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domingo, 15 de agosto de 2021

 

vicente romero


A poesia é, de fato, o fruto

de um silêncio que sou eu, sois vós,

por isso tenho que baixar a voz

porque, se falo alto, não me escuto.


A poesia é, na verdade, uma

falta ao revés da fala,

como um silêncio que o poeta exuma

do pó, a voz que jaz embaixo

do falar e no falar se cala.

Por isso o poeta tem que falar baixo

baixo quase sem fala em suma

mesmo que não se ouça coisa alguma.


Aliás, confessa o poeta: “apenas fulge / em alguma parte alguma / da vida.”


Ferreira Gullar

sábado, 28 de dezembro de 2013

Vendo a noite

 Nik Helbig


Júpiter, Saturno.
De dentro de meu corpo
estou vendo
o universo noturno.

Velhas explosões de gás
que meu corpo não houve:
vejo a noite que houve
e não existe mais —

a mesma, veloz, em Troia,
no rosto de Heitor
— hoje na pele de meu rosto
no Arpoador.


Ferreira Gullar

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Falar



A poesia é, de fato, o fruto
de um silêncio que sou eu, sois vós,
por isso tenho que baixar a voz
porque, se falo alto, não me escuto.

A poesia é, na verdade, uma
fala ao revés da fala,
como um silêncio que o poeta exuma
do pó, a voz que jaz embaixo
do falar e no falar se cala.
Por isso o poeta tem que falar baixo
baixo quase sem fala em suma
mesmo que não se ouça coisa alguma.


Ferreira Gullar

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Ana Carolina lê trecho de "Poema Sujo", de Ferreira Gullar

bela bela
mais que bela
mas como era o nome dela?
Não era Helena nem Vera
nem Nara nem Gabriela
nem Tereza nem Maria
Seu nome seu nome era…
Perdeu-se na carne fria
perdeu na confusão de tanta noite e tanto dia
perdeu-se na profusão das coisas acontecidas
constelações de alfabeto
noites escritas a giz
pastilhas de aniversário
domingos de futebol
enterros corsos comícios
roleta bilhar baralho
mudou de cara e cabelos mudou de olhos e risos mudou de casa
e de tempo: mas está comigo está
perdido comigo
teu nome
em alguma gaveta

Que importa um nome a esta hora do anoitecer em São Luís
do Maranhão à mesa do jantar sob uma luz de febre entre irmãos
e pais dentro de um enigma?
mas que importa um nome
debaixo deste teto de telhas encardidas vigas à mostra entre
cadeiras e mesa entre uma cristaleira e um armário diante de
garfos e facas e pratos de louças que se quebraram já

um prato de louça ordinária não dura tanto
e as facas se perdem e os garfos
se perdem pela vida caem
pelas falhas do assoalho e vão conviver com ratos
e baratas ou enferrujam no quintal esquecidos entre os pés de erva-cidreira

e as grossas orelhas de hortelã
quanta coisa se perde
nesta vida
Como se perdeu o que eles falavam ali
mastigando
misturando feijão com farinha e nacos de carne assada
e diziam coisas tão reais como a toalha bordada
ou a tosse da tia no quarto
e o clarão do sol morrendo na platibanda em frente à nossa
janela
tão reais que
se apagaram para sempre
Ou não?


Ferreira Gullar

sábado, 21 de setembro de 2013

Não-coisa


arthur braginski


O que o poeta quer dizer
no discurso não cabe
e se o diz é pra saber
o que ainda não sabe.

Uma fruta uma flor
um odor que relume...
Como dizer o sabor,
seu clarão seu perfume?

Como enfim traduzir
na lógica do ouvido
o que na coisa é coisa
e que não tem sentido?

A linguagem dispõe
de conceitos, de nomes
mas o gosto da fruta
só o sabes se a comes

só o sabes no corpo
o sabor que assimilas
e que na boca é festa
de saliva e papilas

invadindo-te inteiro
tal do mar o marulho
e que a fala submerge
e reduz a um barulho,

um tumulto de vozes
de gozos, de espasmos,
vertiginoso e pleno
como são os orgasmos

No entanto, o poeta
desafia o impossível
e tenta no poema
dizer o indizível:

subverte a sintaxe
implode a fala, ousa
incutir na linguagem
densidade de coisa

sem permitir, porém,
que perca a transparência
já que a coisa é fechada
à humana consciência.

O que o poeta faz
mais do que mencioná-la
é torná-la aparência
pura — e iluminá-la.

