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segunda-feira, 1 de julho de 2024


 O amor é isso: duas solidões que se protegem, se tocam e se acolhem.

 Rainer Maria Rilke, no livro "Cartas a um jovem poeta"

sábado, 9 de março de 2024

 


Tenha paciência com tudo aquilo que permanece por resolver no seu coração. Tente amar as próprias perguntas, como quartos trancados e livros escritos numa língua estrangeira. Não procure agora as respostas. Eles não podem agora ser dados a você porque você não poderia vivê-los. É uma questão de viver tudo. No momento você precisa viver a questão. Talvez, gradualmente, sem sequer reparar, se encontre experimentando a resposta, num dia distante. 

Rainer Maria Rilke, Cartas para um Jovem Poeta 

sexta-feira, 8 de março de 2024


Deixe que tudo aconteça: beleza e  assombro

Apenas siga. Nenhum sentimento é  mais longínquo.

Rainer Maria Rilke

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

 


Tenha paciência com tudo o que fica por resolver no seu coração. Tente amar as perguntas em si, como quartos trancados e livros escritos em língua estrangeira. Não procure agora as respostas. Eles não podem ser dados agora porque você não podia vivê-los. É uma questão de viver tudo. De momento você precisa viver a questão. Talvez você gradualmente, sem sequer notar, se encontre experimentando a resposta, algum dia distante.

Rainer Maria Rilke, Cartas para um Jovem Poeta 

domingo, 20 de fevereiro de 2022

arthur-braginsky

 

Quem, se eu gritasse, entre as legiões dos Anjos

me ouviria? E mesmo que um deles me tomasse

inesperadamente em seu coração, aniquilar-me-ia

sua existência demasiado forte. Pois que é o Belo

senão o grau do Terrível que ainda suportamos

e que admiramos porque, impassível, desdenha

destruir-nos? Todo Anjo é terrível.

E eu me contenho, pois, e reprimo o apelo

do meu soluço obscuro. Ai, quem nos poderia

valer? Nem Anjos, nem homens

e o intuitivo animal logo adverte

que para nós não há amparo

neste mundo definido. Resta-nos, quem sabe,

a árvore de alguma colina, que podemos rever

cada dia; resta-nos a rua de ontem

e o apego cotidiano de algum hábito

que se afeiçoou a nós e permaneceu.

E a noite, a noite, quando o vento pleno dos espaços

do mundo desgasta-nos a face – a quem se furtaria ela,

a desejada, ternamente enganosa, sobressalto para o

coração solitário? Será mais leve para os que se amam?

Ai, apenas ocultam eles, um ao outro, seu destino.

Não o sabias? Arroja o vácuo aprisionado em teus braços

para os espaços que respiramos – talvez os pássaros

sentirão o ar mais dilatado, num voo mais comovido.


Sim, as primaveras precisavam de ti.

Muitas estrelas queriam ser percebidas.

Do passado profundo afluía uma vaga, ou

quando passavas sob uma janela aberta,

um violino d’amore se abandonava. Tudo isto era missão.

Acaso a cumpriste? Não estavas sempre

distraído, à espera, como se tudo

anunciasse a amada? (Onde queres abrigá-la,

se grandes e estranhos pensamentos vão e vêm

dentro de ti e, muitas vezes, se demoram nas noites?)

Se a nostalgia vier, porém, canta as amantes;

ainda não é bastante imortal sua celebrada ternura.

Tu quase as invejas – essas abandonadas

que te pareceram tão mais ardentes que as

apaziguadas. Retoma infinitamente o inesgotável

louvor. Lembra-te: o herói permanece, sua queda

mesma foi um pretexto para ser – nascimento supremo.


Mas às amantes, retoma-as a natureza no seio

esgotado, como se as forças lhe faltassem

para realizar duas vezes a mesma obra.

Com que fervor lembraste Gaspara Stampa,

cujo exemplo sublime faça enfim pensar uma jovem

qualquer, abandonada pelo amante: por que não sou

como ela? Frutificarão afinal esses longínquos

sofrimentos? Não é tempo daqueles que amam libertar-se

do objeto amado e superá-lo, frementes?

