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segunda-feira, 1 de abril de 2013

Não sei

fabrizio r.


Há pessoas que têm as mãos cheias de poemas
e os cabelos e a alma.
- Bordam o dia com os versos mais inesperados –

Não sei de onde me surgem as palavras
ou o que fazer com elas.
Arranjá-las em meio à angústia
com o dia a bater-me na face.

Não sei.


Silvia Chueire

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Lembrar

ennio montariello


lembro-me do teu rosto
antes de morreres
para o amor.

lembro-me das chamas
crescendo nas tuas palavras,
do teu olhar a dizê-las.

os dias a serem vida,
não tempo.

lembro-me de ti,
impecável nos atos,
distante da sombra
- pura azáfama –
que agora és.



Silvia Chueire

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Elevar




retirar o silêncio dos olhos,
deixá-los mergulhar no céu,

nas cores e faces humanas.

- desvelá-los -

retirar o silêncio das mãos,
da boca.

deixá-las ser.

cada palavra descoberta

no seu  frescor,

viva como riso

ou choro.

retomar a paixão,
a vida a galopar

corpo afora,

a elevar verbo e tempo.


elevá-los como se fossem prece,

pedido,  ordem,

carícia.


silvia chueire


terça-feira, 22 de maio de 2012

Outono




 nada das folhas secas e cores de terra

do outono.

o sol brilha na sua majestade tropical.

a cidade, um corredor de seres apressados,

sorri a desprezar as estações.


às vezes me falta o estímulo à discrição

trazido pelo outono.



silvia chueire

sábado, 19 de maio de 2012



fala-me das tuas mãos,
por elas passa o meu destino,
a direção clara do meu corpo.
fala-me dos teus gestos,
de como serão os desenhos que farás
para que estendidas as linhas
eu caminhe sobre elas.

fala-me das mil mortes que te habitam,
uma a uma.
do teu desespero em linha reta,
agudo a rasgar-te a carne.

fala-me de todas as palavras
que precisas me falar,
de todas as palavras que escreveste.

fala-me com ênfase,
se não tiveres mais nada a dizer,
de como se esquece um grande amor.

fala-me dessa fratura.


Silvia Chueire

sábado, 12 de maio de 2012

Espero


imagem: - Nenad Karadjinovic



dei-te os dias mais preciosos,
as mãos e o corpo febris,
o pensamento lúcido,
os olhos lavados de ti.

esperei-te,
só se espera a vida.
as tuas palavras costuradas a mim
falavam-me do teu amor.

escuto os dias
desde que me deixaste,
rumo a um deserto,
no silêncio do tempo.

o tempo, meu amor,
é um universo a dançar nos corpos
atravessados de angústia.

espero, ao olhar
a distância de um oceano,
que venhas.
a felicidade é um dia possível,
se estás.


silvia chueire

terça-feira, 1 de maio de 2012

Da poesia




Sussurro mínimo
ao longo do sol que se põe.

A sedução das perguntas,
da beleza.
A canção oculta entre palavras
pensamentos.

Dispersa pelo mundo.

A poesia dos dias
a salvar-me a sanidade.



Silvia Chueire

Uma pedra




Há uma pedra na insônia.
São de pedra as nuvens carregadas e a voz calada.


Um corpo pende no abismo.
Equilibra-se ou não,

como qualquer objeto.


Toda a consciência da pedra,
da luz,

do sangue,

da microscópica importância da existência

se entrechocam .


Silvia Chueire

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Despedida


Despeço-me de ti, as pernas cruzadas sobre o braço do sofá da sala, a música ao fundo, florescida a orquídea, o cão a dormir sem solenidade. A fumaça do cigarro lenta no ar, e nas mãos uma taça de vinho tinto, dos que tu gostas e eu também gosto.

Despeço-me de ti em silêncio . Despeço-me de ti para não ter que me despedir de mim . Uma pessoa não pode viver na dor e na falta a esperar que o tempo volte.