Toda coisa tem peso:
uma noite em seu centro.
O poema é uma coisa
que não tem nada dentro,

a não ser o ressoar
de uma imprecisa voz
que não quer se apagar
— essa voz somos nós.


Ferreira Gullar

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Um Instante

alexandre serra


Aqui me tenho
Como não me conheço
  nem me quis

sem começo
nem fim

  aqui me tenho
  sem mim

nada lembro
nem sei

à luz presente
sou apenas um bicho
  transparente


Ferreira Gullar

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Nydia Lozano



Todas as coisas de que falo estão na cidade
entre o céu e a terra.
São todas elas coisas perecíveis
e eternas como o teu riso
a palavra solidária
minha mão aberta
ou este esquecido cheiro de cabelo
que volta
e acende sua flama inesperada
no coração de maio.

Todas as coisas de que falo são de carne
como o verão e o salário.
Mortalmente inseridas no tempo,
estão dispersas como o ar
no mercado, nas oficinas,
nas ruas, nos hotéis de viagem.

São coisas, todas elas,
cotidianas, como bocas
e mãos, sonhos, greves,
denúncias,
acidentes de trabalho e do amor. Coisas,
de que falam os jornais,
às vezes tão rudes
às vezes tão escuras
que mesmo a poesia as ilumina com dificuldade.

Mas é nelas que te vejo pulsando,
mundo novo,
ainda em estado de soluços e esperança.


Ferreira Gullar

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Mau Despertar

Pierre Roger



Saio do sono como 
de uma batalha 
travada em 
lugar algum

Não sei na madrugada 
se estou ferido 
se o corpo 
        tenho 
        riscado 
de hematomas

Zonzo lavo 
       na pia 
os olhos donde 
ainda escorre 
uns restos de treva.


Ferreira  Gullar

quarta-feira, 20 de março de 2013

Evocação de silêncios



O silêncio habitava 
o corredor de entrada 
de uma meia morada 
na rua das Hortas

o silêncio era frio 
no chão de ladrilhos 
e branco de cal 
nas paredes altas

enquanto lá fora 
o sol escaldava

Para além da porta 
na sala nos quartos 
o silêncio cheirava 
àquela família

e na cristaleira 
(onde a luz 
se excedia) 
cintilava extremo:

quase se partia

    Mas era macio 
    nas folhas caladas 
    do quintal 
         vazio

       e 
       negro 
       no poço 
       negro

       que tudo sugava: 
       vozes luzes 
       tatalar de asa

       o que 
       circulava 
       no quintal da casa

O mesmo silêncio 
voava em zoada 
nas copas 
nas palmas 
por sobre telhados 
até uma caldeira 
que enferrujava 
na areia da praia 
do Jenipapeiro

e ali se deitava: 
uma nesga dágua

um susto no chão

fragmento talvez 
de água primeira

água brasileira

Era também açúcar 
o silêncio 
dentro do depósito 
(na quitanda 
de tarde)

o cheiro 
queimando sob a tampa 
no escuro

energia solar 
que vendíamos 
aos quilos

Que rumor era 
esse? barulho 
que de tão oculto 
só o olfato 
o escuta?

que silêncio 
era esse 
           tão gritado 
           de vozes 
           (todas elas) 
           queimadas 
           em fogo alto?

           (na usina)

alarido 
      das tardes 
      das manhãs

      agora em tumulto 
      dentro do açúcar

      um estampido 
      (um clarão) 
      se se abre a tampa.


Ferreira Gullar

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Poema

Anna Shakina Photography


Se morro
universo se apaga como se apagam
as coisas deste quarto
                                 se apago a lâmpada:
os sapatos - da - ásia, as camisas
e guerras na cadeira, o paletó -
dos - andes,
          bilhões de quatrilhões de seres
e de sóis
        morrem comigo.

Ou não:
       o sol voltará a marcar
       este mesmo ponto do assoalho
       onde esteve meu pé;
                                     deste quarto
       ouvirás o barulho dos ônibus na rua;
           uma nova cidade
           surgirá de dentro desta
           como a árvore da árvore.

Só que ninguém poderá ler no esgarçar destas nuvens 
a mesma história que eu leio, comovido.


