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quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Retrato do Artista Quando Jovem (trecho)


 
Aristóteles não definiu a piedade e o terror. Eu defini. Escuta…
A PIEDADE é o sentimento que faz parar o espírito na presença de algo que seja grave e constante no sofrimento humano e o une com o sofredor humano. O TERROR é o sentimento que detém o espírito na presença de seja lá o que for que seja grave e constante no sofrimento humano e o liga à sua causa secreta.
De fato, a emoção trágica é uma face olhando para dois lados, para o terror e para a piedade, pois que ambos são faces dela.
Repara bem que emprego o termo deter, ficar parado. Quero com isso significar que a emoção trágica é estática. Ou, antes, a emoção dramática é que o é. Os sentimentos excitados pela arte imprópria são cinéticos, desejo, ou repulsa. O desejo nos compele a possuir, a ir para alguma coisa; a repulsa nos compele a abandonar, a partir duma dada coisa. As artes que o excitam, pornográficas ou didáticas, são, por conseguinte, artes impróprias. A emoção estética (sempre emprego o termo geral) é, por conseguinte, estática. O espírito fica detido e suspenso acima do desejo e da repulsa.
O desejo e a repulsa excitados por meios estéticos impudicos não são realmente emoções estéticas, não só porque são cinéticas em caráter como também porque não são senão físicas. A nossa alma contrai-se ante aquilo que teme e responde ao estímulo daquilo que deseja por uma ação puramente reflexa do sistema nervoso. Nossas pálpebras fecham-se antes que estejamos cônscios de que a mosca está a ponto de entrar no nosso olho.
A beleza expressa pelo artista não pode despertar em nós uma emoção que é cinética, ou uma sensação que é puramente física. Ela desperta ou deve despertar, ou induz, ou deve induzir, um êxtase estético, uma piedade ideal ou um terror ideal, um êxtase que perdura, que se prolonga e que acaba, por fim, dissolvido pelo que chamo de ritmo de beleza.
O ritmo é a primeira relação formal estética duma parte com outra parte, em qualquer conjunto ou todo estético, ou dum todo estético para a sua parte ou para as suas partes ou duma parte para o todo estético do qual é parte.
Falar destas coisas, tentar compreender-lhes a natureza, e, tendo-a compreendido, procurar lenta, humilde e constantemente expressar (tornar a extrair da terra bruta ou do que dela procede, do som, da forma e da cor, que são as portas da prisão de nossa alma) uma imagem da beleza que chegamos a aprender — isto é arte.
Que é a arte? Que é que a beleza exprime? A arte é a disposição humana de matéria sensível ou inteligível para um fim estético.
Santo Tomás de Aquino diz que o belo é a apreensão do que agrada. Pulcra sunt quae visa placent.
Ele emprega a palavra visa para revestir as apreensões estéticas de todas as maneiras, seja através da vista ou do ouvido, seja através de qualquer outra perspectiva de apreensão. Esta palavra, conquanto seja vaga, é clara o suficiente para discernir o que haja de bom e de mau que excite o desejo e a repulsa. Significa certamente uma estase e não uma cinese. E relativamente ao real? Também produz uma estase do espírito.
Por conseguinte, estático, Platão, creio eu, disse que a beleza é o esplendor da verdade. Não acho que isso tenha um sentido, mas a verdade e a beleza são aparentadas. A verdade é contemplada pelo intelecto que é acalmado pelas mais satisfatórias relações do inteligível; a beleza é contemplada pela imaginação que é acalmada pelas mais satisfatórias relações do sensível. O primeiro passo na direção da verdade é compreender o escopo e o encaixe do intelecto mesmo, compreender o ato mesmo de intelecção. Todo o sistema de filosofia de Aristóteles repousa no seu livro de psicologia e esta, penso eu, no seu princípio de que o mesmo atributo não pode ao mesmo tempo e com a mesma conexão pertencer e não pertencer ao mesmo objeto. O primeiro passo na direção da beleza é compreender o limite e o escopo da imaginação, compreender o ato mesmo da apreensão estética.
Embora o mesmo objeto possa não ser bonito para toda a gente, toda gente pode admirar um objeto bonito, encontrar nele certas relações que satisfaçam e coincidam com os estágios próprios mesmos de toda apreensão estética. Tais relações do sensível, visíveis para mim através duma forma e para ti através doutras, devem ser, por conseguinte, as necessárias qualidades da beleza. Já agora podemos voltar ao nosso velho amigo Santo Tomás para outros dez vinténs de sabedoria.



