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quarta-feira, 24 de abril de 2024

As três palavras mais estranhas


Quando pronuncio a palavra Futuro,

a primeira sílaba já se perde no passado.

Quando pronuncio a palavra Silêncio,

suprimo-o.

Quando pronuncio a palavra Nada,

crio algo que não cabe em nenhum não ser.


SZYMBORSKA, Wisława. “Instante”. In:_____. Poemas.

sábado, 13 de abril de 2024


 Perguntem, tentarei esclarecer-vos:

o que é ver com os olhos,

para que me bate o coração

e porque meu corpo não cria raízes.

Mas como responder às perguntas não colocadas,

ainda por cima, sendo eu para vocês assim,

tão ninguém.

Moitas, pinhais, prados e juncais,

tudo o que vos digo é um monólogo,

mas não são vocês que o ouvem.

Uma conversa com vocês é imprescindível e impossível.

Urgente nesta vida apressada

e adiada para nunca.


Wislawa Szymborska

Possibilidades

 


Prefiro cinema.

Prefiro os gatos.

Prefiro os carvalhos nas margens do Warta.

Prefiro Dickens a Dostoiévski.

Prefiro-me gostando dos homens

em vez de estar amando a humanidade.

Prefiro ter uma agulha preparada com a linha.

Prefiro a cor verde.

Prefiro não afirmar

que a razão é culpada de tudo.

Prefiro as exceções.

Prefiro sair mais cedo.

Prefiro conversar com os médicos sobre outra coisa.

Prefiro as velhas ilustrações listradas.

Prefiro o ridículo de escrever poemas

ao ridículo de não escrever.

No amor prefiro os aniversários não redondos

para serem comemorados cada dia.

Prefiro os moralistas,

que não prometem nada.

Prefiro a bondade esperta à bondade ingénua demais.

Prefiro a terra à paisana.

Prefiro os países conquistados aos países conquistadores.

Prefiro ter abjecções.

Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.

Prefiro contos de fada de Grimm às manchetes de jornais.

Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas.

Prefiro os cães com o rabo não cortado.

Prefiro os olhos claros porque os tenho escuros.

Prefiro as gavetas.

Prefiro muitas coisas que aqui não disse,

e outras tantas não mencionadas aqui.

Prefiro os zeros à solta

a tê-los numa fila junto ao algarismo.

Prefiro o tempo do inseto ao tempo das estrelas.

Prefiro isolar.

Prefiro não perguntar quanto tempo ainda e quando.

Prefiro levar em consideração até a possibilidade

do ser ter a sua razão.


#art by Andrea Kiss


 No centro do seu corpo irrompe um precipício

de duas bordas que se tornam estranhas uma à outra.

Sobre uma das bordas, a morte, sobre outra, a vida.

Aqui o desespero, ali a coragem.

Se há balança, nenhum prato pesa mais que o outro.

Se há justiça, ei-la aqui.

Morrer apenas o estritamente necessário, sem ultrapassar a medida.

Renascer o tanto preciso a partir do resto que se preservou.

Nós também sabemos nos dividir, é verdade.

Mas apenas em corpo e sussurros partidos.

Em corpo e poesia.

Aqui a garganta, do outro lado, o riso,

leve, logo abafado.

Aqui o coração pesado, ali o Não Morrer Demais,

três pequenas palavras que são as três plumas de um voo.

O abismo não nos divide.

O abismo nos cerca.

.

Wislawa Szymborska

#art: illustration aykut aydogdu

sexta-feira, 25 de novembro de 2022

Um contributo à estatística


De cada cem indivíduos


os que sabem tudo melhor

— cinquenta e dois;


inseguros de cada passo

— quase todo o resto;


prontos para ajudar

desde que não demore muito

— até quarenta e nove;


sempre bons,

porque não sabem ser de outro jeito

— quatro, bem, talvez cinco;


dispostos a admirar sem inveja

— dezoito;


vivendo em constante medo

de alguém ou de algo

— setenta e sete;


com aptidão para a felicidade

— vinte e poucos no máximo;


inofensivos individualmente,

ferozes na multidão

— por certo mais que a metade;


cruéis

quando as circunstâncias exigem

— melhor não saber

nem por aproximação;


gatos escaldados

— não muitos mais

do que os não escaldados;


os que não levam nada da vida além de coisas

— quarenta,

embora eu quisesse estar enganada;


encolhidos, doloridos

e sem lanterna na escuridão

— oitenta e três,

mais cedo ou mais tarde;


dignos de compaixão

— noventa e nove;


mortais

— cem de cem.

