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sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

 



Se de tudo fica um pouco,

mas por que não ficaria

um pouco de mim? no trem

que leva ao norte, no barco,

nos anúncios de jornal,

um pouco de mim em Londres,

um pouco de mim algures?

na consoante?

no poço?


Carlos Drummond de Andrade 

quarta-feira, 20 de abril de 2022

Tarde de maio

 



Como esses primitivos que carregam por toda parte o maxilar inferior de seus mortos,

assim te levo comigo, tarde de maio,

quando, ao rubor dos incêndios que consumiam a terra,

outra chama, não perceptível, e tão mais devastadora,

surdamente lavrava sob meus traços cômicos,

e uma a uma, disjecta membra, deixava ainda palpitantes

e condenadas, no solo ardente, porções de minh'alma

nunca antes nem nunca mais aferidas em sua nobreza

sem fruto.


Mas os primitivos imploram à relíquia saúde e chuva,

colheita, fim do inimigo, não sei que portentos.

Eu nada te peço a ti, tarde de maio,

senão que continues, no tempo e fora dele, irreversível,

sinal de derrota que se vai consumindo a ponto de

converter-se em sinal de beleza no rosto de alguém

que, precisamente, volve o rosto, e passa...

Outono é a estação em que ocorrem tais crises,

e em maio, tantas vezes, morremos.


Para renascer, eu sei, numa fictícia primavera,

já então espectrais sob o aveludado da casca,

trazendo na sombra a aderência das resinas fúnebres

com que nos ungiram, e nas vestes a poeira do carro

fúnebre, tarde de maio, em que desaparecemos,

sem que ninguém, o amor inclusive, pusesse reparo.

E os que o vissem não saberiam dizer: se era um préstito

lutuoso, arrastado, poeirento, ou um desfile carnavalesco.

Nem houve testemunha.


Não há nunca testemunhas. Há desatentos. Curiosos, muitos.

Quem reconhece o drama, quando se precipita, sem máscara?

Se morro de amor, todos o ignoram

e negam. O próprio amor se desconhece e maltrata.

O próprio amor se esconde, ao jeito dos bichos caçados;

não está certo de ser amor, há tanto lavou a memória

das impurezas de barro e folha em que repousava. E resta,

perdida no ar, por que melhor se conserve,

uma particular tristeza, a imprimir seu selo nas nuvens.


© CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

In Claro enigma, 1951

.......

Fraga e Sombra

 



A sombra azul da tarde nos confrange.

Baixa, severa, a luz crepuscular.

Um sino toca, e não saber quem tange

é como se este som nascesse do ar.


Música breve, noite longa. O alfanje

que sono e sonho ceifa devagar

mal se desenha, fino, ante a falange

das nuvens esquecidas de passar.


Os dois apenas, entre céu e terra,

sentimos o espetáculo do mundo,

feito de mar ausente e abstrata serra.


E calcamos em nós, sob o profundo

instinto de existir, outra mais pura

vontade de anular a criatura.


Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 13 de abril de 2022

As Contradições Do Corpo⠀

Monika Luniak


Meu corpo não é meu corpo,⠀

é ilusão de outro ser.⠀

Sabe a arte de esconder-me⠀

e é de tal modo sagaz⠀

que a mim de mim ele oculta.⠀

Meu corpo, não meu agente,⠀

meu envelope selado,⠀

meu revólver de assustar,⠀

tornou-se meu carcereiro,⠀

me sabe mais que me sei.⠀ ⠀

Meu corpo apaga a lembrança⠀

que eu tinha de minha mente.⠀

Inocula-me seu patos,⠀

me ataca, fere e condena⠀

por crimes não cometidos.⠀ ⠀

O seu ardil mais diabólico⠀

está em fazer-me doente.⠀

Joga-me o peso dos males⠀

que ele tece a cada instante⠀

e me passa em revulsão.⠀ ⠀

Meu corpo inventou a dor⠀

a fim de torná-la interna,⠀

integrante do meu Id,⠀

ofuscadora da luz⠀

que aí tentava espalhar-se.⠀ ⠀

Outras vezes se diverte⠀

sem que eu saiba ou que deseje,⠀

e nesse prazer maligno,⠀

que suas células impregna,⠀

do meu mutismo escarnece.⠀ ⠀

Meu corpo ordena que eu saia⠀

em busca do que não quero,⠀

e me nega, ao se afirmar⠀

como senhor do meu Eu⠀

convertido em cão servil.⠀ ⠀

Meu prazer mais refinado,⠀

não sou eu quem vai senti-lo.⠀

É ele, por mim, rapace,⠀

e dá mastigados restos⠀

à minha fome absoluta.⠀ ⠀

Se tento dele afastar-me,⠀

por abstração ignorá-lo,⠀

volta a mim, com todo o peso⠀

de sua carne poluída,⠀

seu tédio, seu desconforto.⠀ ⠀

Quero romper com meu corpo,⠀

quero enfrentá-lo, acusá-lo,⠀

por abolir minha essência,⠀

mas ele sequer me escuta⠀

e vai pelo rumo oposto.⠀

⠀ 

Já premido por seu pulso⠀

de inquebrantável rigor,⠀

não sou mais quem dantes era:⠀

com volúpia dirigida,⠀

saio a bailar com meu corpo.⠀

Carlos Drummond de Andrade

domingo, 13 de agosto de 2017

A educação do ser poético

Daniel Gerhartz 

Será a poesia um estado de infância relacionada com a necessidade de jogo, a ausência de conhecimento livresco, a despreocupação com os mandamentos práticos de viver – estado de pureza da mente, em suma?

Acho que é um pouco de tudo isso, se ela encontra expressão cândida na meninice, pode expandir-se pelo tempo afora, conciliada com a experiência, o senso crítico, a consciência estética dos que compõem ou absorvem poesia.

Mas, se o adulto, na maioria dos casos, perde essa comunhão com a poesia, não estará na escola, mais do que em qualquer outra instituição social, o elemento corrosivo do instinto poético da infância, que vai fenecendo, à proporção que o estudo Sistemático se desenvolve, ate desaparecer no homem feito e preparado supostamente para a vida? Receio que sim.

A escola enche o menino de matemática, de geografia, de linguagem, sem, via de regra, fazê-lo através da poesia da matemática, da geografia, da linguagem.

A escola não repara em seu ser poético, não o atende em sua capacidade de viver poeticamente o conhecimento e o mundo.
Sei que se consome poesia nas salas de aula, que se decoram versos e se estimulam pequenas declamadoras, mas será isso cultivar o núcleo poético da pessoa humana?

Oh, afastem, por favor, a suspeita de que estou acalentando a intenção criminosa de formar milhões de poetinhas nos bancos da escola maternal e do curso primário.

Não pretendo nada disto, e acho mesmo que o uso da escrita poética na idade adulta costuma degenerar em abuso que nada tem a ver com a poesia.

Fazem-se demasiados versos vazios daquela centelha que distingue uma linha de poesia, de uma linha de prosa, ambas preenchidas com palavras da mesma língua, da mesma época, do mesmo grupo cultural, mas tão diferentes.

Se há inflação de poetas significantes, faltam amadores de poesia – e amar a poesia é forma de praticá-la, recriando-a.

O que eu pediria à escola, se não me faltassem luzes pedagógicas, era considerar a poesia como primeira visão direta das coisas e, depois, como veículo de informação prática e teórica, preservando em cada aluno o fundo mágico, lúdico, intuitivo e criativo, que se identifica basicamente com a sensibilidade poética.

Não seria talvez despropositado cuidar de uma extensão poética das escolinhas de arte, esta ideia maravilhosa que Augusto Rodrigues tirou de sua formação humana de artista para a realidade brasileira. Longe de ser uma fábrica alarmante de versejadores infantis, essa extensão, curso ou atividade autônoma, ou que nome lhe coubesse, daria à criança condições de expressar sua maneira de ver e curtir a relação poética entre o ser e as coisas. Projeto de educação para a poesia (fala-se hoje em educação artística no ensino médio, quando o mais razoável seria dizer educação pela arte).

