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sábado, 17 de dezembro de 2022

Particularidades



Muitas vezes, a sós, eu me analiso e estudo,

os meus gostos crimino e busco, em vão, torcê-los;

é incrível a paixão que me absorve por tudo

quanto é sedoso, suave ao tato: a coma... os pêlos...


Amo as noites de luar porque são de veludo,

delicio-me quando, acaso, sinto, pelos

meus frágeis membros, sobre o meu corpo desnudo

em carícias sutis, rolarem-me os cabelos.


Pela fria estação, que aos mais seres eriça,

andam-me pelo corpo espasmos repetidos,

às luvas de camurça, aos boás, à pelica...


O meu tato se estende a todos os sentidos;

sou toda languidez, sonolência, preguiça,

se me quedo a fitar tapetes estendidos.


 Gilka Machado, in "Estados da alma: poesias"

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Analogia

Steve Hanks


“Sempre que o frio chega o meu pesar sorri,
pois te adoro no Inverno e adoro o Inverno em ti...”

Amo o Inverno assim triste, assim sombrio,
lembrando alguém que já não sabe amar;
e sempre, quando o sinto e quando o espio,
julgo-te eterizado, esparso no ar.

Afoita, a alma do Inverno desafio,
para inda te querer e te pensar…
para gozá-lo e gozar-te, que arrepio!…
que semelhança em ambos singular!…

Loucura pertinaz do meu anelo:
— emprestar-te, emprestar-lhe uma emoção,
— pelo mal de perder-te querer tê-lo…

Amor! Inverno! Minha aspiração!
quem me dera resfriar-me no teu gelo!
quem me dera aquecer-te em meu Verão!…


 Gilka Machado, in "Mulher Nua"

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Particularidades

Maria Jolanta Gruza 

Muitas vezes, a sós, eu me analiso e estudo,
os meus gostos crimino e busco, em vão, torcê-los;
é incrível a paixão que me absorve por tudo
quanto é sedoso, suave ao tato: a coma... os pelos...

Amo as noites de luar porque são de veludo,
delicio-me quando, acaso, sinto, pelos
meus frágeis membros, sobre o meu corpo desnudo
em carícias sutis, rolarem-me os cabelos.

Pela fria estação, que aos mais seres eriça,
andam-me pelo corpo espasmos repetidos,
às luvas de camurça, aos boás, à pelica...

O meu tato se estende a todos os sentidos;
sou toda languidez, sonolência, preguiça,
se me quedo a fitar tapetes estendidos.

Gilka Machado

terça-feira, 16 de julho de 2013

Esboço

Sergio Martínez Cifuentes


Teus lábios inquietos 
pelo meu corpo 
acendiam astros... 
e no corpo da mata 
os pirilampos 
de quando em quando, 
insinuavam 
fosforescentes carícias... 
e o corpo do silêncio estremecia, 
chocalhava, 
com os guizos 
do cri-cri osculante 
dos grilos que imitavam 
a música de tua boca... 
e no corpo da noite 
as estrelas cantavam 
com a voz trêmula e rútila 
de teus beijos... 


Gilka Machado

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Volúpia do Vento

SERGEY RYZHKOV 


Na plena solidão de um amplo descampado, 
penso em ti e que tu pensas em mim suponho; 
tenho toda a feição de um arbusto isolado, 
abstrato o olhar, entregue à delícia de um sonho 

O Vento, sob o céu de brumas carregado, 
passa, ora lagoroso, ora forte, medonho! 
E tanto penso em ti, ó meu ausente amado! 
que te sinto no Vento e a ele, feliz me exponho 

Com carícias brutais e com carícias mansas, 
cuido que tu me vens, julgo-me toda tua... 
- Sou árvore a oscilar, meus cabelos são franças... 

E não podes saber do meu gozo violento, 
quando me fico, assim, neste ermo, toda nua, 
completamente exposta à Volúpia do Vento!


Gilka Machado

terça-feira, 25 de junho de 2013

Poema de Amor

an he


Ser a atmosfera 
que respiras, 
conter-te em mim 
como numa redoma, 
entrar-te pelo olfato, 
assim como as aspiras 
invisíveis, do aroma... 

Ser teu ambiente, 
ser teu espaço circundante, 
sentindo em mim roçar, 
constantemente, 
teu gesto palpitante... 

Ser o silêncio 
em que te enfurnas, 
guardar teus 
lentos pensamentos, 
pelas horas noturnas... 

Ser o teu sono, 
sentir-te assim 
como ninguém te sente 
- abandonado 
completamente 
completamente esquecido 
em mim... 

Oh! meu prazer! 
- sentir-te 
e penetrar-te; 
- em toda hora, 
em toda parte, 
gozar teu ser! 
Sem que 
o pudesses perceber; 
- ser por ti absorvida; 
- encher com minha vida 
a tua vida


Gilka Machado

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Meu Glorioso Pecado II

Lauri Blank



Quantas horas felizes, quantos dias 
nos contemplamos sem jamais trocar 
uma frase! - Eu temia... Tu temias... 
Mas como era expressivo nosso olhar!... 

