Mostrando postagens com marcador Hilda Hilst. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Hilda Hilst. Mostrar todas as postagens

sábado, 13 de abril de 2024

 


As coisas não existem.

O que existe é a ideia

melancólica e suave

que fazemos das coisas.


A mesa é feita de amor

e de submissão.

No entanto

Ninguém a vê

como eu a vejo.

Para os homens

é feita de madeira

e coberta de tinta.

Para mim também

mas a madeira

somente lhe protege o interior

e o interior é humano.


Os livros são criaturas

Cada página um ano de vida,

cada leitura um pouco de alegria

e esta alegria

é igual ao consolo dos homens

quando permanecem inquietos

em resposta às suas inquietudes.


As coisas não existem

A ideia, sim.


A ideia é infinita

igual ao sonho das crianças.


Hilda Hilst, in “Balada de Alzira”

quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024


 […] escrever é essa explosão de dizer as coisas como eu acho que elas têm que ser ditas, completamente, para passar para o outro a intensidade, a perplexidade do ser humano completamente incendiado de emoções, de procuras, perguntas e buscas.

Tenho muito medo, tenho pânico das situações-limite. Acho que eu escrevo sobre elas para me exorcizar. A paixão, a morte, o perguntar-se. Tenho muito medo de mim também, por isso escrevo. Escrever é ir em direção a muitas vidas e muitas mortes.

Sou alguém sobre quem as pessoas falam, mas meus livros não são lidos. As pessoas me diziam: “Escuta, você não é conhecida porque ninguém te vê. Você não está fazendo como devia ser feito”. Eu não tenho nenhuma vontade de me colocar nestas situações: ser poeta e dar conferências, falar sobre si mesmo, sobre o trabalho que fazemos, não! Isso me enche o saco. As pessoas manipulam, pedem para você se produzir, porque você é um escritor, e eu me recuso a fazer isso, me recuso. Posso parecer uma estúpida, mas meu trabalho é sagrado. Eu escrevo. Que me deixem escrever, então. Ao mesmo tempo, a poesia me proporcionou grandes alegrias nesses momentos em que eu parecia ter encontrado a forma exata de traduzir esse resíduo, a essência da emoção. Mas é verdade que isso teve muito pouco eco.

Você fica mesmo com febre quando a poesia acontece. Durante alguns dias você fica tomado por alguma coisa que você não sabe o que é, com uma espécie de febre interior. […] O primeiro verso é base para mim. Me vem o primeiro verso e depois, durante dias, vêm os outros, difíceis de trabalhar. Eu fico vermelha, passo mal. Acontece esse milagre.

Tive a felicidade de ter um pai louco completamente. Talvez, por isso até, eu tenha me tornado uma escritora. […] Esse homem, muito inteligente, ficou louco, quando eu era pequenina, com três anos de idade. Minha mãe já havia se separado dele e eu pude, então, reinventar um pai. Pude, também, ter coisas que ele escrevia. Ele foi um crítico, um poeta. Uma pessoa rara e fascinante. Com suas fotografias todas, com tudo o que eu lia do que ele havia escrito, fiquei uma edipiana furiosa. E foi uma maravilha. […] A loucura sempre me fascinou muito. Não a loucura terrível, onde existe um sofrimento definitivo como foi o caso dele, que passou a vida toda louco, morrendo com quase setenta anos. Mas me fascinaram sempre as pessoas que, de repente, começam a pensar coisas que nunca ninguém pensou.

Eu fico besta. Ninguém me lê, nesses quase cinquenta anos foi assim, e me descobriram só agora, que estou quase morrendo. Eu ouço dizer muito que as pessoas não me entendem, e quando alguém me entende eu fico besta, porque não sei como é que é escrever compreensivelmente.

Meus poemas nascem porque precisam nascer. Nascem do inconformismo. Do desejo de ultrapassar o Nada. As emoções sentimentais raramente inspiram a minha poesia, que quase sempre surge de um problema maior – o problema da morte, morte não no sentido metafísico de tudo quanto possa advir depois de acontecida. O que faz nascer a minha poesia é a não aceitação de que um dia a vida se diluirá e, com ela, o amor, as emoções do sonho e toda essa força em potencial que vive dentro de nós.

Cada escritor tem um processo de criação. “Para você ser poeta, você precisa estudar?” É uma coisa que perguntam muito. Porque há toda uma teoria de que a espontaneidade é muito importante. Eu me lembro – e repito isto porque gosto muito – de uma frase que escreveram numa universidade americana: “Qualquer cretino pode ser espontâneo”. Na verdade, para fazer uma literatura que seja considerada essencial, você precisa ler muitíssimo, estudar muitíssimo e, só depois de muitos anos, é que você fica mesmo apta a trabalhar. […] O processo demora muitos anos; quinze, vinte anos, para de repente se poder dizer: “Agora acho que está bem, que eu consegui o melhor de mim”. E tem muito a ver também com o processo intuitivo. É a logicidade, sua escolaridade e o processo intuitivo também.


Hilda Hilst

domingo, 24 de dezembro de 2023


 I


E se eu ficasse eterna?

Demonstrável.

Axioma de Pedra


Hilda Hilst, 

À tua frente. Em vaidade 

segunda-feira, 25 de abril de 2022

Ai daqueles que nos amam

Painting by Timothy Rees

XX


Nós, poetas e amantes

o que sabemos do amor?

Temos o espanto na retina

diante da morte e da beleza.

Somos humanos e frágeis

mas antes de tudo, sós.


Somos inimigos.

Inimigos com muralhas

de sombra sobre os ombros.

E sonhamos. Às vezes

damos as mãos àqueles

que estão chorando.

(os que nunca choraram por nós)


Ah, meus irmãos e irmãs...

Ai daqueles que nos amam

e que por amor de nós se perdem.

Ah, pudéssemos amar um homem

ou uma mulher ou uma coisa...

Mas diante de nós, o tempo

se consome, desaparece e não para.


Ouvi: que vossos olhos se inundem

de pranto e água de todo o mundo!

