Mostrando postagens com marcador Mário Quintana. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Mário Quintana. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 6 de maio de 2022

Canção para uma valsa lenta

 


Minha vida não foi um romance…

Nunca tive até hoje um segredo.

Se me amas, não digas, que morro

De surpresa… de encanto… de medo…


Minha vida não foi um romance,

Minha vida passou por passar.

Se não amas, não finjas, que vivo

Esperando um amor para amar.


Minha vida não foi um romance…

Pobre vida… passou sem enredo…

Glória a ti que me enches a vida

De surpresa, de encanto, de medo!


Minha vida não foi um romance…

Ai de mim… Já se ia acabar!

Pobre vida que toda depende

De um sorriso… de um gesto… um olhar…


Mario Quintana 

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Poesia

painting by Vladimir Volegov


Impossível qualquer explicação: ou a gente aceita à primeira vista, ou não aceitará nunca: a poesia é o mistério evidente. Ela é óbvia, mas não é chata como um axioma. E, embora evidente, traz sempre um imprevisível, uma surpresa, um descobrimento.


Mário Quintana

Poema do livro “Porta Giratória”

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Três amores

as três graças Yvonne Jeanette Karlsen 2008


Três amores... Quem me deu
Tão estranha sorte assim?
Três amores, tenho-os eu
E nenhum me tem a mim!


Mário Quintana - Poesia Completa
Ed. Nova Aguilar, 2006
Preparativos de Viagem p. 767

domingo, 3 de janeiro de 2016

"Noturno"


A profile of a woman looking at the stars Alois Heinrich Priechenfried imgkid com


Não sei por que, sorri de repente
E um gosto de estrela me veio na boca...
Eu penso em ti, em Deus, nas voltas inumeráveis que fazem os
caminhos...
Em Deus, em ti, de novo...
Tua ternura tão simples...
Eu queria, não sei por que, sair correndo descalço pela noite imensa
E o vento da madrugada me encontraria morto junto de um arroio,
Com os cabelos e a fronte mergulhados na água Límpida...
Mergulhados na água límpida, cantante e fresca de um arroio!


Mário Quintana  

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Os poemas



Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam voo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhoso espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...


Mário Quintana,  Esconderijos do tempo

sábado, 6 de setembro de 2014

ennio montariello


CUIDADO! 

A nossa própria alma apanha-nos em flagrante nos espelhos que olhamos sem querer.

Mário Quintana - Caderno H

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Bem-aventurados


Jean Garton Hildebrant

Bem-aventurados os pintores escorrendo luz
Que se expressam em verde
Azul
Ocre
Cinza
Zarcão!

Bem-aventurados os músicos..
E os bailarinos
E os mímicos
E os matemáticos...
Cada qual na sua expressão!

Só o poeta é que tem de lidar com a ingrata
linguagem alheia...

A impura linguagem dos homens!


Mário Quintana - Apontamentos de historia sobrenatural

sábado, 11 de janeiro de 2014

Torre azul



é preciso construir uma torre
- uma torre azul para os suicidas.
têm qualquer coisa de anjo esses suicidas voadores,
qualquer coisa de anjo que perdeu as asas.
é preciso construir-lhes um túnel
- um túnel sem fim e sem saída
e onde um trem viajasse eternamente
como uma nave em alto mar perdida.
é preciso construir uma torre...
é preciso construir um túnel...
é preciso morrer de puro,
puro amor!


Mário Quintana,  Baú de espantos. Rio de Janeiro: Globo, 1986.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Para Cecília Meireles



Nós colhíamos flores de hastes muito longas
E cujos nomes nem ao menos conhecíamos...
E nem sequer, também, sabíamos os nossos nomes...
E para quê, se um para o outro éramos Tu, apenas...
Ou quem sabe a Morte nos houvera bordado
numa tapeçaria
A que o vento emprestasse a vida por um momento?
E por isso os nossos gestos eram ondulantes como
as plantas marinhas
E as nossas palavras como asas suspensas no vento...


