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sábado, 11 de maio de 2013

George Orwell, A revolução dos bichos



Gostaria de fazer apenas um reparo, disse, ao excelente discurso, bem  próprio de um bom vizinho, do Sr. Pilkington. Este referira-se o tempo todo à Granja dos Bichos. Naturalmente ele não podia saber – mesmo porque Napoleão o estava proclamando naquele instante pela primeira vez – que a denominação “Granja dos Bichos” fora abolida. A partir daquele momento sua granja deveria ser chamada Granja do Solar – que, aliás, era seu nome correto e original.

“Cavalheiros”, concluiu Napoleão, “levantarei o mesmo brinde, mas de forma diferente. Enchei até a borda vossos copos. Cavalheiros, este é o meu brinde: à prosperidade da Granja Solar!”

Houve as mesmas calorosas felicitações de antes, e os copos foram esvaziados. Mas aos olhos dos bichos, que lá de fora espiavam, pareceu que algo estranho estava acontecendo. Que diabo teria alterado a cara dos porcos? Os olhos embaçados de Quitéria iam de uma cara para outra. Algumas tinham cinco queixos, outras quatro, outras três. Mas algo parecia misturá-las e modificá-las. Então, findos os aplausos, o grupo pegou novamente nas cartas, reencetando o jogo interrompido, e os animais afastaram-se em silêncio.

Não haviam porém, chegado sequer a vinte metros quando se detiveram ante o vozerio alto que vinha lá de dentro. Voltaram correndo e tornaram a espiar pela janela. De fato, era uma discussão violenta. Gritos, socos na mesa. Olhares irados, furiosas negativas. A origem da briga, aparentemente, fora o fato de Napoleão e o Sr. Pilkington terem, ao mesmo tempo, apresentado um ás de espadas.

Doze vozes gritavam, cheias de ódio, e eram todas iguais. Não havia dúvida, agora, quanto ao  que sucedera à fisionomia dos  porcos. As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já era impossível distinguir quem era homem, quem era porco.


George Orwell, A revolução dos bichos

domingo, 18 de novembro de 2012

A Revolução dos Bichos




Jones caiu dormindo no sofá da sala com o News of the World sobre o rosto; portanto, ao cair da tarde, os animais ainda não haviam comido. Aquilo já era demais. Uma das vacas rebentou a chifradas a porta do celeiro, e os bichos avançaram sobre as tulhas. Nesse momento, Jones acordou. Num átimo, ele e seus quatro peões estavam no celeiro com os chicotes na mão batendo a torto e a direito. Isso ultrapassou tudo quanto os animais famintos podiam suportar. De comum acordo, muito embora nada fosse planejado, lançaram-se sobre seus verdugos. Jones e os homens viram-se de repente marrados e escoiceados de todo lado. A situação fugira ao controle. Nunca tinham visto os animais daquele jeito, e a súbita revolta de criaturas que eles estavam acostumados a surrar e maltratar à vontade os encheu de pavor. Em poucos instantes largaram de defender-se e deram o fora. Um minuto depois, os cinco voavam pela trilha rumo à estrada, com os bichos no encalço, triunfantes.

A mulher de Jones olhou pela janela do quarto, viu o que ocorria, juntou às pressas alguns haveres numa bolsa de pano e escapuliu da granja por outro caminho. Moiséis levantou voo do poleiro e bateu asas através dela, grasnando. A essa altura, os animais haviam posto Jones e os peões para fora da granja, fechando atrás deles a porteira das cinco barras. E assim, antes de darem conta, a Rebelião vencera. Jonas fora expulso, e a Granja do Solar era deles.

Durante os primeiros minutos, os bichos mal puderam acreditar na sorte. Seu primeiro ato foi galopar pelos limites da granja, como a ver se nenhum ser humano ficara escondido; depois, correram de volta às casas da granja, para varrer os últimos vestígios do odiado império de Jones. O galpão dos arreios, no fundo do estábulos, foi arrombado; freios, argolas de nariz, correntes de cachorro, as cruéis facas com que Jones castrava os porcos e os cordeiros, foi tudo atirado no fundo do poço. As rédeas, os cabrestos, os antolhos e os degradantes bornais foram jogados na fogueira que ardia no pátio. O mesmo destino tiveram os relhos. Os bichos saltaram de alegria quando viram os chicotes em chamas. Bola-de-Neve jogou também ao fogo as fitas que enfeitavam as crinas e caudas dos cavalos em dias de feita.