Assim a flecha ultrapassa a corda, para ser no voo

mais do que ela mesma. Pois em parte alguma se detém.


Vozes, vozes. Ouve, meu coração, como outrora apenas

os santos ouviam, quando o imenso chamado

os erguia do chão; eles porém permaneciam ajoelhados,

os prodigiosos, e nada percebiam,

tão absortos ouviam. Não que possas suportar

a voz de Deus, longe disso. Mas ouve essa aragem,

a incessante mensagem que o silêncio prodiga.

Ergue-se agora, para que ouças, o rumor

dos jovens mortos. Onde quer que fosses,

nas igrejas de Roma e Nápoles, não ouvias a voz

de seu destino tranquilo? Ou inscrições não se ofereciam,

sublimes? A estela funerária em Santa Maria Formosa…

O que pede essa voz? A ansiada libertação

da aparência de injustiça que às vezes perturba

a agilidade pura de suas almas.


É estranho, sem dúvida, não habitar mais a terra,

abandonar os hábitos apenas aprendidos,

às rosas e a outras coisas singularmente promissoras

não atribuir mais o sentido do vir-a-ser humano;

o que se era, entre mãos trêmulas, medrosas,

não mais o ser; abandonar até mesmo o próprio nome

como se abandona um brinquedo partido.

Estranho, não desejar mais nossos desejos. Estranho,

ver no espaço tudo quanto se encadeava, esvoaçar,

desligado. E o estar-morto é penoso

e quantas tentativas até encontrar em seu seio

um vestígio de eternidade. – Os vivos cometem

o grande erro de distinguir demasiado

bem. Os Anjos (dizem) muitas vezes não sabem

se caminham entre vivos ou mortos.

Através das duas esferas, todas as idades a corrente

eterna arrasta. E a ambas domina com seu rumor.


Os mortos precoces não precisam de nós, eles

que se desabituam do terrestre, docemente,

como de suave seio maternal. Mas nós,

ávidos de grandes mistérios, nós que tantas vezes

só através da dor atingimos a feliz transformação, sem eles

poderíamos ser? Inutilmente foi que outrora, a primeira

música para lamentar Linos, violentou a rigidez da

matéria inerte? No espaço que ele abandonava, jovem,

quase deus, pela primeira vez o vácuo estremeceu

em vibrações – que hoje nos trazem êxtase, consolo e amparo.

 

 Rainer Maria Rilke, Elegias de Duíno

terça-feira, 30 de dezembro de 2014


“Não quero que fique sem uma saudação minha pelo Natal, quando, no meio da festa, carregar a sua solidão mais dificilmente do que nunca. Mas se verificar, nesse momento, a que a sua solidão é grande, alegre-se com isto. Que seria, com efeito, uma solidão (faça esta pergunta a si mesmo) que não tivesse grandeza? Há uma solidão só: é grande e difícil de se carregar. Quase todos, em certas horas, gostariam de trocá-la por uma comunhão qualquer , por mais banal e barata que fosse; por uma aparência de acordo insignificante com quem quer que seja; com a pessoa mais indigna. Mas talvez sejam estas, justamente, as horas em que ela cresce, pois o seu crescimento é doloroso como o de um menino e triste como o começo das primaveras. Mas tudo isto não o deve desorientar. O que se torna preciso, é no entanto isto: solidão, uma grande solidão interior. Entrar em si mesmo, não encontrar ninguém durante horas – eis o que se deve saber alcançar. Estar sozinho como se estava quando criança,enquanto os adultos iam e vinham, ligados as coisas que pareciam importantes e grandes porque esses adultos tinham um ar tão ocupado e porque nada se entendia de suas ações.”

Rainer Maria Rilke, in Cartas a um jovem poeta

domingo, 14 de dezembro de 2014


"Aqueles que se juntam à noite e se entrelaçam num balançar de volúpia executam obra grave, reunindo profundezas, doçuras, e forças para a canção de algum poeta vindouro que há de surgir para dizer indizíveis prazeres."


