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segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024


 "Acho que a missão da mulher é assombrar, espantar. Se a mulher não espanta... De resto, não é só a mulher, todos os seres humanos têm que deslumbrar os seus semelhantes para serem um acontecimento. Temos que ser um acontecimento uns para os outros. Então a pessoa tem que fazer o possível para deslumbrar o seu semelhante, para que a vida seja um motivo de deslumbramento. Se chama a isso sedução, cumpri aquilo que me era forçoso fazer."

.

Natália Correia 

sábado, 28 de maio de 2022

Michael and Inessa Garmash


De amor nada mais resta que um Outubro 

e quanto mais amada mais desisto: 

quanto mais tu me despes mais me cubro 

e quanto mais me escondo mais me avisto. 


E sei que mais te enleio e te deslumbro 

porque se mais me ofusco mais existo. 

Por dentro me ilumino, sol oculto, 

por fora te ajoelho, corpo místico. 


Não me acordes. Estou morta na quermesse 

dos teus beijos. Etérea, a minha espécie 

nem teus zelos amantes a demovem. 


Mas quanto mais em nuvem me desfaço 

mais de terra e de fogo é o abraço 

com que na carne queres reter-me jovem. 


Natália Correia *

In “Poesia Completa”

sábado, 7 de março de 2015

John Silver, By the Window


A manhã estava em mim
E eu andava pelo parque
À procura da manhã.
Só um menino correndo
Atrás da bolsa, corria
Atrás da sua manhã.

A manhã estava em mim;
Ai de mim que a não sentia
Andando pela manhã.
Havia sol. E eu tão fria!...
Só um cego que pedia
Sentiu no rosto a manhã...

A manhã estava em mim;
Ai, mas eu já desistia
De me encontrar na manhã.
Veio a tarde, foi-se o dia,
Anoiteceu e eu dormia
Sem ter sentido a manhã.

Ai que mim que não sabia
Que estava em mim a manhã!


Natália Correia

sexta-feira, 7 de março de 2014

Sete Luas

Leslie Ann O’Dell


Há noites que são feitas dos meus braços
e um silencio comum às violetas
e há sete luas que são sete traços
de sete noites que nunca foram feitas

Há noites que levamos à cintura
como um cinto de grandes borboletas
E um risco a sangue na nossa carne escura
de uma espada à bainha de um cometa

Há noites que nos deixam para trás
enrolados no nosso desencanto
e cisnes brancos que só são iguais
à mais longinqua onda de seu canto

Há noites que nos levam para onde
o fantasma de nós fica mais perto:
e é sempre a nossa voz que nos responde
e só o nosso nome estava certo. 


Natália Correia

quinta-feira, 6 de março de 2014

O sol nas noites e o luar nos dias

Halcyone


De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem. 


Natália Correia

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Crucificação

 Juan Manuel


Vertical sou contra Deus
Horizontal a favor.
Nesta cruz me crucifico
Vertical com desespero
Horizontal com amor.


Natália Correia

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Auto-retrato



Espáduas brancas palpitantes: 
asas no exilio dum corpo. 
Os braços calhas cintilantes 
para o comboio da alma. 
E os olhos emigrantes 
no navio da pálpebra 
encalhado em renúncia ou covardia. 
Por vezes fêmea. Por vezes monja. 
Conforme a noite. Conforme o dia. 
Molusco. Esponja 
embebida num filtro de magia. 
Aranha de ouro 
presa na teia dos seus ardis. 
E aos pés um coração de louça 
quebrado em jogos infantis. 

Natália Correia

terça-feira, 26 de março de 2013

O Livro dos Amantes




Glorifiquei-te no eterno. 
Eterno dentro de mim 
fora de mim perecível. 
Para que desses um sentido 
a uma sede indefinível. 

Para que desses um nome 
à exatidão do instante 
do fruto que cai na terra 
sempre perpendicular 
à umidade onde fica. 

