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domingo, 14 de abril de 2024

 


A minha alma partiu-se como um vaso vazio.

Caiu pela escada excessivamente abaixo.

Caiu das mãos da criada descuidada.

Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.


Asneira? Impossível? Sei lá!

Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.

Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.

Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.

E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.


Não se zanguem com ela.

São tolerantes com ela.

O que era eu um vaso vazio?


Olham os cacos absurdamente conscientes,

Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.


Olham e sorriem.

Sorriem tolerantes à criada involuntária.


Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.

Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.

A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?

Um caco.

E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali.


Álvaro de Campos, 1929

(heterônimo de Fernando Pessoa)


#art: shattered venus - ► © Patrick Kramer •

quinta-feira, 4 de abril de 2024


 Meu coração é um almirante louco

que abandonou a profissão do mar

e que a vai relembrando pouco a pouco

em casa a passear, a passear…


No movimento (eu mesmo me desloco

nesta cadeira, só de o imaginar)

o mar abandonado fica em foco

nos músculos cansados de parar.


Há saudades nas pernas e nos braços.

Há saudades no cérebro por fora.

Há grandes raivas feitas de cansaços.


Mas — esta é boa! — era do coração

que eu falava… e onde diabo estou eu agora

com almirante em vez de sensação?..


Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa.

domingo, 9 de janeiro de 2022

Ricardo Sanz


O dia deu em chuvoso. 

A manhã, contudo, esteve bastante azul. 

O dia deu em chuvoso. 

Desde manhã eu estava um pouco triste.

Antecipação! Tristeza? Coisa nenhuma? 

Não sei: já ao acordar estava triste. 

O dia deu em chuvoso.


Bem sei, a penumbra da chuva é elegante. 

Bem sei: o sol oprime, por ser tão ordinário, um elegante. 

Bem sei: ser susceptível às mudanças de luz não é elegante. 

Mas quem disse ao sol ou aos outros que eu quero ser elegante? 

Deem-me o céu azul e o sol visível. 

Névoa, chuvas, escuros — isso tenho eu em mim.


Hoje quero só sossego. 

Até amaria o lar, desde que o não tivesse. 

Chego a ter sono de vontade de ter sossego. 

Não exageremos! 

Tenho efetivamente sono, sem explicação. 

O dia deu em chuvoso.


Carinhos? Afetos? São memórias... 

É preciso ser-se criança para os ter... 

Minha madrugada perdida, meu céu azul verdadeiro! 

O dia deu em chuvoso.

Boca bonita da filha do caseiro, 

Polpa de fruta de um coração por comer... 

Quando foi isso? Não sei... 

No azul da manhã...


O dia deu em chuvoso.


Álvaro de Campos. Fernando Pessoa

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Na Véspera de não Partir Nunca

Kenne Gregoire


Na véspera de não partir nunca 
Ao menos não há que arrumar malas 
Nem que fazer planos em papel, 
Com acompanhamento involuntário de esquecimentos, 
Para o partir ainda livre do dia seguinte. 
Não há que fazer nada 
Na véspera de não partir nunca. 
Grande sossego de já não haver sequer de que ter sossego! 
Grande tranqüilidade a que nem sabe encolher ombros 
Por isto tudo, ter pensado o tudo 
É o ter chegado deliberadamente a nada. 
Grande alegria de não ter precisão de ser alegre, 
Como uma oportunidade virada do avesso. 
Há quantas vezes vivo 
A vida vegetativa do pensamento! 
Todos os dias sine linea 
Sossego, sim, sossego... 
Grande tranqüilidade... 
Que repouso, depois de tantas viagens, físicas e psíquicas! 
Que prazer olhar para as malas fítando como para nada! 
Dormita, alma, dormita! 
Aproveita, dormita! 
Dormita! 
É pouco o tempo que tens! Dormita! 
É a véspera de não partir nunca! 


Álvaro de Campos 
(Heterônimo de Fernando Pessoa)

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Carnaval

barry leighton

É Carnaval, e estão as ruas cheias
De gente que conserva a sensação,
Tenho intenções, pensamento, ideias,
Mas não posso ter máscara nem pão.

Esta gente é igual, eu sou diverso —
Mesmo entre os poetas não me aceitariam.
Às vezes nem sequer ponho isto em verso —
E o que digo, eles nunca assim diriam.

Que pouca gente a muita gente aqui!
Estou cansado, com cérebro e cansaço.
Vejo isto, e fico, extremamente aqui
Sozinho com o tempo e com o espaço.

Detrás de máscaras nosso ser espreita,
Detrás de bocas um mistério acode
Que meus versos anódinos enjeita.

Sou maior ou menor? Com mãos e pés
E boca falo e mexo-me no mundo.
Hoje, que todos são máscaras, és
Um ser máscara-gestos, em tão fundo...

 Álvaro de Campos ( Fernando Pessoa)

quinta-feira, 4 de março de 2010

O Sono



O sono que desce sobre mim, 
O sono mental que desce fisicamente sobre mim, 
O sono universal que desce individualmente sobre mim — 
Esse sono 
Parecerá aos outros o sono de dormir, 
O sono da vontade de dormir, 
O sono de ser sono. 

Mas é mais, mais de dentro, mais de cima: 
E o sono da soma de todas as desilusões, 
É o sono da síntese de todas as desesperanças, 
É o sono de haver mundo comigo lá dentro 
Sem que eu houvesse contribuído em nada para isso. 

O sono que desce sobre mim 
É contudo como todos os sonos. 
O cansaço tem ao menos brandura, 
O abatimento tem ao menos sossego, 
A rendição é ao menos o fim do esforço, 
O fim é ao menos o já não haver que esperar. 

Há um som de abrir uma janela, 
Viro indiferente a cabeça para a esquerda 
Por sobre o ombro que a sente, 
Olho pela janela entreaberta: 
A rapariga do segundo andar de defronte 
Debruça-se com os olhos azuis à procura de alguém. 
De quem?, 
Pergunta a minha indiferença. 
E tudo isso é sono. 

Meu Deus, tanto sono!… 



Álvaro de Campos

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Fabian Perez.


(…) saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.

Sigo o fumo como uma rota própria,

E gozo, num momento sensitivo e competente,

A libertação de todas as especulações

E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.



Depois deito-me para trás na cadeira

E continuo fumando.

Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.



Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa)

in “Poesias” , trecho do poema Tabacaria.

domingo, 13 de dezembro de 2009



Todas as cartas de amor são

Ridículas.

Não seriam cartas de amor se não fossem

Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,

Como as outras,

Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,

Têm de ser

Ridículas.

Mas, afinal,

Só as criaturas que nunca escreveram

Cartas de amor

É que são

Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia

Sem dar por isso

Cartas de amor

Ridículas.

A verdade é que hoje

As minhas memórias

Dessas cartas de amor

É que são

Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,

Como os sentimentos esdrúxulos,

São naturalmente

Ridículas.)



Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa)