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quinta-feira, 26 de outubro de 2023

 


“Poetry is not an expression of the party line. It's that time of night, lying in bed, thinking what you really think, making the private world public, that's what the poet does.”

Allen Ginsberg

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Improviso em Pequim


Eu escrevo poesia porque a palavra Inglesa Inspiração vem do Latim Spiritus, respiração, eu quero respirar livremente.
Eu escrevo poesia porque Walt Whitman abriu os versos da poesia para a
respiração desobstruída.
Eu escrevo poesia porque meu pai era poeta minha mãe vinda da Rússia que
falava Comunista, morreu numa casa de loucos.
Eu escrevo poesia porque eu sofro, nascido que sou para morrer, pedras nos rins e pressão alta, todo mundo sofre.
Eu escrevo poesia porque eu fico confuso por não saber o que as outras pessoas pensam.
Eu escrevo poesia porque os poetas Russos Maiakóvski e Iessênin cometeram
suicídio alguém mais precisa falar.
Eu escrevo poesia porque escrever sobre sexo é censurado nos Estados Unidos
Eu escrevo poesia porque meus genes e cromossomos se apaixonam por garotos
e não por garotas.
Eu escrevo poesia porque eu quero estar sozinho e quero falar para as pessoas.
Eu escrevo poesia por causa da Primeira Guerra Mundial, a Segunda Guerra
Mundial, a bomba nuclear e a Terceira Guerra Mundial se queremos isto, eu não preciso disto.
Eu escrevo poesia porque meu primeiro poema Uivo não precisou ser publicado
para ser perseguido pela polícia.
Eu escrevo poesia porque Hitler matou seis milhões de judeus, eu sou judeu.
Eu escrevo poesia porque Walt Whitman disse “Eu me contradigo? Muito bem,
então eu me contradigo (Sou vasto, contenho multidões.)”
Eu escrevo poesia porque minha cabeça contém 10.000 pensamentos.
Eu escrevo poesia porque é o melhor caminho para dizer tudo o que penso
dentro de 6 minutos ou uma vida inteira.

Allen Ginsberg (excertos)

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Allen Ginsberg & Paul MCCartney - The Ballad of American Skeletons





Said the Presidential Skeleton
I won't sign the bill
Said the Speaker skeleton
Yes you will

Said the Representative Skeleton
I object
Said the Supreme Court skeleton
Whaddya expect

Said the Miltary skeleton
Buy Star Bombs
Said the Upperclass Skeleton
Starve unmarried moms

Said the Yahoo Skeleton
Stop dirty art
Said the Right Wing skeleton
Forget about yr heart

Said the Gnostic Skeleton
The Human Form's divine
Said the Moral Majority skeleton
No it's not it's mine

Said the Buddha Skeleton
Compassion is wealth
Said the Corporate skeleton
It's bad for your health

Said the Old Christ skeleton
Care for the Poor
Said the Son of God skeleton
AIDS needs cure

Said the Homophobe skeleton
Gay folk suck
Said the Heritage Policy skeleton
Blacks're outa luck

Said the Macho skeleton
Women in their place
Said the Fundamentalist skeleton
Increase human race

Said the Right-to-Life skeleton
Foetus has a soul
Said Pro Choice skeleton
Shove it up your hole

Said the Downsized skeleton
Robots got my job
Said the Tough-on-Crime skeleton
Tear gas the mob

Said the Governor skeleton
Cut school lunch
Said the Mayor skeleton
Eat the budget crunch

Said the Neo Conservative skeleton
Homeless off the street!
Said the Free Market skeleton
Use 'em up for meat

Said the Think Tank skeleton
Free Market's the way
Said the Saving & Loan skeleton
Make the State pay

Said the Chrysler skeleton
Pay for you & me
Said the Nuke Power skeleton
& me & me & me

Said the Ecologic skeleton
Keep Skies blue
Said the Multinational skeleton
What's it worth to you?

Said the NAFTA skeleton
Get rich, Free Trade,
Said the Maquiladora skeleton
Sweat shops, low paid

Said the rich GATT skeleton
One world, high tech
Said the Underclass skeleton
Get it in the neck

Said the World Bank skeleton
Cut down your trees
Said the I.M.F. skeleton
Buy American cheese

Said the Underdeveloped skeleton
We want rice
Said Developed Nations' skeleton
Sell your bones for dice

Said the Ayatollah skeleton
Die writer die
Said Joe Stalin's skeleton
That's no lie

Said the Middle Kingdom skeleton
We swallowed Tibet
Said the Dalai Lama skeleton
Indigestion's whatcha get


Said the World Chorus skeleton
That's their fate
Said the U.S.A. skeleton
Gotta save Kuwait

Said the Petrochemical skeleton
Roar Bombers roar!
Said the Psychedelic skeleton
Smoke a dinosaur

Said Nancy's skeleton
Just say No
Said the Rasta skeleton
Blow Nancy Blow

Said Demagogue skeleton
Don't smoke Pot
Said Alcoholic skeleton
Let your liver rot

Said the Junkie skeleton
Can't we get a fix?
Said the Big Brother skeleton
Jail the dirty pricks

Said the Mirror skeleton
Hey good looking
Said the Electric Chair skeleton
Hey what's cooking?

