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sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

Marie-Laure Souq


 – Não devemos tomar a arte muito ao pé da letra. E especialmente no que diz respeito ao amor.

– Nem mesmo quando é verdadeira? – perguntara ele.

– A poesia pode ser demasiadamente verdadeira. Pura como água destilada. Quando a verdade não é nada senão a verdade, ela é antinatural; uma abstração que com nada se parece do mundo real. Na natureza há sempre tantas coisas estranhas misturadas à verdade essencial! Eis porque a arte nos comove: precisamente porque está depurada de todas as impurezas da vida real.(...)

A arte nos dá a sensação, o pensamento, o sentimento absolutamente puros – isto é: quimicamente puros.


Aldous Huxley, Contraponto

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015



"Cerca de um terço do sofrimento que devo suportar é inteiramente inevitável por ser inerente à própria condição humana. Representa o preço que todos temos que pagar pelo fato de sermos dotados de sensibilidade; embora sedentos de libertação, nos sujeitamos às leis naturais que nos obrigam a continuar caminhando (sem poder retroceder) através de um mundo inteiramente indiferente ao nosso bem-estar. Caminhando em direção à decrepitude e à certeza da morte. Os outros dois terços são 'confeccionados em casa' e o Universo os considera inteiramente supérfluos".

Aldous Huxley, in: "A Ilha", 1962

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Aldous Huxley, Admirável Mundo Novo

 - Mas Deus é a razão de ser de tudo o que é nobre, belo, heróico. Se tivessem um Deus...

 - Meu jovem amigo, a civilização não tem nenhuma necessidade de nobreza ou heroísmo. Essas coisas são sintomas da incapacidade política. Numa sociedade convenientemente organizada como a nossa, ninguém tem oportunidade para ser nobre ou heróico. É preciso que as coisas se tornem profundamente instáveis para que tal oportunidade possa apresentar-se. Onde houver guerras, onde houver obrigações de fidelidade múltiplas e antagônicas, onde houver tentações a que se deva resistir, objetos de amor pelos quais se deva combater ou que seja preciso defender, aí, evidentemente, a nobreza e o heroísmo terão algum sentido. Mas não há guerras em nossos dias. Toma-se o maior cuidado em evitar amores extremados, seja por quem for. Não há nada que se assemelhe a obrigações de fidelidade antagônicas; todos são condicionados de tal modo que ninguém pode deixar de fazer o que deve. E o que se deve fazer é, em geral, tão agradável, deixa-se margem a tão grande número de impulsos naturais, que não há, verdadeiramente, tentações a que se deva resistir. E se alguma vez, por algum acaso infeliz, ocorrer de um modo ou de outro qualquer coisa desagradável bem, então há o soma, que permite uma fuga da realidade(...)

- Mas as lágrimas são necessárias. Não se lembra do que disse Otelo? “Se depois de toda tempestade vêm tais calmarias, então que soprem os ventos até acordar a morte!” (...)

- Encantador! Mas nos países civilizados – disse Mustafá Mond – não há moscas nem mosquitos que piquem. Há séculos que nos livramos completamente deles.

O Selvagem inclinou a cabeça em aquiescência, franzindo o sobrolho.

- Livraram-se deles. Sim, é bem o modo de os senhores procederem. Livrar-se de tudo o que é desagradável, em vez de aprender a suportá-lo. Se é mais nobre para a alma sofrer os golpes de funda e as flechas da fortuna adversa, ou pegar em armas contra um oceano de desgraças e, fazendo-lhes frente, destruí-las... Mas os senhores não fazem nenhuma coisa nem outra. Não sofrem e não enfrentam. Suprimem, simplesmente, as pedras e as flechas. É fácil demais. (...)  O que os senhores precisam – disse – é de alguma coisa com lágrimas, para variar. Nada custa bastante caro aqui. (...)  Expor o que é mortal e inseguro ao acaso, ao perigo, à morte. Isso não é alguma coisa? – perguntou ele, erguendo os olhos para Mustafá Mond. – Não é alguma coisa viver perigosamente?

- Sem dúvida nenhuma – respondeu o Administrador. – Os homens e as mulheres necessitam que se lhes estimulem de tempos em tempos as cápsulas supra-renais.

- O quê? - perguntou o Selvagem que não compreendera.

- É uma das condições da saúde perfeita. Foi por esse motivo que tornamos obrigatórios os tratamentos de S.P.V.

- S.P.V.?

