Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?
Carlos Drummond de Andrade
Como esses primitivos que carregam por toda parte o maxilar inferior de seus mortos,
assim te levo comigo, tarde de maio,
quando, ao rubor dos incêndios que consumiam a terra,
outra chama, não perceptível, e tão mais devastadora,
surdamente lavrava sob meus traços cômicos,
e uma a uma, disjecta membra, deixava ainda palpitantes
e condenadas, no solo ardente, porções de minh'alma
nunca antes nem nunca mais aferidas em sua nobreza
sem fruto.
Mas os primitivos imploram à relíquia saúde e chuva,
colheita, fim do inimigo, não sei que portentos.
Eu nada te peço a ti, tarde de maio,
senão que continues, no tempo e fora dele, irreversível,
sinal de derrota que se vai consumindo a ponto de
converter-se em sinal de beleza no rosto de alguém
que, precisamente, volve o rosto, e passa...
Outono é a estação em que ocorrem tais crises,
e em maio, tantas vezes, morremos.
Para renascer, eu sei, numa fictícia primavera,
já então espectrais sob o aveludado da casca,
trazendo na sombra a aderência das resinas fúnebres
com que nos ungiram, e nas vestes a poeira do carro
fúnebre, tarde de maio, em que desaparecemos,
sem que ninguém, o amor inclusive, pusesse reparo.
E os que o vissem não saberiam dizer: se era um préstito
lutuoso, arrastado, poeirento, ou um desfile carnavalesco.
Nem houve testemunha.
Não há nunca testemunhas. Há desatentos. Curiosos, muitos.
Quem reconhece o drama, quando se precipita, sem máscara?
Se morro de amor, todos o ignoram
e negam. O próprio amor se desconhece e maltrata.
O próprio amor se esconde, ao jeito dos bichos caçados;
não está certo de ser amor, há tanto lavou a memória
das impurezas de barro e folha em que repousava. E resta,
perdida no ar, por que melhor se conserve,
uma particular tristeza, a imprimir seu selo nas nuvens.
© CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
In Claro enigma, 1951
.......
A sombra azul da tarde nos confrange.
Baixa, severa, a luz crepuscular.
Um sino toca, e não saber quem tange
é como se este som nascesse do ar.
Música breve, noite longa. O alfanje
que sono e sonho ceifa devagar
mal se desenha, fino, ante a falange
das nuvens esquecidas de passar.
Os dois apenas, entre céu e terra,
sentimos o espetáculo do mundo,
feito de mar ausente e abstrata serra.
E calcamos em nós, sob o profundo
instinto de existir, outra mais pura
vontade de anular a criatura.
Carlos Drummond de Andrade
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| Monika Luniak |
Meu corpo não é meu corpo,⠀
é ilusão de outro ser.⠀
Sabe a arte de esconder-me⠀
e é de tal modo sagaz⠀
que a mim de mim ele oculta.⠀
⠀
Meu corpo, não meu agente,⠀
meu envelope selado,⠀
meu revólver de assustar,⠀
tornou-se meu carcereiro,⠀
me sabe mais que me sei.⠀ ⠀
Meu corpo apaga a lembrança⠀
que eu tinha de minha mente.⠀
Inocula-me seu patos,⠀
me ataca, fere e condena⠀
por crimes não cometidos.⠀ ⠀
O seu ardil mais diabólico⠀
está em fazer-me doente.⠀
Joga-me o peso dos males⠀
que ele tece a cada instante⠀
e me passa em revulsão.⠀ ⠀
Meu corpo inventou a dor⠀
a fim de torná-la interna,⠀
integrante do meu Id,⠀
ofuscadora da luz⠀
que aí tentava espalhar-se.⠀ ⠀
Outras vezes se diverte⠀
sem que eu saiba ou que deseje,⠀
e nesse prazer maligno,⠀
que suas células impregna,⠀
do meu mutismo escarnece.⠀ ⠀
Meu corpo ordena que eu saia⠀
em busca do que não quero,⠀
e me nega, ao se afirmar⠀
como senhor do meu Eu⠀
convertido em cão servil.⠀ ⠀
Meu prazer mais refinado,⠀
não sou eu quem vai senti-lo.⠀
É ele, por mim, rapace,⠀
e dá mastigados restos⠀
à minha fome absoluta.⠀ ⠀
Se tento dele afastar-me,⠀
por abstração ignorá-lo,⠀
volta a mim, com todo o peso⠀
de sua carne poluída,⠀
seu tédio, seu desconforto.⠀ ⠀
Quero romper com meu corpo,⠀
quero enfrentá-lo, acusá-lo,⠀
por abolir minha essência,⠀
mas ele sequer me escuta⠀
e vai pelo rumo oposto.⠀
⠀
Já premido por seu pulso⠀
de inquebrantável rigor,⠀
não sou mais quem dantes era:⠀
com volúpia dirigida,⠀
saio a bailar com meu corpo.⠀
⠀
Carlos Drummond de Andrade
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