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sábado, 13 de abril de 2024

 


Será mesmo verdade que quando te fotografam te roubam pouco a pouco a alma até não ficar alma alguma mas só o corpo todo virado do avesso, suspenso no nada? Não parece que assim seja. Os olhos começam a ficar tristes. É por aí que tudo começa. O riso começa a ser o de uma pessoa que sente que é o riso de outra que se ri. A própria voz sofre ligeiras alterações que permitem uma maior distância, como num exercício de esgrima num último ataque. E o tempo nunca mais acaba de passar, enquanto minuto a minuto todos os relógios avançam. É disto que se trata.

Pedro Paixão


#art: MARCOS GUINOZA

quarta-feira, 12 de outubro de 2022

Janelas do meu desejo

Igor Shulman

No quarto todo branco, no velho bairro de Barcelona, os nossos corpos eram atirados sobre uma cama deitada no chão de madeira, uma jangada à deriva no mar. O prazer queima a pele, qualquer coisa de inextinguível. Nunca provarei os beijos que te dou, nem o arrepio que te percorre quando passo os leves dedos sobre as tuas costas que não terminam nunca, a ninguém saberei mentir como te minto quando te digo que sou teu para te dizer que te quero minha.

Apanhei o avião das oito e meia para o meu desejo me levar como bagagem de mão. Até Barcelona, basta. Ao mostrar um passaporte perguntam-me pelo propósito da visita. Não vou confessar que procuro a mulher que me virou a vida do avesso e pretendo assassinar no caso de ser viável matar o que vive em nós sem nós próprios falecermos. Espera-me, no meio de um hangar de gigantes, um ponto — uma pequena mancha que vai crescendo, ganhando forma e figura, movimento, cor, sapatos e mãos — uma mancha a que me abraço todo fechando os olhos com força para não ver mais do que já vi e é sempre demais. Pode ser assustador voltar a ver quem mais se deseja por ser ligeiramente outra a pessoa que te aguarda, e precisas de longos e ansiosos segundos para ligares uma série de imagens fixas presas no passado a uma coisa viva de múltiplas dimensões que está à tua frente para então poderes ficar temporariamente sossegado de que ainda deve ser a pessoa que jurou que te amava, que por ti morreria — uma prova que julgas excessiva, muito menos definitiva.


Pedro Paixão 

sábado, 28 de maio de 2022


Não sonhas. Morres um pouco de manhã e ao meio do dia quando o sol mais queima. Tens de continuar. Tens de esquecer. Não aguentas mais. Tens de acabar, matar, recomeçar a viver. Só que ela está presa por dentro e tu agarrado a ela por um nó da garganta e não sabes o que deves deitar fora, arrancar, vomitar para que ela te saia de dentro. Sais à noite com definitivos propósitos de não voltares sozinho. Compões dentro da cabeça uma mulher com um bocadinho disto e um bocadinho daquilo e esperas que bata certo. Levas um bocado do tecido rasgado e queres encontrar o todo. Mas não encontras ninguém. Pior, encontras alguém que te vem provar sem remissão que não a vais poder substituir tão facilmente porque não há mais nada no mundo inteiro depois dela senão um deserto de tempo que se estende à tua frente onde tudo se torna insignificante e pequenino. Começas a beber, a fazeres-te mal, porque estás triste e não acreditas em nada senão na dor. Queres morrer e não podes e nem sequer coragem tens para te matar. E quando ainda pensas poder voltar atrás, também sabes que não é possível voltar atrás porque tu estás num mundo e ela noutro, os dois que tão depressa se afastam, encerrados em planas fotografias em que estão abraçados e nus e já não somos nós.

 

Pedro Paixão

— Porque se matam as saudades, Nos teus braços morreríamos

quarta-feira, 18 de maio de 2022


Dario Campanile 


As palavras preenchem abismos. São pontes de madeira e aço fino. Somos todos em forma de palavras. As palavras machucam, doem, cortam. Anunciam a paz para poderem declarar a guerra.

As palavras são muito mais do que palavras.

Há palavras sonoras e palavras murmúrios. Palavras meigas revoltam-se subitamente bruscas. Só algumas são de confiar sem receio. Há palavras que mostram o que outras escondem, embora raras: duas, três, no máximo meia dúzia. 

Há palavras que incendeiam almas, prisões, países. As mais verdadeiras e humildes ardem sozinhas, querem ser fumo sossegadamente.

Por vezes meia palavra basta, por vezes palavra e meia não serve de nada. Uma mesma palavra para sempre repetida, todas as outras congeladas dentro de um frigorífico. Sem palavras é o silêncio. O silêncio por detrás das palavras.

Choramos todos na mesma língua. Ao dormir somos todos iguais.


Pedro Paixão

sexta-feira, 6 de maio de 2022

 


A meio da noite pediu-me que a levasse a casa. Fazia muito frio. Não sei o que se passava. Tudo tão rápido. Uma história de amor é um instante. Amor? Há pouco tempo. Ela já estava vestida e eu ainda estava dentro da cama. Disse-lhe que não tinha carro, que o tinha emprestado. Ficou furiosa. Eu disse que chamava um táxi. Ela disse que não valia a pena.

