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quarta-feira, 2 de abril de 2014

Desejo

rafal olbinski


A lua mingua com elegância,
olho o seu formato meia lua,
um queijo a cara dela suspensa no céu.
Eu nua, sem mentiras, sem véus
ouço a conversa das estrelas sobre as ruas,
e também ouso com elas as palavras
que Bilac me ensinou com as suas.
O que digo é que nunca estou só de todo
por causa da Via Láctea e outros acontecimentos celestes.
Quando lá não me detenho e por isso,
sem ver outros planetas, ignoro o que acontece,
o mar, revolto ou calmo,
seja lá como for, não me obedece.
Sou pequena,
o que não sei é o que o meu poema tece
para me ensinar a ser flor.

Ó luminoso beija flor
vagalume dos meus desmundos,
dos meus desterros nos caminhos escuros de nublada visão.
Ó verso antigo e novo
que desde de adolescência
vem me trazendo pela mão,
me dê sempre clareza onde antes era confusão.
Lampadinha iluminada,
remove a camada da ilusão
e deixe - me de frente pra vida,
ela mesma, a vida pura,
em sua versão milagre e espanto.
Só isso, não estou pedindo muito,
não estou pedindo tanto.
Só milagre e espanto.


Elisa Lucinda

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014



Quanto custa um sonho?
Alguma coisa ele sempre custa.
Muitas vezes muitas coisas ele custa,
outras vezes outros sonhos ele custa.
Não importam os percalços, os sacrifícios,
os espinhosos enredos.
Não importa.
Uma vez vivido,
o sonho está sempre num ótimo preço!


Elisa Lucinda
Elisa Lucinda, no livro “A Fúria da Beleza”

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Penetração do Poema das Sete Faces



A Carlos Drummond de Andrade



Ele entrou em mim sem cerimônias 
Meu amigo seu poema em mim se estabeleceu
Na primeira fala eu já falava como se fosse meu
O poema só existe quando pode ser do outro
Quando cabe na vida do outro
Sem serventia não há poesia não há poeta não há nada
Há apenas frases e desabafos pessoais
Me ouça, Carlos, choro toda vez que minha boca diz
A letra que eu sei que você escreveu com lágrimas
Te amo porque nunca nos vimos
E me impressiono com o estupendo conhecimento 
Que temos um do outro
Carlos, me escuta
Você que dizem ter morrido
Me ressuscitou ontem à tarde
A mim a quem chamam viva
Meu coração volta a ser uma remington disposta
Aprendi outra vez com você
A ouvir o barulho das montanhas
A perceber o silêncio dos carros
Ontem decorei um poema seu
Em cinco minutos
Agora dorme, Carlos.


Elisa Lucinda 

sábado, 3 de novembro de 2012

Escolha


niko guido 



Eu te amo como um colibri resistente
incansável beija-flor que sou
batedora renitente de asas
viciada no mel que me dás depois que atravesso o deserto.
Pingas na minha boca umas gotas poucas
do que nem é uma vacina.
Eu uma mulher, uma ave, uma menina…
Assim chacinas o meu tempo de eremita:
quebras a bengala onde me apoiei, rasgas minhas meias
as que vestiram meus pés
quando caminhei as areias.

Eu te amo como quem esquece tudo
diante de um beijo:
as inúmeras horas desbeijadas
os terríveis desabraços
os dolorosos desencaixes
que meu corpo sofreu longe do seu.
Elejo sempre o encontro
Ele é o ponto do crochê.
Penélope invertida
nada começo de novo
nada desmancho
nada volto

Teço um novo tecido de amor eterno
a cada olhar seu de afeto
não ligo para nada que doeu.
Só para o que deixou de doer tenho olhos.
Cega do infortúnio
pesco os peixes dos nossos encaixes
pesco as gozadas
as confissões de amor
as palavras fundas de prazer
as esculturas astecas que nos fixam
na história dos dias 

Eu te amo.
De todos os nossos montes
fico com as encostas
De todas as nossas indagações
fico com as respostas
De todas as nossas destilairias
fico com as alegrias
De todos os nossos natais
fico com as bonecas
De todos os nossos cardumes
as moquecas.