Somos humanos e frágeis

mas antes de tudo, sós.


  Hilda Hilst

De Balada do Festival (1955)

domingo, 2 de janeiro de 2022

Presságios - Hilda Hilst


Voltando (porque tua volta sinto-a num presságio) acenderei luzes

na minha porta e falaremos só o necessário.

Terás pão e vinho sobre a mesa.

Virás acabrunhado (quem sabe) como o filho que retorna.

Nesse dia, a lamparina de teu quarto deixarás que fique acesa a

noite inteira.

O amor sobrevive.

E seremos talvez amor e morte ao mesmo tempo.




I

Stela, me perguntaram

se permaneces no tempo.

Se teu rosto de coral

e teus cabelos de pedra

ficarão indefinidos

no espaço, pedindo sol.


Ainda ontem te vi.

Olhar quase estagnado.

Descias azuis escadas

com aquele teu xale verde.

Aquele xale de Stela

parecia feito d’água:

verde aguado, verde aguado.


Debaixo dos teus dois braços

trazias rosas molhadas.


Aquelas rosas de Stela

e Stela me perguntando

se a morte é cousa que passa.


Stela, que desconsolo.

Não sabes onde termina

a aurora de tua presença.


No tempo, se é que existes,

só ficarás peregrina.


Como pesa: Stela e eu.


II


Me mataria em março

se te assemelhasses

às cousas perecíveis.

Mas não. Foste quase exato:

doçura, mansidão, amor, amigo.


Me mataria em março

se não fosse a saudade de ti

e a incerteza de descanso.

Se só eu sobrevivesse quase nula,

inerte como o silêncio:

o verdadeiro silêncio de catedral vazia,

sem santo, sem altar. Só eu mesma.


E se não fosse verão,

e se não fosse o medo da sombra,

e o medo da campa na escuridão,

o medo de que por sobre mim

surgissem plantas e enterrassem

suas raízes nos meus dedos.


Me mataria em março

se o medo fosse amor.

Se março, junho.


III

Gostaria de encontrar-te.


Falar das cousas

que já estão perdidas.


Tuas mãos trementes

se desmanchariam

na sonoridade

dos meus ditos.


Faria de teus olhos

luz,

de tua boca

um eco.


Nos teus ouvidos

eu falaria de amigos.


Quem sabe se amarias escutar-me.


IV


Brotaram flores

nos meus pés.

E o quotidiano

na minha vida

complicou-se.


Diferença triste

aborrecendo o andar

de minhas horas.

Rosa Maria

tem flores na cabeça.

Maria Rosa as leva no vestido.

E esse nascer de flores

nos meus pés,

atrai olhares de espanto.


Ainda ontem

me vieram dizer

se eu as vendia.

Meus pés iriam

com flores andar

sobre o teu silêncio.

Tua vida

no meu caminho,

na caminhada grotesca

daqueles meus pés floridos.


De tanto serem zombadas

morreram adolescentes.

Pobres pés, pobres flores.

murcharam ontem,

hoje secaram.


E o quotidiano

na minha vida

complicou-se.


V


Amargura no dia

amargura nas horas,

amargura no céu

depois da chuva,

amargura nas tuas mãos


amargura em todos os teus gestos.


Só não existe amargura

onde não existe o ser.


Estão sendo atropelados

em seus caminhos,

os que nada mais têm a encontrar.

Os que sentiram amargura de fel

escorrendo da boca,

os que tiveram os lábios

macerados de amor.


Estão terrivelmente sozinhos

os doidos, os tristes, os poetas.


Só não morro de amargura

porque nem mais morrer eu sei.


VI

Água esparramada em cristal,

buraco de concha,

segredarei em teus ouvidos

os meus tormentos.

Apareceu qualquer cousa

em minha vida toda cinza,

embaçada, como água

esparramada em cristal.

Ritmo colorido

dos meus dias de espera,

duas, três, quatro horas,

e os teus ouvidos

eram buracos de concha,

retorcidos

no desespero de não querer ouvir.


Me fizeram de pedra

quando eu queria

ser feita de amor.


VII


Maria anda como eu:

Impossibilitada de fazer

tudo o que quer.


Tem mãos amarradas,

ar de doente, olhar de demente,

cansada.


Maria vai acabar como eu:

covarde nas decisões,

amante das cousas indefinidas

e querendo compreender suicidas.


Maria vai acabar assim sem rumo,

andando por aí,

fazendo versos

e tendo acessos

nostálgicos.


Maria vai acabar

bem tristemente.

De qualquer jeito,

lendo jornais,

tendo marido

indefinido.


(Não sei por que Maria

quer compreender

muito, demais,

a vida do suicida.

E Maria vai acabar

se fartando da vida.)


A vida, coitada,

é camarada, gosta de Maria,

quer fazer Maria viver mais,

porque Maria é desgraçada.

Quer deixá-la para o fim,

assim à mostra,

e eu francamente não entendo

por que Maria não gosta

da vida


VIII


Canção do mundo

perdida na tua boca.


Canção das mãos

que ficaram na minha cabeça.


Eram tuas e pareciam asas.


Pareciam asas

que há muito quisessem repousar.


Canção indefinida

feita na solidão

de todos os solitários.


Os homens de bem

me perguntaram

o que foi feito da vida.


Ela está parada.

Angustiadamente parada.


O que foi feito

da ternura dos que amaram…


Ficou na minha cabeça,

nas tuas mãos que pareciam asas.

Que pareciam asas.


IX


Colapso hibernal

das cousas ausentes.

Desfila diante de mim

o teu olhar parado.

Na minha frente

há figuras de mortos

tecendo roupas brancas,

e na tua vida

há qualquer cousa de triste

que não foi contado.


Coragem de viver os dias

sem falar de loucos

quando há qualquer louco

no infinito,

pedindo uma lembrança

e contei os seus dias de vida

nos meus sonhos.


Existe um deus qualquer

nas minhas entranhas.


Pobre loucura

atrofiando o amor da amada.

Teu pobre olhar

atrofiou minha vida inteira.



