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domingo, 21 de janeiro de 2024


 Primeiro a tua língua molha o meu

coração, num vagar de fera. Estendo

aurículas e ventrículos sobre a mesa, entre

os copos que desaparecem. Não há mais

ninguém no bar cheio de gente. Abres-me agora os

pulmões, um para cada lado, e sopras. Respiras-

-me. O laser das tuas palavras rasga-me o lobo

frontal do cérebro. A tua boca abre-se e fecha-se,

fecha-se e abre-se, avançando

por dentro da minha cabeça. As minhas cidades

ruem como rios, correndo para o fundo dos teus olhos.

O tempo estilhaça-se no fogo

preso das nossas retinas. O empregado do bar

retira da mesa o nosso passado e arruma-o na vitrina,

ao lado dos exércitos de chumbo.

Entramos um no outro,

abrindo e fechando as pernas

das palavras, estremecendo no suor dos

olhos abraçados, fazendo sexo

com a lava incandescente dessa revolução

imprevista a que damos o nome de amor.


Inês Pedrosa 

sexta-feira, 7 de março de 2014

Sexo oral

Linda Bergkvist


Primeiro a tua língua molha o meu
coração, num vagar de fera. Estendo
aurículas e ventrículos sobre a mesa, entre
os copos, que desaparecem. Não há mais
ninguém no bar cheio de gente. Abres-me agora
                                                           [os
pulmões, um para cada lado, e sopras. Respiras-
-me. O laser das tuas palavras rasga-me o lobo
frontal do cérebro. A tua boca abre-se e fecha-se,
fecha-se e abre-se, avançando
por dentro da minha cabeça. As minhas cidades
ruem como rios, correndo para o fundo dos teus
                                                            [olhos.
O tempo estilhaça-se no fogo
preso das nossas retinas. O empregado do bar
retira da mesa o nosso passado e arruma-o na
                                                            [vitrine,
ao lado dos exércitos de chumbo.
Entramos um no outro, abrindo e fechando as pernas
das palavras, estremecendo no suor dos
olhos abraçados, fazendo sexo
com a lava incandescente dessa revolução
imprevista a que damos o nome de amor.


Inês Pedrosa

domingo, 6 de janeiro de 2013

Inês Pedrosa, Fazes-me falta





 Ninguém te recorda como eu. Os teus amigos definem-te como uma pessoa fria, determinada, sempre mais pronta para a crítica do que para o elogio. E muito preocupada com a imagem.
Põem-te na boca morta frases que me parecem impossíveis e depois suspiram, apiedados: No fundo, era uma pessoa frágil.
Perdeu os pais tão cedo, era de esperar. Resumida a três postais velhos, ficas mais fácil de arquivar A Luísa, que entrou para o Departamento por recomendação tua, agora conta a quem a quer ouvir que se lembra muito bem da tua chegada à Universidade. E ninguém a desmente. O festim da tua carne apodrecida está a tornar-me misantropo. Antes o meu clube de velhos snobs; os estetas, ao menos, respeitam o silêncio das estátuas.
Ninguém sabe falar de como tu fumavas, com o cigarro entre o terceiro e o quarto dedo da mão esquerda. Ninguém é capaz de descrever a curva dos teus dedos, duendes em movimento de marioneta. Ensinaram-te a falar sem as mãos; nos debates televisivos algemavas os duendes a uma caneta. Eu ficava a olhar para eles, ansiosos por saltar sobre as tuas palavras, para que elas dançassem, corpos transparentes inebriados de sonhos. Essas mãos omitidas aplanavam-te o discurso, mas creio que nunca tive tempo de to dizer.


Inês Pedrosa, Fazes-me falta

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012



 "Não eras uma boa professora, posso agora dizer-te; não contemplavas a lentidão do raciocínio alheio, a modorra mental em que a maioria dos alunos se habituara a viver. Fazias tremendos saltos epistemológicos e quem não te entendesse ficava riscado. Eras de uma agilidade mental sem complacência.
Confesso que muitas vezes eu próprio não te entendia, mas entendia pelo menos que não valia a pena dizer-te. Nem tu serias capaz de explicar esses saltos; voavas sobre as matérias como um pardal atrevido, numa ambição de águia absoluta. Sim, eras um pardal convencido de ser águia. Não te zangues. Todos nós saltamos de galho em galho como pardais, poucos ousam o voo picado das águias. Faz-me falta essa tua ousadia, no deserto da noite que agora atravesso. Fazes-me falta. Sou professor de mentirosos amadores, não posso mentir-te."


Inês Pedrosa, Fazes-me falta

domingo, 23 de dezembro de 2012

MaXu


 A amiga com quem fui feliz chega a casa, despe o traje de seduzir, dobra-o cuidadosamente. veste o fato de treino, liga a televisão e pedala na bicicleta de ginástica durante meia hora. Tantas vezes lhe pedi que comprasse uma bicicleta a sério e fosse pedalar no jardim. Ou que tentasse fechar as portas de mansinho, em vez de bater com elas e de me acordar sem querer. Ou que não cantarolasse enquanto eu ouvia as notícias. Ria-se, insistia. Creio que julgava que esses pormenores lhe conferiam um valor distintivo. Ou talvez a ira que estes hábitos me causavam fosse para ela um despertar de sensualidade. Sempre que a minha irritação atingia o rubro, ela desatava a rir, e o riso suavizava-me. Nada do que eu fizesse ou dissesse podia afastá-la de mim - era essa a sua força, uma força maligna que me instigava os limites.
Não duramos um mês de solidão. Em tribo, a minha vontade de esventrar aquele amor inoxidável dormia num casulo sem tempo.
Acreditei que na amizade encontraria o sabor mítico da correspondência absoluta, a felicidade sincrônica com que o amor apenas brinca. Mas também a amizade se mostrou vulnerável ao tédio e à decepção. Tudo o que tocamos se desfazDepois fica-nos o vício da decomposição, o perfume intoxicante das coisas mortas. Pode-se dormir no ombro de alguém uma vida inteira e morar noutros corpos, que nunca se tocaram. O sonho.