Said the Talkshow skeleton
Fuck you in the face
Said the Family Values skeleton
My family values mace

Said the NY Times skeleton
That's not fit to print
Said the CIA skeleton
Cantcha take a hint?

Said the Network skeleton
Believe my lies
Said the Advertising skeleton
Don't get wise!

Said the Media skeleton
Believe you me
Said the Couch-potato skeleton
What me worry?

Said the TV skeleton
Eat sound bites
Said the Newscast skeleton
That's all Goodnight


Allen Ginsberg

sexta-feira, 6 de julho de 2012

O meu eu triste



Por vezes quando tenho os olhos vermelhos
subo ao cimo do Edifício RCA
e contemplo o meu mundo, Manhattan -
os meus edifícios, as ruas das minhas proezas,
apartamentos, camas, andares de águas correntes
- a 5ª Avenida em baixo que também recordo
os seus carros como formigas, pequenos táxis amarelos, homens
que caminham, do tamanho de bolas de lã -
Panorama das pontes, nascer do sol sobre a máquina de Brooklyn,
o pôr do sol sobre New Jersey onde nasci
e Paterson onde brinquei com formigas -
os meus amores tardios na Rua 15,
os meus maiores amores no Lower East Side,
as minhas antigas paixões fabulosas no distante
Bronx -
caminhos cruzando-se nestas ruas escondidas,
a minha história resumida, as minhas ausências
e êxtases em Harlem -
- o sol a brilhar em tudo o que possuo
num relance até ao horizonte
na minha última eternidade -
a matéria e a água.

Triste,
apanho o elevador e desço,
ruminando,
e caminho nos passeios questionando as vidraças humanas, caras,
perguntando-me quem ama,
e paro, atónito
em frente da montra de um stand de automóveis
perdido em pensamentos tranquilos,
o tráfico passando pelo edifício da 5ª Avenida, atrás de mim
esperando um momento quando...

São horas de ir para casa e fazer o jantar e ouvir
na rádio as românticas notícias da guerra
... todo o movimento se detém
e eu a caminho na tristeza intemporal da existência,
com ternura a escorrer dos prédios,
com as pontas dos dedos tocando a cara da realidade,
a minha própria cara riscada por lágrimas de vidro
de uma janela - no crepúsculo -
em que não desejo -
bombons - ou possuir os vestidos ou os quebra-luzes
japoneses de compreensão -
Confundido pelo espectáculo à minha volta,
Um homem pela rua acima lutando
com pacotes, jornais,
gravatas, fatos elegantes
em direcção ao seu desejo
Homens, mulheres, jorrando pelos passeios
semáforos marcando o tempo de relógios apressados e
o movimento na berma -

E todas estas ruas que se cruzam,
buzinando, pausadamente,
em avenidas
onde grandes edifícios se erguem ou enquistadas em vielas
pelo tráfico vacilante
carros que guincham e máquinas
tão doloroso para este
campo, este cemitério
esta quietude
em leito de morte ou montanha
que visto uma vez
não se recupera ou deseja
na memória futura
em que todo o Manhattan que vi irá desaparecer


Allen Ginsberg 
Tradução: José Alberto Oliveira

sexta-feira, 22 de junho de 2012

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

O Fim


Eu sou Eu, velho Pai Olho de Peixe que procriou o oceano,
o verme no meu próprio ouvido, a serpente enrolada na árvore

Sento-me na mente do carvalho e me oculto na rosa,
sei se alguém desperta, ninguém a não ser minha morte

Vinde a mim corpos, vinde a mim profecias,
vinde a mim agouros, vinde espíritos e visões

Eu recebo tudo, morro de câncer, entro no caixão para sempre,
fecho meu olho, desapareço

Caio sobre mim mesmo na neve de inverno,
rolo numa grande roda pela chuva,
observo a convulsão dos que fodem

Carros guincham, fúrias gemem sua música de fagote,
memória apagando-se no cérebro, homens imitando cães

Gozo no ventre de uma mulher,
a juventude estendendo seus seios e coxas para o sexo,
o caralho pulando para dentro

Derramando sua semente nos lábios de Yin,
feras dançam no Sião, cantam ópera em Moscou

Os garotos excitados ao crepúsculo nas varandas,
chego a Nova York, toco meu jazz num Clavicêmbalo de Chicago

Amor que me engendrou retorno à minha origem sem nada perder,
flutuo sobre o vomitório

Empolgado por minha imortalidade,
empolgado por essa infinitude na qual aposto e a qual enterro

Vem Poeta, cala-te, come minha palavra e prova minha boca no teu ouvido.