Nem uma frase! E tantas melodias 
no meu, no teu silêncio, no do mar, 
no do céu, no das árvores sombrias, 
como tudo se amava sem falar! 

Trocamos o vocábulo e (oh! tristeza!) 
Quantas injúrias, que contradição 
nessas palestras de alma 
em ciúme acesa! 

Ah! se mudos ficáramos então, 
não profanara o orgulho 
e a singeleza 
das palavras sem voz 
do coração!


Gilka Machado

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Reminiscência



Na noite fria 
Tua voz quente 
expunha anseios tais, 
tinha um tal despudor, 
vinha tão nua, 
que minha boca sentiu desejos 
de vesti-la de beijos... 

Na noite fria 
tua voz quente 
errava, louca de destemor, 
pelos gelados e ermos espaços... 
E tive pena de tua fala... 
E abri minha alma para abrigá-la 
Na noite fria 
tua voz quente 
pediu tanto, 
chorava tanto... 
Que minha vida te dei, 
com a mágoa 
com que se lança 
velho tesouro às mãos travessas 
de uma criança 


Gilka Machado 

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Bailado das ondas

Jaroslaw Kukowski.

Vede-as, ei-las que vêm- eternas bailarinas 
para a festa noturna e fádica do luar, 
segue-as o coro alegre e álacre das ondinas: 
vede-as, ei-las que vêm, todas juntas, bailar. 

Seios nus, braços nus que flavas serpentinas 
cingem, abstratas mãos de brancura polar, 
surgem, despetalando orquídeas argentinas 
sobre a pelúcia azul do tapete do mar. 

De quando em vez, na praia, uma a sorrir se apruma 
desliza, rodopia e alva como de espuma 
desnastra, erguendo o corpo em bamboleios no ar. 

E a lua, entre coxins, muito pálida e loura, 
em serena mudez de nobre espectadora, 
pelas ondas alonga o indiferente olhar.

Gilka Machado

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Frustração




Amei o Amor, ansiei o Amor, sonhei-o 
uma vez, outra vez (sonhos insanos!)... 
e desespero haja maior não creio 
que o da esperança dos primeiros anos. 

Guardo nas mãos, nos lábios, guardo em meio 
do meu silêncio, aquém de olhos profanos, 
carícias virgens para quem não veio 
e não virá saber dos meus arcanos. 

Desilusão tristíssima de cada 
momento, infausta e imerecida sorte, 
de ansiar o amor e nunca ser amada! 

Meu beijo intenso e meu abraço forte, 
com que pesar penetrareis o Nada, 
levando tanta vida para a morte!...


Gilka Machado 

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Chuva de Cinzas

 Makarov Igor


na estática mudez da Terra triste e viúva;
e, da tarde ao cair, sinto, minha alma, agora,
embuça-se na cisma e no torpor se enluva.

Hora crepuscular, hora de névoas, hora
em que de bem ignoto o humano ser enviúva;
e, enquanto em cinza todo o espaço se colora,
o tédio, em nós, é como uma cinérea chuva.

Hora crepuscular - concepção e agonia,
hora em que tudo sente uma incerteza imensa,
sem saber se desponta ou se fenece o dia;

hora em que a alma, a pensar na inconstância da sorte,
fica dentro de nós oscilando, suspensa
entre o ser e o não ser, entre a existência e a morte.


Gilka Machado
(Velha Poesia, Ed.Baptista de Souza, Rio, 18965, pag.15)

sexta-feira, 23 de março de 2012

Reflexão




Há certas almas
como as borboletas,
cuja fragilidade de asas
não resiste ao mais leve contato,
que deixam ficar pedaços
pelos dedos que as tocam.

Em seu voo de ideal,
deslumbram olhos,
atraem as vistas:
perseguem-nas,
alcançam-nas,
detêm-nas,
mas, quase sempre,
por saciedade
ou piedade,
libertam-nas outra vez.

Ela, porém, não voam como dantes,
ficam vazias de si mesmas,
cheias de desalento...

Almas e borboletas,
não fosse a tentação das cousas rasas;
- o amor de néctar,
- o néctar do amor,
e pairaríamos nos cimos
seduzindo do alto,
admirando de longe!...


Gilka Machado

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Emotividade da cor

Hans Jochem Bakker 


Sete cores — sete notas erradias,
sete notas da música do olhar,
sete notas de etéreas melodias,
de sons encantadores
que se compõem entre si,
formando outras tantas cores,
do cinzento que cisma ao jade que sorri.


Há momentos
em que a cor nos modifica os sentimentos,
ora fazendo bem, ora fazendo mal;
em tons calmos ou violentos,
a cor é sempre comunicativa,
amortece, reaviva,
tal a sua expressão emocional.


Lançai olhares investigadores
para a mancha dos poentes:
há cores que são ecos de outras cores,
cores sem vibrações, cores esfalecentes,
melodias que o olhar somente escuta,
na quietude absoluta,
ao Sol se pôr...
Quem há que inda não tenha percebido
o subjetivo ruído
da harmonia da cor?