X


Olhamos eternamente

para as estrelas

como mendigos

que eternamente

olham para as mãos.


E imaginamos

cousas absurdas

de realização.

Cousas que não existem

e cujo valor

é o de consistirem

parte da ilusão.


E olhamos eternamente

para as estrelas

porque parecem diferentes.

E quando agrupadas

eu as revejo individualizadas.

Estrelas… só.

Quem sabe se naquela imensidão

elas sofrem o mal dissolvente,

passivo,

mas dissolvente ainda: solidão.


Brilham para o mundo.

No entanto estão sozinhas

na lúgubre fantasia de pontas.


Nunca, meditem,

nunca as encontraremos

pois elas olham

igualmente para nós

e nos desejam

porque estão sós.


XI


Quando terra e flores

eu sentir sobre o meu corpo,

gostaria de ter ao meu lado tuas mãos.

E depois, guardar meus olhos dentro delas.


XII


Dia doze… e eu não suportarei

o estado normal das cousas.

O ano que vem, não vou desejar

felicidades a ninguém.


Nem bom natal, nem boas entradas.


Meus amigos sabem de tudo o que eu sei.

E continuam a viver sem interrupção,

apressadamente como no ato do amor.

São doidos e não percebem que amanhã

Cristina não virá.

Que amanhã Cristina vai morrer

porque ama a vida.


Amanhã serei corajosamente Cristina.

Eu, amando todos os que sofrem.

Eu… essência.


Mas os meus amigos, coitados,

não percebem.

Fazem filhos nascer, fazem tragédia.

Não sabem que o amor não é amor

e a natureza é um mito.


Não sabem de nada os meus amigos.

E não vou explicar

porque podem ficar sentidos.

São puros, vão morrer como anjos.

Vão morrer sem nada saber

daqueles dias perdidos.


Vão morrer sem saber que estão morrendo.


XIII


Me falaram de um deus.

Eu chorava na quietude

dos dias sós.


A irmã morta sorria

o riso pálido dos santos.


Me falaram de um deus.

Deus em branco.

Deus que faz de flores, pedras.

E de pedras, compreensão.


Deus amargurado.

Chora e geme

na quietude dos dias sós.


Consolo.


XIV


Fui monja

vestida de negro

em labirinto azul.


Antes do Ser

havia um homem

consciente

destruindo o lirismo

descuidado

das minhas madrugadas.


Estava presente

nas conversas dos bares

— solitárias histórias.

Estava presente

na fusão dos homens medíocres

e dos homens sem cor.


Em azul e negro

eu vi o esboço

de um caso triste,

aquele doido

procurando as mãos.

As mãos que deixara


Hilda Hilst

imagens: Nydia Lozano 

domingo, 15 de agosto de 2021

 

omar ortiz


(…) Paixão é a grossa artéria jorrando volúpia e ilusão, é a boca que pronuncia o mundo, púrpura sobre a tua camada de emoções, escarlates sobre a tua vida, paixão é esse aberto do teu peito, e também teu deserto.

Hilda Hilst

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Os sentimentos vastos não têm nome



 Os sentimentos vastos não têm nome. Perdas, deslumbramentos, catástrofes do espírito, pesadelos da carne, os sentimentos vastos não têm boca, fundo de soturnez, mudo desvario, escuros enigmas habitados de vida mas sem sons, assim eu neste instante diante do teu corpo morto. Inventar palavras, quebrá-las, recompô-las, ajustar-me digno diante de tanta ferida, teria sido preciso, Lucas meu amor, meus 35 anos de vida colados a um indescritível verdugo, alguém Humano, e há tantos indescritíveis Humanos feito de fúria e desesperança, existindo apenas para nos fazer conhecer o nome da torpeza e da agonia. Mas indigno e desesperado me atiro sobre o vidro que recobre a tua cara, e várias mãos, de amigos? de minha filha adolescente? de meu pai? ou quem sabe as mãos de teus jovens amigos repuxam meu imundo blusão e eu colo a minha boca na direção da tua boca e um molhado de espuma embaça aquela cintilância que foi a tua cara. Grito. Gritos finos de marfim de uma cadela abandonada tentando enfiar a cabeça na axila de Deus. De uma cadela sim. Porque as fêmeas conhecem tudo da dor, fendem-se ou são desventradas para dar à luz e eu Lucius Kod neste agora me sei mais uma esquálida cadela, a morte e não a vida escoando de mim, musgos finos pendendo dos abismos, estou caindo e ao meu redor as caras pétreas, quem são? amigos? minha filha adolescente? meu pai? teus jovens amigos? Caras graníticas, ódio mudo e vergonha, palavras que vêm de longe, evanescentes mas tão nítidas como fulgentes estiletes, palavras de supostos éticos Humanos:

 Constrangedor  Louco   Demente
 Absurdo        Intolerável

Ducente Deo começo estes escritos deveria ter dito. Tendo Deus como guia, começo estes escritos deveria ter dito.


 Hilda Hilst in: Rútilo Nada

quarta-feira, 26 de novembro de 2014



“Em todos há uns ares de pequenos disfarces, alisam simultâneos o dorso do cão, será porque a pergunta traz no corpo mergulhadas as palavras Tempo e Duração? Eternidade e seu corpo de pedra e dentro desse corpo o tempo procraz insolência soterrado na carne, ai Rute se o tempo no teu rosto te cobrisse de rugas, se tivesse a dura e adocicada comunhão com as coisas, talvez sim tu serias mais bela porque o rosto adquire a refulgência e dor e maravilha e matéria de tudo o que te rodeia te penetra, e ao invés de gastares teu ouro no apagar das linhas finas e dos sulcos, tu te tocarias amante, mansa, sabendo que o vestígio de todas as solidões se fez presença no teu rosto, que o sofrido da água é cicatriz agora ao redor da tua boca, que tomaste para tua fronte a linha funda da pedra. Ruteidade de Rute se te conhecesses como Tadeu desejaria, se deixasses que o Tempo fizesse a sua casa no teu centro, se a nossa casa tivesse sido a vida de nossas próprias casas, Se Tadeu tivesse ouvido aquele murmúrio ecoante adolescente que se fez inesperado em verso: cria a tua larva em silêncio,também estou mudo e aguardo. e ao contrário, me fiz num caminhar insano e fui atrás dos teus murmúrios ocos e a vaidade tomou posse do meu corpo quem sabe se porque te via, Rute, dourada, os crepes da cor de um tabaco escolhido esvoaçavas sobre os tapetes cor de sangue, mas na verdade teus sapatos mínimos mergulhavam no sangue de Tadeu, eu não sabia, eras adequada ao cenário da sala, como se um traço fosse pensado apenas para te colocar num pergaminho-marfim mais precioso, e depois te sentavas nos tecidos listados, ostro do respaldar te refletindo a cara, Rute cravada no palco, e eu procurava um texto sábio para contraponto e me via repetindo os versos de um homem que conheci lúcido-louco: ames ou não ó minha amada / quero-te sempre boa atriz / mentir amor não custa nada / e custa tanto ser feliz."