A vocação poética teria aí uma largada franca, as experiências criativas gozariam de clima favorável sem que tal importasse na obrigação de alcançar resultados concretos mensuráveis em nível escolar.

Sei de casos em que um engenheiro, por exemplo, aos 30, 40 anos, descobre a existência da poesia…

Não poderia tê-la descoberto mais cedo, encontrando-a em si mesmo, quando ela se manifestava em brinquedos, improvisações aparentemente absurdas, rabiscos, achados verbais, exclamações, gestos gratuitos?

Alguma coisa que se bolasse nesse sentido, no campo da Educação, valeria como corretivo prévio da aridez com que se costuma transcrever os destinos profissionais, murados na especialização, na ignorância do prazer estético, na tristeza de encarar a vida como dever pontilhado de tédio.

E a arte, como a educação e tudo o mais, que fim mais alto pode ter em mira senão este, de contribuir para a educação do ser humano à vida, o que, numa palavra, se chama felicidade?


Carlos Drummond de Andrade (Transcrito do Jornal do Brasil, Rio de Janeiro – RJ, 20.07.74)

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

América



Sou apenas um homem.
Um homem pequeno à beira de um rio.
Vejo as águas que passam e não as compreendo.
Sei apenas que é noite porque me chamam de casa.
Vi que amanheceu porque os galos cantaram.
Como poderia compreender-te, América?
É muito difícil.
Passo a mão na cabeça que vai embranquecer.
O rosto denuncia certa experiência.
A mão escreveu tanto, e não sabe contar!
A boca também não sabe.
Os olhos sabem – e calam-se.
Ai, América, só suspirando.
Suspiro brando, que pelos ares vai se exalando.

Lembro alguns homens que me acompanhavam e hoje não me acompanham.
Inútil chamá-los: o vento, as doenças, o simples tempo
dispersaram esses velhos amigos em pequenos cemitérios do interior,
por trás de cordilheiras ou dentro do mar.
Eles me ajudariam, América, neste momento
de tímida conversa de amor.

Ah, por que tocar em cordilheiras e oceanos!
Sou tão pequeno (sou apenas um homem)
e verdadeiramente só conheço minha terra natal,
dois ou três bois, o caminho da roça,
alguns versos que li há tempos, alguns rostos que contemplei.
Nada conto do ar e da água, do mineral e da folha,
ignoro profundamente a natureza humana
e acho que não devia falar nessas coisas.

Uma rua começa em Itabira, que vai dar no meu coração.
Nessa rua passam meus pais, meus tios, a preta que me criou.
Passa também uma escola – o mapa -, o mundo de todas as cores.
Sei que há países roxos, ilhas brancas, promontórios azuis.
A terra é mais colorida do que redonda, os nomes gravam-se
em amarelo, em vermelho, em preto, no fundo cinza da infância.
América, muitas vezes viajei nas tuas tintas.
Sempre me perdia, não era fácil voltar.
O navio estava na sala.
Como rodava!

As cores foram murchando, ficou apenas o tom escuro, no mundo escuro.
Uma rua começa em Itabira, que vai dar em qualquer ponto da terra.
Nessa rua passam chineses, índios, negros, mexicanos, turcos, uruguaios.
Seus passos urgentes ressoam na pedra,
ressoam em mim.
Pisado por todos, como sorrir, pedir que sejam felizes?
Sou apenas uma rua
numa cidadezinha de Minas
humilde caminho da América.

Ainda bem que a noite baixou: é mais simples conversar à noite.
Muitas palavras já nem precisam ser ditas.
Há o indistinto mover de lábios no galpão, há sobretudo silêncio,
certo cheiro de erva, menos dureza nas coisas,
violas sobem até à lua, e elas cantam melhor do que eu.