Rainer Maria Rilke, Cartas a um Jovem Poeta

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Cartas a um jovem poeta (excerto)



Ter amor, de uma pessoa por outra, talvez seja a coisa mais difícil que nos foi dada, a mais extrema, a derradeira prova e provação, o trabalho para o qual qualquer outro trabalho é apenas uma preparação. Por isso as pessoas jovens, iniciantes em tudo, ainda não podem amar: precisam aprender o amor. Com todo o seu ser, com todas as forças reunidas em seu coração solitário, receoso e acelerado, os jovens precisam aprender a amar. Mas o tempo de aprendizado é sempre um longo período de exclusão, de modo que o amor é por muito tempo, ao longo da vida, solidão, isolamento intenso e profundo para quem ama. A princípio o amor não é nada do que se chama ser absorvido, entregar-se e se unir com outra pessoa. Pois o que seria uma união do que não é esclarecido, do inacabado, do desordenado? O amor constitui uma oportunidade sublime para o indivíduo amadurecer, tornar-se algo, tornar-se um mundo, tornar-se um mundo para si mesmo por causa de uma outra pessoa.


Rainer Maria Rilke

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Cartas a um jovem poeta (trecho)



"(...)por isso, que fique registrado aqui, desde logo, um pedido meu: leia o mínimo possível de textos críticos e estéticos - ou são considerações parciais, petrificadas, que se tornaram destituídas de sentido em sua rigidez sem vida, ou são hábeis jogos de palavras, nos quais hoje uma visão sai vitoriosa, amanhã predomina a visão contrária. Obras de arte são de uma solidão infinita e nada pode passar tão longe de alcançá-las quanto a crítica. Apenas o amor pode compreendê-las, conservá-las e ser justo em relação a elas. Dê razão sempre a si mesmo e a seu sentimento, diante de qualquer discussão, debate e introdução; se o senhor estiver errado, o crescimento natural de sua vida íntima o levará lentamente, com o tempo, a outros conhecimentos. Permita a suas avaliações seguir o desenvolvimento próprio, tranquilo e sem perturbação, algo que, como todo avanço, precisa vir de dentro e não pode ser forçado nem apressado por nada. Tudo está em deixar amadurecer e então dar à luz. Deixar cada impressão, cada semente de um sentimento germinar por completo dentro de si, na escuridão do indizível e do inconsciente, em um ponto inalcançável para o próprio entendimento, e esperar com profunda humildade e paciência a hora do nascimento de uma nova clareza: só isso se chama viver artisticamente, tanto na compreensão quanto na criação.
Não há nenhuma medida de tempo nesse caso, um ano de nada vale, e mesmo dez anos não são nada. Ser artista significa: não calcular nem contar."


Rainer Maria Rilke, Cartas a um jovem poeta. Porto Alegre: L&PM, 2009

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Outono



As folhas caem como se do alto
caíssem, murchas, dos jardins do céu;
caem com gestos de quem renuncia.
E a Terra, só, na noite de cobalto,
cai de entre os astros na amplidão vazia.
Caimos todos nós. Cai esta mão.
Olha em redor: cair é a lei geral.
E a terna mão de Alguém colhe, afinal,
todas as coisas que caindo vão.


Rainer Maria Rilke

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Inertiak


Chamais vós alma ao que tão frouxamente
vibra em vós? O que, como o soar dos cascavéis loucos,
pede aplauso e corteja dignidades
e finalmente, pobre, morre uma morte pobre
na tarde incensada de capelas góticas, -
chamais a isso alma?

Quando olho a noite azul, pelo Maio nevada,
em que os mundos giram longas vias,
então me parece que trago em mim um pedaço
de eternidade no peito. Agita-se, e grita,
e quer subir e quer girar com eles...
E isso é que é a alma.


Rainer Maria Rilke, 
in Poemas. Trad.: Paulo Quintela

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Que farás tu, meu Deus, se eu perecer?