Hilda Hilst - TADEU (da razão), do livro "Tu não te moves de ti"

sábado, 9 de agosto de 2014

Ode Fragmentária. 1961 - Heróicas

Lady of silence
Calm and distressed
Torn and most whole
Rose of memory

T.S. Eliot



Se há muito o que inventar por estes lados
O que sei com certeza são meus fados
Exigindo verdades e punindo
Os líricos enganos da beleza.

À procura da rosa tenho andado
Causando às criaturas estranheza.
(Se me encontrares
Terei um jeito de flor
E um não sei quê de brisa
Nos meus ares.
Hei de buscar a rosa
- A dos altares -
E sinto graça nos pés
Leveza nos andares)

Não temes
As deidades atentas da memória
Os gnomos secretos, a loucura,
A morte?


Morremos sempre.
O que nos mata
São as coisas nascendo:
Hastes e raízes inventadas
E sem querer e por tudo se estendendo
Rondando a minha
Subindo vossa escada.
Presenças penetrando
Na sacada.

Invasões urdindo
Tramas lentas.

Insetos invisíveis
Nas muradas.

Eis o meu quarto agora:
Cinza e lava.
Eis-me nos quatro cantos
(Morte inglória)
Morrendo pelos olhos da memória.
Aproximam-se.
E libertos de presença da carne
Se entreolham.

O teu nascer constante
Traz castigo.
Os teus ressuscitares
Serão prantos.


Distorço-me na massa
De uma argila sem cor.
Mil vezes me refaço
E me recrio em dor.

E pouso lentamente
Sob a testa fria
Os girassóis da mente.

Antes as órbitas vazias!
Será eterno o júbilo de ter
Espátulas e nume
Nas mãos e no ser?

Bastasse o confessar-me a assim punir-me
De toda intemperança dos humanos.
Bastasse o que não sou e o refluir-me
Longínqua na maré desordenada. 


Sendo quem sou, em nada me pareço.
Desloco-me no mundo, ando a passos
E tenho gestos e olhos convenientes.
Sendo quem sou
Não seria melhor ser diferente
E ter olhos a mais, visíveis, úmidos
Ser um pouco de anjo e de duende?
Cansam-me estas coisas que vos digo.
As paisagens em ti se multiplicam
E o sonho nasce e tece ardis tamanhos.
Cansam-me as esperanças renovadas
E o verso no meu peito repetido.
Cansa-me ser assim quem sou agora:
Planície, monte, treva, transparência.
Cansa-me o amor porque é centelha
E exige posse e pranto, sal e adeus.

Queres o verso ainda? Assim seja.
Mas viverás tua vida nesses breus.


Um todo me angustia.

Se era de amor a ilha
E o mar à minha volta,
Não será menos certo
Que a sextilha de agora
Das formas que pensei
É a mais remota.
Temos jeitos de ser.
(Às vezes obscuros
Como convém ao ser)
Se em nada me detenho
Água de muitos rios
Passando por canais
De grande amor e mágoa,
Em tudo me detenho
Eu sei que sou raiz.

E se às vezes abrigo
Num caminhar rasteiro
As solidões alheias,
Às vezes vertical
Encontro aquele mundo
que é também o da terra
Feérico e abismal.

Tão grande ambivalência
Concedida aos homens
Terá sido dos deuses
Complacência?


Se falo
É por aqueles mortos
Que dia a dia
Em mim ressuscitam.
De medos e resguardos
É a alma que nos guia
A carne aflita.
E de espanto
É o que tecemos:
Teias de espanto
Ao redor
Da casa
Onde vivemos.
Trituramos cada dia
(Agonizantes amenos)
Constelações e poesia
E um certo jeito de amar
Que a nós,
De vôos e vertigens,
Não convém.
E quem sabe o que convém
A seres tão exauridos.
Concedemos
Alento, nudez, lirismo.
E contudo o que mais somos
São estes sonhos
Adentros indevassáveis
Bosques
Lilazes
Caminhos levando ao mar
Aves
Aves.


Ramas nas margens do rio que me pretendo.
E entre rio e regato, prodigiosa e leve
Levo no meu leito mais auroras.

Contente de mim mesma me inauguro sonora.

Se é preciso parar, colher raízes
Rememorar as sagas e ao lembrá-las
Imaginar um gesto, vado e vaga,
É preciso também
Um riso aberto e claro e cristalino.
E retomando o caminho da rosa
De órbita ilimitada mas fremosa
Me vejo em penitência, brasa e espinho.

Ah, deidades,
O vosso riso inflama
Ainda mais
O passo de quem ama.
De coração ardente
Eis-nos aqui.
Não haverá magia
Nem vertente
Nem segredo conluio
Nem labareda clara
ostentando uma rosa
Que não a preclara,
Que cegue o entendimento

Ou que vacile o andar.
Somos a um mesmo tempo
Rio e mar.
Na laringe e no peito
Renasce cada dia
Um estigma de luz
Um signo perfeito
E nada nos escurece a mente ou nos seduz.