Canto uma canção,
de viola ou banjo,
dentes cerrados,
alma entreaberta,
decanta a memória,
do tempo mais fundo
quando não havia
nem casa nem rês
e tudo era rio,
era cobra e onça,
não havia lanterna
e nem diamante,
não havia nada.
Só o primeiro cão,
em frente do homem
cheirando o futuro.
Os dois se reparam,
se julgam, se pesam,
e o carinho mudo
corta a solidão.
Canta uma canção
no ermo continente,
baixo, não te exaltes.
Olha ao pé do fogo
homens agachados
esperando comida.
Como a barba cresce,
como as mãos são duras,
negras de cansaço.
Canta a estela maia,
reza ao deus do milho,
mergulha no sonho
anterior às artes,
quando a forma hesita
em consubstanciar-se
Canta os elementos
em busca de forma.
Entretanto a vida
elege semblante.
Olha: uma cidade.
Quem a viu nascer?
O sono dos homens
após tanto esforço
tem frio de morte.
Não vás acordá-los,
se é que estão dormindo.

Tantas cidades no mapa…Nenhuma, porém, tem mil anos.
E as mais novas, que pena: nem sempre são as mais lindas.
Como fazer uma cidade? Com que elementos tecê-la? Quantos fogos terá?
Nunca se sabe, as cidades crescem,
mergulham no campo, tornam a aparecer.
O ouro as forma e dissolve, restam navetas de ouro.
Ver tudo isso do alto: a ponte onde passam soldados
(que vão esmagar a última revolução)
o pouso onde trocar de animal; a cruz marcando o encontro dos valentes;
a pequena fábrica de chapéus; a professora que tinha sardas…
Esses pedaços de ti, América, partiram-se na minha mão.
A criação espantada
não sabe juntá-los.

Contaram-me que também há desertos,
E plantas tristes, animais confusos, ainda não completamente determinados.
Certos homens vão de país em país procurando um metal raro
ou distribuindo palavras.
Certas mulheres são tão desesperadamente formosas que é impossível
não comer-lhe os retratos e não proclamá-las demônios.

Há vozes no rádio e no interior das árvores,
cabogramas, vitrolas e tiros.
Que barulho na noite,
que solidão!
Esta solidão da América… Ermo e cidade grande se espreitando.
Vozes do tempo colonial irrompem nas modernas canções,
e o barranqueiro do Rio São Francisco
- esse homem silencioso, na última luz da tarde,
junto à cabeça majestosa do cavalo de proa imobilizado
contempla num pedaço de jornal a iara vulcânica da Broadway.
O sentimento da mata e da ilha
perdura em meus filhos que não amanheceram de todo
e têm medo da noite, do espaço e da morte.
Solidão de milhões de corpos nas casas, nas minas, no ar.
Mas de cada peito nasce um vacilante, pálido amor,
procura desajeitada de mão, desejo de ajudar,
carta posta no correio, sono que custa a chegar
porque na cadeira elétrica um homem (que não conhecemos) morreu.

Portanto, é possível distribuir minha solidão, torná-la meio de conhecimento.
Portanto, solidão é palavra de amor.
Não é mais um crime, um vício, o desencanto das coisas.
Ela fixa no tempo a memória
ou o pressentimento ou a ânsia
de outros homens que a pé, a cavalo, de avião ou barco,
percorrem teus caminhos, América.
Estes homens estão silenciosos mas sorriem de tanto sofrimento dominado.
Sou apenas o sorriso
na face de um homem calado.


Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 24 de junho de 2014

Nascer

Christian Schloe 


Nascer
outra e outra vez
indefinidamente
como a planta sempre nascendo
da primeira semente;
pensar o dia bom
até criar a claridade
e nela descobrir
a primeira sílaba
da primeira canção.

Carlos Drummond de Andrade, In: Poesia Errante, 1988

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Som

Denis Chernov 


Nem soneto nem sonata
vou curtir um som
dissonante dos sonidos
som
ressonante de sibildos
som
sonotinto de sonalhas
nem sonoro nem sonouro
vou curtir um som
mui sonso, mui insolúvel
som não sonoterápico
bem insondável, som
de raspante derrapante
rouco reco ronco rato
som superenrolado
como se sona hoje-em-noite
vou curtir, vou curtir um som
ausente de qualquer música
e rico de curtição.


