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sábado, 28 de maio de 2022

Teus Olhos

Ken Hamilton.


Teus olhos são a pátria do relâmpago e da lágrima,

silêncio que fala,

tempestades sem vento, mar sem ondas,

pássaros presos, douradas feras adormecidas,

topázios ímpios como a verdade,

outono numa clareira de bosque onde a luz canta no ombro

duma árvore e são pássaros todas as folhas,

praia que a manhã encontra constelada de olhos,

cesta de frutos de fogo,

mentira que alimenta,

espelhos deste mundo, portas do além,

pulsação tranquila do mar ao meio-dia,

universo que estremece,

paisagem solitária.


Octavio Paz, in: Liberdade sob Palavra

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Água noturna

zhao chun

A noite de olhos de cavalo que tremem na noite
a noite de olhos de água no campo adormecido,
está nos teus olhos de cavalo que treme,
está nos teus olhos de água secreta.

Olhos de água de sombra,
olhos de água de fonte,
olhos de água de sonho.

O silêncio e a solidão,
como dois animais pequenos que a lua guia,
bebem nesses olhos,
bebem nessas águas.

Se abres os olhos,
abre-se a noite de portas de musgo,
abre-se o reino secreto da água
que emana do centro da noite.

E se os fechas,
um rio, uma corrente doce e silenciosa,
inunda-te por dentro, avança, torna-te obscuro:
a noite molha margens na tua alma.


Octavio Paz

sábado, 28 de setembro de 2013

Música


Música: ouço dentro o que vejo fora
Vejo dentro o que ouço fora,
Sou uma arquitectura de sons instantâneos
Sobre um espaço que se desintegra.
A música inventa o silêncio,
A arquitectura inventa o espaço
Fábricas de ar.
O silêncio é o espaço da música:
Um espaço sem dimensão:
Não há silêncio salvo na mente.
O silêncio é uma ideia,
A ideia fixa da música.
A música não é uma ideia:
É movimento, sons caminhando sobre o silêncio
Silêncio é música
Música não é silêncio.


Octavio Paz

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Silêncio

Damian Kłaczkiewicz_


Assim como do fundo da música 
brota uma nota 
que enquanto vibra cresce e se adelgaça 
até que noutra música emudece, 
brota do fundo do silêncio 
outro silêncio, aguda torre, espada, 
e sobe e cresce e nos suspende 
e enquanto sobe caem 
recordações, esperanças, 
as pequenas mentiras e as grandes, 
e queremos gritar e na garganta 
o grito se desvanece: 
desembocamos no silêncio 
onde os silêncios emudecem.

***
Así como del fondo de la música
brota una nota
que mientras vibra crece y se adelgaza
hasta que en otra música enmudece,
brota del fondo del silencio otro silencio,
aguda torre, espada,
y sube y crece y nos suspende
y mientras sube caen
recuerdos, esperanzas,
las pequeñas mentiras y las grandes,
y queremos gritar y en la garganta
se desvanece el grito:
desembocamos al silencio
en donde los silencios enmudecen


Octavio Paz, in "Liberdade sob Palavra" 
Tradução de Luis Pignatelli

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Dos cuerpos



Dos cuerpos frente a frente
son a veces dos olas
y la noche es océano.

Dos cuerpos frente a frente
son a veces dos piedras
y la noche desierto.

Dos cuerpos frente a frente
son a veces raíces
en la noche enlazadas.

Dos cuerpos frente a frente
son a veces navajas
y la noche relámpago.

Dos cuerpos frente a frente
son dos astros que caen
en un cielo vacío


Octavio Paz

**

Dois corpos frente a frente
às vezes duas ondas
são, e a noite é oceano.

Dois corpos frente a frente
às vezes duas pedras
são, e a noite deserto.

Dois corpos frente a frente
são às vezes raízes
na noite entrelaçadas.

Dois corpos frente a frente
são às vezes navalhas,
e é relâmpago a noite.

Dois corpos frente a frente
são dois astros que caem
num céu ermo e vazio.



tradução: Aurélio Buarque de Holanda Ferreira

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

A Ponte

Leslie Allen 

Entre instante e instante,
entre eu sou e tu és,
a palavra ponte.

Entras em ti mesma
ao entrar nela:
como um anel
o mundo fecha-se.

De uma margem à outra
há sempre um corpo que se estende,
um arco-íris.

Eu dormirei sob os seus arcos.


Octavio Paz

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Teus Olhos





Teus olhos são a pátria do relâmpago e da lágrima,
silêncio que fala,
tempestades sem vento, mar sem ondas,
pássaros presos, douradas feras adormecidas,
topázios ímpios como a verdade,
outono numa clareira de bosque onde a luz canta no ombro
duma árvore e são pássaros todas as folhas,
praia que a manhã encontra constelada de olhos,
cesta de frutos de fogo,
mentira que alimenta,
espelhos deste mundo, portas do além,
pulsação tranquila do mar ao meio-dia,
universo que estremece,
paisagem solitária.


Octavio Paz

segunda-feira, 12 de julho de 2010

 Ken Hong Leung

Entre partir e ficar hesita o dia,
enamorado de sua transparência.

