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sexta-feira, 12 de abril de 2024


 O vento está cheio de emoções. Quando compreenderes isso,

perceberás quase tudo. Mas, tal como não podes fechar o vento na tua mão,

também não podes guardá-lo para o futuro.

Não há museus para o vento. Não poderás saber como era o

vento na primeira metade do século dezesseis. Podes apenas

saber, talvez, os seus efeitos. E ter uma ideia. Mas, uma ideia

não é o vento, é apenas a ideia de vento.

Também nisso o vento é emoção. Uma emoção que nos acaricia

o rosto ou nos fustiga os ombros, que nos vê envelhecer secretamente.

O vento nunca irá contigo, não te dará respostas, não te fará

perguntas. O vento não se esconde, não se mostra, não se vê.

A sua missão é prosseguir. Sem lamentos. Sem remorso.

Se queres compreendê-lo, não observes, sente-o. E se não deres

por ele, não desistas. Procura-o nas ideias.


Joaquim Pessoa


#art #painting John William Waterhouse

quinta-feira, 4 de abril de 2024

UM POEMA




Em plena luta de classes

escreveu um poema de amor.


Acossado pela fome de justiça

escreveu um poema de amor.


Entre a tortura e a morte

escreveu um poema de amor.


Entre o sangue e as balas

escreveu um poema de amor.


um poema de amor para ninguém,

para uma mulher que não existia.


Agora,

amado até à raiz da sua sombra

por esta mulher que lhe beija as feridas,


agora,

que na noite gelada ela o cobre com o seu corpo nu,

arma-se com papel e lápis

salta da cama

e sem perturbar o sono da sua amada

escreve um poema social


um poema estremecido por lutas e batalhas

um poema por cujos versos passam

pedindo justiça

as massas camponesas e operárias.


Joaquim Pessoa

domingo, 24 de dezembro de 2023


 Sorrio aos animais que sorriem às árvores porque essa é

também uma forma de amar e de olhar por ti, quando sin-

to a tua vida a pulsar como uma estrela ou um vocábulo e

eu já não tenho perguntas que te faça nem outra forma de

segurar as tuas mãos a não ser a dor e o júbilo de te olhar

com a mesma alegria feliz com que olho uma manhã car-

regada de frutos.

Quando os animais se afastarem caminhando pela tua au-

sência, ainda azuis mas incompletos, restará a sombra das

árvores e a tua recordação na inquietação dos pássaros, ou

a minha antiga tristeza cantando por entre uma floresta de

poemas que escrevi para celebrar, no teu corpo, o canto

inesgotável.

Adiei-me por ti. E por ti ardo, como o velho anjo que pegou

o fogo aos quatro pontos cardeais.


Joaquim Pessoa 

 


Volto a casa perseguido pela distância, esfomeado de ti, com uma

queimadura nos ossos, ferida enamorada, inebriada com o cheiro

das estrelas.

É doce a tua mão, irmã gémea do meu peito, a que espera que a

noite chegue, a que pede amor à minha carne e deposita uma flor

azul no meu cansaço. 

Debaixo da lua, a força de ter-te devolve a luz ao mundo, as laran-

jas brancas do teu peito oferecem-me o perfume dos roseirais que

crescem junto ao mar.


Joaquim Pessoa

sábado, 18 de novembro de 2023


 A cor do sábado é inspirada. Pequenos peixes improvavelmente

florescem dos teus gestos, o teu corpo extasiado está ainda na

minha memória e já não é corpo, é memória. Oiço o destino 

como se ouvem os guisos, os sinos e o vento. Sei que guardas pa-

lavras minhas nos cabelos, as que não couberam na tua cabeça

mas que já estavam grávidas de amor. 

Essas palavras são o meu ofício e a minha fala. Não poderei re-

peti-las. Pertencem a um momento único, filhas de um fogo puro,

intenso e imenso. 

Com o barro da sombra vou fazer o sol, construir a casa para ti, 

para a tua ausência. Pintá-la com a cor deste sábado, madura e 

abundante. Vou escrever o mundo e inscrever-te nele, como se, 

antes de nós, o mundo não tivesse existido.


Joaquim Pessoa

sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

O teu abraço

Lauri Blank.

 

Nada como o teu abraço, esse sorriso

que permanece brilhando nos meus músculos

com a luz da fogueira dos afectos e o fascínio

singular que têm as coisas íntimas, deslumbramento

silencioso entre a respiração e a música.

