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terça-feira, 2 de fevereiro de 2016
O olho do homem é feito de modo que se lhe vê por ele a virtude. A nossa pupila diz que quantidade de homens há dentro de nós, Afirmamo-nos pela luz que fica debaixo da sobrancelha. As pequenas consciências pescam o olho, as grandes lançam raios. Se não há nada que brilhe debaixo da pálpebra, é que nada há que pense no cérebro, é que nada há que ame no coração. Quem ama quer, e aquele que quer relampeja e cintila. A resolução enche os olhos de fogo; admirável fogo que se compõe da combustão de pensamentos tímidos”.
Os teimosos são os sublimes. Quem é apenas bravo tem só um assomo, quem é apenas valente tem só um temperamento, quem é apenas corajoso tem só uma virtude; o obstinado na verdade tem a grandeza. Quase todo o segredo dos grandes corações está nesta palavra: perseverando. A perseverança está para a coragem como a roda para a alavanca; é a renovação perpétua do ponto de apoio. Esteja na terra ou no céu o alvo da vontade, a questão é ir a esse alvo; no primeiro caso, é Colombo, no segundo caso é Jesus. Insensata é a cruz; vem daí a sua glória. Não deixar discutir a consciência, nem desarmar a vontade, é assim que se obtêm o sofrimento e o triunfo. Na ordem dos fatos morais o cair não exclui o pairar. Da queda sai a ascensão. Os medíocres deixam-se perder pelo obstáculo especioso; não assim os fortes. Parecer é o talvez dos fortes, conquistar é a certeza deles. Podes dar a Estevão todas as boas razões para que ele não se faça apedrejar. O desdém das objeções razoáveis cria a sublime vitória vencida que se chama martírio.
Victor Hugo, Os trabalhadores do mar
sábado, 16 de agosto de 2014
O sofrimento do hipócrita
Ter mentido é ter sofrido. O hipócrita é um paciente na dupla acepção da palavra; calcula um triunfo e sofre um suplício. A premeditação indefinida de uma ação ruim, acompanhada por doses de austeridade, a infâmia interior temperada de excelente reputação, enganar continuadamente, não ser jamais quem é, fazer ilusão, é uma fadiga. Compor a candura com todos os elementos negros que trabalham no cérebro, querer devorar os que o veneram, acariciar, reter-se, reprimir-se, estar sempre alerta, espiar constantemente, compor o rosto do crime latente, fazer da disformidade uma beleza, fabricar uma perfeição com a perversidade, fazer cócegas com o punhal, por açúcar no veneno, velar na franqueza do gesto e na música da voz, não ter o próprio olhar, nada mais difícil, nada mais doloroso. O odioso da hipocrisia começa obscuramente no hipócrita. Causa náuseas beber perpetuamente a impostura. A meiguice com que a astúcia disfarça a malvadez repugna ao malvado, continuamente obrigado a trazer essa mistura na boca, e há momentos de enjoo em que o hipócrita vomita quase o seu pensamento. Engolir essa saliva é coisa horrível. Ajuntai a isto o profundo orgulho. Existem horas estranhas em que o hipócrita se estima. Há um eu desmedido no impostor. O verme resvala como o dragão e como ele retesa-se e levanta-se. O traidor não é mais que um déspota tolhido que não pode fazer a sua vontade senão resignando-se ao segundo papel. É a mesquinhez capaz da enormidade. O hipócrita é um titã-anão.
Victor Hugo, in "Os Trabalhadores do Mar"
sábado, 26 de outubro de 2013
Fenêtres ouvertes
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| Anatoly Piatkevich |
Le matin - En dormant
J'entends des voix. Lueurs à travers ma paupière.
Une cloche est en branle à l'église Saint-Pierre.
Cris des baigneurs. Plus près ! plus loin ! non, par ici !
Non, par là ! Les oiseaux gazouillent, Jeanne aussi.
Georges l'appelle. Chant des coqs. Une truelle
Racle un toit. Des chevaux passent dans la ruelle.
Grincement d'une faux qui coupe le gazon.
Chocs. Rumeurs. Des couvreurs marchent sur la maison.
Bruits du port. Sifflement des machines chauffées.
Musique militaire arrivant par bouffées.
Brouhaha sur le quai. Voix françaises. Merci.
Bonjour. Adieu. Sans doute il est tard, car voici
Que vient tout près de moi chanter mon rouge-gorge.
