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sexta-feira, 14 de junho de 2024


 " A beleza é toda e qualquer concordância sutil e elevada de tudo o que agrada imediatamente, sem exigir reflexão e meditação."

Goethe

sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

 


“Qual o homem no mundo que, sem vocação interior, dedica-se a um ofício, uma arte ou qualquer meio de vida, não achará como tu insuportável sua profissão? Aquele que nasceu com talento para algum talento, nele encontra sua mais bela existência! Não existe coisa alguma nesta terra sem dificuldade! Só o impulso interior, o amor e o desejo nos ajudam a superar os obstáculos, a abrir caminhos e a elevar-nos acima do estreito círculo onde outros miseravelmente se debatem! Para ti, os palcos nada mais são que palcos, e os papéis, o que para um escolar é sua tarefa! Vês o público como ele mesmo se imagina ser nos dias de trabalho. Pois, para ti, tanto faz estar sentado atrás de uma escrivaninha, debruçado sobre livros quadriculados, registrando contribuições ou usurpando as diferenças. Não sentes esse todo a arder coeso, que só o espírito descobre, concebe e realiza; não sentes que lateja nos homens uma centelha melhor que, não encontrando alento nem ânimo, é soterrada pelas cinzas das necessidades quotidianas e da indiferença, e, ainda assim, por mais tarde que seja, nunca é abafada. Não sentes em tua alma força alguma para avivá-la, nem em teu coração a riqueza necessária para alimentar aquilo que despertaste. A fome te impele, os transtornos te são adversos e não consegues compreender que em qualquer condição social espreitam esses inimigos, que só a alegria e a serenidade podem vencer. Fazes bem em aspirar aos limites de uma ocupação vulgar, pois como poderias desempenhar com acerto alguma outra que exige gênio e coragem? (…) Se se movessem vivamente em tua alma as imagens de homens laboriosos, se aquecesse teu peito um fogo compassivo, se se propagasse por todo teu ser esta inclinação que emana do mais profundo, se fosse agradável ouvir os sons de tua garganta, as palavras de teus lábios, se te sentisses forte o bastante em ti mesmo…, e certamente procurarias lugar e ocasião de poder sentir-te também nos outros!”

Goethe, J. W. Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister. 

sábado, 2 de novembro de 2013

A Luta do Antigo e do Novo



É sempre igual a luta do que é antigo, do que já existe e procura subsistir, contra o desenvolvimento, a formação e a transformação. Toda a ordem acaba por dar origem à pedanteria e para nos libertarmos dela destrói-se a ordem. Depois, demora sempre algum tempo até que se ganhe consciência de que é preciso voltar a estabelecer uma ordem. O clássico face ao romântico, a obrigação corporativa face à liberdade profissional, o latifúndio face à pulverização da propriedade fundiária: o conflito é sempre o mesmo e há-de sempre dar origem a um novo conflito. Deste modo, a maior prova de entendimento por parte do governante seria regular essa luta de tal maneira que, sem prejuízo de cada uma das partes, conseguisse manter-se equidistante.
É, no entanto, uma possibilidade que não foi dada aos homens, e Deus não parecer querer que assim aconteça.

Johann Wolfgang von Goethe, in 'Máximas e Reflexões'

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Ao cabo de escrutar com o mais ansioso estudo

Caravaggio, São Jerônimo Que Escreve (1606)

Ao cabo de escrutar com o mais ansioso estudo
filosofia, e foro, e medicina, e tudo
até a teologia... encontro-me qual dantes;
em nada me risquei do rol dos ignorantes.
Mestre em artes me chamo; inculco-me Doutor;
e em dez anos vai já que, intrépido impostor,
aí trago em roda viva um bando de crendeiros,
meus alunos... de nada, e ignaros verdadeiros.
O que só liquidei depois de tanta lida,
foi que a humana inciência é lei nunca infringida.
Que frenesi! Sei mais, sei mais, isso é verdade,
do que toda essa récua inchada de vaidade:
lentes e bacharéis, padres e escrevedores.
Já me não fazem mossa escrúpulos, terrores
de diabos e inferno, atribulados sonhos
e martírio sem fim dos ânimos bisonhos.