Allen Ginsberg
pintura: Duma

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Father Death Blues




Hey Father Death, I'm flying home
Hey poor man, you're all alone
Hey old daddy, I know where I'm going

Father Death, Don't cry any more
Mama's there, underneath the floor
Brother Death, please mind the store

Old Aunty Death Don't hide your bones
Old Uncle Death I hear your groans
O Sister Death how sweet your moans

O Children Deaths go breathe your breaths
Sobbing breasts'll ease your Deaths
Pain is gone, tears take the rest

Genius Death your art is done
Lover Death your body's gone
Father Death I'm coming home

Guru Death your words are true
Teacher Death I do thank you
For inspiring me to sing this Blues

Buddha Death, I wake with you
Dharma Death, your mind is new
Sangha Death, we'll work it through

Suffering is what was born
Ignorance made me forlorn
Tearful truths I cannot scorn

Father Breath once more farewell
Birth you gave was no thing ill
My heart is still, as time will tell. 


Allen Ginsberg

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Transcrição de música de órgão


A flor na jarra de manteiga de cacau que estava antes na cozinha, contorcida para chegar até a luz,
a porta do armário aberta porque o usei há pouco, continuou gentilmente aberta esperando-me, seu dono.

Comecei a sentir minha miséria no catre sobre o chão, escutando a música, minha miséria, é por isso que eu quero cantar.
O quarto fechou-se por cima de mim, esperava a presença do Criador, vi minhas paredes pintadas de cinza e o forro, elas contêm meu quarto, ele me contém e o céu contém meu jardim, abro minha porta.
O pé da trepadeira subiu pela pilastra do chale, as folhas da noite lá onde o dia as havia deixado, as cabeças animais das flores lá onde haviam apodrecido para pensar ao sol

Posso trazer as palavras de volta? Pensar na transcrição, isso embaçará meu olho mental aberto?

A suave busca do crescimento, o gracioso desejo de existir das flores, meu quase êxtase de existir no meio delas.
O privilégio de testemunhar minha própria existência - você também deve procurar o sol...
Meus livros empilhados à minha frente para meu uso aguardando no espaço onde os coloquei, eles não desapareceram, o tempo deixou seus restos e qualidades para que eu os usasse - minhas palavras empilhadas, meus textos, meus manuscritos, meus amores.

Tive um lampejo de claridade, vi o sentimento no coração das coisas, saí para o jardim chorando.
Vi as flores vermelhas na luz da noite, o sol que se foi, todas elas cresceram em um momento e estavam aguardando paradas no tempo para que o sol do dia viesse e lhes desse...
Flores que num sonho ao anoitecer eu reguei fielmente sem perceber o quanto as amava.
Estou tão só em minha glória - exceto por elas também lá fora - olhei para cima - essas inflorescências dos arbustos vermelhos acenando e despontando na janela à espera em cego amor, suas folhas também sentem esperança e estão com sua parte de cima virada pra o céu para receber - toda a criação aberta para receber - até a terra achatada.

A música desce, assim como desce o pesado ramo cheio de flores, pois assim tem que ser, para continuar vivendo, para continuar até a última gota de alegria.
O mundo conhece o amor no seu seio assim como na flor, o solitário mundo sofredor.
O Pai é piedoso.

O soquete da lâmpada está cruelmente atarrachado ao forro, desde quando a casa foi construída para receber um conector bem ligado nela e que agora está ligado também à minha vitrola...

A porta do armário está aberta para mim, lá onde a deixei, e já que a deixei aberta, continuou graciosamente aberta.
A cozinha não tem porta, o buraco está lá me aceitará se eu quiser entrar na cozinha.
Lembro-me da primeira vez que fui fodido. HP graciosamente me desvirginou, estava no cais de Provincetown, 23 anos, alegre, exaltado com a esperança do Pai, a porta do ventre estava aberta para aceitar-me se eu quisesse entrar.
Há tomadas de eletricidade ainda não-usadas por toda a casa, se eu precisar delas.
A porta da cozinha está aberta para deixar o ar entrar...
O telefone - é triste contar - largado no chão - não tenho dinheiro para ligá-lo -

Quero que as pessoas se inclinem ao ver-me e digam que ele recebeu o dom da poesia, ele viu a presença do Criador.
E o Criador me deu um instante da sua presença para satisfazer meu desejo, para que eu não me desiluda no meu anseio de conhecê-lo.


Allen Ginsberg