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domingo, 1 de novembro de 2015

Resssaca

Mark Eliot Lovett.

Meio escondida atrás do quiosque fechado, a mulher espiou. Para além da murada, o mar, de um verde-acinzentado, estava quase inofensivo. É verdade que engolira a areia do Leblon, ou pelo menos boa parte dela. Verdade também que sua borda de espuma era excepcionalmente larga, rendada de vagas de um tamanho fora do comum, que se chocavam umas com as outras. Mas dali, do alto do mirante, sua fúria era estática, como numa fotografia. E por um instante – um instante, apenas – a paisagem parecia serenada.
A mulher deu alguns passos à frente, quase debruçando-se na fita amarela que impedia a passagem para o deque de madeira, cuja estrutura vinha sendo abalada pelas ondas. E pôs-se na ponta dos pés, tentando espiar as pedras lá embaixo. O vento frio ainda lhe cortava o rosto, como quando ela saíra do carro, mas também parecia amainado.
Ergueu os olhos, voltando a admirar a paisagem. A bruma formada pelas gotículas de água salgada envolvia os prédios e os morros, formando um mundo de cores esmaecidas, adoentadas. E o instante de refluxo, em que o mar parecia preparar-se em silêncio para uma nova investida, continuava – hipnotizando-a. Era como estar no olho do furacão, sabendo que a qualquer momento a fúria voltaria. Ainda pior.
E voltou.
Ela não sentiu a onda chegar. Nem sequer uma trepidação. Foi algo surpreendente, inexplicável. Era cedo, ainda, e a mulher estava só – não havia ninguém para gritar, dizer-lhe que corresse. Não, não houve qualquer aviso. Ou talvez tudo tenha acontecido rápido demais.
De repente, descendo do céu – como um raio ou um castigo – caiu sobre ela a massa d’água. Compacta e encorpada, envolveu-a de um só jato, molhando-a por inteiro, mas molhando-a de verdade, não respingos ou borrifos, mas uma água quase sólida, que a deixou instantaneamente ensopada, roupas, cabelos, toda ela, da cabeça aos pés.
Deu um grito. Encolheu os ombros, ergueu os braços, tentou defender-se tardiamente daquela água que bateu nela como chicotada. Por um segundo, mal compreendendo o que se passava, ficou no mesmo lugar, os pés presos ao chão, sentindo que até mesmo suas meias, dentro do tênis, estavam molhadas de torcer.
Somente quando em um passo atrás, baixando a vista e olhando-se, foi que pareceu despertar. E caiu na risada. Uma risada sonora, desabrida, que preencheu o mirante vazio, rivalizando com o rugido do mar. Uma risada de alívio, uma explosão.
Aquela pancada a fizera sentir-se viva outra vez. A beleza das ondas corria em suas veias e seu corpo fora ungido pela força da natureza.
Não queria mais pensar na morte.

Heloísa Seixas

sábado, 1 de junho de 2013

Os filhos do sim

jourdan_adolphe


A mulher estava sentada lendo um livro, na sala, quando ouviu o grito da filha. Depois, um estrondo de porta batendo. Murmúrios, passos. E a mocinha apareceu na sala, com uma expressão terrível no rosto. Tinha acabado de se pesar na balança do banheiro. Engordara um quilo. Um quilo! dizia, aos gritos, a ponto de a mãe pedir que baixasse a voz, por causa dos vizinhos. E a menina saiu da sala, com o rosto amarrado. Pouco depois, entrou o filho. Suando, chegava da academia. Tinha, também, um ar atormentado. Entrou, cumprimentou a mãe e desapareceu, a caminho do chuveiro, parecendo imensamente cansado.
E a mulher ficou outra vez sozinha na sala, pensando. Fechou o livro e levantou-se, caminhando até a janela. Pensava no sofrimento dos jovens de hoje.
Filhos e filhas daqueles que fizeram a revolução da contracultura – dos hippies, loucos, guerrilheiros – esses jovens poucas vezes ouvem um não na vida. É uma geração para a qual quase nada é proibido. Os pais de agora, que foram jovens nos anos loucos, têm enorme dificuldade em impor disciplina. Deixam os filhos fazer tudo. (...). Talvez isso tenha criado um vazio na vida desses rapazes e moças, refletiu a mulher, olhando as luzes da rua, com seus halos incertos.
Os jovens de hoje formam uma geração que pode tudo, com acesso livre a todas as informações, que tem diante de si enorme variedade de ofertas de consumo. Biscoitos, por exemplo, pensou a mulher. No tempo dela, só havia dois ou três tipos de biscoito doce. Hoje, em qualquer lojinha de posto de gasolina, há prateleiras inteiras de biscoitos de todos os tipos, recheados ou não, com chocolate amargo ou de leite, com nozes ou passas, tudo. Biscoitos demais. Mas, para quê? Inútil paisagem. Não se pode comer. E quem proíbe? São eles mesmos, os jovens.
Eles mesmos inventaram aquilo que não se pode fazer. Precisaram criar suas próprias impossibilidades – talvez pelo excesso de vezes em que ouviram um sim dos pais. Porque o ser humano precisa do proibido. Então agora é proibido comer, é proibido não ter músculos, é proibido ser feio, é proibido envelhecer. O padrão de beleza vigente é irreal. Parece ter sido criado apenas para fazer sofrer – pois é inalcançável. Qualquer mocinha que não viva à base de alface e água – a não ser as que, por natureza, tenham a sorte de ser excessivamente magras – vai se olhar no espelho e chorar porque não tem aquele aspecto de campo de concentração que se vê nos anúncios de moda (incluindo os olhares, tão tristes).
É essa a vida dos jovens, hoje – concluiu a mulher, dando de ombros. Coitados. São os filhos do sim.