Vacarme de marteaux lointains dans une forge.
L'eau clapote. On entend haleter un steamer.
Une mouche entre. Souffle immense de la mer.
Victor Hugo
sexta-feira, 16 de agosto de 2013
Devaneios Reveladores
Na verdade, se nos fosse dado penetrar com os olhos da carne na consciência dos outros, julgaríamos com mais segurança um homem pelo que devaneia do que pelo que pensa. O pensamento é dominado pela vontade, o devaneio não. O devaneio, que é absolutamente espontâneo, toma e conserva, mesmo no gigantesco e no ideal, a figura do nosso espírito. Não há coisa que mais direta e profundamente saia da nossa alma do que as nossas aspirações irrefletidas e desmesuradas para os esplendores do destino. Nestas aspirações é que se pode descobrir o verdadeiro carácter de cada homem, melhor do que nas ideias compostas, coordenadas e discutidas. As nossas quimeras são o que melhor nos parece. Cada qual devaneia o incógnito e o impossível, conforme a sua natureza.
Victor Hugo, in 'Os Miseráveis'
domingo, 23 de dezembro de 2012
"Ter êxito, eis o ensinamento destilado gota a gota pela corrupção que avança.
Diga-se de passagem, não há nada mais odioso que o sucesso. Sua quase semelhança com o merecimento engana muito os homens. Para a multidão, êxito é o mesmo que superioridade. O sucesso, sósia do talento, infelizmente tem um ingênuo que nele crê facilmente: a história. (...) Hoje em dia uma filosofia quase oficial entrou em intimidade com a história, vestindo-lhe a libré e fazendo-lhe o serviço de Porteiro. Ser bem-sucedido: eis a teoria. Progresso supõe capacidade. Ganhar na loteria: eis o máximo de habilidade. quem triunfa é benquisto. Tudo está em nascer com uma boa estrela. Tenham sorte, que o resto virá depois: sejam felizes que o mundo tê-los á como grandes. Fora cinco ou seis notáveis que constituem o brilho de todo um século, a admiração contemporânea é pura miopia. O que é simplesmente dourado passa por puro ouro. Ser o primeiro a chegar não constitui honra, a não ser que se chegue a ser alguma coisa. É o vulgar e velho narciso adorando a própria imagem, aplaudindo a vulgaridade."
Victor Hugo, Os miseráveis
sexta-feira, 20 de julho de 2012
Voeu
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| tela de Oleg Bulgakov |
Si j’étais la feuille que roule
L’aile tournoyante du vent,
Qui flotte sur l’eau qui s’écoule,
Et qu’on suit de l’oeil en rêvant ;
Je me livrerais, fraîche encore,
De la branche me détachant,
Au zéphyr qui souffle à l’aurore,
Au ruisseau qui vient du couchant.
Plus loin que le fleuve, qui gronde,
Plus loin que les vastes forêts,
Plus loin que la gorge profonde,
Je fuirais, je courrais, j’irais !
Plus loin que l’antre de la louve,
Plus loin que le bois des ramiers,
Plus loin que la plaine où l’on trouve
Une fontaine et trois palmiers ;
Par delà ces rocs qui répandent
L’orage en torrent dans les blés,
Par delà ce lac morne, où pendent
Tant de buissons échevelés ;
Plus loin que les terres arides
Du chef maure au large ataghan,
Dont le front pâle a plus de rides
Que la mer un jour d’ouragan.
Je franchirais comme la flèche
L’étang d’Arta, mouvant miroir,
Et le mont dont la cime empêche
Corinthe et Mykos de se voir.
Comme par un charme attirée,
Je m’arrêterais au matin
Sur Mykos, la ville carrée,
La ville aux coupoles d’étain.
J’irais chez la fille du prêtre,
Chez la blanche fille à l’oeil noir,
Qui le jour chante à sa fenêtre,
Et joue à sa porte le soir.
Enfin, pauvre feuille envolée,
Je viendrais, au gré de mes voeux,
Me poser sur son front, mêlée
Aux boucles de ses blonds cheveux ;
Comme une perruche au pied leste
Dans le blé jaune, ou bien encor
Comme, dans un jardin céleste,
Un fruit vert sur un arbre d’or.