Elisa Lucinda 

sábado, 27 de outubro de 2012

Amanhecimento

stas gordienko



De tanta noite que dormi contigo
no sono acordado dos amores
de tudo que desembocamos em amanhecimento
a aurora acabou por virar processo.
Mesmo agora
quando nossos poentes se acumulam
quando nossos destinos se torturam
no acaso ocaso das escolhas
as ternas folhas roçam
a dura parede.
nossa sede se esconde
atrás do tronco da árvore
e geme muda de modo a
só nós ouvirmos.
Vai assim seguindo o desfile das tentativas de nãos
o pio de todas as asneiras
todas as besteiras se acumulam em vão ao pé da montanha
para um dia partirem em revoada.
Ainda que nos anoiteça
tem manhã nessa invernada
Violões, canções, invenções de alvorada...
Ninguém repara,
nossa noite está acostumada.


Elisa Lucinda 

terça-feira, 1 de maio de 2012



A gente tem que morrer tantas vezes durante a vida 

Que eu já tô ficando craque em ressurreição. 
Bobeou eu tô morrendo 
Na minha extrema pulsão 
Na minha extrema-unção 
Na minha extrema menção 
de acordar viva todo dia 
Há dores que sinceramente eu não resolvo 
sinceramente sucumbo 
Há nós que não dissolvo 
e me torno moribundo de doer daquele corte 
do haver sangramento e forte 
que vem no mesmo malote das coisas queridas 
Vem dentro dos amores 
dentro das perdas de coisas antes possuídas 
dentro das alegrias havidas 



Há porradas que não tem saída 
há um monte de "não era isso que eu queria" 
Outro dia, acabei de morrer 
depois de uma crise sobre o existencialismo 
3º mundo, ideologia e inflação... 
E quando penso que não 
me vejo ressurgida no banheiro 
feito punheteiro de chuveiro 
Sem cor, sem fala 
nem informática nem cabala 
eu era uma espécie de Lázara 
poeta ressucitada 
passaporte sem mala 
com destino de nada! 




A gente tem que morrer tantas vezes durante a vida 
ensaiar mil vezes a séria despedida 
a morte real do gastamento do corpo 
a coisa mal resolvida 
daquela morte florida 
cheia de pêsames nos ombros dos parentes chorosos 
cheio do sorriso culpado dos inimigos invejosos 
que já to ficando especialista em renascimento 



Hoje, praticamente, eu morro quando quero: 
às vezes só porque não foi um bom desfecho 
ou porque eu não concordo 
Ou uma bela puxada no tapete 
ou porque eu mesma me enrolo 
Não dá outra: tiro o chinelo... 
E dou uma morrida! 
Não atendo telefone, campainha... 
Fico aí camisolenta em estado de éter 
nem zangada, nem histérica, nem puta da vida! 
Tô nocauteada, tô morrida! 

Morte cotidiana é boa porque além de ser uma pausa 
não tem aquela ansiedade para entrar em cena 
É uma espécie de venda 
uma espécie de encomenda que a gente faz 
pra ter depois ter um produto com maior resistência 
onde a gente se recolhe (e quem não assume nega) 
e fica feito a justiça: cega 
Depois acorda bela 
corta os cabelos 
muda a maquiagem 
reinventa modelos 
reencontra os amigos que fazem a velha e merecida 
pergunta ao teu eu: "Onde cê tava? Tava sumida, morreu?" 
E a gente com aquela cara de fantasma moderno, 
de expersona falida: 
- Não, tava só deprimida.


Elisa Lucinda
imagens: Fabrizio R.

terça-feira, 26 de julho de 2011

A Cena Aberta

Anna Razumovskaya 

Ele me pegou olhando pra ele daquele jeito
ele me pegou olhando pra ele com aqueles olhos
bem na porta do camarim.
Ele me pegou assim
olhando pra ele e o roteiro de pecado é o que se lia nele
naquele olhar safado
que não dava nem pra disfarçar
mas que vinha de mim.