Mas, com te suplantar, fatal credulidade,
que bens reais lucrei? Gozo eu felicidade?
Ah! nem a de iludir-me e crer-me sábio. Sei
que finjo espalhar luz, e nunca a espalharei
que dos maus faça bons, ou torne os bons melhores;
antes faço os bons maus, e os maus inda piores.
Lucro, sequer, eu próprio? Ambiciono opulência,
e vivo pobre, quase à beira da indigência.
Cobiço distinguir-me, enobrecer-me, e vou-me
com a vil plebe confuso, à espera em vão de um nome.
E chama-se isto vida! Os próprios cães da rua
não quereriam dar em troco desta a sua." 

Johann Wolfgang Von Goethe. In: Fausto ( Quadro II - Cena I)

sábado, 23 de abril de 2011


Que sensação se comunica a todo o meu ser quando por acaso meu dedo toca no seu, ou nossos pés se encontram embaixo da mesa! Retiro-os como se tivesse tocado o fogo, e uma força secreta impulsiona-me de novo... a vertigem arrebata os meus sentidos!... E dizer que sua alma cândida não sabe o suplício que me infligem essas pequenas familiaridades! E quando, animados pela conversa, ela pousa sua mão sobre a minha e, mais arrebatados ainda pelas palavras, ela se aproxima tanto de mim que eu chego a experimentar seu hálito celestial junto dos meus lábios... então, parece que vou desaparecer como que ferido pelo raio... E, Wilhelm, como explicar esta pureza e esta confiança, se eu jamais ousei... você me compreende. Não, meu coração não é assim tão corrompido! Ele é fraco, sim, bem fraco!... E isto já não é a corrupção?

Ela me é sagrada. Todo desejo emudece em sua presença. Não sei o que sinto quanto estou junto dela; é como se toda a minha alma estivesse subvertida... Há uma ária que ela toca no cravo, com o poder mágico de um anjo, e com tanta simplicidade, tanta alma! É a sua ária predileta. Quando ela fere a primeira nota, sinto-me curado de todo o meu sofrimento, da confusão das minhas idéias e fantasias.

Nada do que os antigos contam sobre o poder sobrenatural da música me parece inverossímel. Como esse pequeno canto toma conta de mim. E como ela sabe fazer-se ouvir a propósito, sempre no momento em que me vem vontade de meter uma bala na cabeça!... O delírio e as trevas se dissipam na minha alma e respiro mais livremente.

Johann Wolfgang Goethe, Werther

domingo, 26 de dezembro de 2010

Livro de leitura

Charles Amable Lenoir 


O mais singular livro dos livros
É o Livro do Amor;
Li-o com toda a atenção:
Poucas folhas de alegrias,
De dores cadernos inteiros.
Apartamento faz uma seção.
Reencontro! um breve capítulo,
Fragmentário. Volumes de mágoas
Alongados de comentários,
Infinitos, sem medida.
Ó Nisami! — mas no fim
Achaste o justo caminho;
O insolúvel, quem o resolve?
Os amantes que tornam a encontrar-se.


Johann Wolfgang von Goethe
trad.  de Paulo Quintela

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Anelo



Só aos sábios o reveles,
Pois o vulgo zomba logo:
Quero louvar o vivente
Que aspira à morte no fogo.

Na noite – em que te geraram,
Em que geraste – sentiste,
Se calma a luz que alumiava,
Um desconforto bem triste.

Não sofres ficar nas trevas
Onde a sombra se condensa.
E te fascina o desejo
De comunhão mais intensa.

Não te detêm as distâncias,
Ó mariposa! E nas tardes,
Ávida de luz e chama,
Voas para a luz em que ardes.

"Morre e transmuda-te": enquanto
Não cumpres esse destino,
És sobre a terra sombria
Qual sombrio peregrino.


Johann Wolfgang von Goethe
tradução de Manuel Bandeira

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Johann Wolfgang Goethe, Werther (2)

O criado levou as pistolas a Werther, que as recebeu com arrebatamento quando se inteirou de que tinha sido Cartola que as entregara. Serviu-se de pão e vinho, disse ao criado que fosse jantar, e pôs-se a escrever:

Elas passaram pelas suas mãos, você as limpou! Beijei-as mil vezes: Você tocou-as. É você, anjo do céu, que favorece meu desígnio! Você mesma Cartola, fornece o instrumento que vai consumá-lo! Desejei receber a morte de suas mãos; é de você que a recebo hoje! Interroguei o meu criado e ele contou-me que você tremia ao entregar-lhe as pistolas, e não me enviou um adeus!... Ai de mim, ai de mim, nem um adeus!... Ter-me-ia fechado o coração por causa deste instante que me liga a você para sempre? Ó Carlota, milhares de anos não bastariam para apagar a impressão de tudo isso, e, sinto-o, você não pode odiar aquele que arde assim por sua causa!