Inês Pedrosa, Fazes-me falta

sábado, 6 de outubro de 2012

Brita Seifert


46. Já não vingarei ninguém - as curvas do Tempo esgotaram-se no minuto em que gerei essa criança fora do sítio. Todas as crianças nascem fora do sítio, provavelmente.
Jesus provava-me também isso - o seu pai adotivo, doce carpinteiro da mansidão, pôs mais clemência no amor que lhe deu do que o pai autêntico, que era Deus.
Não serão Deus todos os pais? Os tirânicos, os indiferentes, os obsessivos, arrastando-nos através de cordas de sangue, culpa, remorso. Um Deus que matamos quando lhe cumprimos os sonhos. Um Deus que assassinamos devagar quando lhe realizamos os pesadelos.
No vermelho ardente dos quinze anos, a idade em que os pais se renegam e se escolhem, eu já não tinha pais para escolher - apenas a evidência rumorosa de um par de fantasmas na penumbra do corpo.
Tu foste talvez o pai que eu escolhi, o meu amor em cruz - Pai, Filho, Espírito Santo. Não te amei mais nem menos por te ter escolhido tarde, o coração domesticado à força de sonhos interrompidos. Todas as noites da vida que contigo inventei fui rezando para que um anjo te ateasse a alma, um anjo parecido - oh, vaidade do amor - com o puro auge de mim.
Nessa curva do Tempo em que já não estou há uma criança que me devora devagar. É o amor absoluto, dizem nos livros, não importa o sexo. Então porque o sinto como um réptil que me esmaga corpo e vontade? Então porque me faz chorar o cheiro da terra molhada e a semente da tristeza me devora os ossos e me estala a pele? A criança nasce e tu apareces com um ramo de rosas brancas na mão.
- Posso amar o teu filho?
- No amor não se pede licença. Mas que sabes tu do amor? Se soubesses, limpavas os pés à entrada e já não saías. És um valdevinos.
- O teu filho também é um valdevinos. Tem boca de morango esborrachado, como o pai, e isto sem sequer saber beijar. E os mesmos olhos de carneiro sonso, em matadouro perpétuo. Vai-te dar que fazer. E não te vai amar melhor do que eu.
- O amor só piora com a reprodução. É como a pintura. E não é das boas cores que se fazem os bons pintores. Tu abandonaste-me. Eras a minha família e abandonaste-me.
- Não, eu não era a tua família porque não te cobro juros nem partilhas. E porque voltei, e estamos vivos. As famílias só marcam encontro nos cemitérios. Eu sou a tua escolha, a vitória intermitente da tua liberdade sobre o campo magnético do teu corpo. O teu amigo, se é que ainda entendes a palavra.
- Então muda a fralda ao meu filho, que eu ainda trago as dores de o ter.
E o meu filho pára de chorar quando lhe pegas ao colo e lhe beijas a testa. E o meu filho beija-te a testa. onze curvas do tempo depois, quando tu morres noutra cama deste mesmo hospital onde não estive. Mas a alteração das curvas do Tempo fará com que os teus dedos morram entre as mãos da Teresa, com as unhas pintadas de azul.
A Teresa aperta agora os teus dedos como os apertará nesse futuro imediato que ainda parece tão distante de ti. Um avião cruza o céu do anoitecer, sobre a cidade iluminada. como cruzará nesse instante em que respiras pela última vez, com os pulmões esmagados por um autocarro mortífero que não te buscava a ti, animado com essa imagem de mim que te sorri da cabeceira. Sei que estarei aqui, meu querido, com uma réstia de espessura para te servir de Deus, para te dizer que vamos poder recomeçar do zero. Passar a limpo os cadernos esborratados da nossa amizade.
A visão dessa curva do Tempo fez voar para longe o pássaro do ciúme. Fica-me um frio desse desertar de asas - como se, levando-me o ciúme, me levasse também um pedaço quente da carne que eu já não tinha. Conversas longamente com a Teresa, os dois deitados na madeira do chão, as cortinas esvoaçando, escurecendo com a noite que entra pela janela aberta. Falam da falta que eu vos faço e não escutam a música das minhas lágrimas, ligeira, imaterial, música que se esquece dentro do que se vai sendo, como a das canções de amor que me amaciavam a vida.

47. Tu, a Teresa, o Pascoal - agora inseparáveis, arrumando-me de gargalhada em gargalhada. Falam muito de mim.
Existo cada vez menos fora das vossas imaginações contaminadas. Falam muito de mim mas não me recordam a voz.
Quando dizem noite, é a vossa noite que ressoa no calor povoado que desenharam sobre a minha morte. Já não te custa entrar na casa deserta, fechar a porta. Sorris para a minha fotografia, memória transfigurada do que deixei por ser. És capaz de adormecer sem te lembrares da campa onde o meu corpo apodrece.
Vives outra vez na imortalidade leviana dos mortais.
Fico em tua casa à tua espera, mas não me vês - mãe vencida pelo cansaço no seu cadeirão de espia. Estou morta, mas ainda não me habituei a essa ideia. De tanto pintar cabarés celestes para crianças desvalidas - sim, a mãe está no céu a dançar com o avô, e agora jogam às cartas - perdi o caminho do paraíso épico, monótono, dos vitrais.
Peço a Deus que me prolongue este estágio terrestre, que me contrate para teu anjo particular até que tu subas a este limbo de nuvens e me ensines o caminho da sala de jogos derradeira. Ou que negocie com os Deuses dos indianos e me volte a poisar sobre a terra como teu cão. Ou gato. Ou pelo menos canário. A gratidão de uma forma de vida onde me fossem poupados os uivos de dor dos que morrem. Suponho que Deus andará assoberbado de urgências. Entranho-me nas tuas paredes.
Digo: claridade, e tu repetes, no meio do sonho: claridade.
Digo: sangue do meu sopro, e tu repetes: sangue do meu sopro.
Digo: estou aqui e tu devolves-me: ausência.