Et là, sur sa tête qui penche,
Je serais, fût-ce peu d’instants,
Plus fière que l’aigrette blanche
Au front étoilé des sultans.
Victor Hugo, Les orientales
quarta-feira, 15 de junho de 2011
É para ti a flor que apanhei na colina
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| Minako Saitoh Botsford |
É para ti a flor que apanhei na colina.
No penhasco que sobre o oceano se inclina,
E que só pode ser por águias acercado,
Em paz, crescia em meio às fendas do rocado.
A sombra ia banhado o triste promontório;
Eu via erguer em tão glorioso território,
Qual arco triunfal, vermelho e cintilante,
Onde fora engolido o sol, astro reinante,
O nuvioso portal da noite escurecida.
Naus fugiam ao longe assim diminuídas;
E tetos, reluzindo ao fundo de um desvão,
Pareciam temer que os vissem ao clarão.
É para ti a flor que apanhei bem-amada.
É pálida e não tem corola perfumada.
Sua raiz tomou nos montanhosos cimos
Somente o amargo odor daqueles glaucos limos;
Eu disse: "Pobre flor, do píncaro alteroso
`Tu devias cair no abismo cavernoso
`Para onde a alga, as naus e as nuvens sempre vão.
`Morre no abismo mais profundo, o coração.
`Fana no peito em que há um mundo a palpitar.
`Determinou-te o céu na onda desfolhar,
`Fez-te para o oceano, e te oferto ao amor."
O vento misturava as ondas, e um fulgor
Confuso e levemente apagado era o dia.
Oh! Com a flor, pensando, o quão me entristecia
Com meus sonhos, com a alma imersa na negrura
Da voragem, mesclada às vesperais tremuras!
Victor Hugo
trad. de Renata Cordeiro
quinta-feira, 5 de maio de 2011
la Fée
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| by Jonathon Earl Bowser |
Viens, bel enfant! Je suis la Fée.
Je règne aux bords où le soleil
Au sein de l'onde réchauffé
Se plonge, éclatant et vermeil.
Les peuples d'Occident m'adorent
Les vapeurs de leur ciel se dorent,
Lorsque je passe en les touchant;
Reine des ombres léthargiques,
Je bâtis mes palais magiques
Dans les nuages du couchant.
Mon aile bleue est diaphane;
L'essaim des Sylphes enchantés
Croit voir sur mon dos, quand je plane,
Frémir deux rayons argentés.
Ma main luit, rose et transparente;
Mon souffle est la brise odorante
Qui, le soir, erre dans les champs;
Ma chevelure est radieuse,
Et ma bouche mélodieuse
Mêle un sourire à tous ses chants.
J'ai des grottes de coquillages;
J'ai des tentes de rameaux verts;
C'est moi que bercent les feuillages,
Moi que berce le flot des mers.
Si tu me suis, ombre ingénue,
Je puis t'apprendre où va la nue,
Te montrer d'où viennent les eaux;
Viens, sois ma compagne nouvelle,
Si tu veux que je te révèle
Ce que dit la voix des oiseaux.
Victor Hugo
segunda-feira, 28 de junho de 2010
Victor Hugo, Os trabalhadores do mar
Palavra escrita em uma página branca
O Christmas (Natal) de 1822... foi notável em Guernesey. Caiu neve naquele dia. Nas ilhas da Mancha, inverno em que há neve é memorável; a neve é um acontecimento.
Naquela manhã de Christmas a estrada que orla o mar de Saint-Pierre-Port ao Vale assemelhava-se a um lençol branco: nevara desde a meia-noite até o romper do dia.
Pelas 9 horas, pouco depois de nascer o sol, como não era ainda ocasião de os anglicanos irem à Igreja de Saint-Sampson e os wesleyanos à Capela Eldad, o caminho estava quase deserto. Na parte da estrada compreendida entre a primeira volta e a segunda havia apenas três viandantes, um menino, um homem e uma mulher.
Estes tres viandantes, caminhando separados uns dos outros, não tinham visivelmente relação alguma entre si. O menino, de cerca de oito anos, parara e olhava para a neve com curiosidade. O homem, seguindo atrás da mulher, uns cem passos, dirigia-se, como ela, para o lado de Saint-Sampson.
