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terça-feira, 19 de abril de 2022

EVANGELHO DA SOMBRA E DO SILÊNCIO



O silêncio das coisas me comove;

Sinto-o, principalmente quando chove,


Que sonolência enerva as almas...

Que apatia...

Que saudade da vida e da alegria!


Que saudade de tudo que ama e existe!

Como me encanta a natureza triste!


Olho através dos vidros da janela:

A paisagem desfaz-se em folhas amarelas...


Ver árvores é um grande lenitivo

Para a estesia de um contemplativo.


Ver árvores é ouvir sentidas trovas,

Vossas cantigas, raparigas novas!


Que lindo o verde, em nuanças meio incertas,

Margeando, lado a lado, as estradas desertas!


As árvores dos parques e das praças

Bebem silêncio pelas folhas que são taças...

Só parece que a sombra em redor se avoluma

E cresce e desenrola o amplo manto de bruma.


É tudo calma. Em torno à minha casa

Não se escuta sequer um ruflo de asas.


Somente a água que vem da montanha, sonora,

Canta tão triste que não canta, chora.


E some-se, rezando a estranha reza

Da livre religião da natureza,


Ave, sombra! Eu venero a tua imagem

E amo o silêncio verde da paisagem!..


Olegário Mariano

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Você nunca está só

Michelle Fennel Photography


Você nunca está só. Sempre ao seu lado
Há um pouquinho de mim pairando no ar
Você bem sabe: o pensamento é alado
Voa como uma abelha sem parar.

Veja: caiu a tarde transparente
A luz do dia se esvaiu... Morreu
Uma sombra alongou-se a seus pés mansamente...
Esta sombra sou eu.

O vento, ao pôr do sol, num balanço de rede
Agita o ramo e o ramo um traço descreveu
Este gesto do ramo na parede
Não é do ramo: é meu.

Se uma fonte a correr chora de mágoa
No silêncio da mata, esquecida de nós
Preste bem atenção nesta cantiga da água:
A voz da fonte é a minha voz.

Se no momento em que a saudade se insinua
Você nos olhos uma gota pressentiu
Esta lágrima, juro, não é sua
Foi dos meus olhos que caiu...


Olegário Mariano

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011



Que tarde imensa e fria!
Lá fora o vento rodopia...
Dança de folhas... Folhas, sonhos vãos,
que passam, nesta dança transitória,
deixando em nós, no fundo da memória,
o olhar de uns olhos e a carícia de umas mãos.

Ante a moldura de um retrato antigo,
põe-se a gente a evocar coisas emocionais.
Tolda-se o olhar, o lábio treme, a alma se aperta,
tudo deserto... a vide em torno tão deserta
que vontade nos vem de sofrer mais!

Depois, há sempre um cofre e desse cofre
tiramos velhas cartas, devagar...
É a volúpia inervante de quem sofre:
ler velhas cartas e depois chorar.
Que tarde imensa e fria!

Nunca mais te verei... Nunca mais me verás...
Lá fora o vento rodopia...
Que desejo me vem de sofrer mais!


Olegário Mariano

terça-feira, 20 de setembro de 2011

O enamorado da vida

Michel & Inessa Garmash

Eu sou um enamorado da Vida!
Para sentir melhor o céu na minha casa,
Plantei a minha casa entre o mar e a montanha.
Se as ondas vêm rugir a meus pés, a horas mortas,
A lua desce a mim numa carícia estranha.
Bebo as estrelas de mais perto... Abraço
Todo o corpo do céu num simples movimento.
E, quando chove, sinto a torrente das chuvas
Trazendo da montanha, em seu penacho de águas,
Frondes, ninhos, calhaus e pássaros ao vento.

Eu sou um enamorado da Vida!
Amo-a por tudo quanto ela me pode dar:
A água fresca da fonte, a carícia da sombra,
E até a calma silenciosa e mansa
Desse crepúsculo que baixa devagar.
Em cada mão de folha a minha boca bebe
O orvalho da manhã como um suave licor.
E abro os pulmões, sorvendo em tudo o que me envolve
Essa onda de volúpia e de êxtase e perfume
Que vem do amor e que me leva para o amor

Eu sou um enamorado da Vida!
Tenho ímpetos de voar, de galgar, de vencer
Colinas, penetrar o coração dos vales,
Relinchando feliz como um potro selvagem
Que solta as crinas no ar para melhor correr;
Ou retesar as asas brancas de gaivota
E atirar-me na fúria incrível das procelas;
Beber em haustos toda a glória do mar alto,
Rolar no bojo dos batéis desarvorados
Ou as asas enxugar no alvo lenço das velas

Vida! Quero viver todas as tuas horas,
As que prendi na mão e as que nunca alcancei.
Ser um pouco de ti no espelho das paisagens
Para, quando morrer, levar dentro dos olhos
A beleza imortal de tudo quanto amei.


Olegário Mariano

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Flor de outros climas

Arte by Yuri Yarosh. 

Vieste de um país de bruma,
De sonho e melancolia:
Teu corpo é feito de espuma,
Da espuma mais branca e fria.

Na mole tranqüilidade
Dos gestos, tu me recordas
Uma lírica saudade
De teclados e de cordas.

Trazes gravado no ouvido
Para mim ( feliz quem canta!)
Um velho canto esquecido
Nalguma velha garganta.