O teu abraço é o início do mundo e, ainda

que a tua boca me nomeie e me perturbe, é

contra o meu peito que te sinto minha,

porque são os meus braços ansiosos

que melhor te reconhecem.


Joaquim Pessoa

quarta-feira, 12 de outubro de 2022

 



Ainda não te perdi e já tenho saudades tuas.

Da tua voz. Do teu cheiro. Da tua roupa espalhada

pela casa. A nossa história de tão verdadeira, é fictícia.

Foi animada como uma noitada com amigos. Hoje,

é um caso arquivado. Onde estivemos todos estes anos?

Que diferença faz a indiferença? O nosso entusiasmo

do tamanho do mundo é agora uma aldeia estranha,

um espaço acanhado onde ninguém se reconhece.

Nunca tivemos a coragem de pisar o risco, de trocar

todos os dias por cada um dos nossos dias.

A tua juventude e a minha juventude não voltarão

a tocar-se, vamos a caminho de outro tempo.

Um tempo onde não há tempo para voltar atrás.


Joaquim Pessoa, ANO COMUM, 2.ª ed.

quarta-feira, 24 de agosto de 2022

Alena Nikonenko

Era uma vez duas vezes. E como não há duas sem três,

algum castigo tens guardado para mim. Não sei se me

roubarás os livros, se me esconderás os melros, se me

negarás os beijos. Alguma coisa destas tu farás.

Podes roubar-me os livros.

Hei-de recuperá-los, verso a verso, como a aranha que

reconstrói a teia, como o pensamento que reconstrói a

ideia, como o vento que reconstrói a duna.

Podes esconder-me os melros.

Saberei cantar. Darei asas à minha esperança para a ver

poisar em todos os verdes, brilhar em todos os muros,

debicar todos os desejos.

Não me negues os beijos.

Morrerei de fome. E de sede. E de saudade.


Morrerei de te ver e não te ter.

Morrerei de não morder a tua boca.

Morrerei de não viver.

Morrerei.


 Joaquim Pessoa, in Ano Comum

quarta-feira, 29 de junho de 2022

 

Vladimir Volegov


A minha vida é um livro, cada página 

está preenchida com amores e canções, poemas

onde a minha voz lavra a terra e cumprimenta os pássaros

e fala baixinho com os casulos da sombra e as borboletas

da luz. O meu amor está também no caminho que percorro, 

na queixa deste planeta que tenho sob os pés,

o meu amor é imortal, é um archote que ilumina a carne,

que oferece ao meu sangue e aos meus ossos

uma alegria capaz de todos os afectos.


Joaquim Pessoa

sábado, 28 de maio de 2022

Alex Alemany


Se não fosse pianista era ladrão porque tem umas mãos

fantásticas. Quando toca, tudo o que toca floresce, o pró-

prio piano é como uma macieira florida, quase comoven-

te. E útil.

Alimento-me frequentemente daquela música, fruto de

um piano excitado, excitante, servida por aquelas mãos

que o provocam, mãos que valem, vazias, mais do que 

valeriam cheias de diamantes.

Se não fosse nem pianista nem ladrão, seria o quê?

Talvez mago. Talvez cirurgião. Ou talvez padre.

Mas é pianista. Pastor de sons numa montanha de emo-

ções encavalitadas. Quando toca, estremeço como as 

manhãs carregadas de orvalho e o peito é como um com-

bóio parado. A pele manifesta-se fazendo repicar todos 

os seus sinos, num movimento que os menos sensíveis 

chamam de arrepio.

É esta música que desperta os pássaros celestes quan-

do a madrugada faz abrir as cortinas da noite e podemos 

sentir o orgulho azul, azul, ainda mais azul, em triunfo, 

no céu.

E o céu a seu dono.


*

 Joaquim Pessoa

in ANO COMUM

sexta-feira, 6 de maio de 2022

Goyo Dominguez


Nasceste de uma costela adolescente que retirei do meu poema.

Guardo de ti, fêmea, um mapa e uma bússola. Um espírito e uma

ideia, uma rara experiência com a verdade. Numa viagem inexis-

tente, num jogo de sedução, encontraram-se os demónios a dis-

cutir depois da chuva. Dores, só as benevolentes, com a ternura

aos pedaços. 