Despeço-me de ti ao som da memória, da visão clara do teu corpo enrodilhado no meu, da visão clara do teu amor colado ao meu. Do teu pranto.
Tantos anos me custaram despedir-me de ti. Tantos anos a conversar contigo sozinha no quarto, a querer beijar-te, a quase ver os teus olhos desejosos a meterem-se nos meus. Memórias.

O amor não é memória. O amor dobra a esquina e temos nosso coração nas mãos. E queremos ofertá-lo a um estranho. Porque por ele o coração saltou-nos do peito. E seus olhos miúdos têm um brilho oculto pela tristeza . E seus gestos diferentes nos atraem, Seu corpo nos chama e o nosso quer atendê-lo. E uma beleza fulge naquele rosto. Nos nossos rostos. E um estranho é sempre um estranho, não és tu, nunca será. Mas a vida usa palavras fora do comum às vezes. E nós, todos nós, queremos amar.

Não é morte, o amor. Nem tempo, nem metafísica, nem psicologias. O amor tem vontade própria, não quer ser explicado. Não vive de reminiscências, elas são apenas a lembrança do que ele um dia foi.

Amor é presente, agora, já. Vida desfraldada , mergulhada no mar, a escalar as encostas das montanhas, a embrenhar-se na selva. O corpo e o que mais pode haver além dele, dedicados a isso. Tu sabes.

Despeço-me de ti ao som de um cello, de séculos atrás, que tu me deste.

Um beijo e adeus.

Silvia Chueire

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Bryce_Cameron_Liston

Lanças o gesto:
asa a debater-se,
foice rasgando o pensamento,
olhos esquecidos de o serem.

Lanças a palavra:
arma mortal,
perdida na carne,
no cerne do outro.

Gesto e palavra :
um só fim.


Silvia Chueire

sexta-feira, 25 de março de 2011

Não posso mais fazer amor contigo: um paradoxo

Pino Daene


Não vou mais fazer amor contigo, dissera-lhe decidido.
A necessidade de controle - de se saber dono de si mesmo, como se o desejo o desmantelasse. Como se em cada orgasmo, naquele momento em que se sentia fora de si, pudesse mesmo deixar de ser definitivamente. A ameaça de para além do prazer, abandonar-se ali. Logo ele, tão cioso de sua auto-suficiência.

Não mais fazer amor com ela, exatamente porque era tão bom fazê-lo. A obsessão que o perseguia. A obsessão por ela e a obsessão de não vir a ser subjugado por ela, pelo amor, de modo que sempre que ela quisesse o teria. A necessidade angustiada e compulsiva de se afastar. Tal qual um pecador se afasta do pecado, ou um jogador se afasta do jogo. Fugir da tentação do demônio. Ele, o ateu. Sabia, no seu íntimo, que ninguém, mulher ou homem, era seu dono, ninguém o possuía. Apesar disso, tinha aquele fantasma a assombrá-lo.

A descoberta da liberdade, ao fazer amor, fora fascinante. O amor no seu estado natural, livre. Era um homem experiente e nunca tinha vivido aquela plenitude. Tinha consciência de que a surpresa não era apenas sua. Vira o rosto dela iluminado. Percebera-lhe a perplexidade, o sorriso no olhar. Sentira-a nos gemidos, na umidade macia do sexo, ele na sua inteireza, a penetrá-la como se aquele tivesse sido sempre o seu lugar. Sabia da entrega daquele corpo, do absoluto que viviam. Estremecimento mútuo. Alegria mútua.

Nem uma vez se sentira só. Nem uma vez quisera não estar ali após o amor, ou sentira a sensação de tédio que o acometera tantas vezes com outras mulheres. Ao contrário, seus corpos encaixavam-se perfeitamente mesmo após fazerem amor. E as conversas eram carregadas de fascínio com as idéias de ambos, de ternura, de confiança, de um desguardar-se antes desconhecido.
No entanto, permanecia o medo. Retornava à sua cabeça a idéia, ridícula, pensava às vezes - de que pudesse ser controlado, dominado. Como se ela fosse uma bruxa que o tivesse enfeitiçado. Temores ancestrais a baterem à sua porta. Como se não soubesse que ela o queria, que também ela vivera tudo aquilo.

