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quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

André Malraux, A Condição Humana

"Mas, enquanto se liberta da sua vida", pensava ela, "outros Katows são queimados nas fornalhas, outros Kyros..."
O olhar de Gisors, como se tivesse seguido o gesto de esquecimento, perdeu-se ao longe: pra lá da estrada, os mil ruídos de trabalho do porto pareciam voltar com as vagas para o mar resplendente. Correspondiam ao deslumbramento da primavera japonesa com o esforço dos homens, com os navios, os elevadores, os automóveis, a multidão ativa. May pensava na carta de Pei: era no trabalho enérgico desencadeado por toda a terra russa, na vontade de uma multidão para quem esse trabalho se fizera vida, que se tinham refugiado os seus mortos. O céu raiava nos esboços dos pinheiros como sol; o vento que inclinava molemente os ramos deslizou-lhes sobre os corpos estendidos. Pareceu a Gisors que esse vento passava através dele como um rio, como o próprio tempo, e, pela primeira vez, a ideia de que passava por ele o tempo que o aproximava da morte não o separou do mundo, antes o ligou a este num acordo sereno. Fitava o amontoado de guindastes ao fundo da cidade, os paquetes e os barcos no mar, as manchas humanas na estrada. "Todos sofrem", pensou, "e cada um sofre porque pensa. No fundo, o espírito só pensa o homem no eterno, e a consciência da vida só pode ser angústia. Não se deve pensar a vida com o espírito, mas com o ópio. Quantos sofrimentos dispersos nesta luz desapareceriam, se desaparecesse o pensamento..." Liberto de tudo, mesmo de ser homem, acariciava com reconhecimento o cano do cachimbo, contemplando a agitação de todos esses seres desconhecidos que caminhavam para a morte ao deslumbrante sol, cada um acariciando no mais secreto de si o seu parasita assassino. "Todos os homens são loucos", pensou ainda, "mas que é um destino humano senão uma vida de esforços para unir esse louco e o Universo?..." Tornou a ver Ferral, iluminado pela lâmpada baixa, na noite cheia de bruma, ouvindo: "Todo homem sonha ser deus..."
Cinquenta sirenas ao mesmo tempo invadiram o ar; aquele dia era véspera de festa, e o trabalho acabava. Antes de qualquer mudança no porto, homens minúsculos atingiram, como batedores, o caminho direito que levava à cidade, e em breve a multidão enchia-o, longínqua e negra, num barulho de buzina: patrões e operários largavam ao mesmo tempo o trabalho. Vinha como ao assalto, com o grande movimento inquieto de toda multidão contemplada a distância. Gisors vira a corrida dos animais para as fontes, ao cair da noite:  um, algum, todos precipitados para a água por uma força caída com as trevas; na sua recordação, o ópio dava à corrida cósmica uma harmonia selvagem, e os homens perdidos no longínquo barulho dos socos pareciam-lhe todos doidos separados do Universo, cujo coração, batendo algures, no alto, na luz palpitante, agarrava-os e atirava-os para a solidão, como os grãos de uma colheita desconhecida. Ligeiras, muito altas, as nuvens passavam por cima dos pinheiros sombrios e sumiam-se pouco a pouco no céu; e pareceu-lhe que um dos seus grupos, aquele precisamente, exprimia os homens que conhecera ou amara, e que estavam mortos. A humanidade era espessa e pesada, pesada de carne, de sangue, de sofrimento, eternamente colada a si mesma como tudo o que morre; mas mesmo o sangue, mesmo a morte sumiam lá longe na luz, como a música na noite silenciosa: pensou na de Kama, e a dor humana pareceu-lhe subir e perder-se como o próprio canto da terra; na paz tremente, e escondida nele como o coração, a dor possuída fechava lentamente os braços inumanos.
- Fuma muito? - repetiu ela.
Já lho perguntara, mas ele não atinha ouvido. O seu olhar voltou à sala:
- Julga que não adivinho o que pensa, e julga que eu não o sei melhor que você? Julga mesmo que me não seria fácil perguntar-lhe com que direito me condena?
Olhou-a:
- Não deseja ter um filho?
Ela não respondeu: esse desejo sempre fervoroso parecia-lhe agora uma traição. Mas olhava com espanto aquele rosto sereno. Voltava na verdade do fundo da morte, estranho como um dos cadáveres das valas comuns. Na repressão que caíra sobre a China esgotada, na angústia ou na esperança do povo, a ação de Kyo continuava incrustada como as inscrições dos impérios primitivos nas gargantas dos rios. Mas mesmo a velha China que esses poucos homens tinham atirado sem retorno às trevas, com um estrondo de avalancha, não estava mais apagada do mundo que o sentido da vida de Kyo do rosto do pai. Ele continuou:
- A única coisa que eu amava foi-me tirada, não é verdade? e quer que eu permaneça o mesmo. Julga que o meu amor não valeu o que vale o seu para você, cuja vida nem sequer mudou?
- Como não muda o corpo de um vivo que se torna um morto...
Ele pegou-lhe na mão.
- Conhece a frase: "São precisos nove meses para fazer um homem, e um só dia para o matar". Nós soubemo-lo tanto quanto se pode saber, um e outro... May, ouça: não são precisos nove meses, são precisos cinquenta anos para fazer um homem, cinquenta anos de sacrifício, de vontade, de... de tanta coisa! E quando esse homem está feito, quando nada mais há nele da infância, nem da adolescência, quando, verdadeiramente, ele é um homem, nada mais resta senão morrer.
Ela fitava aterrada; ele olhava as nuvens:
- Amei Kyo como poucos homens amam os filhos, bem sabe...
Continuava a segurar-lhe a mão, chegou-a para si, tomou-lha nas suas:
- Ouça-me: temos de amar os vivos, e não os mortos.
- Eu não vou a Moscou para amar.
Ele contemplava a a baía magnífica, cheia de sol. Ela retirara a mão.
- No caminho da vingança, May encontra-se a vida...
- Não é uma razão para a chamar.
Ela levantou-se, estendeu-lhe a mão em sinal de adeus. Mas ele segurou-lhe o rosto entre as palmas das mãos e beijou-lho. Kyo beijara-a assim, no último dia, exatamente assim, e nunca mais quaisquer mãos lhe tinham agarrado a cabeça.
- Agora já não choro - disse ela, com um orgulho triste.