- Sucedâneo de Paixão Violenta. Regularmente, uma vez por mês, inundamos todo o organismo com adrenalina. É o equivalente fisiológico completo do medo e da cólera. Todos os efeitos tônicos de assassinar Desdêmona e de ser assassinada por Otelo, sem nenhum dos inconvenientes.

- Mas eu gosto dos inconvenientes.

- Nós, não. Preferimos fazer as coisas confortavelmente.

- Mas eu não quero conforto. Quero Deus, quero a poesia, quero o perigo autêntico, quero a liberdade, quero a bondade. Quero o pecado.

- Em suma – disse Mustafá Mond -, o senhor reclama o direito de ser infeliz.

- Pois bem, seja – retrucou o Selvagem em tom de desafio. – Eu reclamo o direito de ser infeliz.

- Sem falar no direito de ficar velho, feio e impotente; no direito de ter sífilis e câncer; no direito de não ter quase nada que comer; no direito de ter piolhos; no direito de viver com a apreensão constante do que poderá acontecer amanhã; no direito de contrair a febre tifóide; no direito de ser torturado por dores indizíveis de toda espécie.

Houve um longo silêncio.

- Eu os reclamo todos –-  disse finalmente o Selvagem.

Mustafá Mond deu de ombros.

- À vontade – respondeu.

Aldous Huxley - Admirável Mundo Novo
Editora Globo, pág.228-232
Tradução: Vital de Oliveira
                 Lino Vallandro

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Aldous Huxley, Admirável Mundo Novo


- ESTABILIDADE - disse o Administrador. - Estabilidade. Não há civilização sem estabilidade social. Não há estabilidade social sem estabilidade individual.
Sua voz soava como uma trombeta. Ouvindo-o, eles se sentiram maiores, mais confortáveis.
A máquina gira, gira, e deve continuar girando - para sempre. Seria a morte, se ela parasse. Havia um bilhão a raspar a crosta da Terra. As engrenagens começaram a girar. Ao cabo de cento e cinquenta anos, eram dois bilhões. Parada de todas as engrenagens. Decorridas cento e cinquenta semanas, havia, novamente, apenas um bilhão. Mil milhares de milhares de homens e mulheres morreram de fome.
As rodas da máquina têm de girar constantemente, mas não podem fazê-lo se não houver quem delas cuide. É preciso que haja homens para cuidar delas, homens tão constantes como as rodas nos seus eixos, homens sãos de espírito, obedientes, satisfeitos em sua estabilidade.
Gritando: "Meu filhinho, minha mãe, meu tudo, meu único amor"; gemendo: "Meu pecado, meu Deus terrível"; urrando de dor, delirando de febre, lamentando a velhice e a pobreza - como poderiam cuidar das engrenagens? E, se não pudessem cuidar das engrenagens... Seria difícil enterrar ou cremar os cadáveres de mil milhares de milhares de homens e mulheres.
(...) - Estabilidade - insistiu o Administrador. - Estabilidade. A necessidade fundamental e definitiva. Daí, tudo isto...
Com um gesto da mão indicou os jardins, o enorme edifício de Condicionamento, as crianças nuas escondidas ente as moitas ou correndo pelo gramado.
(...)
Reprimido, o impulso transborda, e a inundação é sentimento; a inundação é paixão; a inundação é loucura, até: tudo depende da força da corrente, da altura e da resistência do dique. O curso de água não contido flui tranquilamente pelos canais que lhe foram destinados, rumo a uma calma euforia. (O embrião tem fome; dia após dia, a bomba do pseudo-sangue faz, sem parar, suas oitocentas voltas por minuto. O bebê decantado berra; imediatamente uma enfermeira chega com uma mamadeira de secreção externa. O sentimento está à espreita nesse intervalo de tempo entre o desejo e sua satisfação. Reduza-se esse intervalo, derrubem-se todos esses velhos diques inúteis.)


Aldous Huxley, Admirável Mundo Novo

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Aldous Huxley, As Portas da Percepção