James Joyce, Retrato do Artista Quando Jovem

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

James Joyce, Ulisses



Stephen se levantou e se encaminhou para o parapeito. Apoiando-se nele olhou para a água embaixo e para o barco-correio desafogando a entrada da enseada de Kingstown.

- Nossa mãe toda-poderosa! - disse Mulligan.

Ele voltou abruptamente do mar para o rosto de Stephen seus olhos cinzentos inquisitivos.

- A tia acha que você matou a sua mãe - disse ele. - É por isso que ela não quer me deixar ter nada a ver com você.

- Alguém a matou - disse Stephen sombriamente.

- Que droga, Kinch, você podia ter se ajoelhado quando sua mãe agonizante pediu - disse Buck Mulligan. - Eu sou hiperbóreo tanto quanto você. Mas pensar em sua mãe rogando no seu último suspiro que você se ajoelhasse e rezasse por ela. E você recusou. Existe alguma coisa sinistra em você...

Ele se interrompeu e passou espuma de novo ligeiramente na face. Um sorriso tolerante crispou seus lábios.

- Mas um mímico encantador! - murmurou consigo mesmo. - Kinch, o mais encantador de todos os mímicos!

Seriamente e em silêncio ele fez a barba com tranqüilidade e cuidado.

Stephen, com o cotovelo repousando no granito pontudo, encostou a palma abaixo da sobrancelha e olhou para a extremidade da manga de seu casaco preto lustroso que começava a puir. Uma dor, que ainda não era a dor do amor, agitou seu coração. Silenciosamente, em sonho, ela viera até ele após a sua morte, seu corpo gasto dentro de largas roupas tumulares marrons, exalando um odor de cera e pau-rosa, seu sopro, que se curvara sobre ele, mudo, reprovador, um fraco odor de cinzas molhadas. Através do punho puído ele viu o mar saudado como uma grande e doce mãe pela voz bem alimentada ao seu lado. A orla da baía e o horizonte continham uma massa líquida verde opaca. Uma tigela de porcelana ficara ao lado do leito de morte dela contendo a bile que parecia uma lesma verde arrancada de seu fígado apodrecido em seus ataques de vômito e de altos gemidos.

James Joyce, Ulisses

sábado, 19 de maio de 2012

James Joyce, Ulisses


Majestoso, o gorducho Buck Mulligan apareceu no topo da escada, trazendo na mão uma tigela com espuma sobre a qual repousavam, cruzados, um espelho e uma navalha de barba. Um penhoar amarelo, desamarrado, flutuando suavemente atrás dele no ar fresco da manhã. Ele ergueu a tigela e entoou:

 - Introibo ad altare Dei.

 Parado, ele perscrutou a escada sombria de caracol e gritou asperamente:

 - Suba, Kinch! Suba, seu temível jesuíta!

 Solenemente ele avançou para a plataforma de tiro. Olhou à volta e seriamente abençoou três vezes a torre, o terreno à volta e as montanhas que despertavam. Em seguida, avistando Stephen Dedalus, ele se inclinou em direção a ele e fez cruzes rápidas no ar, gorgolejando na garganta e sacudindo a cabeça. Contrariado e sonolento, Stephen Dedalus apoiou os braços no último degrau da escada e olhou friamente para o rosto sacolejante e gorgolejante que o abençoava, para a cabeça eqüina e os cabelos claros sem tonsura, tingidos e matizados como carvalho descorado.