Continuei a olhar para o branco das paredes. Tinha-a conhecido dias antes. Tinha conseguido fazê-la corar. Nunca pensei que ela me quisesse e quis-me. Ela também não devia saber quase nada.

Podia ter-lhe dito: "Não vás, fica". Talvez ficasse. Talvez precisasse que eu lhe pedisse para ficar. Talvez tivesse medo. Não disse nada. Talvez fosse o bastante agarrá-la por um braço. Talvez tivesse medo.

Podia ter-me dito: "Obrigada por estes dias. Julguei-me feliz. A ilusão é muito importante". Não disse nada, estava furiosa. Se calhar por eu continuar deitado, nada fazer para a impedir de partir, nem uma palavra, nada. Fazia muito frio. Era a meio da noite. Não havia razão para partir.

Já disse: ela saiu furiosa. Eu continuei deitado. Nada mais dissemos que valha a pena repetir. O amor é que é cada vez mais rápido. Sente-se só a passar. Não tem tempo para ficar. Ninguém sabe o que está a acontecer, nem se tem importância ou não tem importância ninguém saber o que está a acontecer. Disto tenho a certeza. Voltarei a adormecer e a acordar. Os dias passarão. Ela não voltará. Eu não voltarei. Não vale a pena continuar. Tenho poucas forças. Nunca esteve tanto frio assim de repente.


Pedro Paixão

quarta-feira, 13 de abril de 2022

O pecado de viver para ser amado


Ele era a trágica vítima dos seus próprios desejos, das suas próprias paixões. Para onde quer que fugisse levava consigo o seu próprio inimigo. Perguntava-se: Como será possível alguém lúcido amar-se a si próprio e, não se amando a si próprio, amar alguém? Como poderá acontecer desejar tanto o que mais me faz doer? Uma paixão que não dá cabo de nós não é uma verdadeira paixão. Um desejo supremo que não nos conduza à nossa perda não foi senão um meio para um medíocre objetivo.

Tudo fez para ser amado, como se fosse o caso de se poder ser amado por sensatas e previsíveis razões. Pode-se ser um assassino e ser-se amado. Mas poderá um assassino amar grandemente? Poderá um exímio pianista ser um reles criminoso? Nada há que se possa fazer para que o outro nos ame. O amor acontece e é louco. Se julgamos alcançá-lo é à custa de um equívoco: o que tomamos por amor do outro é dependência, necessidade, escravidão. Qualquer presente é uma algema, qualquer beijo um doce veneno. Quando o outro repara na invisível gaiola, voa para longe e nós regressamos à nossa, agora desprezível, solidão. Quisemos passar por quem não éramos, fingir o que não podíamos e, justamente, arrancam-nos a máscara. Então descobrimos como era falso o amor que julgávamos sentir pela pessoa que nos escapou por entre os dedos por não apreciar sentir-se prisioneira. O amor é quase sempre e unicamente amor próprio: o outro é o meio através do qual nos amamos, nos suportamos sem razão para isso, um instrumento para manusear a nossa irremediável perdição. É injusto que o que sonhamos perfeito seja a mais dolorosa das ilusões.

É possível que nunca ninguém tenha amado verdadeiramente.


Pedro Paixão

sábado, 28 de agosto de 2021

Roberto-Ferri


Se não te amar, não amarei. Se não me amares, não serei amado. Sou o espelho da tua alma alvoraçada. O único de verdade onde te podes reconhecer e por fim encontrar. Antes de ti não sabia quem era, andava no escuro à tua procura. Quando te vi, foi a mim que vi: uma mesma melancolia nos olhos, um sorriso a fazer pouco do mundo, uma maneira de andar como senão tocasses o chão com os pés. Tinhas menos vinte anos, a vida por fazer, a certeza de que os dois seríamos um só que nada nem ninguém poderia afastar. O amor, o meu outro eu. Sim, meu amor, eu sou tu e tu és eu. Vem daqui a inexpugnável, embora inverificável, certeza que tinhas de ser tu, só tu, que não podia ser mais ninguém. Senão seria outro, sem saber quem seria, perdido o meu nome. Tu eras o que vem, o futuro que abre o presente. Se não fosses tu não valia a pena.

Amo-me ainda quando te amo.


Pedro Paixão


quarta-feira, 6 de julho de 2011



Não sou mais que um fundo poço. Sou extremista em individualismo, em determinação, em teimosia e em solidão. Em egoismo, em ambição, em amor-próprio. Desafio-me com facilidade para lutas cegas, exijo sempre metas distantes, invejo todo o saber, autorizo-me a qualquer tipo de iniciação. Tudo me urge. Não posso apreciar o chamado "ócio". Os planaltos são-me insuportáveis. Prefiro as quedas repentinas. É aqui que entras tu meu amor.
Se eu própria me bastasse fugiria para sempre. Do teu corpo, das mãos quentes.
Mas sou frágil como um grão de neve. Derreto-me com leves sussurros e a ternura estonteia-me. Sofro de constante abstinência de amor. 

