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quinta-feira, 14 de março de 2013



Tome a palavra borboleta. Para usar essa palavra não é necessário fazer a voz pesar menos do que uma onça ou equipá-la com pequenas asas empoeiradas. Não é necessário inventar um dia ensolarado ou um campo de narcisos. Não é necessário estar amando, ou estar apaixonado por borboletas. A palavra borboleta não é uma borboleta real. Há a palavra e a borboleta. Se você confunde esses dois itens as pessoas têm o direito de rir de você. Não faça muito da palavra. Você está tentando sugerir que você ama borboletas mais perfeitamente que qualquer outro, ou realmente entende sua natureza? A palavra borboleta é apenas dado. Não é uma oportunidade pra você pairar, planar, fazer amizade com flores, simbolizar beleza e fragilidade, ou de qualquer forma personificar uma borboleta. Não represente palavras. Nunca represente palavras. Nunca tente sair do solo quando você fala sobre voar. Nunca feche seus olhos e puxe rapidamente sua cabeça para um lado quando você fala de morte. Não fixe seus olhos flamejantes em mim quando você fala de amor. Se você quer me impressionar quando você fala de amor ponha sua mão no bolso ou embaixo de seu vestido e brinque com você mesma. Se a ambição e a fome por aplausos tem te guiado a falar sobre amor você deveria aprender como fazer isso sem desonrar você mesma ou o material.
Qual é a expressão que a nossa era demanda? A era não demanda expressão de qualquer forma. Nós temos visto fotografias de mães asiáticas de luto. Nós não estamos interessados na agonia de seus órgãos descuidados. Não há nada que você possa mostrar em sua face que possa se comparar ao o horror deste tempo. Nem mesmo tente. Você vai apenas se conservar no desprezo daqueles que sentem as coisas profundamente. Nós temos visto reportagens de humanos em extremos de dor e deslocamento. Todo mundo sabe que você está comendo bem e está mesmo sendo pago para ficar aí de pé. Você está brincando com pessoas que experimentaram uma catástrofe. Isso deveria te deixar muito quieto.
Fale as palavras, expresse os dados, um passo pro lado. Todo mundo sabe que você está sofrendo. Você não pode contar à audiência tudo que você sabe sobre amor em cada linha de sua fala. Dê um passo pro lado e eles saberão o que você sabe porque eles já sabem mesmo. Você não tem nada a ensiná-los. Você não é mais bonito do que eles são. Você não é mais sábio. Não grite com eles. Não force uma entrada a seco. Isso é sexo ruim. Se você mostrar as linhas de sua genital, então entregue o que prometeu.
E lembre-se que a maioria das pessoas não querem realmente um acróbata na cama. Qual é a nossa necessidade? Estar perto do homem natural, estar perto da mulher natural. Não finja que você é um cantor adorado com uma vasta e leal audiência que seguiu os altos e baixos de sua vida até este último momento. As bombas, os lança-chamas, e toda aquela merda que destruiu mais do que árvores e vilas. Eles também destruíram o palco. Você pensou que sua profissão escaparia à destruição geral? Não há mais palco. Não há mais luzes da ribalta. Você está entre as pessoas. Então seja modesto. Fale as palavras, expresse os dados, passo pro lado. Fique sozinho. Fique no seu quarto. Não se coloque.
Esta é uma paisagem interior. É dentro. É privado. Respeite a privacidade do material. Estes pedaços foram escritos em silêncio. A coragem do jogo é falá-los. A disciplina do jogo é não violá-los. Deixe a audiência sentir seu amor pela privacidade mesmo que não haja privacidade. Seja uma boa puta. O poema não é um slogan. Não pode fazer propaganda de você. Não pode promover sua reputação de sensibilidade. Você não é um garanhão. Você não é um matador. Todo esse lixo sobre gangsters do amor. Você é um estudante da disciplina. Não represente as palavras. As palavras morrem quando você as representa, elas murcham, e somos deixados sem nada a não ser com sua ambição.
Fale as palavras com a exata precisão com a qual você checaria uma lista da lavanderia. Não se torne emotivo sobre a renda da blusa. Não fique de pau duro quando você diz calcinhas. Não fique cheio de calafrios por causa da toalha. Os lençóis não deveriam provocar uma expressão sonhadora sobre os olhos. Não há necessidade de chorar no lenço. As meias estão lá não para te lembrar de estranhas e distantes viagens. É apenas a tua lavanderia. São apenas suas roupas. Não fique espiando através delas. Apenas as use.
O poema não é nada mais do que informação. É a Constituição de um país interno. Se você o declama e o explode com suas nobres intenções então você não é melhor que os políticos que você despreza. Você é apenas alguém balançando uma bandeira e fazendo o apelo mais barato para um certo tipo de patriotismo emocional. Pense nas palavras como ciência, não como arte. Elas são um relatório. Você está falando diante de um encontro do Clube de Exploradores da National Geographic Society. Essas pessoas conhecem todos os riscos de se escalar montanhas. Eles te honram por tomar isso por certo. Se você enrubescer suas faces fazendo o contrário será um insulto à hospitalidade deles. Fale pra eles da altura da montanha, sobre o equipamento que você usou, seja específico sobre as superfícies e o tempo que tomou para escalá-la.. Não trabalhe com a audiência buscando arquejos e suspiros. Se você está buscando arquejos e suspiros não será de sua apreciação do evento mas da deles. Serão as estatísticas e não a voz trêmula ou o cortar do ar com suas mãos. Estará nos dados e na quieta organização de sua presença.
Evite o floreio. Não tenha medo de ser fraco. Não fique com medo de ficar cansado. Você fica bem quando está cansado. Você parece como se pudesse ir adiante pra sempre. Agora vem pros meus braços. Você é a imagem da minha beleza.


