua idade, éramos obrigados a contentar-nos com esta simples palavra: “Heathcliff”.

Emily Brontë, O morro dos ventos uivantes