Vós, humanos,
De gesto tanta vezes suplicante.
De coração ardente, dizeis?

A nós parece exangue
Esse pulsar contínuo
E tarefa insensata
Porque nós, divinos,
Temos no peito a força
o altar
A lança
E um todo movediço nos contém.
E se o arder renova
A sarça e a esperança,
um secreto poder
Consome a própria chama.
Vós, humanos,
De invólucro oscilante
E impermanente
Mortais e fustigados
Pretendeis o mais alto?
Amargados destinos.
Buscar a rosa
Cabe a nós, divinos.
Em nós a claridade
em nós tamanho amor
E sol e santidade...

E suas gargantas de aço
Inundaram de lava
Aquilo que era espaço


Era ali? Era adiante naquele muro
De claro verde musgo? Era distante?

Os mortos ressurgiram e cantaram:
Se a perfeição é a morte
Talvez por isso imortais
Há muito que existimos.
Mas se algum dentre vós
É de sopro divino,
Encantai-nos:
Árvore, pedra, ar, se vos apraz
Vida perpétua mas paciente e quieta.
Se o que vos guia e a fala de um poeta
Há muito entre nós. E procuraram
o todo uniforme: Hálito, sudário
E o mais além do homem.
Iguais a vós, a nós nos encontraram.
Eram velozes e límpidos. Asas
Nos pés humanos e por isso frágeis.

E apesar da eloquência que os mantinha
quando a noite chegava se crispavam
Como a mulher fecunda que é sozinha
E sabe do seu tempo incerto e pouco.

Como os humanos temem suas trevas!
Como temeis em vós a criatura!
E o mal sabeis que é sempre na clausura
que a vida se aproxima e recomeça.
Humildade e abandono. E que a palavra
Se tentar existir, seja singela.
E se for sábia, estranha  à vossa lavra
Orai àqueles que a fizeram bela.


Ai de nós, peregrinos,
Antes do amanhecer
Sonhando eternidades!
Não é nosso o destino
De amar e florescer.
Antes vertiginosos
Tateamos na sombra
A laje dos abismos.
E uma vez lacerados
Queremos a montanha.
Seu arco-íris. Seus lagos.

Amor e amenidade
São reservados aos filhos,
Aos amantes. A nós
Que verdes e que prados
E que planície extensa
Nos tranquiliza o olhar?

Se fôssemos aqueles
Feitos de areia, tantos,
Onde a água resvala
E volta e serpenteia
Mas deixa um só vestígio:
De umidade ou de pranto.

Ai de nós, mutilantes,
De afetos imprecisos,
De repente tomados
À lua das vazantes
Num relance possessos
Possuídos
Inflamando o sentir
Recomeçando aquele, o mesmo canto.

Estuários frequentes
Desviam nossas velas.
E de que lado, onde
Uma visão mais bela
Se o único prazer
é ter o mar, o vento
E naufrágios além
E descobertas
E permanências veladas
Muito ausência.
Em que montanha azul a nossa meta?


Se havia em nossa voz uma cadência,
Crescia em nosso peito uma brandura
Tão poderosa e viva e assim tão pura
Como se fosse a vida, a nossa vida,
Um caminhar tranquilo de inocência.
Um pouco do divino estava em nós.
Descobri-lo foi antes debruçar-se
Descer pausada sem tocar rochedos
Água de um mar imenso mas guardado
Sob um caudal de lírios e de medos.
Era do alto a força que nos vinha.
E à memória do tempo incorporou-se
Outra memória lúcida e candente.
Éramos nós ainda sibilantes
Soprando a cinza secular da mente?
Dou testemunho apenas da certeza
De uma visão suprema, luz e prata
De dimensão tão vasta e tão serena
Que o poeta apesar de ter vivido
Seus cânticos de amor
E de saber-se até predestinado
Porque sentiu temores, alegrias,
Guardou-se amante, iluminou-se crente
Cobriu-se de ternuras e de lendas

Não conheceu prazer ilimitado
Que suportasse o humano e suas penas.


Rosa consumada
Trajetória perfeita
Exatidão mais alta!

Pesa sobre nós
O limite da carne

O pensamento
Discursivo e lento.
Em nós
Corpóreos e pequenos
A fúria da vontade
E as mil abstrações

No amor e na verdade.

Nem sabemos por que
Construímos e amamos.

Mutáveis, imperfeitos
O mundo nos oprime

E nos comprime o peito.

Dúplices e atentos
Lançamos nossos barcos

No caminho dos ventos.

E nas coisas efêmeras
Nos detemos.

Hilda Hilst, Ode Fragmentária. 1961 - Heróicas
do livro Exercícios, Editora Globo, p. 133-148

Pinturas: Arkady Ostritsky

terça-feira, 24 de junho de 2014

Sete cantos do poeta para o anjo



Nunca fui senão uma coisa híbrida
Metade céu, metade terra,
Com a luz de Mira-Celi das duas órbitas

Jorge de Lima



Canto Primeiro

Se algum irmão de sangue (de poesia)
Mago de duplas cores no seu manto
Testemunhou seu anjo em muitos cantos 
Eu, de alma tão sofrida de inocências
O meu não cantaria?

E antes deste amor
Que passeio entre sombras!
Tantas luas ausentes
E veladas fontes.
Que asperezas de tato descobri
Nas coisas de contexto delicado.
Andei

Em direção oposta aos grande ventos.
Nos pássaros mais altos, meu olhar
De novo incandescia. Ah, fui sempre
A das visões tardias!
Desde sempre caminho entre dois mundos
Mas a tua face é aquela onde me via
Onde me sei agora desdobrada.



Canto segundo

Se te anuncio lágrimas e haveres
É para te encantares do meu canto,
Um tempo me guardei
Tempo de dor aquele
Onde o amor foi mar de muitas águas.

Se te anuncio ainda
É porque sempre em pedra fui talhada.
Em sal me consumi. E perecível
Tem sido a minha forma:
Estes dedos lunares, estas mãos
E tudo o que não foi tocado em ti.