A tarde circular é uma baía:
em seu quieto vai e vem se move o mundo.

Tudo é visível e tudo é ilusório,
tudo está perto e tudo é intocável.

Os papéis, o livro, o vaso, o lápis
repousam à sombra de seus nomes.

Pulsar do tempo que em minha têmpora repete
a mesma e insistente sílaba de sangue.

A luz faz do muro indiferente
Um espectral teatro de reflexos.

No centro de um olho me descubro;
Não me vê, não me vejo em seu olhar.

Dissipa-se o instante. Sem mover-me,
eu permaneço e parto: sou uma pausa.

Octavio Paz

domingo, 11 de julho de 2010


os rios do teu corpo – o rio dos corpos
país de latejos – astros infusórios répteis 
entrar em ti – torrente de cinário sonâmbulo 
país de olhos fechados – maragem de genealogias 
água sem pensamentos – jogos conjugações jograis 
entrar em mim – sujeito e objeto abjeto e absolto 
ao entrar em teu corpo – rio de sois
país de espelhos em vigília – “as altas feras de luzente pele” 
país de água acordada – roda o rio seminal dos mundos 
na noite adormecida – o olho que o olha é outro rio

me vejo no que vejo – é minha criação isto que vejo 
como entrar por meus olhos - perceber é conceber
num olho mais límpido – água de pensamentos
me olha o que eu olho – sou a criatura do que vejo 

delta de braços do desejo – água de verdade
num leito de vertigens – verdade de água

A transparência é o que resta ao fim de tudo. 

Octavio Paz - "Blanco" 
(trad. Haroldo de Campos)

o começo
        o cimento
a semente
         latente
a palavra na ponta da língua
inaudita           inaudível
                          ímpar
grávida                 nula
          sem idade
a enterrada de olhos abertos
inocente           promíscua
         a palavra
sem nome            sem fala


Sobe e desce
Escala de escapulário,
A linguagem desabitada.
Sob a pele da penumbra
Lateja uma lâmpada.
                   Supervivente
Entre confusões taciturnas,
                                                                  Ascende
Num caule de cobre
                   Resolvida
Em folhagem de lucidez:
                       Sustento
De realidades derruídas.
                       Ou adormecido,
Ou extinto,
           Alto a pino
(Cabeça em lança),
                 Um girassol
Agora carbonizado
                 Sobre uma jarra
De sombra.
          Em palma de mão
Fictícia,
         Flor
Nem vista nem pensada:
                      Ouvida
Aparece
       Amarelo
Cálice de consoantes e vogais
Incendiadas.


no muro a sombra do fogo       chama rodeada de leões
no fogo tua e minha sombras    leoa no círculo das chamas
                               alma animando sensações
o fogo te ata e desata      
Pão Graal Áscua                frutos de fogos-de-bengala
                     Mulher    os sentidos se exabrem
teu riso - nua                 na noite magnética
entre os jardins da chama
                Paixão de brasa compassiva


Pulso, impulso,
Ondada de sílabas úmidas.
Sem dizer palavra
Escurece-me a fronte
Um pressentir de linguagem
Paciente paciente
(Livingston no rigor da seca)
River rising a little
O meu é rubro e se esgota
Entre saibros chamejantes:
Castelas de areia, naipes rotos,
E o hieróglifo (água e brasa)
No peito do México tombado.
Daqueles lodos sou pó.
Rio de sangue,
           Rio de estórias
De sangue,
          Rio seco:
Boca de manancial
Amordaçado
Pela conjura anônima
Dos ossos,
Pela sisuda penha dos séculos
E dos minutos:
              Linguagem
É expiação,
           Propiciação
A quem não fala,
                Emparedado,
Dia a dia
         Assassinado,
O morto inumerável.
               Falar
Enquanto os outros trabalham
É polir os ossos,
                 Aguçar
Silêncios
         Até a transparência,
À ondulação,
            Ao corusqueio,
Até a água:

os rios do teu corpo           o rio dos corpos
país de latejos                astros infusórios répteis
entrar em ti                   torrente de cinábrio sonâmbulo
país de olhos fechados         maragem de genealogias
água sem pensamentos           jogos conjugações jograis
entrar em mim                  sujeito e objeto abjeto e absoluto
ao entrar em teu corpo         rio de sóis
país de espelhos em vigília    "as altas feras de luzente pele"
país de água acordada          roda o rio seminal dos mundos
na noite adormecida            o olho que o olha é outro rio

me vejo no que vejo            é minha criação isto que vejo
como entrar por meus olhos     perceber é conceber
em um olho mais límpido        água de pensamentos
me olha o que eu olho          sou a criatura do que vejo

delta de braços do desejo      água de verdade
num leito de vertigens                        verdade de água
       A transparência é o que resta ao fim de tudo


Branco (fragmento) - Octavio Paz - Tradução: Haroldo de Campos

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Certeza

Leonid_Pasternak_


Se é real a luz branca 
desta lâmpada, real 
a mão que escreve, são reais 
os olhos que olham o escrito? 

Duma palavra à outra 
o que digo desvanece-se. 
Sei que estou vivo 
entre dois parênteses. 


Octavio Paz, in "Dias Hábeis" 
Tradução de Luis Pignatelli