Número que até aqui segue inalterado.


Wislawa Szymborska

domingo, 29 de maio de 2022

O espião



 A bomba vai explodir no bar às treze e vinte.

Agora são só treze e dezesseis.

Alguns ainda terão tempo de entrar;

alguns de sair.


O terrorista já passou para o outro lado da rua.

A distância o livra de todo mal

e a vista, bom, é como no cinema:


Uma mulher de jaqueta amarela, ela entra.

Um homem de óculos escuros, ele sai.

Uns jovens de jeans, eles conversam.


Treze e dezessete e quatro segundos.

Aquele mais baixo tem sorte, sai de lambreta,

e aquele mais alto entra.


Treze e dezessete e quarenta segundos.

Uma moça, ela passa de fita verde no cabelo.

Só que aquele ônibus a encobre de repente.


Treze e dezoito.

A moça sumiu.

Se ela foi tola de entrar ou não

vai se saber quando os carregarem para fora.


Treze e dezenove.

Parece que ninguém mais entra.

Aliás, um gordo careca sai.

Mas remexe os bolsos como se procurasse algo

e às treze e vinte menos dez segundos

ele volta para buscar a droga das luvas.


São treze e vinte.

O tempo, como ele se arrasta.

Deve ser agora.

Ainda não.

É agora.

A bomba, ela explode.


Wislawa Szymborska


sábado, 28 de maio de 2022

nada duas vezes

maria kreyn


Duas vezes nada acontece

nem acontecerá. E assim sendo,

nascemos sem prática

e sem rotina vamos morrendo.


Nesta escola que é o mundo,

mesmo os piores

nunca repetirão

nenhum inverno, nenhum verão.


Os dias não podem ser repetidos,

não há duas noites iguais,

não há beijos parecidos,

não se troca o mesmo olhar.


Ontem, o teu nome

em voz alta pronunciado

foi como se uma rosa

me tivessem atirado.


Hoje, ao teu lado,

voltei a cara para a parede.

Rosa? O que é uma rosa?

Será flor? Talvez rocha?


Porque tu, ó má hora,

me trazes a vã tristeza?

Se és, tens de passar.

Passarás - e daí a tua beleza.


Abraçados, enlevados,

tentaremos vencer a mágoa,

mesmo sendo diferentes

como duas gotas de água.


WISLAWA SZYMBORSKA, 

in ALGUNS GOSTAM DE POESIA

quarta-feira, 18 de maio de 2022

Divórcio

vladmir volegov


Para os filhos, pela primeira vez o fim do mundo.

Para o gato, novo dono.

Para o cachorro, nova dona.

Para os móveis, escadas rangidos, leva ou não leva.

Para a parede, quadrados brancos de retirados os quadros.

Para os vizinhos do térreo, um assunto, uma pausa no tédio.

Para o carro, seria melhor se fossem dois.

Para os romances, poesia- está bom, leve o que quiser.

Pior no caso da enciclopédia e do vídeo

e também daquele manual de redação

onde talvez haja regras de uso de dois nomes

se os ligar ainda com a conjunção "e"

ou os separar com ponto final.


Wislawa Szymborska

terça-feira, 19 de abril de 2022

Agradecimento

 

Arthur Braginsky 


Devo muito

aos que não amo.


O alívio de aceitar

que sejam mais próximos de outrem.


A alegria de não ser eu

o lobo de suas ovelhas.


A paz que tenho com eles

e a liberdade com eles,

isso o amor não pode dar

nem consegue tirar.


Não espero por eles

andando da janela à porta.

Paciente

quase como um relógio de sol,

entendo o que o amor não entende,

perdoo,

o que o amor nunca perdoaria.


Do encontro à carta

não se passa uma eternidade,

mas apenas alguns dias ou semanas.


As viagens com eles são sempre um sucesso,

os concertos assistidos,

as catedrais visitadas,

as paisagens claras.


E quando nos separam

sete colinas e rios

são solinas e rios

bem conhecidos dos mapas.