Leonard Cohen,  “Death of a Lady’s Man”

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Beneath my hands / Debaixo das minhas mãos

Paolo Scarano


Beneath my hands
your small breasts
are the upturned bellies
of breathing fallen sparrows.

Wherever you move
I hear the sounds of closing wings
of falling wings.

I am speechless
because you have fallen beside me
because your eyelashes
are the spines of tiny fragile animals.

I dread the time
when your mouth
begins to call me hunter.

When you call me close
to tell me
your body is not beautiful
I want to summon
the eyes and hidden mouths
of stone and light and water
to testify against you.

I want them
to surrender before you
the trembling rhyme of your face
from their deep caskets.

When you call me close
to tell me
your body is not beautiful
I want my body and my hands
to be pools
for your looking and laughing.

Leonard Cohen

***

Debaixo das minhas mãos - Tradução por Mariana Ruggieri

Debaixo das minhas mãos
seus pequenos peitos
são os ventres virados
de pardais caídos respirantes.

Onde quer que você se mova
eu ouço o barulho de asas fechando
de asas caindo.

Eu estou mudo
porque você caiu ao meu lado
porque seus cílios
são as espinhas de minúsculos animais frágeis.

Eu temo o dia
que a sua boca
vai começar a me chamar de caçador.

Quando você me chama perto
para me dizer
seu corpo não é bonito
eu quero convocar
os olhos e as bocas escondidas
de pedra e luz e água
para testemunhar contra você.

Eu quero que
eles rendam a você
a rima trêmula do seu rosto
de dentro de seus caixões profundos.

Quando você me chama perto
para me dizer
seu corpo não é bonito
eu quero meu corpo e minhas mãos
como piscinas
para você olhar e sorrir.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Dance Me To The End of Love

Álvaro Castagned



Dance me até o fim do amor
Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic 'til I'm gathered safely in
Lift me like an olive branch and be my homeward dove


Dance me to the end of love
Dance me to the end of love


Let me see your beauty when the witnesses are gone
Let me feel you moving like they do in Babylon
Show me slowly what I only know the limits of


Dance me to the end of love
Dance me to the end of love


Dance me to the wedding now, dance me on and on
Dance me very tenderly and dance me very long
We're both of us beneath our love, we're both of us above