Carlos Drummond de Andrade
In Discurso de Primavera e Algumas Sombras

sexta-feira, 7 de março de 2014

Michael de Bono 


O mundo não vale o mundo, meu bem.
Eu plantei um pé-de-sono,
brotaram vinte roseiras.
Se me cortei nelas todas
e se todas se tingiram
de um vago sangue jorrado
ao capricho dos espinhos,
não foi culpa de ninguém.
O mundo, meu bem, não vale
a pena, e a face serena
vale a face torturada.
Há muito aprendi a rir, de quê? de mim? ou de nada?


Carlos Drummond de Andrade, in Cantiga de Enganar, Claro Enigma, 1951

quinta-feira, 6 de março de 2014

jean hildebrant 

O mundo não vale o mundo, meu bem.
Eu plantei um pé-de-sono,
brotaram vinte roseiras.
Se me cortei nelas todas
e se todas se tingiram
de um vago sangue jorrado
ao capricho dos espinhos,
não foi culpa de ninguém.
O mundo, meu bem, não vale
a pena, e a face serena
vale a face torturada.
Há muito aprendi a rir, de quê? de mim? ou de nada?


Carlos Drummond de Andrade, in Cantiga de Enganar

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

  
Admirável espírito dos moços,
a vida te pertence. Os alvoroços,

as iras e entusiasmos que cultivas
são as rosas do tempo, inquietas, vivas.


Erra e procura e sofre e indaga e ama,
que nas cinzas do amor perdura a flama.


Carlos Drummond de Andrade "Viola de bolso"
imagens: Fiori - Flowers

sábado, 28 de dezembro de 2013

Carta


Há muito tempo, sim, que não te escrevo.
Ficaram velhas todas as notícias.
Eu mesmo envelheci: Olha, em relevo,
estes sinais em mim, não das carícias

(tão leves) que fazias no meu rosto:
são golpes, são espinhos, são lembranças
da vida a teu menino, que ao sol-posto
perde a sabedoria das crianças.

A falta que me fazes não é tanto
à hora de dormir, quando dizias
“Deus te abençoe”, e a noite abria em sonho.

É quando, ao despertar, revejo a um canto
a noite acumulada de meus dias,
e sinto que estou vivo, e que não sonho.


Carlos Drummond de Andrade, Poesia completa

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Receita para não engordar sem necessidade de ingerir arroz integral e chá de jasmim


 
Pratique amor integral
uma vez por dia
desde a aurora matinal
até a hora em que o mocho espia.

Não perca um minuto só
neste regime sensacional.
Pois a vida é um sonho e, se tudo é pó,
que seja pó de amor integral.


Carlos Drummond de Andrade, In: Poesia Errante, 1988.

sábado, 19 de outubro de 2013

O elefante



Fabrico um elefante
de meus poucos recursos.
Um tanto de madeira
tirado a velhos moveis
talvez lhe dê apoio.
E o encho de algodão,
de paina, de doçura.
A cola vai fixar
suas orelhas pensas.
A tromba se enovela,
e é a parte mais feliz
de sua arquitetura.
Mas há também as presas,
dessa matéria pura
que não sei figurar.
Tão alva essa riqueza
a espojar-se nos circos
sem perda ou corrupção.
E há por fim os olhos,
onde se deposita
a parte do elefante
mais fluida e permanente,
alheia a toda fraude.
Eis meu pobre elefante
pronto para sair
à procura de amigos
num mundo enfastiado
que já não crê nos bichos
e duvida das coisas.
Ei-lo, massa imponente
e frágil, que se abana
e move lentamente
a pele costurada
onde há flores de pano
e nuvens, alusões
a um mundo mais poético
onde o amor reagrupa as formas naturais.