Heloísa Seixas

sexta-feira, 15 de março de 2013

O beijo

o Beijo - Auguste Rodin


Sobre o pequeno promontório de pedra, sentados lado a lado, os amantes se beijam. Os cabelos da mulher foram retorcidos na nuca e, presos, deixam à mostra as costas bem feitas, músculos, carnes e ossos, num ajuste harmônico que vai dar no afilamento da cintura. Ela está sentada, as pernas rígidas quase tocando uma à outra, as pontas dos pés pousadas no chão com leveza, quase com desequilíbrio, como se a qualquer momento fosse cair para trás, subjugada pelo amor daquele homem.

Ele, sentado ao lado dela, girou sobre si próprio de modo a enlaçá-la. Enquanto sua mão esquerda está colocada sobre o banco de pedra que lhe serve de apoio, a outra, a direita, contornou a mulher e segura com firmeza o ponto da coxa onde começa o quadril. A presença da mão naquela altura da coxa é, por si só, um ato de amor.o braço musculoso do homem se abre, na extremidade, transformando-se em mão vigorosa, de dorso riscado de veias, de dedos nodosos e longos que tocam a pele da mulher com a desenvoltura de um senhor de terras, o polegar erguido apontando, já, na direção do ventre, onde o monte de Vênus está à espera de seu toque. Os mesmos músculos que fazem do braço e das mãos uma demonstração de força, espraiam-se pela espádua, com igual firmeza, com o mesmo poder. Apenas no rosto há alguma delicadeza, os cabelos dele, de um anelado leve, querendo cair sobre a testa como a criar um véu de privacidade para o encontro. Também no gesto da mulher parece haver o objetivo de criar uma redoma, uma região de sombra que mantenha o mundo afastado dos dois. Ela ergueu o braço esquerdo e envolveu o pescoço do homem, puxando-o para si, e esse movimento deixou livre um de seus seios, que aponta para o amante com ousadia. Mas há mais ousadia ainda em outro fato, raso, direto, inegável como a dureza da pedra – o de que os dois amantes estão nus.

A menina observa, fascinada. Nunca viu nada assim. Nunca, em sua vida breve, julgou que pudesse assistir a uma cena de tamanha plenitude. Um homem e uma mulher, nus, envolvidos num beijo tão intenso e tão completo, que parece acontecer numa dimensão paralela, onde o tempo é imensurável, onde é impossível distinguir segundos de séculos. A menina olha, os olhos muito abertos, sem piscar. Em algum ponto de sua mente, tem a impressão de que ouve uma voz chamando-a, mas nem pensa em responder, não quer mover-se. Quer ficar ali parada, hipnotizada que foi pela força daquele encontro entre dois amantes. A chama que o beijo irradia toca-a, revolve alguma coisa dentro dela. A voz, do outro lado do mundo, insiste, chama-a cada vez mais alto, mas a menina ainda tenta resistir, presa ao beijo a que assiste, com a súbita certeza de que sairá dali transformada – para sempre.