É que quando comecei a olhar
ele estava olhando pro lado
ele estava com o rosto virado pra lá.
Então meu olhar se sentiu autorizado a olhar.
Ele me pegou explícita.
A filha da puta da janela da alma
deu uma super vacilada
e quando ele bruscamente se virou pra cá
me flagrou na indecência muda daquele olhar.
Ah, meu Deus
não fosse aquilo camarim
e fosse ainda o palco
ao invés de eu estar agora
constrangida a escrever esse poema.
Diria pra ele
segura de mim à beça:
“Meu amor, isto é uma cena,
Faz apenas parte da peça.”
Mas não.
Camarim já, e não palco ainda
e aquele a quem eu olhava
me viu a mirá-lo
me sentiu
e viu que eu o desejava.
Não era pra ele ver,
não estava nos meus planos
e agora?
Ah, diretor, diretor
Interrompa o ensaio.
Ó, temporal, cancele o espetáculo!
Ó, acaso, misterioso amigo dos amantes,
Feche só por esta noite o teatro!
Então camarim e palco
se misturarão,
eu confessarei meu amor, minha paixão,
direi que aquele meu olhar
foi pura força de interpretação.


Elisa Lucinda

domingo, 22 de maio de 2011

Carta ao meu Adão


Ó amado
preciso te ver todas a manhãs
caminhando ou de bicicleta vou te ver, eu vou.
(escondida do rei)
Te busco peregrina
é dia claro
eu sem burca
me revelo
embora saia disfarçada
vestida das roupas que tirarei
diante do teu olhar imperador, ó inominável!
Caminho à tua beira e tuas súditas águas
se esparramam, se apressam em apagar meus passos
meus vestígios de mulher traicioneira.
Poemas de amor por ti? Muitos.
Pensamentos de loucura, lascívia e luxúria? Incontáveis.
Amo a tua bravura
a estrutura doce do teu sal
tua doçura insuspeitável.
De minha janela me chamas lindo,
um príncipe azul de lindo és quando assim me procuras.
Adão dessa cor e seus matizes, tu, meu amante espalhafatoso
imponente e importante és aquele que me dizes
O que sou, pra onde vou, quem eu sou e o que posso.
Ó Zeus do maleável,
Idealizador da tolerância
Fundador da serenidade
Justificador das tormentas
Explicador dos afogados,
Ó , és tu quem me tentas.
Não só te amo, é mais que isso,
transbordo.
Sem ir ao teu fundo, por medo, humildade e respeito
ainda assim sou tua e tu inundas meu fundo. Eu deixo, eu deixo...
(Quando era pequena minha calcinha de biquíni ficava cheia de areia e eu nem ligava, mas hoje essa imagem expõe a natureza do nosso negócio)
Te venero,
rei dos meus princípios
conselheiro de minhas vontades
tutor das possibilidades dos limites do meu juízo.
Te preciso todas as manhãs
e nesses quarenta dias longe de minha terra
fui ao teu encontro sorrateira e indiscutível,
como uma mulher busca o seu homem como uma puta ao seu cliente mais assíduo
como uma dama ao seu cavalheiro
como uma galinha ao seu galo,
uma fêmea ao seu macho parceiro.

Pois bem:
Amanhã acordarei com sol e irei ao nosso encontro,
aqui derradeiro.
Tu, ó misterioso senhor,
estarás contudo em outra parte
na costa de minha pátria já a me esperar sob os barcos,
e invadirás certamente algum convés a me buscar,
ó infinito persistente e uno que és!
Eu amanhã me despeço aqui de ti pra dizer que estarei sempre a teus pés com os meus pés, esses mesmos pés a quem primeiro beijas, antes de visitares todo o meu corpo,
A quem primeiro tocas antes de levar-me ao topo,
A quem primeiro batizas antes de eu chamar-te louco, desvairado amante,
Tresloucado céu invertido, meu Deus, meu pai, meu amigo, meu par!
Gracias pelos versos, por estes versos,
por teres me dado
equilíbrio, liberdade, abrigo e lar
Gracias por te amar, ó mar!


Elisa Lucinda

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Aviso da Lua que Menstrua



Moço, cuidado com ela!
Há que se ter cautela com esta gente que menstrua...
Imagine uma cachoeira às avessas:
cada ato que faz, o corpo confessa.

Cuidado, moço
às vezes parece erva, parece hera
cuidado com essa gente que gera
essa gente que se metamorfoseia
metade legível, metade sereia

Barriga cresce, explode humanidades
e ainda volta pro lugar que é o mesmo lugar
mas é outro lugar, aí é que está:
cada palavra dita, antes de dizer, homem, reflita...