Mario Quintana
In: Preparativos de Viagem


quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Depois

Danielle Richard


Nem a coluna truncada:
Vento escorrendo cores.
Cor dos poentes nas vidraças.
Cor das tristes madrugadas.
Cor da boca...
Cor das tranças...
Das tranças avoando loucas
Sob sonoras arcadas...
Cor dos olhos...
Cor das saias
Rodadas...
E a concha branca da orelha
Na imensa praia
Do tempo.


Mário Quintana - O Aprendiz de feiticeiro

sábado, 2 de novembro de 2013

Do eterno mistério

Chrsitian Schloe


"Um outro mundo existe.., uma outra vida..."
Mas de que serve ires para lá?
Bem como aqui, tu'alma atônita e perdida
Nada compreenderá...

Mário Quintana - O Aprendiz de Feiticeiro

sábado, 19 de outubro de 2013

Liberdade Condicional



Poderás ir até a esquina
comprar cigarros e voltar
ou mudar-te para a China
- só não podes sair de onde tu estás.


Mario Quintana, A vaca e o Hipogrifo

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

A letra e a música

Anna Razumovskaya


Quando nos encontramos
Dizemo-nos sempre as mesmas palavras que todos os
amantes dizem...
Mas que nos importa que as nossas palavras sejam as
mesmas de sempre?
A música é outra!


Mário Quintana - A cor do invisível

domingo, 13 de outubro de 2013

A janela



Sento me a mesa. Quem sabe? Quem se senta, se tenta... 60, 70, escrevo, arredondando caprichosamente os zeros. E o burro do papel me fica incompreensivelmente olhando, na espera inútil dos 80. O papel está hoje com uma abominável falta de imaginação. Continua, apenas, olhando-me: vazio, mais quadrado do que nunca. Porque o papel é uma janela que, em vez de a gente espiar por ela, ela é que espia para a gente...

Mário Quintana - Caderno H

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

O Cais

Vicente Romero


Naquele nevoeiro
Profundo profundo...
Amigo ou amiga,
Quem é que me espera?

Quem é que me espera,
Que ainda me ama,
Parado na beira
Do cais do Outro Mundo?

Amigo ou Amiga
Que olhe tão fundo
Tão fundo em meus olhos
E nada me diga...

Que rosto esquecido...
ou radiante face
Puro sorriso
De algum novo amor?!


Mário Quintana - O Aprendiz de feiticeiro

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Canção de Domingo

Hai Trinh Xuan


Que dança que não se dança?
Que trança não se destrança?
O grito que voou mais alto
Foi um grito de criança.

Que canto que não se canta?
Que reza que não se diz?
Quem ganhou maior esmola
Foi o Mendigo Aprendiz.

O céu estava na rua?
A rua estava no céu?
Mas o olhar mais azul
Foi só ela quem me deu!   


Mário Quintana

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Dos livros

Anatoly Piatkevich


Não percas nunca, pelo vão saber,
A fonte viva da sabedoria.
Por mais que estudes, que te adiantaria,
Se a teu amigo tu não sabes ler?


Mário Quintana - O Aprendiz de feiticeiro

sábado, 24 de agosto de 2013

Noturno

Christian Schloe


Não sei por que, sorri de repente
E um gosto de estrela me veio na boca...
Eu penso em ti, em Deus, nas voltas inumeráveis que fazem os
caminhos...
Em Deus, em ti, de novo...
Tua ternura tão simples...

Eu queria, não sei por que, sair correndo descalço pela noite imensa
E o vento da madrugada me encontraria morto junto de um arroio,
Com os cabelos e a fronte mergulhados na água Límpida...
Mergulhados na água límpida, cantante e fresca de um arroio!


Mário Quintana - O Aprendiz de Feiticeiro


sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Se o poeta falar num gato




Se o poeta falar num gato, numa flor,
num vento que anda por descampados e desvios
e nunca chegou à cidade...
se falar numa esquina mal e mal iluminada...
numa antiga sacada... num jogo de dominó...
se falar naqueles obedientes soldadinhos de chumbo que
morriam de verdade...
se falar na mão decepada no meio de uma escada
de caracol...
Se não falar em nada
E disser simplesmente tralalá... Que importa?
Todos os poemas são de amor!


Mário Quintana - Esconderijos do Tempo