Mostrando postagens com marcador Ricardo Reis. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ricardo Reis. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 19 de junho de 2024


 

Tempo, tempo, tempo, tempo.

Cada coisa tem o seu.

Cada pessoa.

Cada poema.


Ricardo Reis

sábado, 28 de maio de 2022

 

Fulvio de Marinis


Só esta liberdade nos concedem

Os deuses: submetermo-nos

Ao seu domínio por vontade nossa.

Mais vale assim fazermos

Porque só na ilusão da liberdade

A liberdade existe.


Nem outro jeito os deuses, sobre quem

O eterno fado pesa,

Usam para seu calmo e possuído

Convencimento antigo

De que é divina e livre a sua vida.

Nós, imitando os deuses,

Tão pouco livres como eles no Olimpo,

Como quem pela areia

Ergue castelos para encher os olhos,

Ergamos nossa vida

E os deuses saberão agradecer-nos

O sermos tão como eles.


Ricardo Reis. Fernando Pessoa

domingo, 9 de janeiro de 2022

Renzo Castaneda


Só o ter flores pela vista fora  

Nas áleas largas dos jardins exatos 

        Basta para podermos 

        Achar a vida leve.

De todo o esforço seguremos quedas 

As mãos, brincando, pra que nos não tome 

        Do pulso, e nos arraste. 

        E vivamos assim,

Buscando o mínimo de dor ou gozo, 

Bebendo a goles os instantes frescos, 

        Translúcidos como água 

        Em taças detalhadas,

Da vida pálida levando apenas 

As rosas breves, os sorrisos vagos,  

        E as rápidas carícias  

        Dos instantes volúveis.


Ricardo Reis. Fernando Pessoa

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Vós que, Crentes



Vós que, crentes em Cristos e Marias,
Turvais da minha fonte as claras águas
Só para me dizerdes
Que há águas de outra espécie
Banhando prados com melhores horas
Dessas outras regiões pra que falar-me
Se estas águas e prados
São de aqui e me agradam?

Esta realidade os deuses deram
E para bem real a deram externa.
Que serão os meus sonhos
Mais que a obra dos deuses?

Deixai-me a Realidade do momento
E os meus deuses tranqüilos e imediatos
Que não moram no Vago
Mas nos campos e rios.

Deixai-me a vida ir-se pagãmente
Acompanhada pelas avenas tênues
Com que os juncos das margens
Se confessam de Pã.

Vivei nos vossos sonhos e deixai-me
O altar imortal onde é meu culto
E a visível presença
os meus próximos deuses.

Inúteis procos do melhor que a vida,
Deixai a vida aos crentes mais antigos
Que a Cristo e a sua cruz
E Maria chorando.

Ceres, dona dos campos, me console
E Apolo e Vênus, e Urano antigo
E os trovões, com o interesse
De irem da mão de Jove.


Ricardo Reis

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Uma Após Uma

 SarahTrefny


Uma após uma as ondas apressadas
Enrolam o seu verde movimento
E chiam a alva 'spuma
No moreno das praias.
Uma após uma as nuvens vagarosas
Rasgam o seu redondo movimento
E o sol aquece o 'spaço
Do ar entre as nuvens 'scassas.
Indiferente a mim e eu a ela,
A natureza deste dia calmo
Furta pouco ao meu senso
De se esvair o tempo.
Só uma vaga pena inconseqüente
Pára um momento à porta da minha alma
E após fitar-me um pouco
Passa, a sorrir de nada.


Ricardo Reis

domingo, 26 de maio de 2013

Tuas, Não Minhas



Tuas, não minhas, teço estas grinaldas,
Que em minha fronte renovadas ponho.
Para mim tece as tuas,
Que as minhas eu não vejo.
Se não pesar na vida melhor gozo
Que o vermo-nos, vejamo-nos, e, vendo,
Surdos conciliemos
O insubsistente surdo.
Coroemo-nos pois uns para os outros,
E brindemos uníssonos à sorte
Que houver, até que chegue
A hora do barqueiro.


Ricardo Reis

terça-feira, 7 de maio de 2013

Uns

Alexi Zaitsev


Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem: outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.
Por que tão longe ir pôr o que está perto —
A segurança nossa?  Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos.  No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos.  Colhe
o dia, porque és ele.