Ferreira Gullar

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Inseto



Um inseto é mais complexo que um poema
Não tem autor
Move-o uma obscura energia
Um inseto é mais complexo que uma hidrelétrica

Também mais complexo que uma hidrelétrica
é um poema
(menos complexo que um inseto)

e pode às vezes
(o poema)
com sua energia
iluminar a avenida
ou quem sabe
uma vida


Ferreira Gullar

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Isto e Aquilo

Omar Ortiz


você é seu corpo
sua voz seu osso

você é seu cheiro
e o cheiro do outro

o prazer do beijo
você é seu gozo

o que vai morrer
quando o corpo morra

mas é também aquela
alegria (verso,
melodia)
que, inatingível, adeja
acima
do que a morte beija.


Ferreira Gullar

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Fica o não dito por dito



Fica o dito por não dito
O poema
antes de escrito
não é em mim
mais que um aflito
silêncio
ante a página em branco

ou melhor
um rumor
branco
ou um grito
que estanco
já que
o poeta
que grita
erra
e como se sabe
bom poeta(ou cabrito)
não berra


o poema
antes de escrito
antes de ser
é a possibilidade
do que não foi dito
do que está
por dizer
e que
por não ter sido dito
não tem ser
não é
senão
possibilidade de dizer

mas
dizer o quê?
dizer
olor de fruta
cheiro de jasmim?


mas
como dizê-lo
embora o diga de algum modo
pois não calo

por isso que
embora sem dizê-lo
falo:
falo do cheiro
da fruta
do cheiro
do cabelo
do andar
do galo
no quintal


e os digo
sem dizê-los
bem ou mal

se a fruta
não cheira
no poema
nem do galo
nele
o cantar se ouve
pode o leitor
ouvir
( e ouve)
outro galo cantar
noutro quintal
que houve.

(e que
se eu não dissesse
não ouviria
já que o poeta diz
o que o leitor
– se delirasse -
diria)


mas é que
antes de dizê-lo
não se sabe
uma vez que o que é dito
não existia
e o que diz
pode ser que não diria

e
se dito já não fosse
jamais se saberia

por isso
é correto dizer
que o poeta
não revela
o oculto:
inventa
cria
o que é dito
( o poema
que por um triz
não nasceria)


mas
porque o que ele disse
não existia
antes de dizê-lo
não o sabia

então ele disse
o que disse
sem saber o que dizia?
então ele sabia sem sabê-lo?
então só soube ao dizê-lo?
ou porque se já o soubesse
não o diria?

é que só o que não se sabe é poesia

assim
o poeta inventa
o que dizer
e que só
ao dizê-lo
vai saber
o que
precisava dizer
ou poderia
pelo que o acaso dite
e a vida
provisoriamente
permite.


Ferreira Gullar
imagens: Cristian Girotto

domingo, 29 de julho de 2012

Olhar

hiroshi chang


O que vejo
me atravessa
como ao ar
a ave.

o que eu vejo passa
através de mim
quase fica
atrás de mim.

o que eu vejo
- a montanha por exemplo banhada de sol
- me ocupa.

e sou apenas
essa rude pedra iluminada
ou quase

se não fora
saber que a vejo.


Ferreira Gullar

quinta-feira, 19 de julho de 2012

louis-aston-knight


Neste leito de ausência em que me esqueço,
desperta um longo rio solitário:
se ele cresce de mim, se dele cresço,
mal sabe o coração desnecessário.

O rio corre e vai sem ter começo
nem foz e o curso, que é constante, é vário.
Vai nas águas levando, involuntário,
luas onde me acordo e me adormeço.

Sobre o leito de sal, sou luz e gesso:
duplo espelho – o precário no precário.
Flore um lado de mim? No outro, ao contrário,
de silêncio e silêncio me apodreço.

Entre o que é rosa e lodo necessário,
passa um rio sem foz e sem começo.


Ferreira Gullar

sábado, 7 de julho de 2012

O Espelho do Guarda-roupa




II

Um homem
com um espelho (feito
um segundo esqueleto)
embutido no corpo
não pode
bruscamente voltar-se para trás
não pode
juntar nada do chão
e quando dorme
é como um acrobata
estendido sobre um relâmpago


Um homem com um espelho
enterrado no corpo
na verdade não dorme: reflete
um voo 

Enfim, esse homem
não pode falar alto demais
porque os espelhos só guardam
(em seu abismo)
imagens sem barulho



Ferreira Gullar, in "Na Vertigem do Dia"

sexta-feira, 22 de junho de 2012



O que se foi se foi.
Se algo ainda perdura
é só a amarga marca
na paisagem escura.

Se o que foi regressa,
traz um erro fatal:
falta-lhe simplesmente
ser real.

Portanto, o que se foi
é feito morte.

Então por que me faz
o coração bater tão forte?