É mérito deles

eu viver em três dimensões,

num espaço sem lírica e sem retórica,

com um horizonte real porque móvel.


Eles próprios não veem

quanto carregam nas mãos vazias.


"Não lhes devo nada" -

diria o amor

sobre essa questão aberta.


Wislawa Szymborska, in: Poemas.

domingo, 3 de janeiro de 2016

As três palavras mais estranhas


Francesca Strino


Quando pronuncio a palavra Futuro,
a primeira sílaba já se perde no passado.

Quando pronuncio a palavra Silêncio,
suprimo-o.

Quando pronuncio a  palavra Nada,
crio algo que não cabe em nenhum não ser.


Wisława.Szymborska, 
"Instante". In: Poemas. Trad. Regina Przybycien. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

sábado, 26 de dezembro de 2015

Os filhos da época



Somos os filhos da época,
e a época é política.

Todas as coisas - minhas, tuas, nossas,
coisas de cada dia, de cada noite
são coisas políticas.

Queiras ou não queiras,
teus genes têm um passado político,
tua pele, um matiz político,
teus olhos, um brilho político.

O que dizes tem ressonância,
o que calas tem peso
de uma forma ou outra - político.

Mesmo caminhando contra o vento
dos passos políticos
sobre solo político.

Poemas apolíticos também são políticos,
e lá em cima a lua já não dá luar.
Ser ou não ser: eis a questão.

Oh, querida que questão mal parida.
A questão política.
Não precisas nem ser gente
para teres importância política.

Basta ser petróleo, ração,
qualquer derivado, ou até
uma mesa de conferência cuja forma
vem sendo discutida meses a fio.

Enquanto isso, os homens se matam,
os animais são massacrados,
as casas queimadas,
os campos se tornam agrestes
como nas épocas passadas
e menos políticas.

Wisława Szymborska

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

As três palavras mais estranhas

photo © Alex Greenshpun



Quando pronuncio a palavra Futuro,
a primeira sílaba já se perde no passado.

Quando pronuncio a palavra Silêncio,
suprimo-o.

Quando pronuncio a  palavra Nada,
crio algo que não cabe em nenhum não ser.




Wislawa Szymborska
Trad. Regina Przybycien. São Paulo: Companhia das Letras, 2011

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Nada duas vezes

Arthur Braginski


Duas vezes nada acontece
nem acontecerá. E assim sendo,
nascemos sem prática
e sem rotina vamos morrendo.

Nesta escola que é o mundo,
mesmo os piores
nunca repetirão
nenhum inverno, nenhum verão.

Os dias não podem ser repetidos,
não há duas noites iguais,
não há beijos parecidos,
não se troca o mesmo olhar.

Ontem, o teu nome
em voz alta pronunciado
foi como se uma rosa
me tivessem atirado.

Hoje, ao teu lado,
voltei a cara para a parede.
Rosa? O que é uma rosa?
Será flor? Talvez rocha?

Porque tu, ó má hora,
me trazes a vã tristeza?
Se és, tens de passar.
Passarás - e daí a tua beleza.

Abraçados, enlevados,
tentaremos vencer a mágoa,
mesmo sendo diferentes
como duas gotas de água.


Wislawa Szymborska in "Alguns gostam de poesia"

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Nada mudou...


Nada mudou.
O corpo faz doer,
tem que comer, que respirar e que dormir,
tem a pele fina e o sangue logo em baixo,
provisão farta de dentes e de unhas,
ossos que quebram, articulações que esticam.
Nas torturas tudo isto é tido em conta.


Nada mudou.
O corpo treme como tremeu
antes e após a fundação de Roma,
no século XX antes de Cristo e depois,
torturas há, como antes houve,
apenas a terra diminuiu,
e o que quer que se passe é como se passasse ali à esquina.


Nada mudou.
Há só mais gente.
às velhas culpas novas se juntaram,
reais, insinuadas, fugazes e nenhumas,
mas o grito com que o corpo lhes responde,
é, foi e será um grito de inocência,
numa escala e num registo eternos.


Nada mudou.
talvez só as maneiras, a dança, as cerimônias.
O gesto da mão protegendo a cabeça
permanece o mesmo todavia.
O corpo enrosca-se, arranha-se e arranca-se,
cai das pernas cortadas, encolhe os joelhos,
arroxeia, incha, baba-se e sangra.