Vai o meu elefante
pela rua povoada,
mas não o querem ver
nem mesmo para rir
da cauda que ameaça
deixá-lo ir sozinho.
É todo graça, embora
as pernas não ajudem
e seu ventre balofo
se arrisque a desabar
ao mais leve empurrão.
Mostra com elegância
sua mínima vida,
e não há na cidade
alma que se disponha
a recolher em si
desse corpo sensível
a fugitiva imagem,
o passo desastrado
mas faminto e tocante.

Mas faminto de seres
e situações patéticas,
de encontros ao luar
no mais profundo oceano,
sob a raiz das árvores
ou no seio das conchas,
de luzes que não cegam
e brilham através
dos troncos mais espessos.
Esse passo que vai
sem esmagar as plantas
no campo de batalha,
à procura de sítios,
segredos, episódios
não contados em livro,
de que apenas o vento,
as folhas, a formiga
reconhecem o talhe,
mas que os homens ignoram,
pois só ousam mostrar-se
sob a paz das cortinas
à pálpebra cerrada.

E já tarde da noite
volta meu elefante,
mas volta fatigado,
e as patas vacilantes
se desmancham no pó.
Ele não encontrou
o de que carecia,
o de que carecemos,
eu e meu elefante,
em que amo disfarçar-me.
Exausto de pesquisa,

Caiu-lhe o vasto engenho
Como simples papel.
A cola se dissolve
E todo seu conteúdo
De perdão, de carícia,
De pluma, de algodão,
Jorra sobre o tapete, qual mito desmontado
Amanhã recomeço.


Carlos Drummond de Andrade

domingo, 13 de outubro de 2013

Cantiga de enganar

   
  
francine van hove



  O mundo não vale o mundo,
                                             meu bem.
    Eu plantei um pé-de-sono,
    brotaram vinte roseiras.
    Se me cortei nelas todas
    e se todas me tingiram
    de um vago sangue jorrado
    ao capricho dos espinhos,
    não foi culpa de ninguém.
    O mundo,
                  meu bem,
                                não vale
    a pena, e a face serena
    vale a face torturada.
    Há muito aprendi a rir,
    de quê? de mim? ou de nada?
    O mundo, valer não vale.
    Tal como sombra no vale,
    a vida baixa... e se sobe
    algum som deste declive,
    não é grito de pastor
    convocando seu rebanho.
    Não é flauta, não é canto
    de amoroso desencanto.
    Não é suspiro de grilo,
    voz noturna de correntes,
    não é mãe chamando filho,
    não é silvo de serpentes
    esquecidas de morder
    como abstratas ao luar.
    Não é choro de criança
    para um homem se formar.
    Tampouco a respiração
    de soldados e de enfermos,
    de meninos internados
    ou de freiras em clausura.
    Não são grupos submergidos
    nas geleiras do entressono
    e que deixam desprender-se,
    menos que a simples palavra,
    menos que a folha no outono,
    a partícula sonora
    que a vida contém, e a morte
    contém, o mero registro
    de energia concentrada.
    Não é nem isto, nem nada.
    É som que precede a música,
    sobrante dos desencontros
    e dos encontros fortuitos,
    dos malencontros e das
    miragens que se condensam
    ou que se dissolvem noutras
    absurdas figurações.
    O mundo não tem sentido.
    O mundo e suas canções
    de timbre mais comovido
    estão calados, e a fala
    que de uma para outra sala
    ouvimos em certo instante
    é silêncio que faz eco
    e que volta a ser silêncio
    no negrume circundante.
    Silêncio: que quer dizer?
    Que diz a boca do mundo?
    Meu bem, o mundo é fechado,
    se não for antes vazio.
    O mundo é talvez: e é só.
    Talvez nem seja talvez.
    O mundo não vale a pena,
    mas a pena não existe.
    Meu bem, façamos de conta.
    de sofrer e de olvidar,
    de lembrar e de fruir,
    de escolher nossas lembranças
    e revertê-las, acaso
    se lembrem demais em nós.
    Façamos, meu bem, de conta
    - mas a conta não existe -
    que é tudo como se fosse,
    ou que, se fora, não era.
    Meu bem, usemos palavras.
    façamos mundos: idéias.
    Deixemos o mundo aos outros
    já que o querem gastar.
    Meu bem, sejamos fortíssimos
    - mas a força não existe -
    e na mais pura mentira
    do mundo que se desmente,
    recortemos nossa imagem,
    mais ilusória que tudo,
    pois haverá maior falso
    que imaginar-se alguém vivo,
    como se um sonho pudesse
    dar-nos o gosto do sonho?
    Mas o sonho não existe.
    Meu bem, assim acordados,
    assim lúcidos, severos,
    ou assim abandonados,
    deixando-nos à deriva
    levar na palma do tempo
    - mas o tempo não existe -,
    sejamos como se fôramos
    num mundo que fosse: o Mundo.