André Malraux, A Condição Humana

domingo, 15 de janeiro de 2012

André Malraux, A condição Humana

“Flamenga”, pensou ele… Interrompeu-a:
- Pode-se arranjar ópio não muito caro. Eu pago este a dois dólares e setenta e cinco.
- Também és do norte?
- Ele deu-lhe uma caixa sem responder. Ela ficou grata por encontrar um compatriota e por aquela oferta.
- Ainda é muito caro para mim... Mas este não terá custado caro. Hei de comer dele esta noite.
- Não gosta de fumar?
- Julgas então que tenho um cachimbo? Mas que idéia fazes tu das minhas posses?
- Sorriu com amargura, contente ainda, apesar de tudo. Mas a desconfiança costumeira surgiu outra vez:
- Por que é que tu mo dás?
- Deixa lá... Dá-me prazer. Já fui do “meio”...
- Na verdade, ele não tinha o ar de um freguês. Mas não era certamente já “do meio” há muito tempo. (ele tinha às vezes necessidade de inventar para si biografias completas, mas raramente quando a sexualidade estava em jogo.) Ela chegou-se para ele sobre os coxins.
- Só quero que sejas amável comigo: será a última vez em que me deito com uma mulher...
- Por quê?
- Ela era de compreensão lenta, mas não estúpida. Depois de ter respondido, compreendeu.
- Tu queres matar-te?
Não era o primeiro. Tomou entre as suas mãos a de Clappique, pousada sobre a mesa, e beijou-a, num gesto desajeitado e quase maternal.
- É uma pena... queres ir lá para cima?
Tinha ouvido dizer que esse desejo vinha por vezes aos homens, antes da morte. Mas não ousava ser a primeira a levantar-se: julgaria tornar-lhe assim mais próximo o suicídio. Conservava a mão dele entre as suas. Deitado para cima dos coxins, com as pernas cruzadas e os braços colados ao corpo como um inseto friorento, olhava para ela, de nariz estendido, com um olhar muito distante, apesar do contato dos corpos. Embora tivesse bebido muito pouco, estava embriagado com aquela mentira, com o calor do universo fictício que tinha criado. Quando dizia que se matava, não pensava em tal, mas, como ela acreditava, ia entrando num mundo onde a verdade já não existia. Não era verdadeiro nem falso, mas vivido. E como não existiam, nem o passado que acabava de inventar para si nem o gesto elementar e suposto tão próximo sobre o qual se fundava a ligação com essa mulher, nada existia. O mundo tinha cessado de pesar sobre ele. Livre, já só vivia no universo romanesco que acabara de criar, forte pelo laço que estabelece toda piedade humana perante a morte. A sensação de embriaguez era tal que a mão lhe tremia. A mulher sentiu e julgou que era de angústia.
- Não havia meio de remediar... isso?
- Não.
O chapéu, pousado ao canto da mesa, parecia olhá-lo com ironia. Atirou-o para cima das almofadas, para o não ver mais.
- História de amor? Perguntou ela ainda.
Uma salva crepitou ao longe. “Como se não houvesse bastantes que terão de morrer esta noite”, pensou ela.
Ele levantou-se sem ter respondido. Ela julgou que a pergunta lhe chamara recordações à memória. Apesar da curiosidade, teve vontade de lhe pedir perdão, mas não se atreveu. Levantou-se também. Metendo a mão debaixo do bar, tirou de lá um embrulho (seringa, toalha) de entre dois frascos. Subiram.
Quando saiu (ele não se voltara, mas sabia que ela o seguia com o olhar, através da vidraça), nem o seu espírito nem a sua sensualidade estavam saciados. A bruma voltara. Depois de um quarto de hora de caminhada (o ar fresco da noite não o acalmava), parou diante de um bar português. Os vidros deste não estavam embaciados. Afastada dos clientes, uma morena magra, de olhos muito grandes com as mãos sobre os seios como que para os proteger, contemplava a noite. Clappique olhou-a sem se mover. “Sou como as mulheres que não sabem o que um novo amante obterá delas... Vamos suicidar-nos com aquela.”