 Buck Mulligan espreitou por um instante por baixo do espelho e depois cobriu a tigela rapidamente.

 - De volta pro quartel! - disse implacavelmente.

 E acrescentou em tom sacerdotal:

 - Pois isto, meus bem-amados, é a verdadeira cristina: corpo e alma e sangue e feridas. Música lenta, por favor. Fechem os olhos, senhores. Um momento. Um pequeno problema com esses corpúsculos brancos. Silêncio, todos.

 Ele olhou de soslaio para cima e soltou um longo e lento assobio de chamada, depois fez por um momento uma pausa em atenção enlevada, com seus dentes iguais e brancos brilhando aqui e ali pontilhados de ouro. Crisóstomo. Dois fortes assobios estridentes responderam através da calma.

 - Obrigado, meu velho - gritou vivamente. - Isto é o bastante. Desligue a corrente, está bem?

 Saltou fora da plataforma de tiro e olhou seriamente para o seu observador, juntando em volta das pernas as dobras soltas de seu penhoar. A cara rechonchuda e sombria e a queixada oval e taciturna lembravam um prelado, patrono das artes na idade média. Um sorriso agradável desabrochou em seus lábios.

 - A ironia das coisas! - disse ele alegremente. - Seu nome absurdo, um grego antigo!

 Ele apontou com o dedo num gesto amigável e se encaminhou para o parapeito rindo consigo mesmo. Stephen Dedalus se aproximou, acompanhou-o e a meio caminho cansado se sentou na beira da plataforma de tiro, observando-o enquanto ele apoiava o espelho no parapeito, molhava o pincel na tigela e passava a espuma na face e no pescoço.

 A voz alegre de Buck Mulligan prosseguia.

 - Meu nome também é absurdo: Malachi Mulligan, dois dátilos. Mas soa helênico, não soa? Saltitante e radioso como o próprio cervo. Nós precisamos ir a Atenas. Você vem se eu conseguir que a tia me dê vinte libras?

 Ele pôs o pincel de lado e, rindo com prazer, gritou:

 - Será que ele vem? O jesuíta subnutrido!

 Parando, ele começou a fazer a barba com cuidado.

 - Diga-me, Mulligan - falou Stephen tranqüilamente.

 - Sim, meu anjo?

 - Quanto tempo Haines vai ficar nesta torre?

 Buck Mulligan mostrou um rosto barbeado por cima do ombro direito.

 - Meu Deus, ele não é horrível? - disse francamente. - Um saxão enfadonho. Ele não acha que você seja um cavalheiro. Meu Deus, esses malditos ingleses! Estourando de dinheiro e indigestão. Porque ele vem de Oxford. Você sabe, Dedalus, você tem o verdadeiro estilo de Oxford. Ele não consegue entender você. Ó, meu nome para você é o melhor: Kinch, a lâmina-de-faca.

 Ele raspou cautelosamente o queixo.

 - A noite inteira ele esbravejou em sonho a respeito de uma pantera negra - disse Stephen. - Onde é que está o estojo da arma dele?

 - Um miserável lunático! - disse Mulligan. - Você ficou apavorado?

 - Fiquei - Stephen disse energicamente e com um medo crescente. - Aqui no escuro com um homem que eu não conheço esbravejando e ameaçando aos gemidos atirar numa pantera negra. Você salvou homens de afogamento. Porém eu não sou um herói. Se ele ficar aqui eu estou fora.

 Buck Mulligan franziu a testa ao olhar para a espuma em sua navalha. Ele saltou de seu poleiro e começou a dar apressadamente uma busca nos bolsos de sua calça.

 - Droga! - bradou guturalmente.

 Ele veio para a plataforma de tiro e, enfiando a mão no bolso superior de Stephen, disse:

 - Faça-nos empréstimo de seu traponasal para limpar minha navalha.