Depois do jantar, ele ordenou ao criado que acabasse de fazer as malas, rasgou uma porção de papéis e saiu para pagar algumas pequenas dívidas. Retornou à casa, saiu de novo, apesar da chuva, dirigindo-se ao jardim do conde; depois, pôs-se a errar pelo campo. Ao cair da noite, voltou para casa e escreveu isto:

Pela última vez, Wilhelm, vi os campos, os bosques e o céu. Adeus a você também!... Querida mãe, perdoa-me! Console-a, Wilhelm! Que Deus vos abençoe! Todos os meus negócios estão em ordem. Adeus! Nós nos tornaremos a ver e seremos mais felizes!
Recompensei-o mal, Alberto, mas você me perdoará. Perturbei a paz do seu lar, lancei entre vocês a desconfiança. Adeus! Quero pôr um termo a tudo isto. Oh! Se vocês puderem ser felizes por causa da minha Morte! Alberto, Alberto, faça feliz o anjo que tem a seu lado! E que assim a graça de Deus baixe sobre você!

Durante a noite, remexeu ainda por muito tempo os seus papéis, dos quais rasgou uma porção, lançando-os ao fogo. Fez alguns pacotes e endereçou-os a Wilhelm. Eram pequenos ensaios e pensamentos soltos; muitos desses trabalhos me foram mostrados. Depois das 10 horas, tendo ordenado que lançassem mais lenha ao fogo, pediu uma garrafa de vinho e mandou dormir o criado, cujo quarto, bem como o das demais pessoas da casa, era muito distante do seu. O criado deitou-se de roupa e tudo, para erguer-se na manhã seguinte muito cedo, pois o amo lhe havia dito que os cavalos da posta estariam em frente da casa antes das 6 horas.

Depois das 11 horas.

Em torno de mim reina a tranquilidade, e minha alma está tão calma! Agradeço-vos, ó Deus, por me concederes em meus últimos momentos, este calor e esta força!
Aproximo-me da janela, ó minha amiga, e vejo ainda, através das nuvens que o vento tempestuoso, ao longe, dispersa, brilhar aqui e além as estrelas do céu eterno. Não, vós não tombareis! O eterno vos retém em seu seio, e a mim também! Vejo as rodas do carro, a mais querida das constelações. Quando ontem a deixei, quando saí de sua casa, eu vi diante de mim essa constelação. Com que inebriamento a tenho tantas vezes contemplado! Quantas vezes, erguendo as mãos ao céu, tomei-a como sinal, como monumento sagrado da felicidade que então fruía! E, no entanto, ainda... Ó Cartola, que é que não me faz pensar em você? Você não está em tudo quanto me cerca? E não tenho eu, como uma criança, furtado avidamente mil ninharias que você tocou, ó minha santa?
Querida silhueta! A você  a lego, pedindo-lhe que a venere. Quando entrava, ou quando saía, imprimia nela milhares de beijos; mil vezes lhe disse adeus.
Escrevi um bilhete ao seu pai, pedindo-lhe que proteja meu corpo. No cemitério, bem ao fundo, no canto que dá para o campo, há duas tílias: é lá que desejo repousar. Ele poderá fazer isso, há de fazê-lo pelo seu amigo. Peça-lhe também! Não exigirei dos piedosos cristãos que deixem depositar seus corpos ao lado de um infeliz! Ah! Eu queria que me enterrassem à beira da estrada, ou no vale solitário! Ao passar, o sacrificador e o levita haveriam de persignar-se diante da pedra que marcaria o meu túmulo e o Samaritano me concederia uma lágrima.
Veja, Cartola, que não tremo ao pegar a fria e terrível taça por onde quero beber e a embriaguez da morte! É você quem ma apresenta e eu não hesito um só momento. É assim que se consumam todos os votos, todas as esperanças da minha vida, todas! Quero bater, gelado e rígido, à porta de bronze da morte!
Se eu tivesse alcançado a ventura de morrer, de sacrificar-me por você. Carlota! Eu morreria corajosamente, e com que alegria, se pudesse restituir-lhe o repouso e a felicidade! Mas, ai de mim, a muito poucas e nobres criaturas é dado derramar o sangue pelos seus e, com a morte, iluminar uma vida nova e centuplicada para aqueles que amam!
É com esta roupa, Carlota, que quero ser enterrado; você a tocou, você a santificou; também isto pedi a seu pai. Minha alma flutuará sobre o caixão. Que ninguém remexa em meus bolsos. O nó cor-de-rosa que você trazia no corpete, quando a vi pela primeira vez em meio das suas crianças... Oh! Beije-as mil vezes por mim e conte-lhes a história do seu desgraçado amigo! Queridas crianças! Vejo-as alvoraçadas em torno de mim! Ah! como me prendi a este nó cor-de-rosa, como, desde o primeiro momento, não mais pude deixá-lo... Irá comigo para o túmulo; você mo deu no dia do meu aniversário natalício. Com que sofreguidão o recebi! Não pensava que tudo me havia de conduzir até aqui!... Carlota, Carlota! Adeus, adeus!