Sua boca maldita não sabe que cada palavra é ingrediente
que vai cair no mesmo planeta panela.

Cuidado com cada letra que manda pra ela!
Tá acostumada a viver por dentro,
transforma fato em elemento
a tudo refoga, ferve, frita
ainda sangra tudo no próximo mês.

Cuidado moço, quando cê pensa que escapou
é que chegou a sua vez!
Porque sou muito sua amiga
é que tô falando na "vera"
conheço cada uma, além de ser uma delas.

Você que saiu da fresta dela
delicada força quando voltar a ela.

Não vá sem ser convidado
ou sem os devidos cortejos...
Às vezes pela ponte de um beijo
já se alcança a "cidade secreta"
a Atlântida perdida.

Outras vezes várias metidas e mais se afasta dela.
Cuidado, moço, por você ter uma cobra entre as pernas
cai na condição de ser displicente
diante da própria serpente.

Ela é uma cobra de avental.

Não despreze a meditação doméstica.

É da poeira do cotidiano
que a mulher extrai filosofia
cozinhando, costurando
e você chega com a mão no bolso
julgando a arte do almoço: Eca!...

Você que não sabe onde está sua cueca?

Ah, meu cão desejado
tão preocupado em rosnar, ladrar e latir
então esquece de morder devagar
esquece de saber curtir, dividir.

E aí quando quer agredir
chama de vaca e galinha.

São duas dignas vizinhas do mundo daqui!

O que você tem pra falar de vaca?

O que você tem eu vou dizer e não se queixe:
VACA é sua mãe. De leite.

Vaca e galinha...
ora, não ofende. Enaltece, elogia:
comparando rainha com rainha
óvulo, ovo e leite
pensando que está agredindo
que tá falando palavrão imundo.

Tá, não, homem.

Tá citando o princípio do mundo!


Elisa Lucinda

sexta-feira, 11 de março de 2011

Para um amor na rua

 by Miguel  Avantaneo

Meu amor,
vem pra casa que ouvi dizer
que vai estourar a guerra
Nostradamus previu
Raimunda, nega Raimunda confirmou
Por favor, ponha os pés na terra
Chão firme cama da gente
ouvi dizer que vai estourar a guerra.
Você que é mundano convicto
você que erra
vai argumentar que não há perigo e o escambou
que é apenas o "bicho" internacional.
Vai confundir tudo com show
vai dizer que tem Prince, Rock n'roll
Gun's N'Roses e talvez Gal;
É mau, meu bem
tem também Sadam, Bushes e mesquinharias
Vem pra casa guardar num cofre sua ingenuidade
vem proteger da maldade sua fotografia.
Aqui fiz cuscuz farofa e feijão fraldinho
aqui pintei filosofia, comigo-ninguém-pode
espada de São Jorge, jasmim, arruda, carinho.
Tudo anti-míssil
tudo bruxaria anti-crueldade bélica
Lá fora alguns meninos
querem experimentar a potência
de seus terríveis brinquedos.
Não tenha medo
vem pra casa sem nem telefonar
aqui tem ar, poesia, fé
e tudo que a alegria da alma encerra.

Vem, meu amor
que ouvi dizer que vai estourar a guerra.


Elisa Lucinda

sexta-feira, 26 de março de 2010

Por que você


Por que você, tão jovem, está emprestando tanta tristeza a um poema onde não há tristeza?
Por que este tom de despedida onde só há encontro, esse tom fúnebre onde não há morte?

Elisa Lucinda

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Por favor não me incomodem quando eu chorar.


Por favor não me calem quando eu chorar.
É atestado de ciso, é o mesmo que riso quando eu chorar.
Sou poeta e chorar é minha musculação,
Exercício.

Por favor não me incomodem quando eu chorar.
É o macaco feliz da mutação, é lavação de olho, é a costela de
Adão sentindo sem ninguém questionar.
É atestado de ciso, é o mesmo que riso quando eu chorar.
Sou poeta e chorar é minha musculação,
Exercício.

Por favor não me incomodem quando eu chorar.
É o macaco feliz da mutação, é lavação de olho, é a costela de
Adão sentindo sem ninguém questionar.
É Deus descansando em emoção no sétimo dia depois de delirar.

Elisa Lucinda