Vivemos, agimos e reagimos uns com os outros; mas sempre, e sob quaisquer circunstâncias, existimos a sós. Os mártires penetram na arena de mãos dadas; mas são crucificados sozinhos. Abraçados, os amantes buscam desesperadamente fundir seus êxtases isolados em uma única autotranscedência; debalde. Por sua própria natureza, cada espírito, em sua prisão corpórea, está condenado a sofrer e gozar em solidão. Sensações, sentimentos, concepções, fantasias – tudo isso são coisas privadas e, a não ser por meio de símbolos, e indiretamente, não podem ser transmitidas. Podemos acumular informações sobre experiências, mas nunca as próprias experiências. Da família à nação, cada grupo humano é uma sociedade de universos insulares.
Muitos desses universos são suficientemente semelhantes, uns aos outros, para permitir entre eles uma compreensão por dedução, ou mesmo por mútua projeção de percepção. Assim, recordando nossos próprios infortúnios e humilhações podemos nos condoer de outras pessoas em circunstâncias análogas; somos até capazes de nos pormos em seu lugar (sempre, evidentemente, em sentido figurado). Mas em certos casos a ligação entre esses universos é incompleta, ou mesmo inexistente. A mente é o seu campo, porém os lugares ocupados pelo insano e pelo gênio são tão diferentes daqueles onde vivem o homem e a mulher comuns que há pouco ou nenhum ponto de contato na memória de cada um para servir de base à compreensão ou a ligação entre eles. Falam, mas não se entendem. As coisas e fatos que símbolos se referem pertencem a reinos de experiências que se excluem mutuamente.
(...)
Sou e, até onde minha memória alcança, sempre fui pouco dado a devaneios. As palavras, mesmo as mais evocativas, empregadas pelos poetas, não conseguem produzir imagens em minha mente. Não vêm ao meu encontro visões hipnagógicas no limiar do sono. Quando me lembro de algo, a memória não se me apresenta como um fato ou objeto vivido. Por um esforço da vontade, consigo evocar uma imagem não muito vivida do que aconteceu na tarde da véspera, de como era o Lungarno antes de as pontes terem sido destruídas ou da estrada de Bayswater quando os poucos ônibus eram verdes e pequeninos, puxados por velhos cavalos a uns seis quilômetros por hora. Mas essas imagens terão pouca substância, e de forma alguma poderão ter vida própria. Guardam, para os objetos reais, a mesma proporção que os fantasmas homéricos apresentam com relação aos homens de carne e osso que vão visitá-los nas sombras. Só quando tenho febre alta é que minhas imagens mentais adquirem vida independente. Para aqueles cuja imaginação é fértil, meu mundo interior terá de parecer curiosamente monótono, limitado e desinteressante. Este era o mundo — um pobre mundo, porém meu — que eu esperava ver transformado em algo inteiramente diferente de si mesmo.


Aldous Huxley, As Portas da Percepção

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Aldous Huxley, Admirável Mundo Novo

- Meu bom amigo! - O diretor virou-se vivamente para ele. - Não vê, pois? Não vê? - Ergueu a mão; tomou uma atitude solene. - O Processo Bokanovsky é um dos principais instrumentos da estabilidade social.
"  Um dos principais instrumentos da estabilidade social."
Homens e mulheres padronizados, em grupos uniformes. Todo o pessoal de uma pequena usina constituído pelos produtos de um único ovo bokanovskizado.
- Noventa e seis gêmeos idênticos fazendo funcionar noventa e seis máquinas idênticas! - Sua voz estava quase trêmula de entusiasmo. - Sabe-se seguramente para onde se vai. Pela primeira vez na história. - Citou o lema planetário: - "Comunidade, Identidade, Estabilidade". - Grandes palavras.

**********

- Imaginem água sob pressão em um tubo – disse o Administrador.
Eles imaginaram.
- Eu o furo uma vez. Que jato!
Furou-o vinte vezes. Houve vinte pequenos jatos de água, insignificantes.
“ – meu filhinho! Meu filhinho!”
“- Mamãe!” A loucura é contagiosa.
“ – Meu amor, meu único amor, meu tesouro, meu tesouro...”
Mãe, monogamia, romantismo. A fonte jorra bem alto; o jato é impetuoso e branco de espuma. O impulso não tem mais que uma saída. Não é de admirar que esses pobres pré-modernos fossem loucos, perversos e desgraçados. Seu mundo não lhes permitia aceitar as coisas naturalmente, não os deixava ser sãos de espírito, virtuosos, felizes. Com suas mães e seus amantes; com suas proibições, para os quais não estavam condicionados; com suas tentações e seus remorsos solitários; com todas as suas doenças e intermináveis dores que os isolavam; com suas incertezas e sua pobreza – eram forçados a sentir as coisas intensamente. E, sentindo-as intensamente (intensamente e, além disso, em solidão, no isolamento irremediavelmente individual), como poderiam ter estabilidade?