No último delírio do inverno, hei-de ver acender-se um fogo quan-

do se pintar um pássaro no céu. Então, bem o sabes, voltarei pa-

ra te levar para o templo dos anjos improváveis, as criaturas que

não sabem voar e que se esqueceram já do paraíso.


Joaquim Pessoa

 

Anny Maddock 


Depois de tantos anos, a minha paixão corre para ti

como as vespas correm para o almoço nos canteiros

molhados do nosso jardim, no fim da manhã, quando

do sul começam a crescer as primeiras sombras.

Tu chegas, e eu sinto que cheguei primeiro, sem ter

chegado ainda. É a minha vontade de estar onde tu

estás, com um olhar melhor para todas as coisas, e

com os braços vazios para os encher de ti.


Joaquim Pessoa

quinta-feira, 28 de abril de 2022

Bruno Di Maio


A palavra primavera floresce em nossa boca.

E a palavra mar faz de quem a pronuncia uma ilha encantada.

Quando parto sem palavras, uma tristeza vai comigo

a doer-me no sangue, na raiz da fala e do afecto.

Só elas podem explicar o mistério do amor.

Delas retiro o ouro, o trigo, a fala e a esperança. Nelas 

vivem o tigre e a esmeralda. Delas sopra o vento.

São curandeiras. Feiticeiras. Mensageiras. Deusas.

São o canto da alma e a voz que falta às andorinhas.

E o sorriso do anjo. E a única coisa que Deus não inventou. 

São essas palavras que ficam mudas no coração da gente

para que os beijos possam dizer tudo o que elas não dizem.


 Joaquim Pessoa

 



Gosto das palavras frágeis

como gosto de ti

e a verdade é que é também frágil

a minha forma de gostar-te.

Por vezes gostava 

de ser como tu. Ser frágil e usar anéis

com as pedras raras da esperança,

as insondáveis pedras dos dias

que hão-de vir. Mas vivo

o exílio destes dias repetidos

sobre a efemeridade da pele, vogando

como cisnes moribundos

em busca de uma última revelação,

talvez uma melodia tão pura que

possa transformar em pão

não só as nossas rosas mas também

a própria liberdade. E é por isso

que amo as palavras frágeis,

essas palavras que me ofereces

e que são, assim, de tão frágeis,

a minha imensa força

e o meu fatal deslumbramento.

*

Joaquim Pessoa, 

in "O Poeta Enamorado".

sábado, 23 de abril de 2022

 

Licio Passon 


Necessito de mim mais do que de ninguém. Mas mentiria se

não confessasse o quanto preciso de ti. Tu és o meu vinho e

a minha ressaca. A minha árvore e a minha floresta. O meu

cavalo. A minha casa, o meu mar, o meu coral. A minha tei-

mosia e a minha lucidez. O meu pássaro de chuva e o meu

pássaro de fogo. A minha distância, o meu abismo, a minha

fuga. A minha sombra e o meu túnel. O atalho para o outro

lado de mim.

Tu és a minha estrela e o meu guia. A minha porta, o meu

clarão, a minha injúria. O meu grão, o meu vento, o meu mo-

ínho. O meu sortilégio. O fim da festa e o meio-dia. O meu

carnaval, o meu brinquedo, o meu dia santo. O meu pecado,

a minha penitência. O ouro, a ofensa, o desvario. És o meu

hábito e o meu monge. A minha espiga e o meu pão. A mi-

nha irmã branca, a minha irmã negra, a minha irmã de novas

latitudes. A minha amante e a minha mãe, o meu abraço e as

minhas margens. A minha prostituta, o meu combate, o meu

sorriso. Tu és o meu cálice. O meu elixir e o meu veneno. O

vinho que dá coragem às medusas.

Necessito de ti mais do que de ninguém. Mas mentiria se 

não te confessasse o quanto preciso de mim.


Joaquim Pessoa 

in ANO COMUM


Fabian Perez


Além, como um rei enamorado, o verão está carregado de

ansiedade e de um vazio inútil. Há gente adolescente na

frescura cansada dos meus olhos. Gente de invisível felicidade, 

repetindo as palavras dos outros, indiferente aos naufrágios 

que ocorrem nos rochedos da alma.

Acordo e sinto-me

estrangeiro, um hóspede, um passageiro

 que viajou sempre para ti. Vivo entre ser pássaro e lugar.

