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terça-feira, 1 de outubro de 2013

Poética

1

Que é a Poesia?

uma ilha
cercada
de palavras
por todos
os lados.


2

Que é o Poeta?

um homem
que trabalha o poema
com o suor do seu rosto.
Um homem
que tem fome
como qualquer outro
homem.


Cassiano Ricardo
(In Jeremias Sem-Chorar. São Paulo, José Olympio, 1964)
imagens: Gianni Bellini

terça-feira, 4 de junho de 2013

O acusado

Angelica Privalihin 


Quando eu nasci, já as lágrimas que eu havia 
De chorar, me vinham de outros olhos. 


Já o sangue que caminha em minhas veias pro futuro 
Era um rio. 


Quando eu nasci já as estrelas estavam em seus lugares 
Definitivamente 
Sem que eu lhes pudesse, ao menos, pedir que influíssem 
Desta ou daquela forma, em meu destino. 


Eu era o irmão de tudo: ainda agora sinto a nostalgia 
Do azul severo, dramático e unânime. 
Sal — parentesco da água do oceano com a dos meus olhos, 
Na explicação da minha origem. 


Quando eu nasci, já havia o signo do zodíaco. 


Só, o meu rosto, este meu frágil rosto é que não 
Quando eu nasci. 


Este rosto que é meti, mas não por causa dos retratos 
Ou dos espelhos. 


Este rosto que é meu, porque é nele 
Que o destino me dói como uma bofetada. 
Porque nele estou nu, originalmente. 
Porque tudo o que faço se parece comigo. 
Porque é com ele que entro no espetáculo. 
Porque os pássaros fogem de mim, se o descubro 
Ou vêm pousar em mim quando eu o escondo.


Cassiano Ricardo

quinta-feira, 30 de maio de 2013

A rua

Eugene de  Blaas


Bem sei que, muitas vezes, 
O único remédio 
É adiar tudo. É adiar a sede, a fome, a viagem, 
A dívida, o divertimento, 
O pedido de emprego, ou a própria alegria. 
A esperança é também uma forma 
De continuo adiamento. 
Sei que é preciso prestigiar a esperança, 
Numa sala de espera. 
Mas sei também que espera significa luta e não, apenas, 
Esperança sentada. 
Não abdicação diante da vida. 

A esperança 
Nunca é a forma burguesa, sentada e tranquila da espera. 
Nunca é figura de mulher 
Do quadro antigo. 
Sentada, dando milho aos pombos.


Cassiano Ricardo

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Canção para poder viver

Nikola Borissov Photography

Dou-lhe tudo do que como, 
e ela me exige o último gomo. 

Dou-lhe a roupa com que me visto 
e ela me interroga: só isto? 

Se ela se fere num espinho, 
O meu sangue é que é o seu vinho. 

Se ela tem sede eu é que choro, 
no deserto, para lhe dar água: 

E ela mata a sua sede, 
já no copo de minha mágoa 

Dou-lhe o meu canto louco; faço 
um pouco mais do que ser louco. 

E ela me exige bis, "ao palco"!


Cassiano Ricardo

domingo, 16 de dezembro de 2012

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

A rua

 Claire Pettibone


Bem sei que, muitas vezes,
O único remédio
É adiar tudo. É adiar a sede, a fome, a viagem,
A dívida, o divertimento,
O pedido de emprego, ou a própria alegria.
A esperança é também uma forma
De continuo adiamento.
Sei que é preciso prestigiar a esperança,
Numa sala de espera.
Mas sei também que espera significa luta e não, apenas,
Esperança sentada.
Não abdicação diante da vida.

A esperança
Nunca é a forma burguesa, sentada e tranquila da espera.
Nunca é figura de mulher
Do quadro antigo.
Sentada, dando milho aos pombos.


Cassiano Ricardo

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Posições do corpo

Alex-Alemany




Sob o azul
sobre o azul


                       subazul
                       subsol
                      subsolo.


Cassiano Ricardo

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Ode Pastoril







A paisagem é minha
só porque tenho olhos.
O pássaro é meu
só porque tenho ouvidos.



Amo com a mão as coisas
que o estar aqui me deu.
No universal verde,
sou meu ser, não sou eu.




Em meu léxico lírico
só existem duas palavras,
e uma é irmã da outra:
a manhã e o amanhã.



Sinto que o espaço é a vida
e que o tempo é a morte.
E ponho, entre uma e outra,
meu rebanho de estrelas.



Cassiano Ricardo
imagens: jaroslav monchak

domingo, 18 de novembro de 2012

O Relógio

Foto by Rodney Smith



Diante de coisa tão doida
Conservemo-nos serenos

Cada minuto da vida
Nunca é mais, é sempre menos

Ser é apenas uma face
Do não ser, e não do ser

Desde o instante em que se nasce
Já se começa a morrer.


Cassiano Ricardo

sábado, 17 de novembro de 2012

A física do susto




O espelho caiu da parede.
Caiu com ele o meu rosto.
Com o meu rosto a minha sede.
Com a minha sede eu desgosto.
O meu desgosto de olhar,
no espelho caído, o meu rosto.


Cassiano Ricardo

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

A orquídea

Léa Cury


A orquídea parece
uma flor viva, uma
boca, e nos assusta.
Flor aracnídea.
Vagamente humana,
boca, embora feita
de inocentes pétalas,
já supõe perfídia.
Já supõe palavra
embora muda
Já supõe insídia.
Que estará dizendo
o lábio quase humano
da orquídea?


Cassiano Ricardo

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Espaço lírico





Não amo o espaço que o meu corpo ocupa
Num jardim público, num estribo de bonde.
Mas o espaço que mora em mim, luz interior.
Um espaço que é meu como uma flor

Que me nasceu por dentro, entre paredes.
Nutrido à custa de secretas sedes.
Que é a forma? Não o simples adorno.
Não o corpo habitando o espaço, mas o espaço

Dentro do meu perfil, do meu contorno.
Que haja em mim um chão vivo em cada passo
(mesmo nas horas mais obscuras) para

Que eu possa amar a todas as criaturas.
Morte: retorno ao incriado. Espaço:
Virgindade do tempo em campo verde.


Cassiano Ricardo

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

A outra vida




Não espero outra vida, depois desta.
Se esta é má
Por que não bastará aos deuses, já,
A pena que sofri?
Se é boa a vida, deixará de o ser,
Repetida.


Cassiano Ricardo

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Você e o seu retrato

by ana luisa kaminsky

Por que tenho saudade
de você, no retrato,
ainda que o mais recente?
E por que um simples retrato,
mais que você, me comove,
se você mesma está presente?
Talvez porque o retrato,
já sem o enfeite das palavras,
tenha um ar de lembrança.
Talvez porque o retrato
(exato, embora malicioso)
revele algo de criança
(como no fundo da água,
um coral em repouso)
Talvez pela idéia de ausência
que o retrato faz surgir
colocado entre nós dois
(como um ramo de hortênsia).
Talvez porque o seu retrato
mais se parece com você
do que você mesma (ingrato).
Talvez porque, no retrato,
você está imóvel
(sem respiração…)
Talvez porque todo retrato
é uma retratação.

 Cassiano Ricardo