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sexta-feira, 4 de novembro de 2022

 



Aprendi a viver com simplicidade, com juízo, a olhar o céu, a fazer as minhas orações, até ter esgotado esta angústia inútil.

Enquanto no penhasco murmuram as bardanas e declina o alaranjado cacho da sorveira, componho versos bem alegres, sobre a vida caduca, caduca e belíssima. Volto para casa. Vem lamber a minha mão o gato peludo, que ronrona docemente e um fogo resplandecente brilha no topo da serraria, à beira do lago.

Só de vez em quando o silêncio é interrompido pelo grito da cegonha batendo no telhado

Se vieres bater à minha porta

é bem possível que eu sequer te ouça.


Anna Akhmatova

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Cler Raichuk



De que servem exércitos de canções
e o encanto das elegias sentimentais?
Para mim, na poesia, tudo tem de ser desmesurado,
e não do jeito como todo mundo faz.

Se vocês soubessem de que lixeira
saem, desavergonhados, os versos,
como dente-de-leão que brota ao pé da cerca,
como a bardana ou o cogumelo.

Um grito que vem do coração, o cheiro fresco de alcatrão,
o bolor oculto na parede...
E, de repente, a poesia soa, calorosa, tenra,
para a minha e para a tua alegria.


 Anna Akhmatova 

quinta-feira, 14 de março de 2013

Photo by Sebastian Fechtrup


De que servem exércitos de canções
e o encanto das elegias sentimentais?
Para mim, na poesia, tudo tem de ser desmesurado,
e não do jeito como todo mundo faz.

Se vocês soubessem de que lixeira
saem, desavergonhados, os versos,
como dente-de-leão que brota ao pé da cerca,
como a bardana ou o cogumelo.

Um grito que vem do coração, o cheiro fresco de alcatrão,
o bolor oculto na parede...
E, de repente, a poesia soa, calorosa, tenra,
para a minha e para a tua alegria."


 Anna Akhmatova 

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Como Pedra Branca

Anna Akhmátova por Nathan Altman, 1914


Como pedra branca no fundo do poço 
dentro de mim está uma memória. 
Nem quero afastá-la, nem posso: 
é sofrimento e é prazer e glória. 

Julgo que quem olhar-me bem de perto 
dentro em meus olhos logo pode vê-la. 
E ficará mais triste e pensativo 
que alguém que escute uma anedota obscena. 

Eu sei que os deuses metamorfoseavam 
os homens em coisas sem tirar-lhes alma. 
Para que o espante da tristeza dure sempre, 
em coisa da memória te mudei. 


Anna Akhmatova 
Tradução de Jorge de Sena

**

Как белый камень в глубине колодца,
Лежит во мне одно воспоминанье.
Я не могу и не хочу бороться:
Оно - веселье и оно - страданье.

Мне кажется, что тот, кто близко взглянет
В мои глаза, его увидит сразу.
Печальней и задумчивее станет
Внимающего скорбному рассказу.

Я ведаю, что боги превращали
Людей в предметы,не убив сознанья,
Чтоб вечно жили дивные печали.
Ты превращен в мое воспоминанье.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013



Vinte e um. Noite. Segunda-feira. 
A silhueta da cidade na neblina. 
Algum desocupado inventou 
essa história de que há amor no mundo. 
E por preguiça ou por tédio, 
todos acreditaram nele e assim viveram: 
esperando encontros, temendo rupturas 
e cantando canções de amor. 
Mas a outros será revelado o segredo 
e sobre estes recairá o silêncio... 
Eu tropecei nele casualmente e, desde então, 
sinto-me como se estivesse doente. 


Anna Akhmátova, 
tradução de Lauro Machado Coelho

domingo, 3 de fevereiro de 2013



A música no jardim
tinha dor inexplicável.
Um cheiro de maresia
vinha das ostras no gelo.

Ele disse: "Sou fiel!"
e tocou-me no vestido.
Tão diverso de um abraço
era o toque dessas mãos.

Como quem acaricia
um gato ou um passarinho,
sorria, com os olhos calmos,
sob o ouro das pestanas.

A voz triste dos violinos
cantava, em meio à névoa:
"Dá graças a Deus que enfim
estás a sós com o amado".


Anna Akhmatova

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Michelle Fennel 


Há na intimidade um limiar sagrado,
encantamento e paixão não o podem transpor -
mesmo que no silêncio assustador
se fundam os lábios e o coração se rasgue de amor.

Onde a amizade nada pode
nem os anos da felicidade mais sublime e ardente,
onde a alma é livre, e se torna estranha
à vagarosa volúpia e seu langor lento.

Quem corre para o limiar é louco,
e quem o alcançar é ferido de aflição.

Agora compreendes porque já não bate,
sob a tua mão em concha, o meu coração.


Anna Akhmatova

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Separação

Santiago Carbonell


Nem semanas nem meses - anos
levamos nos separando. Eis, finalmente,
o gelo da liberdade verdadeira
e as cinzentas guirlandas na fachada dos templos.

Não mais traições, não mais enganos,
e não me terás mais de ficar ouvindo até o amanhecer,
enquanto flui o riacho das provas
da minha mais perfeita inocência.


Anna Akhmátova 
Tradução de Lauro Machado Coelho

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

De "Os Mistérios do Ofício"


Eugene de  Blass


De que servem exércitos de canções
e o encanto das elegias sentimentais?
Para mim, na poesia, tudo tem de ser desmesurado,
e não do jeito como todo mundo faz.
Se vocês soubessem de que lixeira
saem, desavergonhados, os versos,
como dente-de-leão que brota ao pé da cerca,
como a bardana ou o cogumelo.
Um grito que vem do coração, o cheiro fresco de alcatrão,
o bolor oculto na parede...
E, de repente, a poesia soa, calorosa, terna,
Para a minha e tua alegria.


Anna  Akhmatova 

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Música

imagem: Christos Lamprianidis



MÚSICA

Algo de miraculoso arde nela,
fronteiras ela molda aos nossos olhos.
É a única que continua a me falar
depois que todo o resto tem medo de estar perto.
Depois que o último amigo tiver desviado o seu olhar
ela ainda estará comigo no meu túmulo,
como se fosse o canto do primeiro trovão,
ou como se todas as flores explodissem em versos.

Anna Akhmatova


*****


МУЗЫКА


В ней что-то чудотворное горит,
И на глазах ее края гранятся.
Она одна со мною говорит,
Когда другие подойти боятся.

Когда последний друг отвел глаза,
Она была со мной в моей могиле
И пела словно первая гроза
Иль будто все цветы заговорили.


Д.Д.Шостаковичу



* poema foi dedicado ao compositor Dmitri Shostakovich.