Ricardo Reis

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Vossa Formosa

Kemal Kamil 


Vossa formosa juventude Ieda,  
Vossa felicidade pensativa, 
Vosso modo de olhar a quem vos olha,  
            Vosso não conhecer-vos —
Tudo quanto vós sois, que vos semelha  
À vida universal que vos esquece  
Dá carinho de amor a quem vos ama  
            Por serdes não lembrando

Quanta igual mocidade a eterna praia  
De Cronos, pai injusto da justiça,  
Ondas, quebrou, deixando à só memória  
            Um branco som de 'spuma. 


Ricardo Reis 

sábado, 22 de dezembro de 2012

Vem sentar-te comigo Lídia...

An He

Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio. 
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos 
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas. 
(Enlacemos as mãos.)
Depois pensemos, crianças adultas, que a vida 
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa, 
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado, 
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos. 
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio. 
Mais vale saber passar silenciosamente 
E sem desassossegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz, 
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos, 
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria, 
E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos, 
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias, 
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro 
Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as 
No colo, e que o seu perfume suavize o momento - 
Este momento em que sossegadamente nao cremos em nada, 
Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-as de mim depois 
sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova, 
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos 
Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio, 
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti. 
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à beira-rio, 
Pagã triste e com flores no regaço.


Ricardo Reis

domingo, 16 de dezembro de 2012

Vivem em nós inúmeros




Vivem em nós inúmeros;  
Se penso ou sinto, ignoro  
Quem é que pensa ou sente.  
Sou somente o lugar  
Onde se sente ou pensa. 
Tenho mais almas que uma.  
Há mais eus do que eu mesmo.  
Existo todavia  
Indiferente a todos.  
Faço-os calar: eu falo. 

Os impulsos cruzados  
Do que sinto ou não sinto  
Disputam em quem sou.  
Ignoro-os. Nada ditam  
A quem me sei: eu 'screvo. 

Ricardo Reis

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Vive sem Horas

Mary Kay




Vive sem horas. Quanto mede pesa, 
E quanto pensas mede. 
Num fluido incerto nexo, como o rio 
Cujas ondas são ele, 
Assim teus dias vê, e se te vires 
Passar, como a outrem, cala.


Ricardo Reis

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Segue o teu destino

 by AllanRBanks


Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.


Ricardo Reis

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

sábado, 8 de maio de 2010



Não sei se é amor que tens, ou amor que finges,
O que me dás. Dás-me. Tanto me basta.
Já que o não sou por tempo,
Seja eu jovem por erro.
Pouco os deuses nos dão, e o pouco é falso.
Porém, se o dão, falso que seja, a dádiva
É verdadeira. Aceito,
Cerro olhos: é bastante.
Que mais quero?

Ricardo Reis 
(heterônimo de Fernando Pessoa)

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

johann hamza

segue o teu destino.
rega as tuas plantas. 
ama as tuas rosas. 
o resto é a sombra
de árvores alheias.


Ricardo Reis

sexta-feira, 15 de maio de 2009


Ilustração de Marcel Rieder.


Cada coisa a seu tempo tem seu tempo.

Não florescem no inverno os arvoredos,

Nem pela primavera

Têm branco frio os campos.

À noite, que entra, não pertence, Lídia,

O mesmo ardor que o dia nos pedia.

Com mais sossego amemos

A nossa incerta vida.

À lareira, cansados não da obra

Mas porque a hora é a hora dos cansaços,

Não puxemos a voz

Acima de um segredo,

E casuais, interrompidas, sejam

Nossas palavras de reminiscência

(Não para mais nos serve

A negra ida do Sol) —

Pouco a pouco o passado recordemos

E as histórias contadas no passado

Agora duas vezes

Histórias, que nos falem

Das flores que na nossa infância ida

Com outra consciência nós colhíamos

E sob uma outra espécie

De olhar lançado ao mundo.

E assim, Lídia, à lareira, como estando,

Deuses lares, ali na eternidade,

Como quem compõe roupas

O outrora compúnhamos

Nesse desassossego que o descanso

Nos traz às vidas quando só pensamos

Naquilo que já fomos,

E há só noite lá fora.


Ricardo Reis (Heterônimo de Fernando Pessoa) , in “Odes”

domingo, 12 de abril de 2009


Tão cedo passa tudo quanto passa!
Morre tão jovem ante os deuses quanto
Morre! Tudo é tão pouco!
Nada se sabe, tudo se imagina. Circunda-te de rosas, ama, bebe
E cala. O mais é nada.

Ricardo Reis 

sábado, 28 de março de 2009



E ele espera, contente quase e bebedor tranqüilo, 
E apenas desejando 
Num desejo mal tido 
Que a abominável onda 
O não molhe tão cedo.

Ricardo Reis