Dance me to the end of love
Dance me to the end of love

Dance me to the children who are asking to be born
Dance me through the curtains that our kisses have outworn
Raise a tent of shelter now, though every thread is torn


Dance me to the end of love
Dance me to the end of love


Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic till I'm gathered safely in
Touch me with your naked hand or touch me with your glove


Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love 



Leonard Cohen

sábado, 19 de maio de 2012

Tens os amantes




Tens os amantes,
Sem nome, as suas histórias são só deles
E tens o quarto, a cama, e as janelas.
Procede como se fosse um ritual
Desdobra a cama, sepulta os amantes, enegrece as janelas.
Deixa-os viver nessa casa durante uma geração ou duas.
Ninguém se atreve a perturbá-los
Pelo corredor, os visitantes passam em pontas de pés junto da porta
Tanto tempo fechada
Atentos a algum ruído, um gemido, uma canção:
Não se ouve nada, nem sequer respirar.
Sabes que não estão mortos,
Sentes a presença do teu intenso amor.
Os teus filhos crescem, deixam-te,
Convertidos em viajantes e soldados.
O teu marido morto após uma vida de serviço.
Quem te conhece? Quem te recorda?
Mas em tua casa um ritual progride:
Não terminou: necessita de mais gente.
Um dia a porta abre-se para os aposentos do amante
O quarto converteu-se num denso jardim
Cheios de cores, odores, sons que não conhecias.
A casa, lisa como uma obreia de sol, só no meio do jardim
Na cama os amantes, lenta, deliberadamente e em silêncio
Realizam o ato do amor
Os olhos cerrados,
Apertados como se tivessem pesadas moedas de carne sobre eles
Os seus lábios magoados, com novas e velhas pisaduras
O cabelo e a barba desesperadamente enredados
Quando ela põe a boca no seu ombro
Ela duvida que seja o seu ombro


Leonard Cohen

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Amantes

autor não identificado


No primeiro massacre eles se encontraram
quando seus lares em ruínas apenas -
doces mercadores: ela com seu amor
ele com uma história toda de poemas

e quando no fogo dos fornos,
um beijo eles ensaiaram sutilmente,
antes que o soldado voltasse para
a nocautar pelo ouro em seus dentes.

e mesmo quando na fornalha
onde chamavam as chamas pelo calor,
ele tentou beijar seus seios ardentes
enquanto o fogo a queimava com ardor

mais tarde ele sempre se perguntava:
o escambo entre eles foi completado?
Enquando ao seu redor os que saqueava
Sabiam que ele foi enganado


Leonard Cohen

quinta-feira, 31 de março de 2011

an he


Seja bem-vinda a esses versos
Estamos em guerra
Mas espero te deixar à vontade
Não ligue para as minhas histórias
É apenas nervosismo
Não fiz amor com você
Quando éramos estudantes do leste?
Sim a casa está diferente
A vila será tomada em breve
Já retirei tudo que
Pudesse ser útil ao inimigo
Estamos sós
Até que os tempos mudem
E os que forem traídos
Voltem como peregrinos a este momento
Em que não nos rendemos
Em que nos recusamos decididamente
A chamar a escuridão de poesia


Leonard Cohen

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

A thousand kisses deep

Valentino Ciusani.

You came to me this morning and you handled me like meat. You'd have to be a man to know how good that feels, how sweet. My mirrored twin, my next of kin, I'd know you in my sleep and who but you would take me in,
A thousand kisses deep.

I loved you when you opened like a lily to the heat, you see I'm just another snowman standing in the rain and sleet, who loved you with his frozen love, his second hand physique, with all he is, and all he was,
A thousand kisses deep.

I know you had to lie to me, I know you had to cheat, to pose all hot and high behind the veils of shear deceit, our perfect porn aristocrat so elegant and cheap, I'm old but I'm still into that,
A thousand kisses deep.


I'm good at love, I'm good at hate, it's in between I freeze. Been working out, but it's too late, it's been to late for years. But you look good, you really do, they love you on the street. If I could move I'd kneel for you,
A thousand kisses deep.

