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terça-feira, 28 de maio de 2013

Reflexão sobre a reflexão

William Schneider


Terrível é o pensar.
Eu penso tanto
E me canso tanto com meu pensamento
Que às vezes penso em não pensar jamais.
Mas isto requer ser bem pensado
Pois se penso demais
Acabo despensando tudo que pensava antes
E se não penso
Fico pensando nisso o tempo todo.


Millôr Fernandes 

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013





"Eu vim com pão azeite e aço;
Me deram vinho, apreço, abraço:
O sal eu  faço."

***

"As estatísticas provam, que as estatísticas não provam nada."

***

"Vossa Excelência chegou ao limite da ignorância e, no entanto, prosseguiu".

***


Poeminha sobre o Tempo

O despertador desperta,
acorda com sono e medo;
por que a noite é tão curta
e fica tarde tão cedo?

***

Você, que gosta de provérbios, e até segue os seus conceitos, cuidado! Eles andam muito poluídos:

- Nunca digas: "Desta água não beberei." Mas ferve antes.
- O que os olhos não vêem o coração não sente. Mas o intestino acusa.
- Cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém, desde que a galinha não seja alimentada de ração com aditivo químico.
- De lá pra cá muita bosta passou por baixo da ponte.
- Cão que faz cocô na praia não morde.
- Mais vale um pássaro voando do que dois na mão envenenados por monóxido de carbono.
- Devagar se vai ao longe, mas não com o reboco do Túnel Rebouças caindo na cabeça como acontece todo dia.
- Mata a cobra e mostra a lata de pesticida.
- Diz-me com quem andas e eu te digo se vais pegar aids ou não.
- Águas estagnadas não movem moinhos.
- De grão em grão a galinha morre intoxicada.

***

A palavra é de ouro
O silêncio é de prata
A burrice é de chumbo
A canalhice é de lata.

***
Fiquem tranquilos os poderosos
que têm medo de nós:
nenhum humorista atira pra matar.



Millôr Fernandes

sábado, 3 de novembro de 2012

Poeminha depressa




Só se anda com as pernas
Só se come comida
Só se lembra o passado
Só se vive uma vida.


           Millôr Fernandes

sexta-feira, 14 de setembro de 2012



mas afinal, o que é a vida?
um manso lago azul, sereno, sem espumas?
ou a quinta roda de um destino oculto?
uma queda sem fim?
ou um rio que nasce na pureza da neve no alto da montanha?
sei, aqui não há neve, mas a imagem é boa, não convém perdê-la: um rio, descendo sereno em direção ao mar, cantando nas pedras... irisado pelos raios do sol, nunca parado em seu fluxo eterno.
rio?
ou a vida é por terra, uma estrada verdejante, alcatifada de flores?
ou ainda, como é mais o meu caso, ainda uma estrada, mas estreita, guardas, malfeitores propriamente ditos. Por trás de cada curva, dissabores e angústias.
bem, mas não há porque ser pessimista: sempre se pode encontrar um carro que acabou de capotar e, como os donos estão mortos, roubar o rádio e continuar a viagem ouvindo uma bela canção onde se fala de paz e amor.


Millôr Fernandes

segunda-feira, 17 de outubro de 2011



by Arthur Braginsky

by  Al Dorner

by Greg Gomez


nada tem nexo
tudo é apenas
um reflexo


Millôr Fernandes

sábado, 30 de julho de 2011

Exageros de Mãe

Steve Hanks

Já te disse mais de mil vezes que não quero ver você descalço. Nunca vi uma criança tão suja em toda a minha vida. Quando teu pai chegar você vai morrer de tanto apanhar. Oh, meu Deus do céu, esse menino me deixa completamente maluca. Estou aqui há mais de um século esperando e o senhor não vem tomar banho. Se você fizer isso outra vez nunca mais me sai de casa. Pois é, não come nada: é por isso que está aí com o esqueleto à mostra. Se te pegar outra vez mexendo no açucareiro, te corto a mão. Oh, meu Deus, eu sou a mulher mais infeliz do mundo. Não chora desse jeito que você vai acordar o prédio inteiro. Você pensa que seu pai só trabalha pra você chupar Chica-Bon? Mas, furou de novo o sapato: você acha que seu pai é dono de sapataria, pra lhe dar um sapato novo todo dia? Onde é que você se sujou dessa maneira: acabei de lhe botar essa roupa não faz cinco minutos! Passei a noite toda acordada com o choro dele. Eu juro que um dia eu largo isso tudo e nunca ninguém mais me vê. Não se passa um dia que eu não tenha que dizer a mesma coisa. Não quero mais ver você brincando com esses moleques, esta é a última vez que estou lhe avisando.