Até que não pode mais. Pisca os olhos e, em seguida, vira-se. Vê o sorriso da mãe, que se aproxima. Sorri de volta, rendida, mas tem certeza – certeza absoluta – de que depois daquele momento não será a mesma. Nunca mais esquecerá essa primeira visão da escultura de Auguste Rodin.


Heloísa Seixas

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Um vendaval

Nikola Borissov Photography

O velho ia caminhando, encurvado, como se batido pelo vento – mas não havia vento, ainda. Havia, ao contrário, uma grande quietude na calçada da Avenida Atlântica àquela hora. Quietude do mar, que se espraiava em silêncio sobre a areia. Quietude do ar, que pairava pesado no fim de tarde. Quietude das pessoas passando mudas, como se esperassem a tempestade que – todos sabiam – cairia a qualquer momento.
Já quase anoitecia, mas o velho estava de óculos escuros, que usava para esconder os olhos cegos. Vestia uma roupa alinhada, perfeitamente limpa e passada, sapatos lustrados com afinco, e trazia no braço direito uma pulseira de ouro. Era também o braço direito que segurava a bengala, o castão envolto com firmeza na mão fechada, com dedos formando grossos nós.
Era curioso que saísse só, e tão tarde, e numa tarde com promessa de chuva. Mas ele nem parecia importar-se. Na verdade, nem parecia cego, tal a desenvoltura com que se movimentava, agitando a bengala de um lado a outro, a farejar o caminho. Ninguém o vira atravessar a rua, mas, uma vez na calçada, andava muito à vontade, como se não temesse nada. E havia em seu rosto uma expressão de tamanha felicidade que, não fosse pela curvatura das costas, dir-se-ia que a qualquer instante ele começaria a dançar.
Mas de repente parou.
E por um instante permaneceu imóvel, as costas agora quase eretas, o cenho franzido, as narinas em alerta. Quem o visse de longe poderia pensar que estava assustado, que fora talvez atingido por uma lufada de vento, primeiro sinal da ventania que se anunciava. Mas não. Os primeiros sopros do vento ainda rugiam sobre o mar, muito além da curva protetora de Copacabana. O que fora, então? O que o fizera parar assim, como se fulminado?
Era, na verdade, um vendaval. Um vendaval sem vento, aquilo que o atingira. Uma lufada poderosa, que o fizera estancar os gestos, o coração batendo como louco, a garganta apertada.
Seus olhos adormecidos nem viam a mulher jovem, de pernas longas e porte esguio, que estava parada a poucos metros dele, olhando a praia. Ele jamais viria a saber quem ela era, nem por que estava ali. Tampouco saberia a razão de seu olhar perdido, da mão que segurava com força a lata de cerveja. Mas de uma coisa o velho sabia: ali estava o vendaval. Porque, fosse quem fosse, a moça usava um perfume. O mesmo perfume da mulher que ele amara um dia – muito tempo atrás.


Heloísa Seixas

sábado, 12 de janeiro de 2013

A fotografia

Paolo Scarano



Enquanto trabalhava, diante da tela encostada à parede, a mulher sentia na nuca a emanação do olhar que vinha da fotografia. Sabia que era uma bobagem, aquilo. Mas não podia evitar.

Tentou concentrar-se. Precisava terminar a tela em duas semanas. Era uma encomenda. Mas naquela manhã estava especialmente dispersiva, o pensamento esvoaçando o tempo todo, indo às vezes parar na foto que pusera num canto da sala, sobre a cômoda. Era uma foto de seu marido, só que tirada mais de vinte anos antes, quando eles ainda não se conheciam.

Suspirou. Pousou o pincel sobre a palheta que deixara descansando numa mesinha toda suja de tinta e limpou os dedos no pano embebido em solvente. Estava quase negro, de tão sujo. Sorriu. Se o preto é a ausência de cor e o branco é que é a soma de todas as cores, então esse paninho é uma contradição, pensou. Já levou tantas camadas de tinta, e de tantas cores, que se transformou nesse pedaço de tecido encardido. Mas não conseguia trocar. Sentia uma estranha ternura por ele. Sentia ternura pelos tubos de tinta, pelos vidros, pincéis, era capaz de ter pelos objetos mais apreço que por algumas pessoas. Talvez por isso tivesse estabelecido aquela estranha relação com a fotografia, desde que decidira colocá-la sobre a cômoda.

Esfregou com força as mãos no paninho escuro, tentando resistir à tentação de se virar e olhar a foto. Não queria. Não agora. Iria perturbá-la demais.