The autumn moved across your skin, got something in my eye, a light that doesn't need to live, and doesn't need to die. A riddle in the book of love, obscure and obsolete, until witnessed there in time and blood,
A thousand kisses deep.

And I'm still working with the wine, still dancing cheek to cheek, the band is playing Auld Lang Syne, but the heart will not retreat. I ran with Diz and I sang with Ray, I never had their sweep, but once or twice they let me play
A thousand kisses deep.

I loved you when you opened like a lily to the heat, you see I'm just another snowman standing in the rain and sleet, who loved you with his frozen love, his second hand physique, with all he is, and all he was,
A thousand kisses deep.

But you don't need to hear me now, and every word I speak, it counts against me anyhow,
A thousand kisses deep.


Leonard Cohen

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

The book of longing

Edvard Munch - The Kiss


I can't make the hills
The system is shot
I'm living on pills
For which I thank G-d

I followed the course
From chaos to art
Desire the horse
Depression the cart

I sailed like a swan
I sank like a rock
But time is long gone
Past my laughing stock

My page was too white
My ink was too thin
The day wouldn't write
What the night pencilled in

My animal howls
My angel's upset
But I'm not allowed
A trace of regret

For someone will use
What I couldn't be
My heart will be hers
Impersonally

She'll step on the path
She'll see what I mean
My will cut in half
And freedom between

For less than a second
Our lives will collide
The endless suspended
The door open wide

Then she will be born
To someone like you
What no one has done
She'll continue to do

I know she is coming
I know she will look
And that is the longing
And this is the book


Não consigo superar as colinas
O sistema foi abaixo
Vivo de comprimidos
Coisa que agradeço a D--s

Segui o trajeto
Do caos à arte
Desejo o cavalo
Depressão a carruagem

Naveguei como um cisne
Afundei-me como uma rocha
Mas o tempo passou há muito
Pelas minhas reservas de riso

A minha página era demasiado
branca
A minha tinta era demasiado fina
O dia não quis escrever
Aquilo que a noite rabiscara

O meu animal uiva
O meu anjo aborreceu-se
Mas não me é permitida
Uma réstia de remorso

Pois alguém há-de utilizar
Aquilo que eu não soube ser
O meu coração será dela
De uma forma impessoal

Ela pisará o caminho
Perceberá a minha intenção
A minha vontade partida em duas
E a liberdade pelo meio

Por menos de um segundo
As nossas vidas colidirão
O interminável suspenso
A porta de par em par

Então ela há-de nascer
Para alguém como tu
O que nunca ninguém fez
Ela continuará a fazer

Sei que ela vem aí
Sei que ela irá olhar
E esse é o desejo
E este é o livro


Leonard Cohen
tradução de Vasco Gato

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

The Genius

vicente romero

For you
I will be a ghetto jew
and dance
and put white stockings
on my twisted limbs
and poison wells
across the town

For you
I will be an apostate jew
and tell the Spanish priest
of the blood vow
in the Talmud
and where the bones
of the child are hid

For you
I will be a banker jew
and bring to ruin
a proud old hunting king
and end his line

For you
I will be a Broadway jew
and cry in theatres
for my mother
and sell bargain goods
beneath the counter

For you
I will be a doctor jew
and search
in all the garbage cans for foreskins
to sew back again

For you
I will be a Dachau jew
and lie down in lime
with twisted limbs
and bloated pain
no mind can understand


Leonard Cohen

terça-feira, 7 de dezembro de 2010


Belíssima foto da contracapa de um dos discos de Leonard Cohen.

A pintura se chama Anima Sola, de origem mexicana e que segundo Leonard, mostra o triunfo do espírito sobre a matéria.