Um vizinho viu o clarão da pólvora e ouviu o estampido, mas, como tudo voltou ao completo silêncio, não se inquietou mais.
Às 6 horas da manhã, ao entrar com uma lâmpada, o criado encontrou o amo estendido no solo. Vendo as pistolas e o sangue, chamou-o, sacudindo-o. Nenhuma resposta. Werther estertorava. Correu ao médico, foi à casa de Alberto. Carlota ouviu bater e sentiu um arrepio por todo o corpo. Despertou o marido e ambos saltaram da cama. O criado, gritando e gaguejando, deu-lhes a notícia. Carlota caiu sem sentido aos pés de Alberto.
Quando o médico chegou, o desgraçado jazia no assoalho. Não havia mais esperanças de salvá-lo, pois, conquanto o pulso ainda batesse, todos os membros estavam paralisados. Ele havia metido uma bala na cabeça, acima do olho direito, e os miolos saltaram para fora. Fazendo uma tentativa, deram-lhe uma sangria no braço; o sangue correu e ele continuou  a respirar.
A mancha de sangue que se via no espaldar da poltrona provou que Werther estava sentado à sua secretária quando disparou a arma; que em seguida tombara e, debatendo-se na convulsão, rolara ao lado da mesma poltrona. Estirado em decúbito dorsal, perto da janela, não teve mais forças para fazer qualquer movimento. Estava completamente vestido e calçado, envergando um fraque azul e um colete amarelo.
A princípio a casa, depois a vizinhança, por último a vila inteira foi sacudida pela emoção. Alberto apareceu. Tinham posto Werther sobre o leito com o rosto amarrado por um lenço. A sua fisionomia era já a de um morto. Não fazia o menor movimento. Os pulmões ainda arfavam de um modo horroroso, ora fracamente, ora com mais força. Esperava-se o fim.
Ele bebera apenas um copo de vinho. O drama de Emilia Galotti estava aberto sobre a estante.
Dispensem-me de descrever a consternação  de Alberto e o desespero de Carlota.
O velho bailio acudiu, logo que soube da notícia, e beijou o morimbundo, derramando lágrimas ardentes. Seus dois filhos chegaram a pé, logo depois do pai, e, abandonando-se à dor mais violenta, caíram junto ao leito, beijando as mãos e a boca de Werther. O mais velho dos dois, por quem Werther sempre demonstrou particular estima, colou-se-lhe aos lábios até que o infeliz soltasse o último suspiro, tendo sido preciso arrancá-lo dali à força. Werther expirou ao meio-dia. A presença do bailio e as medidas por ele tomadas evitaram que a multidão se atropelasse em frente da casa. À noite, cerca das 11 horas, o bailio fê-lo enterrar no local previamente escolhido pelo desgraçado. O velho e os filhos acompanharam o cortejo. Alberto não se sentiu capaz de fazê-lo. Temia-se pela vida de Carlota. O corpo foi conduzido por trabalhadores. Nenhum padre o acompanhou.

Johann Wolfgang Goethe, Werther

sábado, 14 de agosto de 2010

Canto dos espíritos sobre as águas


A alma do homem
É como a água:
Do céu vem,
Ao céu sobe,
E de novo tem
Que descer à terra,
Em mudança eterna.