Millôr Fernandes
Texto extraído do livro "'10 em Humor", Editora Expressão e Cultura - Rio de Janeiro, 1968, pág. 15.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Discurso de Deus a Eva



"... Eva, de repente, descobrindo uma bela cascata, resolveu tomar um banho de rio. A criação inteira veio então espiar aquela coisa linda que ninguém conhecia. E quando Eva saiu do banho, toda molhada, naquele mundo inaugural, naquela manhã primeval, estava realmente tão maravilhosa que os anjos, arcanjos e querubins, ao verem a primeira mulher nua sobre a Terra, não se contiveram, começaram a bater palmas e a gritar, entusiasmados: "O AUTOR! O AUTOR! O AUTOR!".


"Minha cara,

eu te criei porque o mundo estava meio vazio, e o homem, solitário. O Paraíso era perfeito e, portanto, sem futuro. As árvores, ninguém para criticá-las; os jardins, ninguém para modificá-los; as cobras, ninguém para ouvi-las. Foi por isso que eu te fiz. Ele nem percebeu e custará os séculos para percebê-lo. É lento, o homenzinho. Mas, hás de compreender, foi a primeira criatura humana que fiz em toda a minha vida. Tive que usar argila, material precário, embora maleável. Já em ti usei a cartilagem de Adão, matéria mais difícil de trabalhar, mais teimosa, porém mais nobre. Caprichei em tuas cordas vocais, poderás falar mais, e mais suavemente. Teu corpo é mais bem acabado, mais liso, mais redondo, mais móvel, e nele coloquei alguns detalhes que, penso, vão fazer muito sucesso pelos tempos a fora. Olha Adão enquanto dorme; é teu. Ele pensara que és dele. Tu o dominarás sempre. Como escrava, como mãe, como mulher, concubina, vizinha, mulher do vizinho. Os deuses, meus descendentes; os profetas, meus public-relations, os legisladores, meus advogados; proibir-te-ão como luxúria, como adultério, como crime, e até como atentado ao pudor! Mas eles próprios não resistirão e chorarão como santos depois de pecarem contigo; como hereges, depois de, nos teus braços, negarem as próprias crenças; como traidores, depois de modificarem a Lei para servir-te. E tu, só de meneios, viverás.

Nasces sábia, na certeza de todos os teus recursos, enquanto o Homem, rude e primário, terá que se esforçar a vida inteira para adquirir um pouco de bens que depositará humildemente no teu leito. Vai! Quando perguntei a ele se queria uma Mulher, e lhe expliquei que era um prazer acima de todos os outros, ele perguntou se era um banho de rio ainda melhor. Eu ri. O homem e um simplório. Ou um cínico. Ainda não o entendi bem, eu que o fiz, imagina agora os seus semelhantes.

Olha, ele acorda. Vai. Dá-me um beijo e vai. Hmmmm, eu não pensava que fosse tão bom. Hmmmm, ótimol Vai, vai! Não é a mim que você deve tentar, menina! Vai, ele acorda. Vem vindo para cá. Olha a cara de espanto que faz. Sorri! Ah, eu vou me divertir muito nestes próximos séculos!"


Millôr Fernandes

domingo, 1 de maio de 2011

Obstinação dos outros

Konstantin Razumov 


Deixamos de beber
E em cada esquina
Abriram um novo bar.

Abandonamos o fumo;
Passam homens, crianças
E navios
A fumar.

A rua, como nunca, está cheia de mulheres
Jovens, lindas de corpo, sedutoras de andar.
Ah, mas já deixamos de amar.


Millôr Fernandes