Inês pedrosa, Fazes-me falta

sábado, 15 de setembro de 2012

Inês Pedrosa, Fazes-me falta



38. Desarrumar-te os livros. Queria ter o poder de um sopro para que pelo menos o volume de cima ficasse desalinhado. Nem na casa de férias que chegamos a partilhar se admitia um milímetro de confusão. Eu tinha a mania da organização interna - alfabética, temática - tu, da harmonia externa: as lombadas tinham que compor uma sequência cromática, o caos uma aparência de serenidade.
A nossa casa de férias: branca, rematada a azul. Com um jardim selvagem que tu domaste à força - a relva insistia em não pegar, a palmeira em não crescer. No interior das janelas, bancos de pedra através dos quais se podia ficar a olhar para o mar dias inteiros. Desesperavas com a humidade, o cheiro a bafio na roupa, as manchas cinzentas nas paredes, o bolor nos sapatos. Eu gostava de vestir a roupa assim, com um toque molhado e um odor a velho, sentia-me em paz. Fora do mundo urbano que foi, é ainda, a minha droga.
(...)
As cidades, sinto-as febris como adolescentes, dançando sobre as pistas da sua própria luz, consumidas por uma inquietação difusa, cruéis, livres, impuras, amantes absolutas do novo, com toda a sua sujidade inaugural. Sítios de queda e construção, leviandade e levitação, onde os acontecimentos se precipitam em cadeia e a verdade pequena de cada um existe verdadeiramente, alterando a composição química do todo a cada passo.
Dizias às vezes que as cidades cansam, de desalmadas. Meu querido, a poluição urbana é feita do lastro azul das almas que gravitam sobre elas, almas antigas e futuras que lutam para se infiltrar na carne do presente, para fazer da memória uma casa em obras.
Almas esgarçadas por aquilo que não conseguiram atingir - as cidades dão-nos a medida constante do inatingível, por isso não conseguimos afastar-nos delas.
Há sempre um lampejo de morte numa qualquer esquina das cidades que amamos, os passos de alguém que já não existe, mas insiste em caminhar à nossa frente, confundindo o ruído dos seus passos com o ruído dos passos dos que ainda estão para nascer. Falta o silêncio, a resignação da morte nas cidades - eu não me resigno, não consigo dormir em paz, desistir desse turbilhão urbano que tem a marca da minha respiração ofegante.
Os cravos vermelhos sangram no branco das tuas paredes.
Sempre preferiste rosas, ou então camélias. Troçavas da minha fúria pelos cravos e agora aí estás, rodeado deles, com a camisola verde água que te dei e nunca estreaste porque a achavas berrante. Estás dentro da camisola verde água, deitado nos tacos de madeira clara da tua casa lisa. Os livros em volta, exércitos rumorejantes, alinhados. Os cravos, o verde, a canção de Gainsbourg - "como podes gostar tanto de um homem que se lava tão pouco e se barbeia tão mal", perguntavas-me, - foi preciso que eu morresse para que entrasse na tua casa.
Dieu est un, fumeur d'havanes. Comme toi.

Inês Pedrosa, Fazes-me falta

domingo, 2 de setembro de 2012

Inês Pedrosa, Fazes-me falta





Afogo-me nos livros que me deixaste, nos muitos livros que amei por causa de ti. Livros radiantes onde outros tinham escrito os teus sonhos e pesadelos, as tuas inquietações. Sublinho-Lhes as poucas frases que tinham ficado por sublinhar. Mas nenhuma delas me consola, agora apenas literatura, na mortal arrumação da História. Devo-te várias vidas, as vidas múltiplas que vêm nos livros, a minha vida em rede, mapa de atalhos nervosos que através dos livros ganhou sentido. Devo-te a minha juventude recuperada em concertos de rock ou em noites brasileiras no Coliseu. Devo-te o conhecimento da dança que me aqueceu o corpo. Devo-te sobretudo a ilusão do desejo nos olhos das mulheres que atraías para mim - ilusão redentora para os homens da minha geração, criados na obrigação religiosa do amor. Tu, a católica militante, ensinaste-me que não é pecado procurar a pura partilha do desejo - ensinaste-me a ver pureza em tudo ao meu redor. Apareces-me agora em sonhos, chorando, pedindo-me desculpa da tese que me copiaste. Quero responder-te, no sonho, mas a voz não sai. E há muita gente, perco-te. Estamos numa festa enorme, numa montanha verde semeada de ruínas onde surgem todos os nossos amigos e conhecidos. Quero dizer-te só isto: se por uma vez pude melhorar a orquestração da tua melodia, quem tem de te ficar grato sou eu.


Inês Pedrosa, Fazes-me falta

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Inês Pedrosa, Fazes-me Falta

