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domingo, 30 de junho de 2024

Marie-Marguerite Turner 

 

Pudesse eu não ter laços nem limites

Ó vida de mil faces transbordantes

Para poder responder aos teus convites

Suspensos na surpresa dos instantes!


Sophia de Mello Breyner Andresen

domingo, 10 de março de 2024



 "...estou tonta e um bocadinho triste. As coisas da terra são esquisitas. São diferentes das coisas do mar. No mar há monstros e perigos, mas as coisas bonitas são alegres. Na terra há tristeza dentro das coisas bonitas."

Sophia de Mello Breyner Andresen 

sexta-feira, 17 de novembro de 2023

 


Não te chamo para te conhecer

Eu quero abrir os braços e sentir-te

Como a vela de um barco sente o vento


Não te chamo para te conhecer

Conheço tudo à força de não ser


Peço-te que venhas e me dês

Um pouco de ti mesmo onde eu habite


Sophia de Mello Breyner Andresen

sábado, 17 de dezembro de 2022

 



Não te chamo para te conhecer

Eu quero abrir os braços e sentir-te

Como a vela de um barco sente o vento


Não te chamo para te conhecer

Conheço tudo à força de não ser


Peço-te que venhas e me dês

Um pouco de ti mesmo onde eu habite


Sophia de Mello Breyner Andresen

domingo, 15 de agosto de 2021

Espera



Dei-te a solidão do dia inteiro.

Na praia deserta, brincando com a areia,

No silêncio que apenas quebrava a maré cheia

A gritar o seu eterno insulto,

Longamente esperei que o teu vulto

Rompesse o nevoeiro.


Sophia de Mello Breyner Andersen

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

 

Victor Nizovtsev (On the Horizon)


A minha esperança mora

No vento e nas sereias -

É o azul fantástico da aurora

E o lírio das areias.


Sophia de Mello Breyner Andresen, in “Dia do Mar”

domingo, 8 de agosto de 2021

 

Christina Nguyen


Mar, metade da minha vida é feita de maresia

Sophia de Mello Breyner Andresen

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Felicidade

Andrei Markin


Pela flor pelo vento pelo fogo
Pela estrela da noite tão límpida e serena
Pelo nácar do tempo pelo cipreste agudo
Pelo amor sem ironia – por tudo
Que atentamente esperamos
Reconheci a tua presença incerta
Tua presença fantástica e liberta

 Sophia de Mello Breyner Andresen, em "Livro sexto", 1962

sábado, 26 de dezembro de 2015




Tudo me é uma dança em que procuro
A posição ideal,
Seguindo o fio dum sonhar obscuro
Onde invento o real.
À minha volta sinto naufragar
Tantos gestos perdidos
Mas a alma, dispersa nos sentidos,
Sobe os degraus do ar…

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Poesia

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015


Este é o amor das palavras demoradas
Moradas habitadas
Nelas mora
Em memória e demora
O nosso breve encontro com a vida

Sophia de Mello Breyner Andresen


Como um fruto que se mostra
Aberto pelo meio
A frescura do centro
Assim é a manhã
Dentro da qual eu entro

Sophia de Mello Breyner Andresen

domingo, 11 de janeiro de 2015

Os ritmos

Topolski Piotr


Inventei a dança para me disfarçar.
Ébria de solidão eu quis viver.
E cobri de gestos a nudez da minha alma
Porque eu era semelhante às paisagens esperando
E ninguém me podia entender.

Sophia de Mello Breyner Andresen, em "Coral", 1950.

sábado, 2 de agosto de 2014

antonio sgarbossa


Aqui me sentei quieta
Com as mãos sobre os joelhos
Quieta muda secreta
Passiva como os espelhos

Musa ensina-me o canto
Imanente e latente
Eu quero ouvir devagar
O teu súbito falar
Que me foge de repente


Sophia de Mello Breyner Andresen

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Emilia Wilk 


inventei a dança para me disfarçar. 
Ébria de solidão eu quis viver. 
E cobri de gestos a nudez da minha alma 
Porque eu era semelhante às paisagens esperando 
E ninguém me podia entender. 


Sophia de Mello Breyner Andresen
In Coral, 1950 


segunda-feira, 25 de novembro de 2013

O poema




O poema me levará no tempo
Quando eu já não for eu
E passarei sozinha
Entre as mãos de quem lê

O poema alguém o dirá
Às searas

Sua passagem se confundirá
Com o rumor do mar com o passar do vento

O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento

No ar claro nas tardes transparentes
Suas sílabas redondas

(Ó antigas ó longas
Eternas tardes lisas)

Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas

E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo


Sophia de Mello Breyner Andresen

Para atravessar contigo os desertos do mundo

foto Sergio P.


Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei
Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso
Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo
Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento


Sophia de Mello Breyner Andresen,
in Livro sexto,  1962, A Estrela

São gostos

 Paul Kelley


Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.

Para ti eu criarei um dia puro
livre como o vento e repetido
como o florir das ondas ordenadas.


Sophia de Mello Breyner Andresen

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Corpo

Sergey Ignatenko linho


 Corpo serenamente construído 
Para uma vida que depois se perde 
Em fúria e em desencontro vivido 
Contra a pureza inteira dos teus ombros. 

 Pudesse eu reter-te no espelho 
Ausente e mudo a todo outro convívio 
Reter o claro nó dos teus joelhos 
Que vão rasgando o vidro dos espelhos. 

 Pudesse eu reter-te nessas tardes 
Que desenhavam a linha dos teus flancos 
Rodeados pelo ar agradecido. 

 Corpo brilhante de nudez intensa 
Por sucessivas ondas construído 
Em colunas assente como um templo. 


 Sophia de Mello Breyner Andresen 

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Renso Castaneda


À sua passagem a noite é vermelha,
E a vida que temos parece
Exausta, inútil, alheia.

Ninguém sabe onde vai nem donde vem,
Mas o eco dos seus passos
Enche o ar de caminhos e de espaços
E acorda as ruas mortas.

Então o mistério das coisas estremece
E o desconhecido cresce
Como uma flor vermelha.


Sophia de Mello Breyner Andresen

sábado, 1 de junho de 2013

Alexei Makarenok


Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes
Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os Homens...
Há mulheres que são maré em noites de tardes 
e calma


Sophia de Mello Breyner Andresen