Não tinha palavras que traduzissem a importância do que sentira. Exatamente por isso estava determinado a não mais fazê-lo. Não queria sentir necessidade daquela mulher. E sua decisão não dependia de qualquer outro fato que não fosse sentir-se irremediavelmente atraído por ela. Sabia que quando ela o chamasse, iria. E ela, ele tinha a noção exata disso, amava-o e por isso o chamaria mais cedo ou mais tarde.
Viviam um despojamento de si próprios, o paradoxo de exercerem ao mesmo tempo suas individualidades e fundirem-se num só.

Decidira negar-se a fazer amor com ela, como se a sua natureza estivesse colocada num lugar exterior a si. Assombrado pela sensação de que seu desejo não lhe pertencia, mas a ela. Decidia como quem afirma : sou um Homem, ninguém é meu dono. Extinto o ato, extinguir-se-á o efeito, pensava. Decidia seu destino em meio àquelas sensações estranhas e à angústia. Para o poder fazer, culpava-a. Ela, a terrível.

Não percebia que ao desistir dela, abria mão do que de mais humano, mais completamente amoroso e pessoal, jamais vivera. Sua experiência mais íntima, a que nunca poderia ser vivida por outro. Não se dava conta de que faltaria daí em diante uma parte sua. Não apenas o corpo , o calor, os beijos, a presença, as conversas afinadas, mas seu próprio sentido. A possibilidade de sentir-se vivo e inteiro.

Ao afastar-se mergulhava no paradoxo de afirmar sua independência e negar sua natureza.
Por medo de se perder por ela, perdia-se de si mesmo.

Silvia Chueire

quarta-feira, 23 de março de 2011

Levitação


by Hugo Romano

É um movimento que levita, o das mãos a dizerem quase-preces, quase-vidas, quase-sensações. Traz consigo a chama do olhar, a essência de alguma coisa que não podemos definir, algo que arde, eleva-se, nasce do vôo, do mergulho, do fogo, ou do abismo. E quando o gesto se transforma no ato de, tomada a pena, escrever palavras , todo este movimento atinge o auge da transmutação.

As mãos a criarem uma ordem de palavras. Palavras elevando-se como seres recriados, novos no seu esplendor, pássaros estremecidos na sua capacidade de voar. E as mãos a levitarem na enorme distância entre elas e o poema, na curtíssima distância entre elas e o poema.

Aí nos entregamos a um canto que remove todos os obstáculos. E deitamos o corpo, a razão, a desrazão e os sentimentos sem medo, nas mãos das mãos, nas palavras encadeadas.


Silvia Chueire


Sei que o tempo é um truque que inventamos porque o sol se levanta e se põe . É um truque que inventamos para medir o nosso desespero, a nossa alegria, a distância que nos separa do que queremos , a deterioração inevitável do corpo.

Tu reinventas o tempo para poderes me esperar e voar para mim. Sei que me esperas e queres que te espere. E o faço.

Assim, os dias, as horas, são eu a pensar em ti. E as palavras apenas uma escusa para falar-te, para tocar-te, para abreviar os minutos e a minha necessidade de ti.
O sol a bater-me no rosto pela manhã, as palavras trocadas com as pessoas no caminho, a canção ouvida, de passagem, na rua, o sorriso a um amigo. Todos são o amor a esperar por ti. O meu amor depositado na espera.
A minha vida sou eu a amar-te.


Silvia Chueire

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011


trago afogadas no azul
as palavras que diria.

mas o dia é maior que eu
o sol recusa subterfúgios.
não há recanto sem luz,
o mar entra-me pelos sentidos,
e eu me rendo.

será líquido meu destino



Silvia Chueire

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Outono



Olhei para o céu e para o chão, e de novo para o céu,
Era outono. Havia folhas no chão e um céu limpo, quando me disseste naquela manhã repentina, depois de estares na minha casa há muitos dias e na minha cama por um número igual de dias:

- Não é possível ficar, por tua causa não consigo pintar.