Me queres em renúncia, em humildade
Ou íntegra e sozinha nestes cantos?
Tive ressurreição e anteprantos
E alegrias inteiras.
E muitas madrugadas
A sós me confessei
Àquela irmã soturna e mais amada.
Vi quase tudo. E quase tudo andei.



Canto Terceiro

E largamente amei as criaturas.
Os ouvidos se abriam. Ramas frágeis
Meus ouvidos, aceitando ternuras.

Uns regressos de vida me contavam:
Pactos, adolescências, heroísmos.
(Tessitura franzina
se estendendo sobre a pele mais fina)

Acaso não fui cúmplice dos meus?
Desses vindos da noite e turbados
Com seus próprios destinos?

Que terrível engano antes de ti!
E vigílias inúteis e pobrezas
E punições maiores, tais cilícios
Na carne! Tramas, tramas.

Que era feito de ti? Em mim, não eras.



Canto quarto

E por que me escolheste?
Em direções menores me plasmei.
Entre um pausa e outra fui cantando
Umas reminiscências, uns afetos
E carregava atônita meu gesto
Porque dizia coisas que nem sei.

Ouvi continuamente muitas vozes.
Umas de fogo e água tão intensas 
Outras crepusculares

E entendia
Que era preciso falar de uma ciência 
Uma estranha alquimia:

O homem é só. Mas constelar na essência.
Seu sangue em ouro se transmuta.
Na pedra ressuscita.
No mercúrio se eleva.
E sua verdade é póstuma e secreta.

Ah, vaidade e penumbra no meu canto!
Meu dizer é de bronze
E essa teia de prata
A mim mesma me espanta



Canto quinto

Eu nem soube falar do amor nos homens.
(Amor feito de júbilo aparente)
Nem soube replantar no que era terra
Uma mesma semente.
Tive no peito o mantra mais secreto
E não pude vibrá-lo, alento, lira
Corda divina no seu veio certo.

Elaborei em vão todos meus sonhos.
E súbito me tomas e me ordenas
A solidão mais funda:
Estes cantos agora, alguns poemas
Um amor tão perfeito e indizível
Porque não é tumulto nem tormento.
(E se o homem na carne foi punido
O verbo diz melhor do sofrimento).

Que nome te darei se em mim te fazes?
Se o teu batismo é o meu e eu só te soube
Quando soube de mim?



Canto sexto

A noite em verso  torpe me atingia.
As coisas insofridas
Sofridas se faziam
Se eu repusasse a mão sobre suas vidas.

Umas tardes meus olhos repensaram
Uma alvura de águas pretendida.
Tão leve caminhei sobre essas águas
Que a memória foi quase imerecida.

Onde estavas então? Nem me  sonhavas.

Deitei-ne sobre um tempo que viria 
E um ciclo de visões me revelava
Que no ódio dos deus fui lembrada

Em alto voo de ave , a esquecida.

E porque  paz e voo me faltavam
Eu desejei perder-me mais e tanto
Quanto fossem as perdas destinadas
Àqueles incapazes de algum pranto.

Perenidade e vida: Onde estavas?



Canto sétimo

Te ocultaste. Eu morria
Tinha na fronte a chaga

E o dorso calcinado, em agonia.

Na treva de mim mesma delirava
E as pálpebras em brasa
Não sabiam da tua claridade

Porque minha alma toda se perdia
E uma vida terrena começava
Seu círculo de cinza
Sua casa.

Anjo, asa,
Mão poderosa sobre a minha mão
Que o verso nunca mais transfigurava.
Prisma solarizado
Transcendência primeira
Dulcíssima presença:

Alta noite

O que foi treva em mim

Em ti resplandecia.



Hilda Hilst
Livro Exercícios, Editora Globo, p.119-125

Pinturas: An-He

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Odes maiores ao pai




Largo Pesante

I

 Uns ventos te guardaram. Outros guardam-me a mim. E aparentemente separados
 Guardamo-nos os dois, enquanto os homens no tempo se devoram.
Será lícito guardamo-nos assim?
Pai, este é um tempo de espera. Ouço que é preciso esperar
Uns nítidos dragões de primavera, mas à minha porta eles viveram sempre,
Claros gigantes, líquida semente no meu pouco de terra.

Este é um tempo de silêncio. Tocam-te apenas. E no gesto
Te empobrecem de afeto. No gesto te consomem.

Tocaram-te nas tardes, assim como tocaste
Adolescente, a superfície parada de umas águas? Tens ainda nas mãos
A pequena raiz, A fibra delicada que a si se construía em solidão?
Pai, assim somos tocados sempre.
Este é um tempo de cegueira. Os homens não se vêem. Sob as vestes
Um suor invisível toma corpo e na morte nosso corpo de medo
É que floresce.

Mortos nos vemos. Mortos amamos. E de olhos fechados
Uns espaços de luz rompem a treva. Meu pai: este é um tempo de treva. 



II

Ah essas dores! E o voltar contínuo ao silêncio das tardes!
Junto ao muro dos mortos o passeio se fazia longo. Estacávamos.
A tarde empobrecia de luz. O tempo galopava.
Vês? Tenho a alma pesada. Uma avidez no olhar
Antes ingênua, agora se fez grave. Há naquele campo a imutável paisagem:
As papoulas abertas, as ruas estreitas e uma grande e única alameda.
E datas, retratos. E súbito o ocre da terra sob os passos.
A mulher caminhava. Comprimia no peito a sua flor e de humildade
Era o olhar à procura do nome. Se tu visses depois que luminosa altivez
Se insinuava, quando voltava leve, sem o peso das dádivas.
E mitas passaram vagarosas. Umas lunares, com seus rostos aduncos.
Outras com a centelha escondida dos sacrários.