Ferreira Gullar

terça-feira, 24 de abril de 2012

Pintura




Eu sei que se tocasse 
com a mão aquele canto do quadro
onde um amarelo arde 
me queimaria nele
ou teria manchado para sempre de delírio 
a ponta dos dedos. 


 Ferreira Gullar

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

O inferno




começa pelo olho, mas em breve é tudo. Uma poeira que cai ou rebenta nas superfícies. Se tivesse a certeza de que ao fim destas palavras meu corpo rolasse fulminado, eu faria delas o que elas devem ser, eu as conduziria a sua última ignição, eu concluiria o ciclo de seu tempo, levaria ao fim o impulso inicial estagnado nesta aridez utilitária em cujo púcaro as forças se destroem. Ou não faria. Não faria: uma vileza inata a meu ser trai em seu fulcro todo movimento para fora de mim: porque este é um tempo meu, e eu sou a fome e o alimento de meu cansaço: e eu sou esse cansaço comendo o meu peito. Porque eu sou só o clarão dessa carnificina, o halo desse espetáculo da ideia. Sou a força contra essa imobilidade e o fogo obscuro minando com a sua língua a fonte dessa força. Estamos no reino da palavra, e tudo que aqui sopra é verbo, e uma solidão irremissível,

INFERNO
a fascinação se exerce
sobre a minha vida. Exerce
como a foice decepa
como um arado rompendo a extensão do silêncio
sexualizado.

Não creio que tu estejas menos que este feixe de
contradições: os demônios fugiram,
mas o fedor de seu hábito, o perfume
de sua imaginação, a catinga real dos
ventos intestinais
restam sobre tudo aqui, penetrados em tudo aqui
até o cerne.
Mas, no meu corpo,
sustento a consistência dos tecidos, estais presentes,
com vosso odor caprino cáprico cálito
Numeral.

mas eu, não o outro, a e minha linguagem é a representação
duma discórdia
entre o que quero e a resistência do corpo.
e se é no ódio que ela melhor acende,
o ódio não dura, e a sua luz se perde outra
num rastilho suicida
lutei pra te libertar
eu-língua,
mas eu sou a força e
a contra-força,
mas eu não sou a força
e nem a contra-força
e é que nunca me vi nem sei qualquer resíduo
para além dum fechado gesto de ar ardente
queimando a linguagem em
seu começo
porque há o que floresce entre
meus pés e o que rebenta
num chão de extremo desconhecimento.
porque há frutos endurecendo a carne junto
ao mar das palavras. E há um homem perdendo-se
do fogo e há um homem crescido
para o fogo
e que se queima
só nos falsos e escassos incêndios da sintaxe.
oh que se voltem para ele os vermelhos e maduros
ventos do inferno
Oh
ele é um pomar
pronto. ele
pomar vazio
e pronto

Dizem que teu dorso de brasa é uma estação de certezas,
cozinha os cachos,
rasga na poeira fecal as extremas flores da vida


sejas tu gramática
ou guerra
campos do jogo, severa cabalística
mecânica de fedores,

(e se invado teu templo,
no chão,
de cores erguidas num rumor de peste)
aqui trabalho meu corpo, em claro, para atingir teu sopro.
E podes comer esta pele
com tua floração de lepra.
É que eu mesmo sou ELE e o seu deslumbro,
é que eu sou sua veste e seu canto, e o brilho
- que encravado na carne,
sustenta-o, lugks,
matilha acesa,
consumação em sóis de poeira e fome dos pudores.

Eis porque te destruo, língua,
e deixo minha fala secar contigo,
e cair como poeira
sobre os olhos famintos,
fulgéni!
sumir nele, e com ele,
a doença do ser,
o que se move lá no escuro vértice do ser,
o panariço:
fogo de fogo
é o espaço feito
do voo no voo, fa-
lo,
fogo
sem chama,
destruídas as fogueiras do vício
nos ossos,
fogo novo,
e nem essas labaredas da fuligem
lavrando os mitos, pela
escura velhice, na funda
terra,
o fogo
queima o fogo

Oh pacientes deuses
sob um sol fétido,
mortos, e só nas altas torres consumidos,
a carne, depois,
tornada em ouro.


Ferreira Gular

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Nem aí...



Indiferente
ao suposto prestígio literário
e ao trabalho
do poeta
à difícil faina
a que se entrega para
inventar o dizível,
sobe à mesa
o gatinho
se espreguiça
e deita-se e
adormece
em cima do poema


Ferreira Gullar