Nada mudou.
Fora o curso do rio,
a linha das florestas, da costa, desertos e glaciares.
Entre paisagens assim se desfia a alma,
desaparece e volta, aproxima-se e parte,
estranha para si própria,inabarcável,
certa uma vez e logo incerta de existir,
enquanto o corpo está, está e está
e não tem lugar para onde ir.


Wislawa Szymborska

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Entre Muitos

Angelo Asti



Sou quem sou.
Um acaso inconcebível
como todos os acasos.

Fossem outros antepassados
poderiam afinal, ser os meus,
e então de outro ninho
eu sairia voando,
e debaixo de outro tronco
rastejaria, coberta de escamas.

No guarda-roupa da Natureza
há trajes de sobra:
o traje da aranha, da gaivota, do rato do campo.
Cada um cai como uma luva
e é usado sem reclamar
até se gastar por completo.

Eu tampouco tive alternativa,
mas não me queixo.
Poderia ser alguém
muito menos individual.
Alguém do cardume, do formigueiro, zunindo no enxame,
uma partícula da paisagem agitada pelo vento.

Alguém muito menos feliz,
criado para uso da pele,
para a mesa da festa,
ou algo que nadasse sob a lente.

Uma árvore presa à terra,
da qual se aproxima o fogo.

Um mero cisco esmagado
pela marcha de inconcebíveis eventos.

Um indivíduo nascido sob uma sina ruim
que para outros se ilumina.

E o que seria se eu despertasse nas pessoas medo?
Ou só aversão?
Ou só piedade?

Se não tivesse nascido
na tribo certa
e a minha frente se fechassem os caminhos?

Até agora, a sorte
mostrou-se me favorável.

Poderia não ter-me sido dada
a lembrança dos bons momentos.

Poderia ter-me sido negada
a tendência para comparar.

Poderia até ser eu própria
mas sem o dom da admiração
quer dizer - alguém completamente diferente.


Wislawa Szymborska

sexta-feira, 26 de abril de 2013

O primeiro amor



Dizem
que o primeiro amor é o mais importante.
É muito romântico,
mas não é o meu caso.

Algo entre nós houve e não houve,
deu-se e perdeu-se.

Não me tremem as mãos
quando encontro pequenas lembranças,
aquele maço de cartas atadas com um cordel,
se ao menos fosse uma fita.

O nosso único encontro, passados anos,
foi uma conversa de duas cadeiras
junto a uma mesa fria.

Outros amores
continuam até hoje a respirar dentro de mim.
A estes falta fôlego para suspirar.

No entanto, sendo como é,
não lembrado,
nem sequer sonhado,
consegue o que os outros não conseguem:
acostuma-me com a morte.


Wislawa Szymborska

domingo, 21 de abril de 2013

Autotomia

Omar Ortiz


Em perigo, a holotúria divide-se em duas: uma delas entrega-se à
à voracidade do mundo, a outra lhe escapa. 

Desagrega-se de repente em perdição e salvação, em multa e em prêmio,
no que foi e no que será. 

No meio do corpo da holotúria abre-se um abismo com duas margens
subitamente estranhas. 

Numa a morte, noutra a vida. 
Aqui desespero, alento ali.
Se houver uma balança, os pratos não oscilam,
Se houver justiça, aqui está.

Morrer quanto necessário, sem exceder a medida.
Crescer de novo quanto necessário a parte que se salvou.
É verdade, também nós podemos nos dividir.
Mas apenas em corpo e suspiro cortado.
Em corpo e poesia. 

De um lado a garganta, do outro o riso,
leve, rapidamente sumindo. 

Aqui um coração pesado, ali non omnis moriar,
três palavras apenas como três penas aladas. 

O abismo não nos separa.
O abismo nos circunda.


Wislawa Szymborska

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Vida na expectativa

Ivaylo Todorov


Vida na expectativa.
Espetáculo sem ensaios.
Corpo sem tirar medidas.
Cabeça sem reflexão.

Não sei o papel que desempenho.
Sei apenas que é o meu, intransmissível.

É já em cena que tenho de adivinhar
de que trata a peça.