Aranta Sestayo


36. Por que te escolho, neste sussurro sem retorno? Por que te quero no meu sono, se iluminaste sobretudo o que não fui?
Morreste-me antes que eu morresse - e não consigo morrer sem ti! Nunca consegui. Todos os dias da minha vida estive contigo como se todas as amizades anteriores fossem só o caminho para chegar a ti. Como se todas as amizades posteriores fossem apenas a ausência de ti. Mais delicadas, mais ritmadas, mais claras - menos tu.
Arrumei os amores, é a primeira regra da vida - saber arquivá-los, entendê-los, contá-los, esquecê-los. Mas ninguém nos diz como se sobrevive ao murchar de um sentimento que não murcha. A amizade só se perde por traição - como a pátria. Num campo de batalha, num terreno de operações. Não há explicações para o desaparecimento do desejo, última e única lição do mais extraordinário amor. Mas quando o amor nasce protegido da erosão do corpo, apenas perfume, contorno, coreografado em redor dos arco-íris dessa animada esperança a que chamamos alma - por que se esfuma? Como é que, de um dia para o outro, a tua voz deixou de me procurar, e eu deixei que a minha vida dispensasse o espelho da tua?
Passávamos horas ao telefone. A repetir ao pormenor todas as novidades do dia. A especular sobre as causas ocultas de cada gesto ou palavra dos nossos amantes. A projetar obras grandiosas que nos elevariam ao Olimpo da inteligência. A anotar os pormenores maus das pessoas boas. A esfaquear metodicamente as pessoas más. A fazer de conta que éramos os melhores e os piores do mundo. A escutar em estereofonia a faixa mais bonita do mais recente disco de cada um. Por isso nunca fui capaz de perceber as distinções entre conversas de homem e conversas de mulher. Tu eras tão mulher como eu, eu era tão homem como tu - e cada um de nós tinha sexo, claro, tudo entre nós era sexo, sexo sublime, sem ranger de molas, desgaste de corpos, sem o melancólico ritual do frenesim e do repouso que reduz a paixão a cinzas.
Fartaste-te do meu corpo, mesmo abstrato? Em que dia me abandonaste? Em que palavra a minha voz se partiu? Que sombra se abriu por dentro dos teus olhos para despedaçar a minha imagem? Nos meus pesadelos, um abutre rondava o teu cérebro e comia-te vivo. Rir-te-ias, se te contasse, havias de dizer, como das outras vezes: "Contigo os psis não enriqueciam. A tua alma parece, não te ofendas, um filme pornô. Está lá tudo escancarado, com gemidos e chicotes." Nunca soube viver sem ti - encontrava-te em todos os sonhos, à beira de uma explicação que nunca chegava mas que eu sabia existir. Um dia, no nosso próximo almoço de conveniência, tu dirias: "Zanguei-me quando tu fizeste isto e disseste aquilo." E eu dir-te-ia que foi sem querer, e voltaríamos a ser o nó intacto de antigamente.
Foi sem querer. Se deixei de te comover, de te divertir, de te inspirar, meu querido, foi sem querer. Se perdi a capacidade de te ferir e fazer sangrar, foi sem querer. Foi sem querer que te copiei, para não te perder, para não perceberes que eu se calhar não era capaz. Foi sem querer que se calhar não fui mesmo capaz - preguiçosa, timorata, escondida na gruta da perfeição impossível. Foi sem querer que morri, em vez de ter engolido uns comprimidos e pegado num telefone para te dizer que me estava a matar.
Nunca soube ser mulher para essas coisas. Sempre pertenci ao clube das fortes. (...)
É verdade que nem tu me mereceste tanto - continuei a falar contigo, na minha sala silenciosa, lágrima a lágrima, até a morte decidiu vir buscar-me. Mas não te preocupes: foi apenas uma coincidência, e foram necessários quase dois anos de conversas assim, num silêncio bêbado de risos antigos, para que a coincidência acontecesse. E foi sem querer. Se eu imaginasse que continuaria por dentro da morte a chorar por ti, ter-te-ia procurado em vida para te matar.
Escrevi-te cartas - as mais sinceras não cheguei a enviar-te, porque não eram tão geniais como eu queria que tu me visses. Às outras, literariamente inatacáveis, não respondeste. O departamento de salvação era comigo; tu não eras tão arrogante. Amavas por prazer, que só o prazer entrega a arte - demência que o amor é. Eu amava-te com narcisismo e vontade de poder. Só davas o que eu te pedia; nunca te ocorreria correr de extintor na mão para me salvar de fogos que eu não tivesse detectado ainda.
Eu queria salvar o mundo. Queria também que me vissem a salvar o mundo, sim. Tinha ideias muito precisas sobre como o fazer. Eu saberia exatamente como estimular o funcionário público para que desse o seu melhor, como acabar com os privilégios dos ricos e distribuir os excedentes do mundo pelos pobres, como animar os jovens e fazer descer a curva da criminalidade. Tudo era uma questão de ideias simples, investimento maciço na ingenuidade humana, na qual já ninguém parecia acreditar.
Sabia também exatamente como acabar com a tristeza ou solidão de qualquer dos meus amigos. A minha casa era um hotel particular de grande movimento. Às vezes magoava-me ligeiramente ouvir, às seis da manhã, depois de uma noite inteira a requentar corações:
- Tu não és capaz de viver sozinha - num tom insidiosamente paternalista. Eu a aguentar o sorriso com uma grua imaginária, pensando nos meus livros, nos testes para corrigir, no estado em que chegaria à reunião da manhã seguinte, e afinal, aquele coração maltratado estava ali a fazer-me um favor. A beber o meu whisky, o meu sono, a parte mais generosa do meu coração, e afinal só porque eu não era capaz de viver sozinha.
É verdade que não sou capaz de morrer sozinha. Ninguém é.
Mas morre-se melhor quando não ouvimos a morte a bater à porta, quando ela nos irrompe pela casa como uma visita inesperada.
Sempre gostei de visitas inesperadas - nisso éramos completamente diferentes. Sonhei a vida inteira com uma festa-surpresa que nunca me fizeram - a páginas tantas, tu e todos os outros começaram a dizer-me que já não era possível fazerem-me a tal festa, porque eu vivia em ansiedade à espera dela. "Já não seria surpresa, percebes?" Não, nunca percebi. O Natal não deixava de ser uma surpresa só porque eu já sabia que ele ia chegar. Vivia a sonhar com esse dia em que um de vocês me atrairia a um restaurante à beira mar onde estariam todos os meus amigos e amores, rodeados de rosas brancas e balões coloridos, com um piano e a guitarra do Pascoal, para me receberem em apoteose ao som de "A Sombra das Nuvens no Mar".
Deus não tem particular queda para a música - afinou alguns pássaros, certos tipos de chuva e as ondas do mar, mas deixou aos homens o sublime do som. Sempre tive a impressão de que Deus era mulher - e a Sua falta de talento para a música, se acreditarmos nas análises estatísticas sobre o sexo dos grandes compositores, prova-o. Outra prova é esta Sua compaixão para com as saudades que tenho de ti - uma forma de malícia, claro, mas nem por isso menos compassiva. Faz-me falta a música para dançar ao teu lado neste noante em que vogo. Tive a minha festa-surpresa, sim, apareceram-me todos, carregados de flores, ao lado do caixão. Mas só tu cantas encostado ao gelo da minha boca azul.