Os trabalhos da paixão são imerecida alegria de uns versos

que buscam outra vida, outra espécie de vida paralela à

carne. O meu amor está cheio de perguntas e de pássaros

que não aprenderam a voar, correndo pelo vento da tarde,

por um chão de caminhos sinuosos.

Agora é tempo de perguntar por mim.


Joaquim Pessoa

sexta-feira, 22 de abril de 2022

 



São as pessoas como tu que fazem com que o nada queira dizer-nos algo, as coisas vulgares se tornem coisas importantes e as preocupações maiores sejam de facto mais pequenas. São as pessoas como tu que dão outra dimensão aos dias, transformando a chuva em delirante orvalho e fazendo do inverno uma estação de rosas rubras.

As pessoas como tu possuem não uma, mas todas as vidas. Pessoas que amam e se entregam porque amar é também partilhar as mãos e o corpo. Pessoas que nos escutam e nos beijam e sabem transformar o cansaço numa esperança aliciante, tocando-nos o rosto com dedos de água pura, soltando-nos os cabelos com a leveza do pássaro ou a firmeza da flecha. São as pessoas como tu que nos respiram e nos fazem inspirar com elas o azul que há no dorso das manhãs, e nos estendem os braços e nos apertam até sentirmos o coração transformar o peito numa música infinita. São as pessoas como tu que não nos pedem nada mas têm sempre tudo para dar, e que fazem de nós nem ícaros nem prisioneiros, mas homens e mulheres com a estatura da vida, capazes da beleza e da justiça, do sofrimento e do amor. São as pessoas como tu que, interrogando-nos, se interrogam, e encontram a resposta para todas as perguntas nos nossos olhos e no nosso coração. As pessoas que por toda a parte deixam uma flor para que ela possa levar beleza e ternura a outras mãos. Essas pessoas que estão sempre ao nosso lado para nos ensinar em todos os momentos, ou em qualquer momento, a não sentir o medo, a reparar num gesto, a escutar um violino. São as pessoas como tu que ajudam a transformar o mundo.


Joaquim Pessoa

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

 

Joseph Louresso


Abraça-me. Quero ouvir o vento que vem da tua pele,

e ver o sol nascer do intenso calor dos nossos corpos.

Quando me perfumo assim, em ti, nada existe a não ser

este relâmpago feliz, esta maçã azul que foi colhida na

palidez de todos os caminhos, e que ambos mordemos

para provar o sabor que tem carne incandescente das estrelas.

Abraça-me. Veste o meu corpo de ti, para que em ti possa buscar

o sentido dos sentidos, o sentido da vida. Procura-me

com os teus antigos braços de criança

para desamarrar em mim a eternidade, a soma formidável

de todos os momentos livres que a um e a outro pertenceram.

Abraça-me. Quero morrer de ti em mim, espantado de amor.

Dá-me a beber, antes, a água dos teus beijos,

para que possa levá-la comigo e oferecê-la aos astros

pequeninos. Só essa água fará reconhecer

o mais profundo, o mais imenso amor do universo,

e eu quero que dele fiquem a saber

até as estrelas mais antigas e brilhantes.

Abraça-me. Uma vez só. Uma vez mais.

Uma vez que nem sei se tu existes.


Joaquim Pessoa

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

ennio montariello

 

Estar em ti é ser de todos os lugares

pertencer a todas as horas e

a todas as matérias. Ser

a polpa das cerejas

o perfume das mimosas

a ternura das corças

a carne luminosa

das estrelas.

És a minha obra, a minha fala, o meu amor.


Joaquim Pessoa

quinta-feira, 19 de agosto de 2021

Um poema



Em plena luta de classes
escreveu um poema de amor.

Acossado pela fome de justiça
escreveu um poema de amor.

Entre a tortura e a morte
escreveu um poema de amor.

Entre o sangue e as balas
escreveu um poema de amor.

um poema de amor para ninguém,
para uma mulher que não existia.

Agora,
amado até à raiz da sua sombra
por esta mulher que lhe beija as feridas,

agora,
que na noite gelada ela o cobre com o seu corpo nu,
arma-se com papel e lápis
salta da cama
e sem perturbar o sono da sua amada
escreve um poema social

um poema estremecido por lutas e batalhas
um poema por cujos versos passam
pedindo justiça
as massas camponesas e operárias.


Joaquim Pessoa