Aldous Huxley, Admirável Mundo Novo

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Aldous Huxley, Admirável mundo novo

Um edifício cinzento e acachapado, de trinta e quatro andares apenas. Acima da entrada principal, as palavras "CENTRO DE INCUBAÇÃO E CONDICIONAMENTO DE LONDRES CENTRAL" e, num escudo, o lema do Estado Municipal: "COMUNIDADE, IDENTIDADE, ESTABILIDADE".
A enorme sala do andar térreo dava para o norte. Apesar do verão que reinava para além das vidraças, apesar do calor tropical da própria sala, era fria e crua a luz tênue que entrava pelas janelas, procurando, faminta, algum manequim coberto de roupagem, algum vulto acadêmico pálido e arrepiado, mas só encontrando o vidro, o níquel e a porcelana de brilho glacial de um laboratório. À algidez hibernal respondia a algidez hibernal. As blusas dos trabalhadores eram brancas, suas mãos estavam revestidas de luvas de borracha pálida, de tonalidade cadavérica. A luz era gelada, morta espectral. Somente dos cilindros amarelos dos microscópios lhe vinha um pouco de substância rica e viva, que se esparramava como manteiga ao longo dos tubos reluzentes.
- E isto - disse o Diretor, abrindo a porta - é a Sala de Fecundação.
No momento em que o Diretor de Incubação e Condicionamento entrou na sala, trezentos Fecundadores, curvados sobre os seus instrumentos, estavam mergulhados naquele silêncio em que apenas se ousa respirar, naquele cantarolar ou assobiar insconsciente por que se traduz a mais profunda concentração. Uma turma de estudantes recém-chegados, muito jovens, rosados e bisonhos, seguia com certo nervosismo, com uma humildade um tanto abjeta, as pisadas do Diretor. Todos traziam um caderno de notas, no qual, cada vez que o grande homem falava, rabiscavam desesperadamente. Eles bebiam ali seu saber na própria fonte. Era um privilégio raro. o DIC de Londres Central sempre fazia questão de conduzir pessoalmente seus novos alunos na visita aos vários serviços e dependências.
- Simplesmente para lhes dar uma idéia de conjunto - explicava-lhes. Porque era preciso, naturalmente, que tivessem alguma idéia de conjunto para poderem fazer seu trabalho inteligentemente - mas uma idéia a mais resumida possível, para que se tornassem membros úteis e felizes da sociedade. Porque os detalhes, como se sabe, conduzem à virtude e à felicidade; as generalidades são males intelectualmente necessários. Não são os filósofos, mas sim os colecionadores de selos e os marceneiros amadores que constituem a espinha dorsal da sociedade.
- Amanhã - acrescentava, sorrido-lhes com uma jovialidade levemente ameaçadora - os senhores entrarão no trabalho sério. Não terão tempo para generalidades. E enquanto isso...
Enquanto isso, era um privilégio. Da própria fonte para o caderno de notas. Os rapazes rabiscavam febrilmente.
[...]
- Ao Processo Bokanovsky - repetiu o Diretor, e os estudantes sublinharam essas palavras nos seus cadernos.
Um ovo, um embrião, um adulto - é o normal. Mas um ovo bokanovskizado tem a propriedade de germinar, proliferar, dividir-se: de oito a noventa e seis germes, e cada um destes se tornará um embrião perfeitamente formado, e cada embrião um adulto completo. Assim se consegue fazer crescer noventa e seis seres humanos em lugar de um só como no passado. Progresso.
- A bokanovskização - disse o DIC, para concluir - consiste essencialmente numa série de paradas do desenvolvimento. Nós detemos o crescimento normal e, paradoxalmente, o ovo reage germinando em múltiplos brotos.
"Reage germinando." Os lápis entraram em atividade.

Aldous Huxley, Admirável mundo novo

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010





Quando cheguei à maturidade intelectual e comecei a perguntar-me se era ateu, teísta ou panteísta, materialista ou idealista, cristão ou livre pensador, percebi que quanto mais eu aprendia e refletia, menos fácil era a resposta, até que por fim cheguei à conclusão de que nada tinha a ver com nenhuma dessas definições, com exceção da última. Portanto, meditei e inventei o que me parece ser um rótulo adequado:"agnóstico". Pensei nele como uma antítese sugestiva dos "gnósticos" da história da igreja, que professavam conhecer coisas que eu era ignorante.


