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domingo, 15 de agosto de 2021

Quero apenas

Leopold Schmutzler 

Além de mim, quero apenas

essa tranquilidade de campos de flores

e este gesto impreciso

recompondo a infância.

Leopold Schmutzler 

Além de mim

– e entre mim e meu deserto –

quero apenas silêncio,

cúmplice absoluto do meu verso,

tecendo a teia do vestígio

com cuidado de aranha.


Olga Savary

sexta-feira, 28 de junho de 2013

alexandre serra


Quando abro o corpo à loucura, à correnteza,
reconheço o mar em teu alto búzio
vindo a galope, enquanto cavalgas lento
meu corredor de águas.

A boca perdendo a vida sem tua seiva,
os dedos perdendo tempo enquanto
para o amado a amada se abre em flor e fruto
(não vês que esta mulher te faz mais belo?).

A vida no corpo alegre de existir,
fiquei à espreita dos grandes cataclismos:
daí beber na festa do teu corpo
que me galga esse castelo de águas


Olga Savary

terça-feira, 11 de setembro de 2012


 Jared Joslin 



Água água
Menina sublunar, afogada, 
que voz de prata te embala 
toda desfolhada?
Tendo como um só adorno 
o anel de seus vestidos, 
ela própria é quem se encanta 
numa canção de acalanto 
presa ainda na garganta


Olga Savary

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Ar / Fogo / Terra / Balanço


Ar

É da liberdade destes ventos
que me faço.
Pássaro-meu corpo
(máquina de viver),
bebe o mel feroz do ar
nunca o sossego.


Fogo


Dar-me toda este verão
urdideiros de rio, é ser
serpente de prata. Verão,
foi feita mais uma vítima
Sou um ser marcado, natureza.
A tarde crava em meu magma
o selo de sua secreta pata.


Terra


em golfadas envolve-me toda, 
apagando as marcas individuais,

devora-me até que eu 
não respire mais.


Balanço


Olho teu rosto como imagem
parada um instante
refletida no profundo fundo
de um poço.
E da memória
não me interessa mais que isto


Olga Savary

terça-feira, 22 de maio de 2012

Mapa da Esperança

imagem: Boris Geer



Vinha pisando sobre toda a praia, 
o sangue quieto — ou quase quieto —, 
os pensamentos leves como espumas 
e os cabelos soltos como nuvens. 

 Trágica como princesa de elegia, 
meu estandarte é o desespero, 
minha bandeira, indecisão. 

 Ainda assim, alegria, te festejo. 



Olga Savary

quarta-feira, 9 de maio de 2012

El Deseo Absoluto





Crear el amado
sin la injusticia de la forma
sin el egoísmo del nombre.


Olga Savary

domingo, 6 de maio de 2012

Uma Cena

Nathalie PICOULET



Vês acordada como em sonho
o sonho mau tal fosse belo
— o belo horror do real
que nem consciência nítida
ou lúcida, clara, exata,
não como é visto sol a pino
ou através da água,
como quem vê dentro do mar
ou através de um vidro fosco,
mais, no fundo de um espelho,
não o que mostra a imagem
mas aquele que a deforma
inteiro fora de foco.


Olga Savary 

quarta-feira, 14 de março de 2012


Gazel

De amor, criei (incriado)
este jardim secreto
de rosas fechadas em seu tédio
e espero
aquele que virá e há de decifrar
hieróglifos de ternura desenhados
pela lua em meu corpo — seu legado.

O amado pedirá em minha boca
o segredo desvendado a todas as perguntas.
Eu lhe responderei sem palavras
mas com o perigoso silêncio parecido
ao rumor da água caindo

sem cessar.

Gazel II

Chamo-te Amado: Amado
Com voz abstrata
Alongada no jardim onde me esqueço
Sob a lua porque verta em minha forma
O sortilégio dessa cor fantástica
Com que esperar-te

Chegas e há fugas
De sombras e silêncio eleitos
Para teu alto redor

Vais: foge contigo
Eo vento levando os últimos sons
De folhas machucadas e na relva
Meu corpo ainda iluminado


Olga Savary
imagens: Arthur Braginsky

quinta-feira, 3 de março de 2011



“Fartura de água,

te dás sempre inteira

telúrica e alada.”



Natureza, Olga Savary em Natureza e ser

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Liberdade

Dorina Costras 


Desligada
O vento morde meus cabelos sem medo:
Tenho todas as idades.


Olga Savary

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Mulher



Pela noite, pela tarde, pelo dia
ninguém jamais saberá onde estiveste
não dupla, múltipla e una, onde estás

menos real que pressentida.


Olga Savary

sábado, 6 de novembro de 2010

Sumidouro

Juan Fortuny 

 Talhe de audácia
e da covardia,
meu rei e vassalo,
engolir de pássaros
golpe de asa,
fartura de água
na árvore da vida,
na terra me tens
com os pés bem plantados.
Aqui nado, aqui vôo,
telúrica e alada.

Olga Savary

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Anna Razumovskaya

Nada mais rigoroso que a paixão
pois, obstinada como é, busca-se
na busca do absoluto.

A superficialidade é que não conhece
o rigor e o teme. É então que estou
dentro da vida como em meus livros.

Daí, com uma tenaz e exacerbada,
com uma premeditada tônica
de crueldade e ironia no coração,

Leitor, não estranhes a repetição:
propositadamente obsessivos
são os poemas - como a paixão. 

Olga Savary

domingo, 24 de outubro de 2010

Depois


Depois da confidência
me retirei da tarde.
O céu ficou vazio
vazio
onde era vôo de pássaros
(os pássaros estavam quietos).
Uma febre roía meus ouvidos:
voltei mais velha (exilada)
com um toque de infância entre meus dedos,
reserva de sal dentro dos olhos.


Olga Savary

domingo, 17 de outubro de 2010

Quero apenas

José Miguel Román Francés


Quero apenas
Além de mim, quero apenas
essa tranqüilidade de campos de flores
e este gesto impreciso
recompondo a infância.

Além de mim
– e entre mim e meu deserto –
quero apenas silêncio,
cúmplice absoluto do meu verso,
tecendo a teia do vestígio
com cuidado de aranha.

Olga Savary

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Pedido

Tair Zairov

A Manuel Bandeira 

Quando eu estiver mais triste
mas triste de não ter jeito,
quando atormentados morcegos
– um no cérebro outro no peito –
me apunhalarem de asas
e me cobrirem de cinza,
vem ensaiando de leve
leve linguagem de flores.
Traze-me a cor arroxeada
daquela montanha – lembra?
que cantaste num poema.
Traze-me um pouco de mar
ensaiando-se em acalanto
na líquida ternura
que tanto já me embalou.
Meu velho poeta canta
um canto que me adormeça
nem que seja de mentira.


Olga Savary

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009