"O espírito da linda mulher se liberta das correntes, do fogo e da prisão",
explica o compositor Leonard Cohen

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

So Long, Marianne



Come over to the window, my little darling,
I'd like to try to read your palm.
I used to think I was some kind of Gypsy boy
before I let you take me home.
Now so long, Marianne, it's time that we began
to laugh and cry and cry and laugh about it all again.
Well you know that I love to live with you,
but you make me forget so very much.
I forget to pray for the angels
and then the angels forget to pray for us.
Now so long, Marianne, it's time that we began ...
We met when we were almost young
deep in the green lilac park.
You held on to me like I was a crucifix,
as we went kneeling through the dark.
Oh so long, Marianne, it's time that we began ...
Your letters they all say that you're beside me now.
Then why do I feel alone?
I'm standing on a ledge and your fine spider web
is fastening my ankle to a stone.
Now so long, Marianne, it's time that we began ...
For now I need your hidden love.
I'm cold as a new razor blade.
You left when I told you I was curious,
I never said that I was brave.
Oh so long, Marianne, it's time that we began ...
Oh, you are really such a pretty one.
I see you've gone and changed your name again.
And just when I climbed this whole mountainside,
to wash my eyelids in the rain!
Oh so long, Marianne, it's time that we began ...


Leonard Cohen

domingo, 28 de novembro de 2010

You'd sing too! / Também tu cantarias!



You'd sing too
if you found yourself
in a place like this
You wouldn't worry about
whether you were as good
as Ray Charles or Edith Piaf
You'd sing
You'd sing
not for yourself
but to make a self
out of the old food
rotting in the astral bowel
and the loveless thud
of your own breathing
You'd become a singer
faster than it takes
to hate a rival's charm
and you'd sing, darling
you'd sing too


Também tu cantarias
se desses por ti
num lugar como este
Não te preocuparias
se serias tão bom como
o Ray Charles ou a Edith Piaf
Cantarias
cantarias
não para ti
mas para criar um eu
a partir do velho alimento
que apodrece na entranha astral
e na pancada surda, sem amor,
da tua própria respiração
Tornar-te-ias uma cantora
mais depressa do que o tempo necessário
até odiarmos o encanto de um rival
e cantarias, querida
também tu cantarias.



Leonard Cohen
tradução de Vasco Gato

sábado, 25 de abril de 2009




His blood on my arm is warm as a bird
his heart in my hand is heavy as lead
his eyes through my eyes shine brighter than love
O send out the raven ahead of the dove

His life in my mouth is less than a man
his death on my breast is harder than stone
his eyes through my eyes shine brighter than love
O send out the raven ahead of the dove

O send out the raven ahead of the dove
O sing from your chains where you’re chained in a cave
your eyes through my eyes shine brighter than love
your blood in my ballad collapses the grave

O sing from your chains where you’re chained in a cave
your eyes through my eyes shine brighter than love
your heart in my hand is heavy as lead
your blood on my arm is warm as a bird

O break from your branches a green branch of love
after the raven has died for the dove


Leonard Cohen

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Beautiful losers

FRIEDRICH VON AMERLING


O que é um santo? Um santo é alguém que conseguiu realizar uma remota possibilidade humana. É impossível dizer qual é essa possibilidade. Eu acho que tem algo a ver com a energia do amor. O contato com essa energia resulta no exercício de um tipo de balanço dentro do caos de nossa existência. Um santo não resolve esse caos; se pudesse o mundo teria mudado há muito tempo.

Não acredito que um santo dissolva o caos nem para si mesmo, pois há algo arrogante e tipicamente guerreiro na concepção de um homem colocando ordem no universo. Sua gloria é um tipo de equilíbrio. Ele desliza à deriva como um ski solto. Seu curso é a carícia do morro. Sua marca é o acúmulo de neve naquele momento específico, arranjado pelo vento e a pedra. Algo no seu interior ama o mundo de tal maneira que ele se entrega para as leis da gravidade e o acaso. Longe de voar com os anjos, ele traça com a fidelidade de uma agulha de um sismógrafo, o estado da sólida paisagem. Seu lar é perigoso e finito, mas ele esta à vontade no mundo. Ele consegue amar as formas das coisas humanas, as formas finas e tortas do coração. É bom ter entre nós tais homens, tais monstros equilibradores do amor.


Leonard Cohen