Inês Pedrosa, Fazes-me Falta

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

 Wilhelm August Lebrecht Amberg

2. Pensaste em mim enquanto morrias? Dava muito dinheiro por esta resposta - desde que fosse a verdade. Porque há a verdade - não é tudo tão relativo como tu querias ensinar-me.
Há a verdade, e era isso o que nos unia; que houvesse a verdade, navio absoluto. Alguns outros concordariam connosco, mas à distância. A distância dos risos e dos copos que se tornou a nova intimidade. Para ti, a verdade não era inatingível - estarias já comigo naquela manhã de infância em que quis nadar até ao navio do horizonte? Apanharam-me antes de lá chegar, com um barco a remos e um par de bofetadas - o menino é doido?
Vive-se melhor a inventar a verdade todos os dias, dizem-me.
Faz de conta que não morres. Faz lá. Nós os dois queríamos inventar tudo menos a verdade. Mesmo que ela fosse nossa inimiga. Sobretudo quando ela era nossa inimiga. Queríamos matar a verdade má e espalhar a verdade boa - o menino é doido?
Como é que eu mato a tua morte? Em sonhos, vens-me buscar, levas-me contigo por um corredor longo e frio. Porque há tantos corredores, e tão escuros, nos sonhos? Mas no fim, olhas para mim e já não és tu. Uma caveira com restos de carne nos olhos ri-se para mim e faz nha-nha-nha, como as crianças - bem feita, bem feita, enganei-te. Acordo e tenho dificuldade em separar-te da caveira. Vejo-te ossos, nervos e pele enegrecendo nos retratos, um sorriso cáustico flutuando no silêncio do quarto. E tudo cheira a velhice, à podridão instantânea em que te tornaste. Não querias que te visse morta; punes-me por isso?
A busca da verdade torna-nos castigadores. Tropecei tanto nas tuas pequenas mentiras. Urtigavam-me tanto. Mentia-te imediatamente, com um pouco mais de veemência, para tu veres.
Mentiras. Tornavas tua uma graça que era minha, e essa anedota voltava para mim, aumentada, aviltada pelos pontos de humor que tinhas ganho entretanto no coração de alguém, à minha custa. Quando nos conhecemos não eras assim. Citavas-me.
Punhas aspas. O teu encanto era essa - tão rara - cintilação de aspas. Dizias: "Fulano disse-me, Cicrano contou-me".
Sublinhavas a inteligência e a beleza das palavras dos outros.
Na passagem à política foste largando esse rigor, como uma pele incómoda. Os nomes eclipsaram-se, varridos para debaixo do solene tapete das fontes seguras. Depois, à medida que foste ganhando confiança, aprendeste a dispensar inclusivamente esse recurso às fontes. Quantas frases saídas da minha boca para o teu ouvido, desenhadas de propósito para te fazer rir, regressaram a mim. Nos jornais, como citações da semana saídas do teu nobre cérebro.
Repara que eu não ponho em dúvida a nobreza e vastidão do teu pensar Eras uma tese de doutoramento existencial em movimento. Alguma vez te disse isto? Pensavas tanto e tão bem que intercalavas sempre as citações nos sítios certos. Não precisavas de as engolir e vomitar como pérolas próprias.
Tornaste-te ostra, sim; molusco, ou menos pessoa, se preferires.
A princípio eu ofendia-me, replicava - fazia teatro. E isso era a verdade. Mas desisti; tu não fazias teatro nenhum.
- Que importância é que isso tem? Não me vais agora fazer uma cena de ciúmes por uma história que eu me esqueci que era tua.
A Lia era assim. O Partido era assim: um clube onde ganha o que mais depressa conseguir caçar e comer as qualidades dos outros. E isso, explicavas-me, não era mentir Entraste no mundo especializado onde mentir era diferente de omitir. Muito menos grave. E a traição só existia quando muito repetida, nos mesmos lugares, com as mesmas pessoas. O resto - inconfidências, sexo, intrigas, queixas - eram apenas escapadelas humanas.
O teu código moral burocratizou-se; havia alíneas para todas as infracções. E mesmo as maiores passaram a ter pouco valor.
Aprendeste que é mínima a distância - um deslize e um crime.
Que todos podemos, num dado instante, escorregar para o negro.
Uma bebida, duas, um bêbado, um assassino; um charro, um cheiro de coca, uma dependência, um ladrão. A vida tornava-se assim.
Incontida. Demasiado simples e complexa. Música em crescendo, ensurdecedora. Sem qualquer verdade de partida.
- Que importância é que isso tem? Pior é quando eles pegam num projecto meu e proclamam que é deles. E eu já me habituei: são homens, são muitos, sempre governaram assim. Se a guerra se faz com mísseis, não adianta cansar-me a atirar-lhes pedras.
Tinhas resposta para tudo, raios te partam. No tempo em que estudavas História, a tua especialidade eram as perguntas.
Interrogavas o passado com veemência e método: porque é que isto foi assim? Porque é que as outras possibilidades não puderam ser? Onde é que está a verdade, para além dos factos?
Riam-se de ti, quando falavas da verdade. Repetiam-te que a verdade não existia - porque essa era a verdade do pedaço de tempo que nos era dado viver. Mas tu não te instalavas no teu tempo. E preocupavas-te continuamente em não te instalares num outro qualquer tempo que te tornasse anacrónica.
- Quero lá saber que me achem caduca. Mas rala-me pensar que posso não ter mais do que ideias-de-reacção. Não nos podemos deixar levar para o campo do inimigo, meu querido.
O campo do inimigo. Sabias desenhá-lo com a nitidez de um relvado de futebol. Gostavas de futebol porque era parecido com a verdade. Mesmo com árbitros comprados. Ou notas correndo em rios gordurosos debaixo das mesas de fiscais, empresários, advogados. Mesmo quando se tornou um negócio. Os maus e os bons, os puros e os impuros; sim, o correr das notas tornava as distinções mais árduas. Mas o sol sobre o relvado decidia tudo - as pernas dos homens correndo atrás da bola da verdade.
- Vê-se tão bem quem joga com tudo o que é e quem joga só com o corpo, dizias tu. Porque é que a vida não é transparente como um jogo de futebol?

Inês Pedrosa, Fazes-me falta

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Fazes-me falta

 