 Stephen suportou que ele puxasse para fora e exibisse erguido por uma das pontas um lenço amarrotado e sujo. Buck Mulligan limpou a lâmina da navalha cuidadosamente. Em seguida, lançando um olhar por cima do lenço, disse:

 - O traponasal do bardo! Uma nova cor artística para os nossos poetas irlandeses: verdemeleca. A gente quase pode sentir o gosto, não é?

 Ele subiu no parapeito novamente e lançou um olhar à volta por sobre a baía de Dublin, com seu cabelo louro de carvalhopálido ligeiramente alvoroçado.

 - Ó Deus! - disse tranqüilamente. - Não é que o mar é aquilo que Algy chama de uma grande e doce mãe? O mar verdemeleca. O mar escrotocompressor. Epi oinopa ponton. Ah, Dedalus, os gregos! Eu preciso lhe ensinar. Você precisa os ler no original. Thalatta! Thalatta! Ele é a nossa grande e doce mãe. Venha ver. 

Stephen se levantou e se encaminhou para o parapeito. Apoiando-se nele olhou para a água embaixo e para o barco-correio desafogando a entrada da enseada de Kingstown.

 - Nossa mãe toda-poderosa! - disse Mulligan.

 Ele voltou abruptamente do mar para o rosto de Stephen seus olhos cinzentos inquisitivos.

 - A tia acha que você matou a sua mãe - disse ele. - É por isso que ela não quer me deixar ter nada a ver com você.

 - Alguém a matou - disse Stephen sombriamente.

 - Que droga, Kinch, você podia ter se ajoelhado quando sua mãe agonizante pediu - disse Buck Mulligan. - Eu sou hiperbóreo tanto quanto você. Mas pensar em sua mãe rogando no seu último suspiro que você se ajoelhasse e rezasse por ela. E você recusou. Existe alguma coisa sinistra em você...

 Ele se interrompeu e passou espuma de novo ligeiramente na face. Um sorriso tolerante crispou seus lábios.

- Mas um mímico encantador! - murmurou consigo mesmo. - Kinch, o mais encantador de todos os mímicos!

Seriamente e em silêncio ele fez a barba com tranqüilidade e cuidado.

Stephen, com o cotovelo repousando no granito pontudo, encostou a palma abaixo da sobrancelha e olhou para a extremidade da manga de seu casaco preto lustroso que começava a puir. Uma dor, que ainda não era a dor do amor, agitou seu coração. Silenciosamente, em sonho, ela viera até ele após a sua morte, seu corpo gasto dentro de largas roupas tumulares marrons, exalando um odor de cera e pau-rosa, seu sopro, que se curvara sobre ele, mudo, reprovador, um fraco odor de cinzas molhadas. Através do punho puído ele viu o mar saudado como uma grande e doce mãe pela voz bem alimentada ao seu lado. A orla da baía e o horizonte continham uma massa líquida verde opaca. Uma tigela de porcelana ficara ao lado do leito de morte dela contendo a bile que parecia uma lesma verde arrancada de seu fígado apodrecido em seus ataques de vômito e de altos gemidos.


Buck Mulligan limpou novamente sua navalha de barba.

 - Ah, pobre corpodecão! - disse ele com voz branda. - Eu preciso te dar uma camisa e alguns traposnasais. Como está a calça de segunda mão? 

- Ela está caindo bastante bem - respondeu Stephen.

 Buck Mulligan atacou a concavidade abaixo de seu lábio inferior.

 - A ironia disso tudo - disse ele satisfeito. - Devia ser calça-de-segunda-perna. Só Deus sabe que alcoólatra sifilítico se desfez dela. Eu tenho uma com uma listra fina cinzenta. Você vai ficar elegante nela. Não estou brincando, não, Kinch. Você fica bonitão quando está bem vestido.

 - Obrigado - disse Stephen. - Se ela for cinzenta eu não posso usar.

 - Ele não pode usá-la - falou Buck Mulligan para o seu rosto no espelho. - Etiqueta é etiqueta. Ele mata a mãe mas não pode usar calça cinzenta.


 James Joyce, Ulisses

quarta-feira, 25 de abril de 2012

fabrizio r.