Ele era moço ainda e parecia ser operário ou marinheiro. Vestia as roupas ordinárias, isto é, uma grossa camisa de pano escuro e uma calça de pernas alcatroadas, o que parecia indicar que, apesar da festa, não iria à igreja. Os grossos sapatos de couro cru e solas tacheadas de ferro deixavam sobre a neve uma marca, que mais se assemelhava a uma fechadura de prisão que ao pé de um homem.
A viandante, essa evidentemente trajava a roupa de ir à igreja; envolvia-se em uma comprida manta acolchoada de estofo de seda preta, debaixo da qual apertava-lhe faceiramente o corpo um vestido de fazenda da Irlanda com listras brancas e cor-de-rosa, e, se não fossem as meias vermelhas, tomá-la-iam por uma parisiense. Caminhava com desembaraço e viveza; e, pelo andar, que mostrava não lhe ter ainda pesado a vida, conhecia-se que era moça. Tinha aquela graça fugitiva que indica a mais delicada transição, a adolescência, a mistura dos dois crepúsculos, o princípio de uma mulher e o fim de uma menina.
O homem não reparava nela.
De súbito, perto de uma moita de azinheiras, que forma o ângulo de uma horta rústica, no lugar denominado Basses Maisons, voltou-se a moça, e esse movimento chamou a atenção do homem.
Parou, pareceu reparar nele um instante, abaixou-se, e o homem julgou vê-la escrever com o dedo alguma coisa na neve. Levantou-se e pôs-se de novo a caminho com passo mais apressado, voltou-se ainda, mas desta vez rindo, e desapareceu pela esquerda, seguindo o carreiro guarnecido de sebes, que leva ao Castelo de Lierre. O homem, quando ela se voltou pela segunda vez, reconheceu Déruchette, linda mocinha do lugar. Mas não sentia necessidade alguma de apressar o passo.
Alguns instantes depois estava junto à moita de zinheiras no ângulo da horta. Já não pensava na passageira, e é provável que, se nessa ocasião pulasse um golfinho no mar ou um cardeal nos arbustos, passaria com o olhar fixo no cardeal ou no golfinho. Casualmente, tinha os olhos baixos, e assim os levou maquinalmente ao lugar em que parara a menina. Dois pezinhos aí estavam impressos e ao lado deles a palavra escrita por ela: Gilliatt.
Era este o nome dele.
Chamava-se Gilliatt.
Victor Hugo, Os trabalhadores do mar
O Christmas (Natal) de 1822... foi notável em Guernesey. Caiu neve naquele dia. Nas ilhas da Mancha, inverno em que há neve é memorável; a neve é um acontecimento.
Naquela manhã de Christmas a estrada que orla o mar de Saint-Pierre-Port ao Vale assemelhava-se a um lençol branco: nevara desde a meia-noite até o romper do dia.
Pelas 9 horas, pouco depois de nascer o sol, como não era ainda ocasião de os anglicanos irem à Igreja de Saint-Sampson e os wesleyanos à Capela Eldad, o caminho estava quase deserto. Na parte da estrada compreendida entre a primeira volta e a segunda havia apenas três viandantes, um menino, um homem e uma mulher.
Estes tres viandantes, caminhando separados uns dos outros, não tinham visivelmente relação alguma entre si. O menino, de cerca de oito anos, parara e olhava para a neve com curiosidade. O homem, seguindo atrás da mulher, uns cem passos, dirigia-se, como ela, para o lado de Saint-Sampson.
Ele era moço ainda e parecia ser operário ou marinheiro. Vestia as roupas ordinárias, isto é, uma grossa camisa de pano escuro e uma calça de pernas alcatroadas, o que parecia indicar que, apesar da festa, não iria à igreja. Os grossos sapatos de couro cru e solas tacheadas de ferro deixavam sobre a neve uma marca, que mais se assemelhava a uma fechadura de prisão que ao pé de um homem.
A viandante, essa evidentemente trajava a roupa de ir à igreja; envolvia-se em uma comprida manta acolchoada de estofo de seda preta, debaixo da qual apertava-lhe faceiramente o corpo um vestido de fazenda da Irlanda com listras brancas e cor-de-rosa, e, se não fossem as meias vermelhas, tomá-la-iam por uma parisiense. Caminhava com desembaraço e viveza; e, pelo andar, que mostrava não lhe ter ainda pesado a vida, conhecia-se que era moça. Tinha aquela graça fugitiva que indica a mais delicada transição, a adolescência, a mistura dos dois crepúsculos, o princípio de uma mulher e o fim de uma menina.