III

Não é teu este canto porque as palavras se abriram sobre a mesa.
Se chegavas era em silêncio e tocavas as coisas
Com a leveza dos meninos arrumando os altares. Uma rosa tardia
Mesmo assim desmanchava-se e tua presença na noite eu procurava.
Ninguém jamais nos via quando nos falávamos. As perguntas de sempre,
Os castiçais, o adro vazio da capela em frente. (E as persianas fechadas,
Para que o sal de fora não pousasse
Nas baixelas incríveis da memória). Aquele mar repetindo seu canto
Eas vozes partindo teus cristais! Como te abrigavas do ruído das estradas
E os teus livros abertos, como se desfizeram naquelas areias!
Nem sei de onde me vêm estes musgos, açoites, esta fonte que é nova
Em minha boca, nem sei dizer da morte o que te ouvi dizer no eco de umas noites.

Enquanto te celebro, as janelas do ocaso trazem risos.
E um hóspede atravessou incógnito teu jardim, afundou-se na névoa
Cansou -se do teu hálito nas arestas, nas muradas, nos cálices, em mim.

És presente como um vento que corre entre portas abertas. 



IV

Na tua ausência, na casa o perfume das igrejas. O odor
Da castidade antiga dos incensos, reacendeu a alegria da infância
E aspirei contigo o perfume menos casto das cerejas. Na casa,
Um ruído de contas de rosário, mas eu só, meu pai, te vigiava.
Os ventos te seguiram. E próxima do teu passo, eu mesma era o silêncio.
A pedra. Impossível de abraço.
Uma torre contigo caminhava. Nos muros, nas escadas, refizeram ardis
Fibras trançadas, e aqueles pareciam mais largos, aquelas mais altas.

No teu andar, um quase nada definido. Tinhas o caminhar dos animais,
Espaçado e perdido. Respirei teu mundo movediço: Pai, não viste o sal da terra
Corroendo os pilares, as cruzes, a capela? E o sonho sobre a tua fonte
É mesmo uma crisálida pronta para ter asas?

Abriram-se os portões mas a casa era nova. A que foi nossa
Tuas filhas te disseram que na noite, um homem e sua torre,
Com paciências guardadas, pouco a pouco a demoliram.



V

Sobrevivi à morte sucessiva das coisas do teu quarto.
Vi pela primeira vez a inútil simetria dos tapetes e o azul diluído
Azul-branco das paredes. E uma fissura de um verde anoitecido
Na moldura de prata. E nela o meu retrato adolescente e gasto.
E as gavetas fechadas. Dentro delas aquele todo silencioso e raro
Como um barco de asas. Que fome de tocar-te nos papéis antigos!
Que amor se fez em mim, multiforme e calado!
Que faces infinitas eu amei para guardar teu rosto primitivo!

Desce da noite um torpor singular, água sob o casco de um velho veleiro
Calcinado. Em mim, o grande limbo de lamento, de dor, e o medo de esquecer-te
De soltar estas âncoras e depois florir sem ao menos guardar tua resonância.
Abraça-me. Um quase nada de luz pousou na tua mesa
E expandiu-se na cor, como um pequeno prisma. 



VI

Há tanto a dizer-te agora! Meus olhos se gastaram
Procurando a palavra nas figuras, nos textos, nas estórias.
Era preciso viajar e levantada em renúncias redescobrir a morte
Além de seus sudários e tremuras. Quase nada aprendi. De nada me lembrei.
Há talvez a memória de tatos, um sentir rarefeito, um ouvido inexato
Deitado em solidão sobre o teu peito. E adeuses ingênuos, calados de vitória
E aquele de fereza, de acerto, dissolvido em orgulho, ressuscitado
Vagamente em canto. E na manhã, o meu sonho passara e a minha voz
Não se erguera em poesia.

Será preciso esquecer o contorno de umas formas que vi: naves, portais
E o grande crisântemo sobre a faixa restrita do canteiro.

Através do gradil, no terraço do tempo te percebo. 
E ainda que as janelas se fechem, meu pai, é certo que amanhece.


Hilda Hilst
Odes maiores ao pai, editora globo, Livro – exercícios, editora globo,  p.91-96
imagens: Arantza Sestayo

quarta-feira, 19 de março de 2014

Iniciação do poeta


A carnagem do sol em nossos pés.
Carlos Maria de Araújo



1.

O ouro do mais fundo está em ti.
Em mim, as coisas breves tomam corpo
E uma saga de bronze no meu ombro
A cada dia se transforma em chaga.
Um sol que se contrai sobre o meu rosto.
Aves de que não sei a sombra, vi-as
Na manhã quando o amor era chama
Mas num sopro perdi-as
E é grande agonia o que era gozo.
Guia-me complacência. Que o instante
Não se afaste de mim, antes padeça
Desse meu existir e eu não me perca.




2.

Claro objeto onde a rainha e o rei
Perduram indefinidamente num só cetro.
Vendo-o, como se fizésseis parte
Do seu único centro, vos vereis.
Nele a terra se mantém como foi feita:
Tenebrosa e tenra. Nele está o homem.
E se o olhardes bem, vosso cavalo
De cálida matéria. E no mais ínfimo
Do que vos rodeia, o que vos digo vereis.
Canto. E o meu canto se ouvirá
Onde o silêncio pesa, porque de maor se fez
Em amor conduz
E se nem sempre o que vos digo vos alegra
Não é só pena e angústia do poeta
Antes do ser, em mim, em vós,
Eternidade de dor e desassombro.




3.

Toma-me, terra generosa. Tu que foste centelha
E agora és terra, abre o teu peito e abrasa o meu
Antes de ti desfeito, ah, infinita de dor e de poder
Aceita-me. Unge-me pés e mãos. Unge-me o ventre
Que só tem sido noite e saciedade sempre
E o plexo ferido e a cintura de fogo sobre a mente
E o dorso e a laringe.
Unge-me porque em mim um outro se prepara.
E o mínimo de dádiva e a entrega antecipada que me fiz,
Ao outro se fará tão necessária cinza
Para a justeza e oporte da raiz. Unge-me a boca, a língua
para dizer a palavra esquecida e atingir o ser.
E faze dos meus olhos a medida para olhar através
e nunca perecer.




4.