André Malraux, A condição Humana

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

André Malraux, A condição humana

- Leu a Alice no País das Maravilhas, querida?
Desprezava as mulheres, sem as quais não podia passar, o bastante para lhes chamar “querida”.
- Como pode duvidar disso? Sei-o de cor.
- O seu sorriso faz-me pensar no fantasma do gato que nunca se materializava, e do qual não se via senão um encantador sorriso de gato, flutuando no ar. Ah! Por que será que a inteligência das mulheres quer sempre escolher outro objeto além do seu próprio?
- E qual é o próprio, querido?
- O encanto e a compreensão, é evidente.
Ela refletiu.
- Os homens chamam assim à submissão do espírito. Vocês não reconhecem numa mulher senão a inteligência que os aplaude. É tão, tão repousante...
- Dar-se, para uma mulher, e possuir, para um homem, são os únicos meios que os seres tem de compreender seja o que for...
- Não acha, querido, que as mulheres não se dão nunca (ou quase) e que os homens não possuem nada? É um jogo: “Eu julgo que a possuo, portanto ela julga que é possuída...” Sim? Realmente? O que vou dizer é muito mal comparado, mas não acha que é a história da rolha que se julgava muito mais importante do que a garrafa?
A liberdade de costumes numa mulher excitava Ferral, mas a liberdade de espírito irritava-o. Sentiu-se ávido de fazer renascer o único sentimento que lhe dava vantagens sobre uma mulher: a vergonha cristã, o reconhecimento pela vergonha sofrida. Se ela não adivinhava, adivinhou que ele se separava dela, e, sensível por outro lado a um desejo físico que via crescer, divertida com a ideia de que podia atraí-lo à vontade, olhou-o, com a boca entreaberta (visto que ele amava o seu sorriso...) o olhar oferecido, certa de que, como quase todos os homens, ele tomaria por um abandono o desejo que ela tinha de o seduzir.
Ele juntou-se-lhe na cama. As carícias davam a Valérie uma expressão fechada que ele quis ver transformar-se. Apelava para a outra expressão com demasiada paixão para não esperar que a voluptuosidade a fixaria no roso de Valérie, crente de que destruía uma máscara, e que o que ela tinha de mais profundo, de mais secreto, era necessariamente o que ele preferia nela: só tivera relações com ela às escuras. Mas mal, com a mão, lhe afastou suavemente as pernas, ela apagou a luz. Ele reacendeu-a.
Procurara o interruptor às apalpadelas, e ela supôs um equívoco: apagou outra vez. Ele acendeu logo. De nervos muito sensíveis, ela sentiu-se, ao mesmo tempo, muito próxima do riso e da cólera: mas deu com o olhar dele quando afastara o interruptor, e teve a certeza de que ele esperava o mais evidente prazer da transformação sensual dos seus traços. Sabia que só era realmente dominada pela sexualidade no princípio de uma ligação, e de surpresa; assim que viu que não encontraria o interruptor, a tepidez que conhecia arrebatou-a, subiu-lhe ao longo do torso até os bicos dos seios, até os lábios, que adivinhou, pelo olhar de Ferral, intumescerem insensivelmente. Escolheu a tepidez, e, com as coxas e com os braços apertando-o contra ela, mergulhou em longas pulsações longe de uma margem, para a qual sabia que seria atirada, daí a pouco, com ela mesma, a resolução de não lhe perdoar.