Olhei para a folhas secas a teimar com elas, como se me tivessem dito um absurdo direto da sua secura.
Sou uma mulher, e mulheres não devem derramar lágrimas em vão, principalmente no ambiente em que vivemos. E teimei forte. Calada. Não tinha palavras.

-Por que não voltas? Por que não vais? Por que não ficas? Nasciam da minha garganta atropelando-se, contra a minha vontade. Contive-os.

Suponho que uma boa solução era ter dois amantes. um para o verão, nadaríamos juntos, outro para o inverno quando fizesse muito frio, que me aquecesse. Ou talvez quatro, um para cada estação. Porque neste caso, é certo que não me dirias nada e eu não teimaria com as folhas.
Preciso encontrar uma solução razoável para este teu tipo de statement.
uma indiferença digna, de ascendência real, sem angústias. Mais ou menos assim:

- Olha, hoje mudo de amante e pintarás à vontade.

Mas calei.

Engraçado pensei, olhando o céu, outro homem na primavera, escreve seus livros sem problemas e além disso toca um esplêndido violino enquanto me dispo.
Mas era outono. O céu estava muito azul. Era outono e descuidei-me. O outono da cidade nítida, dos pássaros, não te pertencia. Era só meu.
E repetiste:

- Desculpa-me mas é verdade, por tua causa não consigo produzir nada.

As mentiras têm formas engraçadas, fazem-me lembrar aqueles brinquedos de criança. Tubos com espelhos no fundo e cacos de vidro coloridos que conforme giramos mudam as imagens espelhadas e nos encantam. Não pintas por razões que nada têm a ver comigo, quis dizer. Mas nada disse. Não pintas mesmo que eu cuide de tudo para que estejas bem. Não pintas agora porque não consegues te ultrapassar a ti mesmo, Não tens outro sentimento a não ser teu amor por ti . E ele te impede de amar os outros e de pintar. Não amas e te vais. É esta a tua história. É assim que são as coisas, mas não queres saber. E eu me calo.

O da primavera quando é inverno me aconchega em mantas de lã, sob as quais dormimos nus e fazemos amor. Canta-me canções e eu lhe digo poemas. Como fui me descuidar assim? Trocar estações, enganar-me deste modo?

E finalmente eu disse:

- Já entendi. Tu não pintas e a causa disto sou eu, mesmo que poucas vezes façamos amor, ou conversemos, porque precisas pensar nos teus quadros. Mesmo que tenhas todas as horas vagas sem ser incomodado que precisarias. Acho que tens razão, era mesmo hora de ires.

Tive uma enorme saudade da primavera, e depois das mantas de lã – que chegarão a seu tempo - dos violinos e dos olhos cravados em mim. Das canções e da língua que me conhece tanto.
E uma noção absurdamente clara da estupidez de não ter compreendido antes o que te impedia de pintar.

E abri a porta.
- Adeus.


Silvia Chueire

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

"You’ve got to give a little"

Omar Ortiz

Tudo foi um susto. Respirei uma vez. Uma vez apenas antes do beijo. Foi o suficiente para que me ardesse o corpo todo. Depois, foi o delírio. Dias e noites dos quais me lembro feito fossem minutos, segundos a desdobrarem-se em mais que tempo. Milhares de pequenos fragmentos de gestos, palavras, cenários. Uma incongruência de tempo e possibilidade.

O que chamamos vida entrecortada pelo poema, talvez isso. Algo entre o sonho, o desejo do sonho e a sensação de realização deles. Um relógio só aparentemente correto, um oceano de afeto, a disposição de dizer a verdade, a sensibilidade e o sexo. Foi o que bastou.
Suponho que o amor possa acontecer assim e não há realidade que o negue.