1. Estou sozinho. Sozinho com o coração em bocados espalhados pelas tuas imagens. Já não posso oferecer-te o meu coração numa salva de prata. Alguma vez o quis? Alguma vez o quiseste? Dava-me agora jeito um deus qualquer para moço de recados. Um deus que te afagasse os cabelos e me recordasse como eram macios. Um deus que me libertasse desta imagem fixa do teu corpo encaixotado. Logo tu, que tantas vezes te rias daquilo a que chamavas o meu encaixotamento compulsivo:
- Um dia chego cá e encontro-te no meio dessa papelada, morto de cansaço, pronto a encaixotar. Olha, eu é que não te empacoto - ganhei medo a mortos.
Sempre te disse que o medo atrai a desgraça - podes rir-te.
Ri agora tudo que ninguém te ouve. Isso; se o teu Deus existe solta uma gargalhada forte para que eu acredite. Mas não, é melhor que não te incomodes: essa gargalhada póstuma destoaria do meu belo arquivo de gargalhadas tuas. Estragava-lhe a estética, entendes?
E a estética, para falarmos com franqueza, nunca foi o teu forte. Não suportavas as meias-tintas. Odiavas a renúncia engatilhada sobre os paradoxos da vida. Não podias ter morrido de uma coisa menos esdrúxula, por exemplo? Não podias aguardar a dignidade das primeiras rugas? Que tendência para o kitsch, minha querida - mas Deus sai-se sempre em kitsch, não é verdade?
Descansa em paz. Fizeste uma morta bonita - mais bonita e serena do que alguma vez foste, cachopa. Compuseram-te a imagem. Disso vivem as figuras públicas, mesmo na morte. Viva a imagem. Talvez fosse melhor não te ter visto, não ter beijado a tua testa. Agarrei-me a essa derradeira nota do teu calor. Ficaste-me com um travo a incenso e flores mortas. O cheiro do amor vedado que abandonáramos pela paisagem na nossa pré-história. Chamo-lhe amor para simplificar. Há palavras assim, que se dizem como calmantes. Palavras usadas em série para nos impedir de pensar. O que existia, existe, entre nós, é uma ciência do desaparecimento. Comecei a desaparecer no dia em que os meus olhos se afundaram nos teus. Agora que os teus olhos se fecharam sei que não voltarás a devolver-me os meus.
Dentro da História onde já não estou, da História que percorri como um carrossel, da História que nos serve sempre de morada provisória, as pessoas perguntam. Que sentido faz a morte de uma rapariga de 37 anos, catano, roída pela própria posteridade? Tinhas deixado de fumar para não morreres de cancro. Não era a morte que te incomodava, dizias, mas o vagar dela, a tortura da doença. A História. Creio que nunca te vi doente - a não ser de amor. Cultivavas o vício da paixão com um método implacável. Corrias em contra-relógio. Procuravas a imobilidade de um tempo-pedra que já era o teu. O nosso - mas como podíamos dizê-lo, se tínhamos de continuar vivos? Nos breves dias em que vivias desapaixonada, tornavas-te impossível. Nada te entusiasmava.
Depois iniciaste uma carreira de Poder e perdeste esse gosto profundo pelo romance extático. Entraste na narrativa, no burburinho tranquilizante das intrigas. Até a tua carroçaria se modificou; das últimas vezes que te vi, usavas uns saia-e-casaco pavorosos, umas coisas de mau corte e mau tecido a imitar Armani, nuns cinzentos berrantes. Disse-te: "Ena!
Disfarçada de executiva!" e tu explicaste que se tratava apenas de uma farda de trabalho. Que aos fins-de-semana mantinhas o estilo de sempre. Mas o estilo é uma maneira de ser, não uma farda de fim-de-semana. A política retirou-te o estilo e afastou-te de mim. Os políticos não precisam de amigos, precisam de uma corte - vem nos livros. Tu foste simplesmente à tua vida e eu fui à minha. Como sabes, eu vivo por relâmpagos; contigo partilhei uma trovoada um pouco mais longa do que o habitual. Foi apenas isso. De qualquer modo, a morte espreita sobre todos os prazeres dessa cronologia a que nos agarramos para escapar ao tempo. O que somos para além do que vamos sendo? O meu além eras tu - íman da minha íntima, impessoal temporalidade. Redenção dos males que me amputaram.
Tu. Agora puro vapor do universo. Serves-me de Deus - quem diria? Serves-me no que não sei ser, e é a verdade. Olho para o mar do Guincho, para essas ondas frias e violentas em que tanto gostavas de mergulhar, e sinto-me também eu meio morto, meio frio. Feliz por estar ao teu lado outra vez. Ao lado dessa que já estava morta um bom par de anos antes de tu morreres. Fazes-me falta. Mas a vida não é mais do que essa sucessão de faltas que nos animam. A tua morte alivia-me do medo de morrer. Contigo fora de jogo, diminui o interesse da parada. E se tu morreste, também eu serei capaz de morrer, sem que as ondas nem o céu nem o silêncio se transtornem. Cair em ti, cada vez mais longe da mísera ficção de mim.

Inês Pedrosa, Fazes-me falta

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Fazes-me falta

alejandra baci


Feliz assim por teres tudo o que sou?
Feliz por perderes tudo o que sei?
Só não te dou o que não serei.
Não, a minha morte, não ta dou. (Pedro Tamen)

Não basta morrer para conhecer o sorriso de Deus — mesmo que, como foi o meu caso, se tenha vivido abismada nele uma vida inteira. Quando o pior acontecia, aquele sorriso descia às minhas trevas com um soluço de baloiço, um gingar de gonzos arrancado às cordas da infância. Eu sentava-me nele e subia, balouçando, até à luz. O pior aconteceu-me cedo, tive sorte. Deus procura primeiro os que sofrem antes do conhecimento específico da dor, talvez porque os outros sabem demasiado para poderem ser salvos.
Tu dizias que era ao contrário: que Deus nasce da ignorância própria dos sofrimentos prematuros. Mas tu, meu aluno dilecto, cedo te deixaste povoar pelo excesso do saber. Deus não sabia nada do Universo quando o criou. Imagino que se sentiria só.
Imagino que num momento impreciso essa solidão se terá tornado maior do que Ele próprio, estourando numa gigantesca flor de luz. E imagino-o, depois, tentando dar um sentido particular a cada uma das pétalas dessa luz dispersa.
Agora que saí do corpo que fui - para me tornar pólen, poeira nos teus olhos, pura imaginação de mim - imagino-o melhor ainda, ébrio de luz, lúcido, encandeado por um Lúcifer oculto e criador incrustado no seu próprio ser, em estado de paixão com a história desencadeada pela sua omnipotente solidão. E balouço no Seu sorriso outra vez, a vez definitiva porque o meu corpo está lá em baixo, num caixão, contemplado e lembrado e chorado pela última vez.
Não me levantarei da cama amanhã depois de Lhe pedir em surdina que dê um impulso maior ao balouço, que o empurre com força até que os pés me voem para fora do calor aterrado dos lençóis. Ninguém mais vai estar à minha espera, não terei de me disfarçar de desculpas, não voltarei a iludir ou desiludir ninguém. Não voltarei a morrer no corpo do único homem que me abriu no corpo a passagem secreta para a morte. Não voltarei à desilusão do renascimento. Sobretudo não voltarei a desiludir-te a ti, o descrente que me ensinou a crer melhor, o meu pequeno e velho Deus de algibeira, o meu amigo.
Despojada de corpo é-me mais fácil transformar-me no próprio balouço, na luz dançante de que ele é feito. Num murmúrio de vento peço-lhe que não me empurre tão depressa para esse lugar iluminado que é a Sua Carne, peço - Lhe que me deixe matar saudades desse mundo que deixei tão de repente. Matar saudades de ti. Ou matar-te, como fazem as crianças, para recomeçar uma outra história, no balouço quotidiano do teu sorriso.