Debilmente preparada para a honra que é a vida,
dificilmente aguento o tempo de ação que me é imposto.
Lá vou improvisando embora deteste improvisar.
Passo a passo tropeço no desconhecimento das coisas.
O meu modo de vida cheira-me a provincianismo.
Os meus instintos são crasso amadorismo.
O medo do palco, explicando-me, ainda me humilha mais.
Os fatores atenuantes parecem-me cruéis.

Palavras e gestos sem regresso,
estrelas por contar,
o caráter – um casaco à pressa abotoado,
são os deploráveis efeitos desta urgência.

Treinar ao menos uma quarta-feira,
ou repetir uma quinta ao menos uma vez!
E já lá vem a sexta com um guião que ignoro.
Está como deve ser – pergunto
(com um pigarro na voz
pois nem sequer me foi dado pigarrear nos bastidores).

È ilusória a ideia de que é só um exame rápido
realizado em sala provisória. Não.
Fico de pé diante do cenário e dou conta da sua solidez.
Impressiona-me o rigor de cada adereço.
o palco rotativo há já muito que funciona.
Já estão acesas até as mais distantes nebulosas.
Não tenho quaisquer dúvidas que se trata da estreia!
E, seja o que for que eu faça,
para sempre se transforma no que eu fiz.


 Wislawa Szymborska

terça-feira, 13 de novembro de 2012



Estou demasiado perto para ser sonhada por ele.
Sobre ele não voo, dele não fujo
sob as raízes de uma árvore.
Estou demasiado perto.
Não é com a minha voz que canta o peixe na rede.
Não é do meu dedo que rola o anel.
Estou demasiado perto.
Uma enorme casa está ardendo
sem mim, pedindo socorro.
Demasiado perto,
para que no meu cabelo o sino badalasse.
Demasiado perto para poder entrar como convidado
ante o qual as paredes se abrem.
Pela segunda vez não morrerei jamais tão levemente,
tão fora do meu próprio corpo, tão involuntariamente
como outrora em meu sonho.
Estou demasiado perto,
demasiado perto. Ouço um silvo,
e vejo a casca fulgurante dessa palavra,
imóvel nos meus braços. Ele dorme,
agora mais acessível a uma bilheteira de circo ambulante
com um leão apenas,
vista uma vez na vida,
do que a mim, deitada a seu lado.
Agora para ela nele cresce um vale
De folhagens ruivas, fechado por um monte nevado
no ar azul. Eu estou perto demais
para cair-lhe do céu.
Meu grito
só poderia acordá-lo. Pobre de mim,
limitada à minha própria figura,
eu que fui bétula, eu que fui ninfa
e saía da casca,
brilhando as cores da pele. Eu que tinha
a graça de sumir ante olhos espantados
o que é uma riqueza de riquezas.
Estou perto,
demasiado perto para ser sonhada por ele.
Retiro o meu braço de sob a cabeça dele que dorme,
e o braço dormente fervilha de agulhas,
em cujas pontas esperando a contagem
sentaram-se os anjos caídos.

Wislawa Szymborska

sexta-feira, 27 de abril de 2012





— Que horas são? — Sim, estou feliz
e só me falta um guizo no pescoço
para enquanto tu dormes ele retinir sobre ti.
— Não ouviste então a tempestade? O vento assolou as muralhas,
a torre urrou como um leão pelo portão
a ranger nas dobradiças. — Como é que podes não te lembrar?
Eu trazia um vestido cinzento muito simples
de abotoar nos ombros. — E logo a seguir
o céu explodiu em mil clarões. — Como é que eu podia entrar
se tu não estavas sozinho! — E vi de súbito
as cores de antes de haver olhar. — É pena
que não possas perdoar-me. — Tens toda a razão,
foi um sonho de certeza. — Por que é que mentes?
Por que me tratas pelo nome dela?
Amá-la ainda? — Sim! Queria muito
que ficasses comigo. — Não estou triste,
eu devia ter adivinhado.
— Ainda pensar nele? — Não estou a chorar!
— E é tudo? — De ninguém como de ti.
— Pelo menos és sincera. — Fica tranquilo,
vou-me embora da cidade. — Fica tranquilo,
eu vou-me embora daqui. — Tens umas mãos tão bonitas.
— É uma velha história. Foi duro
mas passou sem deixar mossas. — Não tem de quê,
meu caro, não tem de quê. — Não sei
que horas são e nem quero saber.


Wislawa Szymborska