O corpo atravessado pela tua marca, a alma dançarina. A sensação da mais íntima de compreensão das coisas.
O sorriso fresco da felicidade. A felicidade tem um sorriso de um frescor ímpar e um olhar rejuvenescido.

O cd toca assim : "you've got to give a little, take a little and let your poor heart brake a little. That's the story of, that's the glory of love ". É uma linda canção. Os americanos acreditam nisso. Eu não. No amor há que haver dor, eles dizem. Não foi o que senti. Nenhum sofrimento naqueles dias. Nada negociado. A glória do amor nos habitava. Estávamos em pleno ar.

De mim o que sei é o vôo, o mergulho. Sem fronteiras. Até onde tiver que ir. Até o corte. Sem penitência. Sem medo.

Não sei mais de ti.

Silvia Chueire

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Afogado


Francesca Strino

Tinha os olhos afogados no medo como se neles só restassem dúvidas.
E quase, sempre quase, fazia o gesto que o redimiria. Iludiam-no uns segundos de coragem.
Eram incertas as coisas, pensava. Uma vida insensata, cheia de perguntas sem respostas. Cheia de precipícios e arestas imprevisíveis.

Nunca a reconheceu quando ela surgiu na sua vida. Apesar de todos os sinais. Do rio de palavras naturalmente partilhadas. Dos olhos de ambos a sorrirem. Do estremecer da pele quando a via. Do desejo a caminhar-lhe os membros. Da ocultíssima ereção até, que o ameaçava ao olhar para o seu decote.
Não a reconheceu. Nem com a lava de ternura a invadir-lhe o peito, o impulso de se deitar nas coxas dela, ou de enredar-se naquele perfume que parecia conhecer desde sempre. Nem com a vontade de saber seu sexo e a impressão de que já sabia.
Não a reconheceu ainda assim. Nem com os acontecimentos a despertarem-lhe todos os sentidos e todas as palavras. Cada momento a abrir uma fissura na pedra que carregava em si. Ele a falar de si, da sua história, nunca antes comentada sequer com outra pessoa, no gozo da liberdade, esta liberdade rara na qual podia ser quem era. Os olhos dela seguindo atentamente seu relato. A compreensão.
Nada foi suficiente para movê-lo de onde estava. Era um homem descrente. Não acreditava na verdade mesmo que a tivesse nas veias. Um homem vencido pelas incertezas. Dias depois, como sempre fizera, pediu que se fosse. Argumentou com o olhar sem brilho e a voz abafada. Insistiu.

Quando ela dobrou a esquina, pensou que talvez estivesse chorando. Que talvez seu corpo doesse agudamente, que talvez aquela sensação de morte fosse ilusão romântica. Contemplou longamente a mulher que desaparecia, sentindo-se esvair, cair com a chuva miúda na rua. Mas não esboçou gesto ou som. Olhou com aqueles olhos afogados a paisagem em torno.
Nenhuma nitidez .


Silvia Chueire

sábado, 16 de outubro de 2010

O tempo


Sei que o tempo é um truque que inventamos porque o sol se levanta e se põe . É um truque que inventamos para medir o nosso desespero, a nossa alegria, a distância que nos separa do que queremos , a deterioração inevitável do corpo.

Tu reinventas o tempo para poderes me esperar e voar para mim. Sei que me esperas e queres que te espere. E o faço.

Assim, os dias, as horas, são eu a pensar em ti. E as palavras apenas uma escusa para falar-te, para tocar-te, para abreviar os minutos e a minha necessidade de ti.
O sol a bater-me no rosto pela manhã, as palavras trocadas com as pessoas no caminho, a canção ouvida, de passagem, na rua, o sorriso a um amigo. Todos são o amor a esperar por ti. O meu amor depositado na espera.
A minha vida sou eu a amar-te.