 Pedro Paixão

quinta-feira, 1 de abril de 2010



Eu não parava de falar. Narrava minúcias biográficas, lembrava teoremas de geometria, dizia-te os nomes das árvores. Eu queria dizer-te tudo. Tudo o que sabia e tinha aprendido durante anos talvez ainda servisse para alguma coisa. Julgava eu que era a maneira mais segura de te prender a mim porque uma coisa pede outra, uma palavra pede outra palavra, uma história outra história, um fim outro fim. E enquanto não terminasse tu ias querer saber o resto.

Pedro Paixão

sábado, 9 de janeiro de 2010

Jeremy Lipking

Quase gosto da vida que tenho. Não foi fácil habituar-me a mim. Tive de me desfazer das coisas mais preciosas, entre elas de ti. Sim, meu amor, tive de escolher um caminho mais fácil. O dinheiro também tem a sua poesia. E tenho tido sorte. Deixei para trás a obrigação de mudar o mundo. Já cometi corrupções. Só ainda sinto dificuldades em mentir, mas também aqui vejo melhoras. Trata-se só de deformar ligeiramente o que vai acontecendo, não de inventar tudo de novo. Tenho mais alguns anos diante de mim e depois quero acabar de repente. Não sei se valeu a pena mas também não me pergunto se valeu a pena. Há muitas coisas assim. Não é desistir, é só dar demasiada importância a coisas que não a têm. A vida é uma delas. Ganha um valor particular quando deixamos de a encarar como o centro de tudo. É só por acaso que gostamos das flores e do mar. E, claro, que é um bom acaso. Mas mais do que isso não. Quase gosto da vida que tenho. Quando a quis toda não gostava de mim. Agora há dias em que aceito que o tempo passe por mim e me leve para onde só ele sabe.
...Vivo sozinho. Passam pessoas, mas nunca ficam por muito tempo. A partir de certa altura intrometem-se tédios por entre as frases e não sabemos continuar. Não insisto. Há muitas pessoas. Não vale ter medo. Há muito que o amor mostrou ser um fracasso. No dia seguinte, no escritório, esperam-me problemas por resolver e decisões que valem dinheiro. Não posso sofrer. Claro que por vezes me sinto triste como toda a gente. Mas é uma tristeza doce, como um descanso. E como não espero nada, não faço nada. De uma maneira ou de outra também acabarei por adormecer esta noite.


Pedro Paixão, Quase gosto da vida que tenho

sábado, 7 de novembro de 2009

As coisas pelo nome



Eu não sou o meu nome. Eu sou o teu nome escrito do avesso. Eu sou o meu nome encostado à tua cabeça. O meu nome que foge de mim. O teu nome e o meu nome atados com cordas. O teu nome sou eu quando me debruço por cima do teu ombro. O meu nome a fazer uma pirueta. O meu nome a cair lentamente sobre a tua cama estreita de mulher. O teu nome dentro da minha boca. Sou eu a pedir-te que repitas o meu nome, sussurro a sussurro, letra a letra. Sou eu a dizer o teu nome que trago debaixo da língua. O teu nome no meu sexo estampado. O meu nome no teu sexo estrela. O meu nome é um sexo levantado. O meu nome é uma carícia que me fazes por cima da minha cicatriz. O meu nome é a cicatriz a meio do teu corpo. O meu nome plana por cima das planícies em busca do teu nome. O meu nome cai a pique junto ao teu nome. Nunca digas o meu nome. O meu nome não existe. Não vem em nenhuma página escrita. O meu nome é um cifra escrita a verde ultramarino. Verde ultramarino é a cor de que mais gostam os nossos nomes. O meu nome sobre o teu nome. O teu nome sobre o meu nome. Os nomes muito perto. Os nomes muitos. Os nomes exaltados. O meu nome em cadência lenta. O meu nome é forte como um bicho selvagem. Os nossos nomes percorrem as paisagens como cavalos endoidecidos. Quem diz o meu nome diz amor, qualquer coisa aflita. Quem diz o teu nome deseja ser atingido por um raio, elevado aos céus. O meu nome por dentro do teu nome. O teu nome a pedir perdão por tudo. O meu nome, o teu nome, agarrados por cordas, a cair num precipício. Os nossos nomes são coisas que se comem por dentro. As coisas pelos nossos nomes são aves sagradas. Nome a nome, coisa a coisa. O sol morre dentro do meu nome, na minha boca. O teu nome abriga numa mão fechada o que resta do meu nome. Nomes muito belos. Um nome sem nome. Um nome inefável, inomável. Um nome que ninguém conhece. Só o teu nome sabe o meu nome de cor. O meu nome a subir pelo teu. O teu nome repete o meu nome, nome a nome, sílaba a sílaba. As coisas pelos seus nomes. Os nomes pelas suas coisas. Cada coisa com seu nome, o nome sem fim. Cada nome com sua coisa. O nome do nome no umbigo do mundo.


Pedro Paixão