Salvador Dali


Que farás tu, meu Deus, se eu perecer?
Eu sou o teu vaso - e se me quebro?
Eu sou tua água - e se apodreço?
Sou tua roupa e teu trabalho
Comigo perdes tu o teu sentido.

Depois de mim não terás um lugar
Onde as palavras ardentes te saúdem.
Dos teus pés cansados cairão
As sandálias que sou.
Perderás tua ampla túnica.
Teu olhar que em minhas pálpebras,
Como num travesseiro,
Ardentemente recebo,
Virá me procurar por largo tempo
E se deitará, na hora do crepúsculo,
No duro chão de pedra.

Que farás tu, meu Deus? O medo me domina.


Rainer Maria Rilke. 
Tradução: Paulo Plínio Abreu

quinta-feira, 9 de maio de 2013

O homem que contempla



Vejo que as tempestades vêm aí 
pelas árvores que, à medida que os dias se tomam mornos, 
batem nas minhas janelas assustadas 
e ouço as distâncias dizerem coisas 
que não sei suportar sem um amigo, 
que não posso amar sem uma irmã. 

E a tempestade rodopia, e transforma tudo, 
atravessa a floresta e o tempo 
e tudo parece sem idade: 
a paisagem, como um verso do saltério, 
é pujança, ardor, eternidade. 

Que pequeno é aquilo contra que lutamos, 
como é imenso, o que contra nós luta; 
se nos deixássemos, como fazem as coisas, 
assaltar assim pela grande tempestade, — 
chegaríamos longe e seríamos anónimos. 

Triunfamos sobre o que é Pequeno 
e o próprio êxito torna-nos pequenos. 
Nem o Eterno nem o Extraordinário 
serão derrotados por nós. 
Este é o anjo que aparecia 
aos lutadores do Antigo Testamento: 
quando os nervos dos seus adversários 
na luta ficavam tensos e como metal, 
sentia-os ele debaixo dos seus dedos 
como cordas tocando profundas melodias. 

Aquele que venceu este anjo 
que tantas vezes renunciou à luta. 
esse caminha ereto, justificado, 
e sai grande daquela dura mão 
que, como se o esculpisse, se estreitou à sua volta. 
Os triunfos já não o tentam. 
O seu crescimento é: ser o profundamente vencido 
por algo cada vez maior. 


Rainer Maria Rilke, in "O Livro das Imagens" 
Tradução de Maria João Costa Pereira

terça-feira, 5 de junho de 2012


Du im Voraus
verlorne Geliebte, Nimmergekommene,
nicht weiß ich, welche Töne dir lieb sind.
Nicht mehr versuch ich, dich, wenn das Kommende wogt,
zu erkennen. Alle die großen
Bilder in mir, im Fernen erfahrene Landschaft,
Städte und Türme und Brücken und un-
vermutete Wendung der Wege
und das Gewaltige jener von Göttern
einst durchwachsenen Länder:
steigt zur Bedeutung in mir
deiner, Entgehende, an.


Ach, die Gärten bist du,
ach, ich sah sie mit solcher
Hoffnung. Ein offenes Fenster
im Landhaus —, und du tratest beinahe
mir nachdenklich heran. Gassen fand ich, —
du warst sie gerade gegangen,
und die Spiegel manchmal der Läden der Händler
waren noch schwindlig von dir und gaben erschrocken
mein zu plötzliches Bild. — Wer weiß, ob derselbe
Vogel nicht hinklang durch uns
gestern, einzeln, im Abend?


Tu, amada,
tu antecipadamente perdida, tu que jamais chegaste,
não sei que notas te são mais queridas.
Não mais tento, sob a agitação do que vem surgindo,
reconhecer-te. Em mim todas
as grandes imagens, as paisagens remotas,
cidades e torres e pontes e im-
previstos desvios dos caminhos
e a violência destas terras
divididas outrora com deuses:
em mim tudo cresce contigo,
com tua fugidia lembrança.