Silvia Chueire

domingo, 12 de setembro de 2010

Sobre desaparecer

Monika  Timar

Pouco antes dele ir embora eu já sentia a transparência tomando conta de mim, mesmo a minha sombra parecia menos nítida.
Quando ele se foi pensei que não conseguiria ser eu mesma novamente. Pensei que entristeceria até desaparecer . Eu me tornando transparente até que ninguém desse por conta . Nenhum eu. Nada.
A dor física da falta, as lágrimas, a angústia amarrando-me as palavras. Tudo me matando mais um pouco. Deixar de existir não tinha muita importância face ao fato de que ele se fora. Sentia-me uma folha que cai.

É raro o amor . E assim eu o vivo, raridade plena dentro de uma floresta, a densidade da mata úmida a me envolver . Eu inteira no amor . O mundo de palavras, o corpo , a pele a oferecer-se, o sorriso que me cresce da alma para o dia.

Há pessoas que se apaixonam a cada esquina, a cada carta, a cada corpo. Pensam que se apaixonam. Enganam-se.

O tempo ignora todas as criaturas .
Sentir o corpo todo dolorido a carregar um peso insuportável. Silenciar e saber o silêncio a subir-me pelas pernas acima e me envolver o peito, os braços, imobilizar-me. Deitada pensar no que fazer a seguir e não mover um músculo. A tudo isso o tempo ignora. Atravessa-nos e nos faz atravessá-lo impiedosamente. Um pouco como ele fez, no mercy. Nenhum sinal de afeição. O tempo mascando cada um dos nossos dias .
Uma solidão antártica. Frio, vento, dentro e fora. Silêncio.

O amor é um estranho a irromper-nos na vida quando não esperamos, um desconhecido cujo destino não sabemos . Não vive só de palavras, o amor. Ainda que elas reinem nele. Não vive de dúvidas, nem de braços pendidos, ou mãos ameaçadoramente no nosso pescoço. Não sobrevive na exigência que o outro exista apenas para preencher-lhe necessidades. O amor são gestos elevados. Braços a protegerem-nos, mãos a nos acariciarem demoradamente. Boca a subir-nos pelo corpo, a falar-nos ao ouvido.

Deitei-me tantas vezes no sofá a ouvir a música que gostamos, o cão a olhar-me na sua alta preocupação canina. E viajei muitas viagens sobre o que poderia ter sido. Mas o amor também não vive de probabilidades, de como seria se os gestos fossem outros. O amor não sobrevive na impossibilidade do amor. Nem na imobilidade.

O amor voa mundos, adeja-nos a face. E nos leva com ele. Tem asas que nos acolhem. Não teme, não recua. Escala o mundo. Anuncia que chegou, sem pudor.
O amor quer fazer feliz . Quer dar e receber. Não hesita. Não quer saber de discussões filosóficas sobre que é o amor. Quer ser. Livremente.

Numa tarde qualquer, dessas que acontecem poucas vezes, entra-se numa livraria, e lá está o amor. A olhar-nos com seus olhos castanhos, um pequeno sorriso, e algumas palavras carregadas de suavidade. Nós lhe entregamos um sorriso em retribuição, ainda sem saber exatamente o que significa. Mas já com o coração ofertado, batendo demasiado rápido para uma situação aparentemente insignificante. O corpo sabe sempre antes.

Os dias campearam comigo o cerrado, os pastos, as montanhas. Cavalos a me carregarem pelo escuro. A me levarem penetrada pela cegueira, pela dor. Fui até onde não podia mais ir. Fui até onde nunca pensei que fosse.

Um destes dias percebi que começava a ter consistência e vontade. A falta roçando-me eventualmente. Eu a recuperar o meu corpo, o sorriso sem medo, a pessoa inteira que sempre fui.


Silvia Chueire

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Essência


há um blues traçado
entre as minhas palavras
e as minhas mãos,
a equilibrar-se frágil como lágrima.

lamento e riso tocam as minhas pálpebras,
ritmo e desconsolo apontam caminhos
entre os meus cabelos.

deixo-me levar.


Silvia Chueire