E o que acontece durante 
na rapidez da descida 
é a explicação da vida. 


II 

Harmonioso vulto que em mim se dilui. 
Tu és o poema 
e és a origem donde ele flui. 
Intuito de ter. Intuito de amor 
não compreendido. 
Fica assim amor. Fica assim intuito. 
Prometido. 


III 

Príncipe secreto da aventura 
em meus olhos um dia começada e finita. 
Onda de amargura numa água tranquila. 
Flor insegura enlaçada no vento que a suporta. 
Pássaro esquivo em meus ombros de aragem 
reacendendo em cadência e em passagem 
a lua que trazia e que apagou. 


IV 

Dá-me a tua mão por cima das horas. 
Quero-te conciso. 
Adão depois do paraíso 
errando mais nítido à distância 
onde te exalto porque te demoras. 



Toma o meu corpo transparente 
no que ultrapassa tua exigência taciturna 
Dou-me arrepiando em tua face 
uma aragem noturna. 

Vem contemplar nos meus olhos de vidente 
a morte que procuras 
nos braços que te possuem para além de ter-te. 

Toma-me nesta pureza com ângulos de tragédia. 
Fica naquele gosto a sangue 
que tem por vezes a boca da inocência. 


VI 

Aumentamos a vida com palavras 
água a correr num fundo tão vazio. 
As vidas são histórias aumentadas. 
Há que ser rio. 

Passamos tanta vez naquela estrada 
talvez a curva onde se ilude o mundo. 
O amor é ser-se dono e não ter nada. 
Mas pede tudo. 


VII 

Tu pedes-me a noção de ser concreta 
num sorriso num gesto no que abstrai 
a minha exatidão em estar repleta 
do que mais fica quando de mim vai. 

Tu pedes-me uma parcela de certeza 
um desmentido do meu ser virtual 
livre no resultado de pureza 
da soma do meu bem e do meu mal. 

Deixa-me assim ficar. E tu comigo 
sem tempo na viagem de entender 
o que persigo quando te persigo. 

Deixa-me assim ficar no que consente 
a minha alma no gosto de reter-te 
essencial. Onde quer que te invente. 



VIII 

Eis-me sem explicações 
crucificada em amor: 
a boca o fruto e o sabor. 



IX 

Pusemos tanto azul nessa distância 
ancorada em incerta claridade 
e ficamos nas paredes do vento 
a escorrer para tudo o que ele invade. 

Pusemos tantas flores nas horas breves 
que secam folhas nas árvores dos dedos. 
E ficamos cingidos nas estátuas 
a morder-nos na carne dum segredo. 


Natália Correia, in Poemas (1955) Arts by Marina Podgaevskaya

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

A arte de ser amada



Eu sou líquida mas recolhida
no íntimo estanho de uma jarra
e em tua boca um clavicórdio
quer recordar-me que sou ária

aérea vária porém sentada
perfil que os flamingos voaram.
Pelos canteiros eu conto os gerânios
de uns tantos anos que nos separam.

Teu amor de planta submarina
procura um úmido lugar
Subitamente preencho a piscina
que te dê o hábito de afogar.




Do que não viste a minha idade
te inquieta como a ciência
do mundo ser muito velho
três vezes por mim rodeado
sem saber da tua existência

Pensas-me a ilha e me sitias
de violinos por todos os lados
e em tua pele o que eu respiro
é um ar de frutos sossegados.


Natália Correia
imagens: Cler Raichuk

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

A exaltação da pele

by Annie Stegg



Hoje quero com a violência da dádiva interdita.
Sem lírios e sem lagos
e sem o gesto vago
desprendido da mão que um sonho agita.
Existe a seiva. Existe o instinto. E existo eu
suspensa de mundos cintilantes pelas veias
metade fêmea metade mar como as sereias


Natália Correia

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Bilhete para o amigo ausente




Lembrar teus carinhos induz
a ter existido um pomar
intangíveis laranjas de luz
laranjas que apetece roubar.