Ah, tu és os jardins,
jardins que fitei com tamanha
esperança. Uma janela aberta
na casa de campo — e pensativa
quase te voltas pra mim. Becos encontrei —
tinhas acabado de os percorrer,
e muitas vezes as vitrines dos comerciantes,
ainda embaralhadas contigo, espelharam de volta,
assustadas, minha tão súbita imagem. — Quem sabe
se o mesmo pássaro não ressoou através de nós, ontem,
um por um, no anoitecer?




Rainer Maria Rilke 
tradução.: Gabriel Dirma de A. Leitão 



terça-feira, 26 de julho de 2011

Bryce Cameron Liston

Não: uma torre se erguerá do fundo
Do coração e eu estarei à borda:
Onde não há mais nada, ainda acorda
O indizível, a dor, de novo o mundo.

Ainda uma coisa, só, no imenso mar
Das coisas, e uma luz depois do escuro,
Um rosto extremo do desejo obscuro
Exilado em um nunca-apaziguar,

Ainda um rosto de pedra, que só sente
A gravidade interna, de tão denso:
As distâncias que o extinguem lentamente
Tornam seu júbilo ainda mais intenso.


Rainer Maria Rilke
Trad. Augusto de Campos

domingo, 24 de julho de 2011

O Poeta



Já te despedes de mim, Hora.
Teu golpe de asa é o meu açoite.
Só: da boca o que faço agora?
Que faço do dia, da noite?

Sem paz, sem amor, sem teto,
caminho pela vida afora.
Tudo aquilo em que ponho afeto
fica mais rico e me devora.


Rainer Maria Rilke

terça-feira, 5 de julho de 2011

Drazenka Kimpel

Que um dia havias de vir, não respirei
eu, de tanta meia-noite, por amor de ti,
tal inundação?
Porque esperava acalmar-te o rosto
com quase intactos esplendores,
se ele em infinita expectativa
um dia repousasse em frente ao meu.
Em silêncio fez-se espaço nos meus traços:
para bastar ao teu enorme olhar
meu sangue se fez espelho, aprofundou-se.

Se pela sebe pálida do olival
a noite em estrelas mais forte me excedia,
erguia-me direito e curvava-me
para trás e aprendia a reconhecer
o que mais tarde a ti nunca referia.

Oh! tal expressão em mim foi semeada
que, se o teu sorriso vier a acontecer,
pra ti transfiro, com o olhar, espaço de mundos.
Mas tu não vens, ou vens tarde demais.
Anjos, precipitai-vos sobre esse linhar
azul. Anjos, anjos, vinde ceifar.


Rainer Maria Rilke

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Hora grave

Kemal Kamil 


Quem agora chora em algum lugar do mundo,
Sem razão chora no mundo,
Chora por mim.

Quem agora ri em algum lugar na noite,
Sem razão ri dentro da noite,
Ri-se de mim.

Quem agora caminha em algum lugar no mundo,
Sem razão caminha no mundo,
Vem a mim.

Quem agora morre em algum lugar no mundo,
Sem razão morre no mundo,
Olha para mim.


Rainer Maria Rilke (tradução Paulo Plínio Abreu)

sábado, 30 de abril de 2011

Entre o dia e o sonho


Moro entre o dia e o sonho.
Onde cochilam crianças, quentes da correria.
Onde velhos para a noite sentam
e lareiras iluminam e aquecem o lugar.

Moro entre o dia e o sonho.
Onde tocam claros sinos vesperais
e meninas, perdidas da confusão,
descansam à boca do poço.

E uma tília é minha árvore querida;
e todos os verões que nela se calam
movem outra vez os mil galhos,
e acordam de novo entre o dia e o sonho.

Rainer Maria Rilke

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Recordação

Debra Sievers

E tu esperas, aguardas a única coisa
que aumentaria infinitamente a tua vida;
o poderoso, o extraordinário,
o despertar das pedras,
os abismos com que te deparas.

Nas estantes brilham
os volumes em castanho e ouro;
e tu pensas em países viajados,
em quadros, nas vestes
de mulheres encontradas e já perdidas.

E então de súbito sabes: era isso.
Ergues-te e diante de ti estão
angústia e forma e oração
de certo ano que passou.

Rainer Maria Rilke