Só o teu riso dura. Mostrei-te o mar.
Mostrei-to antes e depois de morreres. (Luís Filipe Castro Mendes)


Inês Pedrosa, Fazes-me falta

domingo, 1 de maio de 2011

só sexo


Enquanto os nossos camaradas celebravam nas ruas, nós fabricávamos o amor a partir do zero, no deslumbramento silencioso de um deus que subitamente descobrisse as coisas de que era capaz. Amávamo-nos como se o amor fosse apenas um suplente íntimo dessa revolução que nunca mais chegava. A revolução já tinha chegado, mas nós não sabíamos. Só em Junho de 1974 se lembraram de nós, fechados naquela casa clandestina. Muitas vezes, ao longo da minha vida, desejei que nos tivessem esquecido ali para sempre. Desejo ingrato, infantil. Tive uma vida boa. Consegui ser a advogada que queria ser, cobrar bem aos ricos para defender melhor os pobres. Encontrei um homem que entende o amor como partilha absoluta - nunca senti o peso do trabalho doméstico ou da educação dos filhos. Tive dois filhos que só me trouxeram alegria e serenidade, e tenho já um neto que parece um reclame sobre o brilho da vida. E tive-te, atrás do espelho, todas as manhãs da minha vida. Porque foi sempre para ti que me quis bonita, mesmo nos dias escuros. É em ti que penso, quando escolho a roupa ou escovo o cabelo, todos os dias. Na possibilidade de te encontrar, no acaso de uma esquina. Lisboa é tão grande e tão pequena - porque não havia de te encontrar? Queria ser a mesma, nesse encontro. A mesma, com a luz das rugas que me faltavam no tempo em que nos metíamos por dentro do corpo um do outro como se sozinhos fôssemos apenas pedaços de um corpo mutilado.
Adormeci todas as noites da minha vida nos teus ombros estreitos de adolescente eterno. Nunca foste bonito, mas possuías um não-sei-quê de juventude ancorada que te tornava imediatamente comovente. Usavas e abusavas desse não-sei-quê. Não acreditavas em nada, vivias num aquário de sonhos impossíveis que fazia de ti um anjo negro, abismo de lágrimas congeladas. Eras ardiloso, sorrateiro e impaciente como as crianças; cruzaste-te comigo duas vezes em reuniões de célula e pouco depois fechavam-nos juntos naquela casa clandestina. Nem sob tortura confessarias que tinhas movido os teus cordelinhos para ires viver comigo. Entre o segundo encontro e a nossa definitiva "coincidência no mesmo espaço", como diria a Madalena, perita em justificações espaciais, o teu íntimo amigo António descaíra-se, numa noite de copos. Ralhou-me por causa do meu namorado imberbe e pequeno-burguês e revelou-me que tu me achavas linda e lastimavas que eu nem sequer olhasse para ti. Esta curta e embriagada confissão em diferido mudou a minha vida. Provavelmente encomendaste-a, nunca o cheguei a saber. Quando, há meia dúzia de anos, fui ver o António ao hospital, encontrei-o tão próximo da morte que já não tive coragem de esclarecer os bastidores desta frase minúscula que mudou a minha vida inteira. Não quis que o António percebesse que era ainda para o ouvir falar de ti que precisava dele.

Depois de sairmos de casa, deixaste de me procurar. Creio que te fazias encontrado comigo, mas como eu também me fazia encontrada contigo, nunca cheguei a ter a certeza de que, de facto, me procuravas. Repetir-me-ias muitas e muitas vezes que não eras talhado para a vida conjugal."Mas nós já vivemos juntos", disse-te eu, uma vez, desesperada. Sorriste, e era um sorriso tão meigo quando sarcástico - ou pelo menos assim me lembro dele: "Só por necessidades imperiosas da revolução". De outra vez disseste-me que, na vida real, eu não aguentaria uma semana contigo. Ou talvez eu tenha inventado que tu me disseste isto. Pouco importa. Posso ter inventado tudo, menos o fulgor perfeito dos nossos corpos juntos. Uma vida inteira não basta para apagar da pele o peso magnífico desse fulgor. Só sexo, disseram-me as amigas íntimas, quando eu ainda chorava com elas a saudade do êxtase. Só sexo, fogo e palha, talvez tenham razão. Mas é disso que trata a vida, a minha vida: só sexo. Contigo. O prazer que o meu corpo conhece é o que aprendeu no teu, e foi esse que o meu corpo ensinou aos outros homens, aos vários em que tentou enganar a tua ausência, ao único que soube contornar a tua ausência para permanecer em mim.

Todas as noites me acaricio com os teus dedos, fecho os olhos e sugo os teus dedos sob o contorno dos meus e conduzo-te pelo meu corpo como tu me conduzias. Todas as noites rebolamos da cama para o chão e do chão para cima da cómoda do teu quarto e para a mesa da sala e para as lajes frias da cozinha, todas as noites percorremos abraçados a casa velha onde já não moras, a casa velha que se calhar já se desmoronou sem a nossa ajuda. Todas as noites tu entras em mim por todas as portas, a tua língua silenciosa desperta vertigens desconhecidas nas partes secretas das minhas orelhas e das minhas pernas e dos meus pés. Todas as noites sinto o castanho dos teus olhos grandes dissolvendo-se nos meus com uma felicidade quente, imensa, vejo os teus quadris estreitos de rapaz dançando sobre o redondo do meu ventre, das minhas nádegas, todas as noites os teus dentes mordem o meu pescoço no sítio exacto em que o meu corpo guardava a última fechadura, todas as noites volto a subir a esse monte dos vendavais só nosso. Só sexo, seja.