Teu luar de ontem na cintura
é ainda o vestido que trago
seda imaterial seda pura
de criança afogada no lago.

Os motores que entre nós aceleram
os vazios comboios do sonho
das mulheres que estão à espera
são o único luto que ponho. 


Natália Correia 

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

O Testamento dos Namorados

Cler Raichuk


Escolhamos as coisas mais inúteis 
o verde água o rumor das frutas 
e partamos como quem sai 
ao domingo naturalmente. 

Deixemos entretanto o sinal 
de ter existido carnalmente: 
da tua força um castiçal 
da minha fragilidade um pente. 

Esse hieróglifo essa lousa 
deixemos para que uma criança 
a encontre como quem ousa 
um novo passo de dança. 


Natália Correia, in "O Vinho e a Lira"

sexta-feira, 13 de julho de 2012

O Poema



O poema não é o canto 
que do grilo para a rosa cresce. 
O poema é o grilo 
é a rosa 
e é aquilo que cresce. 

É o pensamento que exclui 
uma determinação 
na fonte donde ele flui 
e naquilo que descreve. 
O poema é o que no homem 
para lá do homem se atreve. 

Os acontecimentos são pedras
e a poesia transcendê-las 
na já longínqua noção 
de descrevê-las.

E essa própria noção é só 
uma saudade que se desvanece 
na poesia. Pura intenção 
de cantar o que não conhece. 


Natália Correia

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Ode à Paz






Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,
Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos atos de pureza,



Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
Pela branda melodia do rumor dos regatos,
Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos,




Pela exatidão das rosas, pela Sabedoria,
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,


Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves outonos,
Pela futura manhã dos grandes transparentes,
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,



Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz.
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História,
deixa passar a Vida!


Natália Correia, in “Inéditos
imagens: carolle benitah

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Sete Luas

Mariska Karto



Há noites que são feitas dos meus braços
e um silêncio comum às violetas
e há sete luas que são sete traços
de sete noites que nunca foram feitas

Há noites que levamos à cintura
como um cinto de grandes borboletas.
E um risco a sangue na nossa carne escura
duma espada à bainha de um cometa.

Há noites que nos deixam para trás
enrolados no nosso desencanto
e cisnes brancos que só são iguais
à mais longínqua onda de seu canto.

Há noites que nos levam para onde
o fantasma de nós fica mais perto:
e é sempre a nossa voz que nos responde
e só o nosso nome estava certo.


Natália Correia

domingo, 29 de novembro de 2009

Falavam-me de amor

Georgia OKeeffe 

Quando um ramo de doze badaladas
se espalhava nos móveis e tu vinhas
solstício de mel pelas escadas
de um sentimento com nozes e com pinhas,

menino eras de lenha e crepitavas
porque do fogo o nome antigo tinhas
e em sua eternidade colocavas
o que a infância pedia às andorinhas.

Depois nas folhas secas te envolvias
de trezentos e muitos lerdos dias
e eras um sol na sombra flagelado.

O fel que por nós bebes te liberta
e no manso natal que te conserta
só tu ficaste a ti acostumado.

Natália Correia
O Dilúvio e a Pomba

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Óleo sobre tela: By the Window, de John Silver 

A manhã estava em mim
E eu andava pelo parque
À procura da manhã.
Só um menino correndo
Atrás da bolsa, corria
Atrás da sua manhã.

A manhã estava em mim;
Ai de mim que a não sentia
Andando pela manhã.
Havia sol. E eu tão fria!…
Só um cego que pedia
Sentiu no rosto a manhã…

A manhã estava em mim;
Ai, mas eu já desistia
De me encontrar na manhã.
Veio a tarde, foi-se o dia,
Anoiteceu e eu dormia
Sem ter sentido a manhã.

Ai que mim que não sabia
Que estava em mim a manhã!

Natália Correa