Trazes dos olhos no fundo
Um desespero abafado,
Novo pranto preparado
Para encher a arca do mundo.

Nas olheiras merencórias
Dos teus olhos tristes de ave,
Lê-se a tua história suave
Como todas as histórias.

Vens de longe... Assim que me olhas
Sinto a carícia das sedas...
Tens um perfume de folhas,
De parques e de alamedas.

Nas tuas mãos delicadas,
Abertas num lento aceno,
Passam veias azuladas
Do azul muito azul do Reno.

Flor que tombastes em desfolhos
Pela chuva e pela mágoa,
Eu descubro nos teus olhos
Castelos à beira d’água:

Parques, fontes que soluçam
Trovas na água transparente,
E garças que se debruçam
Na imensa calma do poente.

Um silêncio comovido
Pela estrada solitária,
Quando o corta o estranho ruído
De uma asa retardatária.

Vieste de imota paragem,
Como um símbolo de mágoa,
Trazendo a tua paisagem
Dos teus olhos à flor d’água.

E na boca envelhecida
Pelo mais rude desejo,
A vida... Que grande vida!
Num beijo... Que grande beijo!


Olegário Mariano

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Arrependimento

Theodor von Holst 

Deste amor torturado e sem ventura
Resta-me o alívio do arrependimento.
O pouco que me deste de ternura
Não vale o que te dei de encantamento.

Abri para o teu sonho o firmamento,
Semeei de estrelas tua noite escura.
Dei-te alma, exaltação e sentimento.
Fiz de um bloco de pedra uma criatura.

Hoje, ambos à mercê de sorte avessa,
Se para te esquecer luto e me esforço,
Manda-me o coração que não te esqueça.

Padecemos idêntico suplício:
Tu - corroída de pena e de remorso,
Eu - com vergonha do meu sacrifício.


Olegário Mariano

terça-feira, 12 de abril de 2011

A alegria de viver

Two Girls (Summer Hats), by Pierre-Auguste Renoir - 1893

Para a alegria de viver nada nos falta:
Sol, natureza clara e sinos a tocar,
Nuvens imateriais na montanha mais alta,
Ondas desenrolando a planura do mar;

O céu tranqüilo e azul que a madrugada esmalta,
O alvoroço de amor de ninhos soltos no ar.
E a água que da montanha entre begônias salta
E, em cambiantes de luz, forma um riacho a cantar.

O vento que sussurra, o silêncio que espreita,
Vôos de pombas numa apoteose de penas,
Tudo em torno de nós é tão puro e tão bom,

Que a criatura feliz, em divina colheita,
Enche as mãos sem querer… (como as mãos são pequenas!)
De perfume, de sol, de cor, de luz, de som.

Olegário Mariano

sexta-feira, 16 de julho de 2010

A boemia triste



Éramos três em torno à mesa. Três que a vida,
Na sua trama de ilusões urdida,
Juntou no mesmo afeto e na mesma viuvez...
Um músico, um pintor, e um poeta. Éramos três...

O primeiro falou :- Veio da melodia
De um Noturno, a mulher que me fez triste assim.
Amei-a como se ama a fantasia
E ela sendo mulher fugiu de mim...
Hoje minha alma é um piano adormecido
Que mão nenhuma acordará talvez...
É por isso que vivo incompreendido
E sou mais desgraçado que vocês...

Disse o segundo: -"Meu amigo, a sorte não sei dos dois
para qual foi pior
À mim levou-me à morte, o que eu tinha na vida de melhor
A força, a Graça, o Espírito, a Beleza
A estátua humana olímpica e pagã
Espelho, natural da Natureza
Nota da flauta mágica de Pan
Morreu com ela a Vida, a Luz, a Cor
Manhã de sol e tarde de ametista
Todo o delírio de um impressionista.
A paleta e a esperança de um pintor.

Fez-se um grande silêncio em torno à mesa,
Silêncio de saudade e de tristeza...
O terceiro baixou os olhos devagar
Disse um nome baixinho e não pôde falar...

Olegário Mariano

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Último raio de sol

Per Adolf (Pelle) Swedlund

Vem baixando o crepúsculo de leve...
Eu bem o sinto na paisagem fria
E sobre os meus cabelos em que a neve
Envolve a noite que se prenuncia.

A mão já se emociona quando escreve,
Os olhos baixam porque morre o dia.
Todas as vozes se calaram... . Breve
Será mais triste a vida e mais vazia.

E’ a hora em que oscila a chama da esperança.
Adoro-a de mãos-postas, hora mansa,
De calma, de renuncia, de perdão.

Mas na tarde que rola num desmaio,
Hás de ficar comigo, último raio,
Para aquecer-me a sombra pelo chão...



Olegário Mariano

terça-feira, 7 de julho de 2009

O enamorado das rosas

emile vernon

Toda manhã, ao sol, cabelo ao vento,
Ouvindo a água da fonte que murmura,
Rego as minhas roseiras com ternura,
Que água lhes dando, dou-lhes força e alento.

Cada um tem um suave movimento
Quando a chamar minha atenção procura
E mal desabrochada na espessura,
Manda-me um gesto de agradecimento.

Se cultivei amores às mancheias,
Culpa não cabe às minhas mãos piedosas
Que eles passassem para mãos alheias.

Hoje, esquecendo ingratidões mesquinhas,
Alimento a ilusão de que essas rosas,
Ao menos essas rosas, sejam minhas.


Olegário Mariano