Tantas vezes te pedi: "Diz-me que me amas, diz só uma vez. Mesmo que seja mentira. Diz-me. Só para eu guardar o som da tua voz a dizer essa palavra". Tinha vinte e três anos, e tu tinhas vinte e nove. Depois dos trinta, deixei de te fazer declarações de amor. Julgava-me madura, ardilosa - pensava que bastava prescindir das palavras para não te perder. Mas não eram as minhas palavras que te perdiam. Tu eras um pintor e já não ias ser pintor. Só com o tempo foste lendo o resto, o resto dos restos que era tudo: que eu sabia que tu eras pintor. O artista do meu corpo secreto, uivante, um tecido de fios de luz que só os teus dedos acendiam, e rios, rochas, relvados amaciados pela tua língua, uma asa à medida do teu voo, uma casa em que tu moravas de todas as maneiras. Falavas pouco, quase nada, por isso me lembro tanto das tuas palavras todas: "Este apartamento já conheço, podemos passar ao outro?", perguntaste. Se eu contasse às minhas amigas que as tuas palavras eram estas, apenas estas, sussurradas com um sorriso trocista de timidez, elas fariam troça de mim. De nós. Por isso contei apenas o essencial: que tu me fazias sentir bela. Que conseguiste que eu me sentisse bela a vida inteira. De cada vez que o espelho me anunciava mais uma marca do tempo, mais uma prega na carne, eu acariciava-a com os teus dedos, sentindo o prazer que tu sentirias, ao descobrires novas rotas no mapa do meu corpo. No início, dizias-me também às vezes: "És tão nova". Não era um elogio; havia um tom de decepção ou desencontro nesse teu comentário. E eu tinha pressa de encarquilhar, de envelhecer até ficar parecida com as mulheres que amaras antes de mim. Nunca me elogiaste. Encontrávamo-nos por causa do Partido, levavas-me para tua casa, com os pretextos mais nevoentos - um debate político na televisão, o ofício que ias entregar ao Ministério -, e quando fechavas a porta começavas a beijar-me. As pálpebras, o lóbulo da orelha, a curva do pescoço ou o espaço entre os dedos. Só sexo. Nunca começavas como nos filmes. Também nunca perguntaste essas patetices deprimentes que as pessoas copiam dos filmes: "Foi bom?".

Saí do consultório e pensei que tinha de te encontrar. Não sabia como. Há pelo menos vinte anos que não tenho o teu telefone. Um dia desisti de ti. Tive medo de deixar de fazer parte do mundo, de continuar sozinha contigo, só sexo. Conheci um homem que seria indigno trair, um homem que me seduziu porque era o oposto de ti. E decidi ser feliz. Sei vagamente onde moras, ou onde moravas, há cerca de cinco anos cruzei-me com a tua mulher numa festa e percebi que ela dizia: "desde o meu divórcio". Claro que podia estar a falar do seu primeiro casamento. Mas como mudou de assunto assim que me viu, pareceu-me que só podia estar a falar de ti. Nunca fomos apresentadas, eu e a tua mulher, ou ex-mulher. Mas eu sei que ela sabe muito de mim. Os olhos da mulher de um homem que nos ama são indiscretos. Também nos olhos dela encontrei o teu amor por mim. Amor não é a palavra exacta. Amor é o que eu sinto pelos meus netos, pelos meus filhos, pelo pai deles, até pelo meu cão. Pobre cão. Se calhar vai deixar de comer quando eu morrer. Vai ficar sentado à porta, esperando por mim até à morte. Os cães não conhecem a morte, por isso podem morrer de amor. Ficam à espera até ao fim, não se deixam consolar.

Tu tens alma de cão vadio, sabes amar sem desconsolo. Se fosses morrer daqui a um mês ou dois, como eu, saberias fazer-te encontrado comigo? Talvez soubesses. Da última vez que te vi - há nove anos, no cinema - aproximei-me para te pedir um cigarro e disse-te, mesmo antes de ti: "Que disparate. Deixaste de fumar há uma semana, bem sei, desculpa". Como é que sabes?" - perguntaste-me, atónito. Sorri, encolhi os ombros, não cheguei a responder-te. Como é que eu sabia? - Ora, como sei tudo de ti. Através dos sonhos. Agora sento-me no café em frente do Ministério, à espera que tu saias e venhas ter comigo. O Ministério mudou de nome, mas de certeza que tu ainda lá trabalhas. Sempre foste um homem de hábitos e nunca cultivaste grandes ambições. Peço uma bica e começo a fazer contas. Oxalá a tua ambição tenha sido pelo menos suficiente para te afastar da pré-reforma. Também não te imagino em casa, a fazer palavras cruzadas o dia inteiro. Do Partido desististe muito antes da moda da renovação.

Cinco e trinta e cinco. Lá vens tu, de pasta na mão, com o mesmo andar sorrateiro, falsamente tímido, de rapaz antigo. Entras no café. Levanto-me. Os teus olhos crescem e iluminam-se para me ver. Acaricias-me o cabelo, e dizes: "Tens outra vez o cabelo muito comprido". Isto é um elogio. Nem tu sabes ainda como me vai ser útil esse teu elogio, nos meses que faltam. Comprarei um cabelo igual para tu veres. Neste, ainda o meu, quero que mexas. Prendo-te a mão ao meu cabelo. Falamos de coisas soltas, bebes uma cerveja, prometes uma vez mais que um dia me ensinarás a gostar de cerveja. Depois pegas na pasta e perguntas se por acaso não quero ir até lá a casa ver umas fotografias dos tempos antigos. Fechas a porta e começas a beijar-me, primeiro os olhos, depois o lóbulo da orelha, depois o pescoço, enquanto os teus dedos me abrem a camisa e me procuram os seios. Beijamo-nos de olhos abertos, como sempre, e é de olhos abertos que procuro cada uma das novidades do teu corpo, os sítios onde a tua pele se dobra, o cheiro agora mais adocicado do teu sexo.

Entramos um no outro de olhos abertos, como se mergulhássemos num mar de silêncio e fogo escuro. A meio da noite peço-te que me deixes ficar contigo um mês - "só um mês, prometo. Posso?" Não me respondes, claro. A não ser que os beijos sejam uma resposta, e eu preciso de acreditar que sim. Preciso dessa vida verdadeira que escondi debaixo da tua pele, antes que o cabelo me caia, antes que comecem os enjoos e as dores, antes que o meu corpo seja tomado pelo cheiro miserável da doença. Talvez para morrer eu precise do amor e da família. Mas para acabar de viver, só preciso de ti, desta febre azul a que os outros chamam só sexo.


Inês Pedrosa, Conto "Só sexo", do livro "Fica comigo esta noite"

quarta-feira, 4 de novembro de 2009



Amizade. Desenhe o teu riso sobre essa palavra e vejo-te inteira no lugar dela.


Inês Pedrosa, Fazes-me falta