Terra, de ti é que vêm essas portas de mim. E sendo de sol
A planície de pedra, de sol o vestíbulo da casa, de sol
O dorso que também foi meu, impaciente das aves, fecho-me
Porque em tudo te vejo como se fosses de água, e derramasses
Teu corpo escurecido na paisagem. Quis para teu canto
A mais viva palavra: um só templo:
Nítido sobre a colina, limpo na luminosidade da hora.

Meu rosto será aquele de todos os teus mortos. E no entanto
Te amei como se eu mesma fosse unicamente terrra, mãe, filha
irmã na memória, multíparas e claras, nascidas de uma só matiz
Sofrida de uma só matérias.



5.

Resíduo da retina, corpo crepuscular
Cone do passado e de recusa
Rosa-retina persistindo reclusa
Vejo-te agora, espaço, esplanada
Vejo-te como quem vem de fora
Mais livre de sua múltipla aparência.

Vede minha voz: a cada dia se faz clara.
Pastor e guardião
Pasce e resguarda a minha fla
E o que é palavra rompe
A lúcida matéria onde se esconde.




6.

Sem heroísmo nem queixa, ofereço-vos
Minha mão aberta. Agora vos pertence.
Queimada de uma luz tão viva
Como se ardesse viva sob o sol. Olhai se possível
a mão que se queimou de coisas limpas.
E se souberdes o que em vós é justiça
Podereis refazê-la como a vossa mão. E depois igualada
Aproveitá-la. A cada hora, a cada hora
E para o vosso pão.




7.

De luto esta manhã e as outras
As mais claras que hão de vir, aquelas
Onde vereis o vosso cão deitado e aquecido
De terra. De luto esta manhã
Por vós, por vossos filhos e não pelo meu canto
Nem por mim, que apesar de vós ainda canto.
Terra, deito minha boca sobre ti.
Não tenho mais irmãos.
A fúria do meu tempo separou-nos
E há entre nós uma extensão de pedra.
Orfeu apodrece
Luminoso de asas e de vermes
E ainda assim meus ouvidos recebem
A limpidez de um som, meus ouvidos,
Bigorna distendida e humana sob o sol.

Recordo a ingênua alegria de falar-vos.
E se falei submisssa e cantei a tarde
E o deixar-se ficar de alguns velhos cavalos,
Foi para trazer de volta aos vossos olhos
A castidade do olhar que a infância vos trazia

Mas só tem sido meu, esse olho do dia.




8.

Me afundarei nesse teu vão de terra
E a brasa da tua língua
Há de marcar em fogo o mais vivo da pedra.
Uma palavra nova há de nascer, mais clara
Palavra aérea, em ti se elaborando asa.
Em tudo nesta morte és inocente
Mas minha boca feriu-se de uns cantares
E agora, silenciosa, goiva de si mesma
Não sabe mais dizer sem se ferir e breve
Há de fechar-se
Porque tem sido em tudo amenidade
E não é este o tempo de florir. Sabias
Que um pouco da tua terra endurecida
Deitou-se sobre mim? E respirei minha morte
E acendi memórias em ti reconfluída
E convidei meus hóspedes antigos
Aqueles mais longínquos, rigidez e cal
Sobre um corpo de pranto agora ungido.




9.

E sempre será preciso o pão desta agonia:
De um lado, o passeio de uns dias ao redor do lago
O verde convalescente da memória,
Os pés numa terra aquecida,
E tu também convalescente, tateando o mosaico
Das paredes, dócil como se falasses a ti mesmo
Depois do grande exílio de uns afetos extremos.

E a ponte. E em cada lado, um rosto.
O primeiro voltado para o mais fundo do ser,
Gasto como se o tempo ao redor existisse palpável,
Alimento.
E o outro, exposto como um tronco
Numa extensãod e sal e de cimento,
Abre a sua boca para todos os ventos.




10.

Como se comprimisses a mão
Sobre os teus olhos
E visses tua carnadura
Simplesmente igual a uma grande massa escura,
Como quem vê de dentro
A princípio não vendo
E aos poucos distinguindo
O sangue, o filamento, o sal da sua própria estrutura

Assim posso me ver agora.

Parte de mim
Estilhaça uma asa num círculo de ferro.
Parte de mim é um arcabouço raro.
E o que vem de ti (uma parte de mim)
São aqueles meninos
E as aves com seus corpos finos
Sobre um lago de ledas asperezas.

Sou descanso e rudeza.




11.

Se viverdes em mim, vereis até onde me entendo.
Pássaro que entende em arco seu claro movimento
Um dia há de pousar e estender-se em raiz. Ares
De um tempo colaram-se nas asas e um só tempo
Pretendo. Abriu-se minha mão. E toda terra
De sua pequena superfície não se colou ao vento.




12.

Grande papoula iluminando de amarelo e ouro
Esta morte de mim. Meu canto está partido.
Minha morte não é a mesma que recobriu de pedra
Vosso ouvido, mas é como se fora, porque é morte
Cantar assim e nunca ser ouvido. Grande papoula
Iluminando de amarelo e ouro, porque é vida
Querer cantar, sabendo que a canção
Só tornará mais fundo vosso sono antiquíssimo.
Dormi, pois. Um menino passeia o seu cavalo e olha o rio
e ri dentro do capinzal: Trigo perdido em direção ao mar!
Ah, boca de uma fonte antiga rindo um riso de sangue.
Se pudésseis abri-la para cantar meu canto!




13.

Asa de ferro, esmaga esta última fonte
De pequenas águas, agora que a memória
Na morte fez-se leve. Aqui não há mais boca.
E o que era corpo tem seu voo circular
Sobre todas as coisas. Há lugares iguais
Àqueles que cantei, girassóis com suas hastes
De terra, mas tudo como se fosse visto
Vendo a um tempo só, a paisagem e o vidro.
Os cavalos escuros correm numa extensão
De claridade. E não há sede de águas
Nem vontade dolorida da palavra.
Estou no centro escuro de todas as coisas
Mas a visão é larga
Como um grito que se abrisse e abrangesse o mar


Hilda Hilst, do livro Exercícios, Editora Globo, p.101-113
Pinturas:  Katarzyna Kurkowska