(...)


— A Cor é o aroma em corpo e embriaga pelo olhar.
Cor é soluço, cor é gargalhada,
cor é lamento, é suspiro,
e grito de alma desesperada!
Muitas vezes a cor ao som prefiro
porque a minha emoção é igual à sua:
— parada, estatelada
dizendo tudo, sem que diga nada,
no prazer ou na dor.


Olhar a cor
é ouvi-la,
numa expressão tranquila,
falar de todas as sensações
caladas, dos corações;
no entanto, a cor tem brados,
mas brados estrangulados,
mágoas contidas,
mudo querer,
ânsia, fervor, emotividade
de desconhecidas
vidas,
que se ficaram na vontade,
que não conseguiram ser...


Cores são vagas, sugestivas toadas...

Cores são emoções paralisadas...


(...)


Gilka Machado


quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Saudade

Hazel Soan




De quem é esta saudade
que meus silêncios invade,
que de tão longe me vem?

De quem é esta saudade,
de quem?

Aquelas mãos só carícias,
Aqueles olhos de apelo,
aqueles lábios-desejo...

E estes dedos engelhados,
e este olhar de vã procura,
e esta boca sem um beijo...

De quem é esta saudade
que sinto quando me vejo?



Gilka Machado
(in Velha poesia, 1965)

quinta-feira, 10 de março de 2011

John Silver

Teus olhos me olham
longamente,
imperiosamente
de dentro deles teu amor me espia.

Teus olhos me olham numa tortura
de alma que quer ser corpo,
de criação que anseia ser criatura

Tua mão contém a minha
de momento a momento
é uma ave aflita
meu pensamento
na tua mão.

Nada me dizes,
porém entra-me a carne a persuasão
de que teus dedos criam raízes
na minha mão.

Teu olhar abre os braços,
de longe,
à forma inquieta de meu ser,
abre os braços e enlaça-me toda a alma.

Tem teu mórbido olhar
penetrações supremas
e sinto, por senti-lo, tal prazer,
há nos meus poros tal palpitação,
que me vem a ilusão
de que se vai abrir
todo meu corpo
em poemas.

Gilka Machado

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Lembranças


Teus retratos — figuras esmaecidas;
mostram pouco, muito pouco do que foste.
Tuas cartas — palavras em desgaste,
dizem menos, muito menos
do que outrora me diziam
teus silêncios afagantes...
Só o espelho da minha memória
conserva nítida, imutávela projeção de tua formosura,
só nos folhos dos meus sentidos
pairam vívidas
em relevo
as frases que teu carinho
soube nelas imprimir.
Sou a urna funerária de tua beleza
que a saudade
embalsamou.

Quando chegar o meu instante derradeiro
só então, mais do que eu,
tu morrerás
em mim.

Gilka Machado

quinta-feira, 24 de junho de 2010


Canta,
que tua voz
ardente e moça
faz com que eu sinta a meiguice
das palavras que a vida não me disse.

Para te ouvir melhor
abro as janelas
e fico a sós
com tua voz
sonhando
que a noite está cantando
pelos lábios de fogo das estrelas.

Canta,
boca febril que não conheço,
que nunca me falaste e que me dizes tudo!...

Ave estranha
de garras de veludo,
entoa para mim
uma canção sem fim!

Canta,
que ao teu canto vejo
em tudo
quietude atroz
de insatisfeito desejo
Canta,
— em cada ouvido há um beijo
para tua linda voz.

(...)

Gilka Machado

sábado, 19 de dezembro de 2009

Não creias nos meus retratos




Não creias nos meus retratos,
nenhum deles me revela,
ai, não me julgues assim!
Minha cara verdadeira
fugiu às penas do corpo,
ficou isenta da vida.
Toda minha faceirice e minha vaidade toda
estão na sonora face; naquela que não foi vista
e que paira, levitando,em meio a um mundo de cegos.
Os meus retratos são vários e neles não terás nunca
o meu rosto de poesia. Não olhes os meus retratos,
nem me suponhas em mim.


Gilka Machado

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Fecundação


Juliano Boscaini


Teus olhos me olham
longamente,
imperiosamente
de dentro deles teu amor me espia.

Teus olhos me olham numa tortura
de alma que quer ser corpo,
de criação que anseia ser criatura

Tua mão contém a minha
de momento a momento
é uma ave aflita
meu pensamento
na tua mão.

Nada me dizes,
porém entra-me a carne a persuasão
de que teus dedos criam raízes
na minha mão.

Teu olhar abre os braços,
de longe,
à forma inquieta de meu ser,
abre os braços e enlaça-me toda a alma.

Tem teu mórbido olhar
penetrações supremas
e sinto, por senti-lo, tal prazer,
há nos meus poros tal palpitação,
que me vem a ilusão
de que se vai abrir
todo meu corpo
em poemas.



Gilka Machado