Valérie dormia. A regular respiração e o abandono do dormir inchavam-lhe os lábios com doçura, e também com a expressão perdida eu lhe dava o gôzo. “Um ser humano”, pensou Ferral, “uma vida individual, isolada, única, como a minha...” Imaginou-se ela, habitando o seu corpo, sentido em seu lugar esse gôzo que ele não podia sentir senão como uma humilhação; imaginava-se ele mesmo, humilhado por aquela voluptuosidade passiva, por aquele sexo de mulher. “É idiota, ela sente em função do seu sexo, como eu em função do meu, nem mais nem menos. Ela sente como um nó de desejos, de tristeza, de orgulho, como um destino... É evidente.” Mas não naquele momento: o sono e os lábios entregavam-na a uma sensualidade perfeita, como se ela tivesse aceitado o não ser já um ser vivo e livre, mas apenas esta expressão de reconhecimento de uma conquista física. O grande silêncio da noite chinesa, como o seu cheiro de cânfora e de folhas, adormecido também até o Pacífico, cobria-a, fora do tempo: nem um navio chamava, nem um tiro se ouvia. Ela não arrastava para o seu sono recordações e esperanças que jamais possuiria, nada mais tinha senão o outro pólo do seu próprio prazer. Nunca vivera, nunca fora uma mocinha.
O canhão, outra vez: o comboio blindado recomeçava a atirar.


André Malraux, A condição humana

terça-feira, 29 de junho de 2010

André Malraux, A condição humana

- Quer que eu cante?
- Agora não.
Olhava o corpo dela, ao mesmo tempo indicado e oculto pela túnica de seda lilás com estava vestida. Sabia que estava estupefata: não é costume deitar-se alguém com uma cortesã, sem que ela tenha cantado, conversado, servido à mesa ou preparado cachimbos. Por que, se assim não era, não se dirigira às prostitutas?
- Também não quer fumar?
- Não. Despe-te.
Ele negava a dignidade dela, e sabia-o. Teve vontade de exigir que ela se pusesse toda nua, mas ela teria recusado. Só tinha deixado aceso um candeeirinho de mesa de cabeceira. “O erotismo”, pensou, “é a humilhação em si ou noutrem, nos dois talvez. Uma idéia, muito evidentemente...” Aliás. Ela era mais excitante assim, com a camisa chinesa justa; mas estava pouco excitado, ou talvez só o estivesse pela submissão desse corpo que o esperava, ao passo que ele nem se movia. O seu prazer brotava de que se punha no lugar da outra, era claro: da outra, forçada, constrangida por ele. Em suma, nunca se deitava senão consigo próprio, mas só podia chegar a isso na condição de não estar só. Compreendia agora o que Gisors só adivinhara: sim, a sua vontade de poderio nunca atingia o seu objetivo, vivia só de o renovar; mas, ainda que na sua vida não houvesse possuído uma única mulher, possuía e possuiria, através daquela chinesa que o esperava, a única coisa de que era ávido: ele próprio. Eram-lhe precisos os olhos dos outros para se ver, os sentidos de uma outra para se sentir. Olhou a pintura tibetana, posta ali sem que se soubesse muito bem por quê: num mundo desbotado, sem cor, onde erravam viajantes, dois esqueletos exatamente análogos abraçavam-se em transe.
Aproximou-se da mulher.

André Malraux, A condição humana