Aldous Huxley, As portas da percepção

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Aldous Huxley, Satânicos e Visionários


“Puerilidade [...] é odiar a realidade porque ela não se parece com os contos de fada que os homens tem inventado para consolar a si próprios pelos dissabores e dificuldades da vida diária. Ou odiá-la porque a vida aparentemente não tem a importância que um autor consagrado achou de lhe atribuir. [...] mas o objetivo da vida, além de mera continuidade do viver (de si mesmo um fim belo e notabilíssimo), é o objetivo que nós mesmos lhe damos: seu significado é qualquer um que calhemos de chamar como tal. A vida não é um jogo de palavras cruzadas, com sua resposta previamente estabelecida e um prêmio para o ingênuo que nelas esfregue seu nariz. O enigma do universo tem tantas soluções quantos são seus habitantes vivos. Cada resposta é uma hipótese operante, segundo os termos que o respondedor trava com a realidade. As melhores respostas são aquelas que permitem ao respondedor viver na plenitude, enquanto que as piores são aquelas que o condenam à morte parcial ou completa.”

Aldous Huxley, Satânicos e Visionários

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Satânicos e Visionários


Existem muitas espécies de deuses, como existem muitas espécies de homens. Pois que os homens fazem os deuses à própria imagem. Falar de religião de outra maneira que não em termos de psicologia humana é uma irrelevância.

 "Tu dizes que Afrodite veio com meu filho à casa de Menelau.".
 É Hécuba quem assim fala à funesta Helena, em As Troianas de Eurípedes.
"Quão ridículo!... Quando tu o viste, foi teu próprio pensamento que se transformou em Afrodite.
Afrodite é o nome de toda loucura humana."

Do mesmo modo, Jeová, Alá, a Trindade, Jesus, Buda são nomes para uma grande variedade de virtudes humanas, experiências místicas humanas, emoções humanas, estéticas humanas, remorsos humanos, consoladores humanos, devaneios humanos, terrores humanos, crueldades humanas.

Se todos os homens fossem iguais, o mundo inteiro cultuaria o mesmo Deus. [...] Nem sequer o mesmo homem é cultuador coerente de um só Deus.


Aldous Huxley
(Do what you will) - título original


"  Do what you will, this world's a fiction" -  William Blake

sábado, 28 de março de 2009

Aldous Huxley - Inspirações


"Havia uma coisa chamada céu, entretanto, eles bebiam quantidades enormes de álcool.
Havia uma coisa chamada alma e uma coisa chamada imortalidade, mas eles tomaram morfina e cocaína"

"Nem mesmo o melhor dos chineses poderia ter dito mais em compasso tão estreito. A noite, o desejo, a angústia de esperar e, com ela, a dor mais persistente, mais profunda, mais desesperançosamente incurável de saber que toda luz há que se pôr, que a vida e o amor declinam, declinam inexoravelmente rumo ao ocaso e à escuridão: todas essas coisas são implicadas – quão completamente! – nas linhas de Safo. As palavras continuam como que a ecoar e re-ecoar ao longo de corredores cada vez mais remotos da memória, com um som que jamais pode completamente morrer (tal é o estranho poder da voz do poeta) até a morte da própria memória"

"Crepúsculo e morte. Morte e beijos. Beijos dos quais resultam nascimentos. Consequentemente, morte para outra geração de observadores de crepúsculos."

quarta-feira, 4 de março de 2009

Aldous Huxley


Estava eu sentado, perto do mar, a ouvir com pouca atenção um amigo meu que falava arrebatadamente de um assunto qualquer, que me era apenas fastidioso. Sem ter consciência disso, pus-me a olhar para uma pequena quantidade de areia que entretanto apanhara com a mão; de súbito vi a beleza requintada de cada um daqueles pequenos grãos; apercebia-me de que cada pequena partícula, em vez de ser desinteressante, era feito de acordo com um padrão geométrico perfeito, com ângulos bem definidos, cada um deles dardejando uma luz intensa; cada um daqueles pequenos cristais tinha o brilho de um arco-íris...
Os raios atravessavam-se uns aos outros, constituindo pequenos padrões, duma beleza tal que me deixava sem respiração... Foi então que, subitamente, a minha consciência como que se iluminou por dentro e percebi, duma forma viva, que todo o universo é feito de partículas de material, partículas que por mais desinteressantes ou desprovidas de vida que possam parecer, nunca deixam de estar carregadas daquela beleza intensa e vital. Durante um segundo ou dois, o mundo pareceu-me uma chama de glória. E uma vez extinta essa chama, ficou-me qualquer coisa que junca mais esqueci que me faz pensar constantemente na beleza que encerra cada um dos mais ínfimos fragmentos de matéria à nossa volta.
(Aldous Huxley)


“You shall know the truth, and the truth shall make you free.” Bible: John 8:32
“You shall know the truth, and the truth shall make you mad.” Aldous Huxley