Corre do alto
Rochedo a pino
O veio puro,
Então em belo
Pó de ondas de névoa
Desce à rocha lisa,
E acolhido de manso
Vai, tudo velando,
Em baixo murmúrio,
Lá para as profundas.

Erguem-se penhascos
De encontro à queda,
Vai, 'spumando em raiva,
Degrau em degrau
Para o abismo.

No leito baixo
Desliza ao longo do vale relvado,
E no lago manso
Pascem seu rosto
Os astros todos.

Vento é da vaga
O belo amante;
Vento mistura do fundo ao cimo
Ondas 'spumantes.

Alma do Homem,
És bem como a água!
Destino do homem,
És bem como o vento!


Johann Wolfgang von Goethe
(Tradução de Paulo Quintela)

terça-feira, 27 de julho de 2010

Johann Wolfgang Goethe, Werther

A vida humana não passa de um sonho. Mais de uma pessoa já pensou isso. Pois essa impressão também me acompanha por toda parte. Quando vejo os estreitos limites onde se acham encerradas as faculdades ativas e investigadoras do homem, e como todo o nosso labor visa apenas a satisfazer nossas necessidades, as quais, por sua vez, não têm outro objetivo senão prolongar nossa mesquinha existência; quando verifico que o nosso espírito só pode encontrar tranquilidade, quanto a certos pontos das nossas pesquisas, por meio de uma resignação povoada de sonhos, como um presidiário que adornasse de figuras multicoloridas e luminosas perspectivas as paredes da sua célula... tudo isso, Wilhelm, me faz emudecer. Concentro-me e encontro um mundo de mim mesmo! Mas, também aí, é um mundo de pressentimentos e desejos obscuros e não de imagens nítidas e forças vivas. Tudo flutua vagamente nos meus sentidos, e assim, sorrindo e sonhando, prossigo na minha viagem através do mundo.
As crianças - todos os pedagogos eruditos estão de acordo a este respeito - não sabem a razão daquilo que desejam; também os adultos, da mesma forma que as crianças, caminham vacilantes e ao acaso sobre a terra, ignorando, tanto quanto elas, de onde vêem e pra onde vão. Não avançam nunca segundo uma orientação segura; deixam-se governar, como as crianças, por meio de biscoitos, pedaços de bolo e vara. E, como agem por essa forma, inconscientemente, parece-me, portanto, que se acham subordinados à vida dos sentidos.
Concordo com você (porque já sei que você vai contraditar-me) que os mais felizes são aqueles que vivem, dia a dia, como as crianças, passeando, despindo e vestindo as suas bonecas; aqueles que rondam, respeitosos, em torno da gaveta onde a mamãe guardou os bombons, e, quando conseguem agarrar, enfim, as gulodices cobiçadas, devoram-nas com sofreguidão e gritam: "Quero mais!" Eis a gente feliz! Também é ditosa a gente que, emprestando nomes pomposos à suas mesquinhas ocupações, e até às suas paixões, conseguem fazê-las passar por gigantescos empreendimentos destinados à salvação e prosperidade do gênero humano. Tanto melhor para os que são assim!... Mas aquele que humildemente reconhece o resultado final de todas as coisas, vendo de um lado como o burgês facilmente arranja o seu pequeno jardim e dele faz um paraíso, e, de outro, como o miserável, arfando sob o seu fardo, segue o seu caminho sem revoltar-se, mas aspirando todos, do mesmo modo, a enxergar ainda por um minuto a luz do sol... sim, quem isso observa à margem, permanece tranquilo. Também este se representa a seu modo um universo que tira de si mesmo, e também é feliz porque é homem. E, assim, quaisquer que sejam os obstáculos que entravem seus passos, guarda sempre no coração o doce sentimento de que é livre e poderá, quando quiser, sair da sua prisão.

Johann Wolfgang Goethe, Werther

quinta-feira, 15 de abril de 2010



Antes, em voo ousado, a imaginação
Subia até aos céus, plena de alento:
Hoje basta um estreito espaço para a ilusão
Se afundar nos abismos do tempo.
Logo o cuidado se aninha bem dentro
Do peito e traz secreto sofrimento;
Balança inquieto, estorva prazer e paz,
São sempre novas as máscaras que traz:
É casa e bens, mulher, os filhos que tiverdes,
Água, fogo, punhal, veneno, eu sei lá;
E tu tremes com medo do que nunca virá,
E choras sem cessar aquilo que não perdes.


Goethe,
in Fausto