Rain has fallen all the day.
O come among the laden trees:
The leaves lie thick upon the way
Of memories.

Staying a little by the way
Of memories shall we depart.
Come, my beloved, where I may
Speak to your heart.


James Joyce

sexta-feira, 16 de julho de 2010

James Joyce, O retrato do artista quando jovem

Desde tempos remotos tinham os homens olhado assim para o alto, tal como ele estava olhando, na vibração do vôo das aves. A colunata, acima dele, fê-lo pensar vagamente num antigo templo, e a haste de freixo sobre a qual se apoiava fatigadamente lhe sugeriu a lembrança do recurvo cajado dum adivinho. Uma sensação de medo ante o desconhecido foi ao âmago do seu enfado. Um medo de símbolos e de prodígios e do homem com cara de falcão – de quem ele usava o nome – remontando do seu cativeiro em velas sinuosas de vime. Thoth, o deus dos escritores, que escrevia com um junco sobre uma tabuinha e que carregava sobre a sua estreita cabeça de íbis a lua crescente.
Sorriu ao pensar na imagem do deus, pois isso o levou a pensar num juiz de narigão e de chinó a pôr vírgulas nos autos que lia, e Stephen estava certo de que não se lembraria do nome do deus, apenas sabendo que era um nome assim como o dum palavrão em irlandês. Isso não passava de mera loucura. Mas não seria por causa de tal loucura que ele estava a ponto de deixar para sempre a casa de oração e de prudência onde tinha nascido, e aquela ordem de vida da qual promanava?
Os pássaros voltaram, com seus gritos agudos por sobre o beiral saliente da casa, voando, muito negros, contra o ar que esmaecia. Que aves seriam aquelas? Talvez fossem andorinhas acabadas de chegar do sul. E ele, pois, estava para se ir, ao passo que elas eram pássaros indo e vindo, continuamente, edificando um lar perene sob as calhas das casas dos homens e sempre a deixarem o lar que tinham construído para vagabundearem.

Inclinai mais um pouco o rosto, Oona e Aleel,
Para que eu fique assim, como a andorinha a olhar
Do ninho do telhado o resplendor de abril,
Antes que a chame a voz do tumultuoso mar.


Uma alegria líquida e macia, como o ruído de muitas águas, derramava-se por sobre a sua memória; sentia no coração a doce paz dos espaços silenciosos, tênuemente esmaecidos por sobre as águas. A doce paz do silêncio oceânico; a doce paz das andorinhas voando através do mar escuro, por cima das águas oscilantes.
Uma alegria líquida e macia derramava-se por sobre as palavras onde as vogais maleáveis, roçando sem ruído, se desmanchavam, enrolando-se e desfazendo-se, a sacudirem sempre suas brancas campainhas de ondas em mudas baladas, em mudos dobres e em exclamações suaves como desmaios; e sentia que o augúrio que havia discernido naquelas aves, vagando como flechas, e naquele céu de espaços claros acima dele, tinha vindo do seu coração como um pássaro que vem dum torreão, mansa e velozmente.
Símbolo de partida ou de isolamento? Os versos vinham como melopéia ao ouvido da sua memória; compunham vagarosamente, diante dos seus olhos evocadores, a cena do vestíbulo na noite de inauguração do teatro nacional. Ele estava sozinho, ao lado da varanda, olhando com uns olhos mortos para a cultura de Dublin nos balcões, para os espalhafatosos cenários e para os bonecos humanos emoldurados pelas lâmpadas ofuscantes do palco. Um burlesco policial suava atrás dele, prestes a entrar em cena. As vaias, a pateada e os gritos de apupos passavam como rudes rajadas pela portaria, vindo dos colegas estudantes.
- Um libelo contra a Irlanda!
- Importação alemã!
- Blasfêmia!
- Não vendemos nunca a nossa crença!
- Nenhuma mulher irlandesa jamais fez isso!
- Não queremos nenhum ateu amador!
- Chega de influências budistas!

James Joyce, O retrato do artista quando jovem