Caminhou até a varanda e observou os pés de fícus que, em três grandes vasos, assemelhavam-se cada vez mais a verdadeiras árvores, com os troncos encorpando-se e as folhas viçosas, como se as plantas crescessem no chão. Era uma varanda privilegiada, a sua. Até mesmo um ninho de passarinho surgira outro dia, por entre as folhagens. Lá estava ela, divagando de novo, deixando a mente flanar enquanto deveria estar concentrada, trabalhando. Precisava voltar à tela. Terminar o quadro o quanto antes.

Virou-se e encontrou na sala. Mas, nesse instante, aconteceu o que temia. Seus olhos se dirigiram, como se  tivessem vontade própria, para a fotografia. O marido ainda jovem, de braços cruzados. Sob a manga arregaçada do suéter, surgia um antebraço másculo, estriado de veias. E desse, as mãos viris. O rosto trazia um sorriso debochado, uma expressão de escárnio, marcas de uma vida dissoluta – na qual ela não tomara parte.

Fora sobretudo aquele olhar que a impressionara ao encontrar a fotografia dentro de uma caixa, onde por muitos anos ficara esquecida. Um olhar que desconhecia. Aquele rosto, aquele, da foto, ela nunca vira. Era outro homem. Não apenas mais jovem, mas movido por uma força cruel, deliciosamente cruel. E ela não se perdoava por ter perdido esse passado de loucura. Queria ter estado lá. Nem que fosse apenas uma vez.

Caminhou até perto da cômoda, os olhos fixos na foto, e parou, esfregando os braços. Sentia crescer dentro de si uma chama, um rubor. Não era o marido que queria. Era aquele ser dissolvido no passado, que a olhava como se a devorasse. Estava apaixonada por um homem que não existia mais.


Heloísa Seixas
fonte:http://heloisaseixas.com.br

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Estrela-do-mar

Marcus ohlsson



Olharam-se. Foi um olhar material, como se os raios invisíveis emitidos por cada um se misturassem no ar, fundindo-se, encorpando-se, tornando-se palpáveis. E ao olhar mútuo seguiu-se o sorriso, também de parte a parte. Começou assim. Estavam ambos num país desconhecido, num universo distante de suas vidas, por motivos diferentes, que não tinham qualquer importância. O olhar foi mútuo, mas foi ela quem se aproximou. Era talvez mais atirada do que ele. E o olhar e o sorriso se transformaram em palavras. Estavam à porta de um ônibus de excursão, cercado de uma algaravia de diversas línguas, e aquela massa de sons estranhos se fechou em torno deles como se os abraçasse, indulgência plena que lhes era anunciada. Sabiam que aquele era um território neutro, onde tudo poderia acontecer.

Na praça, o cheiro de iguarias exóticas impregnava o ar. Mulheres de turbantes coloridos conversavam num dialeto desconhecido, com estalares de língua que pareciam falar de sabores, gostos. Eles acharam graça naquilo. Só eles, ninguém mais. Sorriram. Em torno, as construções tinham em suas paredes o tom ocre do deserto, e as janelas em arco deixavam entrever pedaços de vidas, histórias, na penumbra das casas. A praça fervilhava de gente e, em meio aos temperos e hortaliças, vendiam-se também bugigangas, antiguidades, pratarias, panelas. Aquele universo caótico os convidava. Misturados à multidão, deixaram-se arrastar pela torrente de sons, cores, formas, distanciando-se do grupo.

Tocaram-se. Suas mãos amoldaram-se uma à outra, dedos, pele, palma que pareciam fundir-se como haviam feito pouco antes seus olhares. Aquelas mãos tinham uma história própria, uma historia sábia, antiga, independente deles. Não se largaram mais. Entrelaçadas, as mãos levaram-nos a passear pela feira, pela praça, pelas ruelas em torno. Entrelaçadas, conduziram-nos de volta ao ônibus, de onde saltariam depois. Naturalmente juntas, levaram-nos através da porta do hotel e escadas acima – para o quarto. Amaram-se.

Amaram-se sabendo – tinham perfeita consciência disso, o tempo todo – sabendo que seu amor estava circunscrito àquela hora e àquele lugar, que uma vez cessado o momento seria impossível tentar revivê-lo.

Sabiam. Tentar seria um erro. Fora dali, aquele amor seria uma estrela-do-mar, que brilha como prata contra a areia do fundo, mas que, retirada da água, perde o viço, a cor, o brilho – morre em nossas mãos.


Heloísa Seixas
http://heloisaseixas.com.br