O homem não reparava nela.
De súbito, perto de uma moita de azinheiras, que forma o ângulo de uma horta rústica, no lugar denominado Basses Maisons, voltou-se a moça, e esse movimento chamou a atenção do homem.
Parou, pareceu reparar nele um instante, abaixou-se, e o homem julgou vê-la escrever com o dedo alguma coisa na neve. Levantou-se e pôs-se de novo a caminho com passo mais apressado, voltou-se ainda, mas desta vez rindo, e desapareceu pela esquerda, seguindo o carreiro guarnecido de sebes, que leva ao Castelo de Lierre. O homem, quando ela se voltou pela segunda vez, reconheceu Déruchette, linda mocinha do lugar. Mas não sentia necessidade alguma de apressar o passo.
Alguns instantes depois estava junto à moita de zinheiras no ângulo da horta. Já não pensava na passageira, e é provável que, se nessa ocasião pulasse um golfinho no mar ou um cardeal nos arbustos, passaria com o olhar fixo no cardeal ou no golfinho. Casualmente, tinha os olhos baixos, e assim os levou maquinalmente ao lugar em que parara a menina. Dois pezinhos aí estavam impressos e ao lado deles a palavra escrita por ela: Gilliatt.
Era este o nome dele.
Chamava-se Gilliatt.
Victor Hugo, Os trabalhadores do mar
sexta-feira, 14 de agosto de 2009
“O homem pôs um embrulho que carregava e seu cajado em um banco. Sentou-se. Contemplava Cosette com atenção. Era uma menina feia. Magra. As mãos cheias de frieiras. Como sempre estava com frio, tinha o hábito de apertar os joelhos um contra o outro. Vestia-se com farrapos. O corpo estava cheio de manchas, resultado das pancadas que levava. Mais que tudo, transpirava medo. No fundo de seus olhos, antes belos, só havia terror.”
“Não dissemos ainda, mas era noite de Natal. De madrugada, o viajante levantou-se. Foi até a lareira. Lá estavam os sapatos de Éponine e Azelma, deixados à espera de um presente. A mãe já tinha colocado uma moeda reluzente em cada um. No canto mais escuro, havia um pequeno tamanco de madeira. Cosette também não perdera a esperança e deixara seu tamanquinho na lareira.
O viajante colocou uma moeda de ouro e voltou para seu quarto. Pela primeira vez na vida, Cosette teria Natal.”
Victor Hugo, Os Miseráveis
terça-feira, 9 de dezembro de 2008
Flama soberba essa, era a vontade visível. O olho do homem é feito de modo que se lhe vê por ele a virtude. A nossa pupila diz que quantidade de homem há dentro de nós. Afirmamo-nos pela luz que fica debaixo da sobrancelha. As pequenas consciências piscam o olho, as grandes lançam raios. Se não há nada que brilhe debaixo da pálpebra, é que nada há que pense no cérebro, é que nada há que ame no coração. Quem ama quer, e aquele que quer relampeja e cintila. A resolução enche os olhos de fogo; admirável fogo que se compõe da combustão dos pensamentos tímidos.
Os teimosos são os sublimes. Quem é apenas bravo tem só um assomo, quem é apenas valente tem só um temperamento, quem é apenas corajoso tem só uma virtude; o obstinado na verdade tem a grandeza. Quase todo o segredo dos grandes corações está nesta palavra: _ Perseverança. A perseverança está para a coragem como a roda para a alavanca; é a renovação perpétua do ponto de apoio. Esteja na terra ou no céu o alvo da vontade, a questão é ir a esse alvo; no primeiro caso é Colombo, no segundo caso é Jesus. Insensata é a cruz, vem daí a sua gloria. Não deixar discutir a consciência nem desarmar a vontade, é assim que se obtêm o sofrimento e o triunfo. Na ordem dos fatos morais o cair não inclui o pairar. Da queda sai a ascensão. Os medíocres deixam-se perder pelo obstáculo especioso; não assim os fortes.
Perecer é o talvez dos fortes, conquistar é a certeza deles. Podeis dar a Estevão todas as boas razões para que ele não se faça apedrejar. O desdém das objeções razoáveis cria a sublime vitória vencida que se chama o martírio.
Victor Hugo
Trecho do livro “Os trabalhadores do mar”
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