  Carlos Drummond de Andrade, in "Claro Enigma"

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Amar




Que pode uma criatura senão entre criaturas, amar?
Amar e esquecer?
Amar e mal-amar
Amar, desamar e amar
Sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
Sozinho, em rotação universal,
se não rodar também, e amar?
Amar o que o mar trás a praia,
O que ele sepulta, e o que, na brisa marinha
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar inóspito, o áspero
Um vaso sem flor, um chão de ferro, e o peito inerte,
e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.
Este é o nosso destino:
amor sem conta, distribuído pelas coisas
pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor
Amar a nossa mesma falta de amor,
e na secura nossa, amar a água implícita,
e o beijo tácito e a sede infinita.


Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

O chão é cama


Serge Marshennikov


O chão é cama para o amor urgente,
amor que não espera ir para a cama.
Sobre tapete ou duro piso, a gente
compõe de corpo e corpo a úmida trama.

E para repousar do amor, vamos à cama.


Carlos Drummond de Andrade
In O Amor Natural, 1992



sábado, 10 de agosto de 2013

Rosa Rosae

An He


Rosa 
e todas as rimas 
Rosa 
e os perfumes todos 
Rosa 
no florindo espelho 
Rosa 
na brancura branca 
Rosa 
no carmim da hora 
Rosa 
no brinco e pulseira 
Rosa 
no deslumbramento 
Rosa 
no distanciamento 
Rosa 
no que não foi escrito 
Rosa 
no que deixou de ser dito 
Rosa 
pétala a pétala 
despetalirosada


Carlos Drummond de Andrade
In: Boitempo I, p. 118-119

terça-feira, 30 de julho de 2013

Fraga e sombra

 Jaroslaw Grudzinski


A sombra azul da tarde nos confrange.
Baixa, severa, a luz crepuscular.
Um sino toca, e não saber quem tange
é como se este som nascesse do ar.

Música breve, noite longa. O alfanje
que sono e sonho ceifa devagar
mal se desenha, fino, ante a falange
das nuvens esquecidas de passar.

Os dois apenas, entre céu e terra,
sentimos o espetáculo do mundo,
feito de mar ausente e abstrata serra.

E calcamos em nós, sob o profundo
instinto de existir, outra mais pura
vontade de anular a criatura.


Carlos Drummond de Andrade
In Claro enigma, 1951

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Poema da necessidade

Manuel Barca


É preciso casar João,
é preciso suportar Antônio,
é preciso odiar Melquíades,
é preciso substituir nós todos.

É preciso salvar o país,
é preciso crer em Deus,
é preciso pagar as dívidas,
é preciso comprar um rádio,
é preciso esquecer fulana.

É preciso estudar volapuque,
é preciso estar sempre bêbedo,
é preciso ler Baudelaire,
é preciso colher as flores
de que rezam velhos autores.

É preciso viver com os homens,
é preciso não assassiná-los,
é preciso ter mãos pálidas
e anunciar o FIM DO MUNDO.


Carlos Drummond de Andrade
In: ANDRADE,Carlos Drummond de.Sentimento do mundo- p.15. -1ªed.São Paulo: Companhia das Letras,2012.