“Fitas”, disse ele, “devem ser consideradas roupas, que são a marca do ser humano. Todos os animais têm de andar nus.”


George Orwell, A Revolução dos Bichos

sábado, 27 de outubro de 2012

George Orwell, A Revolução dos Bichos



...Por que então permanecemos nessa miséria? Porque quase todo o produto do nosso esforço  nos é roubado pelos seres humanos. Eis aí, camaradas, a resposta a todos os nossos problemas. Resume-se em uma só palavra - Homem. O Homem é o nosso verdadeiro e único inimigo. Retire-se da cena o Homem e a causa principal da fome e da sobrecarga de trabalho desaparecerá para sempre.

O Homem é a única criatura que consome sem produzir. Não dá leite, não põe ovos, é fraco demais para puxar o arado, não corre o que dê para pegar uma lebre. Mesmo assim, é o senhor de todos os animais. Põe-nos a mourejar, dá-nos de volta o mínimo para evitar a inanição e fica com o restante. Nosso trabalho amanha o solo, nosso estrume o fertiliza, e, no entanto, nenhum de nós possui mais que a própria pele. As vacas, que aqui vejo à minha frente, quantos litros de leite terão produzido neste ano? E que aconteceu a esse leite, que poderia estar alimentando robustos bezerrinhos? Desceu pela garganta dos nossos inimigos. E as galinhas, quantos ovos puseram neste ano, e quantos se transformaram em pintinhos? Os restantes foram para o mercado, fazer dinheiro para Jones e seus homens. E você, Quitéria, diga-me onde estão os quatro potrinhos que deveriam ser o apoio e o prazer da sua velhice. Foram vendidos com a idade de um ano - nunca mais você os verá. Como paga por seus quatro partos e por todo o seu trabalho no campo, que recebeu você, além de ração e baia?

Mesmo miserável como é, nossa vida não chega nem ao fim de modo natural. (...) ... no fim, nenhum animal escapa ao cutelo. (...)

Esta é a mensagem que eu vos trago, camaradas; rebelião! Não sei dizer quando será esta revolução, pode ser daqui a uma semana ou daqui a um século, mas uma coisa eu sei, tão certo quanto vejo esta palha sob os meus pés: mais cedo ou mais tarde, justiça será feita. Fixai isso, camaradas, para o resto de vossas curtas vidas! E, sobretudo, transmiti esta minha mensagem aos que virão depois de vós, para que as futuras gerações continuem na luta até a vitória.


George Orwell,  A Revolução dos Bichos
Companhia das Letras
Tradução: Heitor Aquino Ferreira
p. 12-14

terça-feira, 24 de abril de 2012

George Orwell, A revolução dos bichos

Os bichos tomaram o café da manhã e foram outra vez convocados por Bola-de-Neve e Napoleão.
"Camaradas", disse Bola-de-Neve, "são seis e quinze, e temos um longo dia pela frente. Iniciaremos hoje a colheita do feno. Mas antes, há outro assunto de que devemos tratar."
Os porcos revelaram que, nos últimos três meses, haviam aprendido  a ler e a escrever, num velho livro de ortografia que pertencera aos filhos de Jones e fora jogado no lixo. Napoleão mandou buscar latas de tinta preta e tinta branca e marchou à frente até a porteira das cinco barras, que dava para a estrada principal. Então, Bola-de-Neve (que escrevia melhor) pegou o pincel entre as juntas da pata, cobriu de tinta o nome GRANJA DO SOLAR do travessão superior e, em seu lugar, escreveu GRANJA DOS BICHOS. Seria esse o nome da granja dali em diante. Depois disso, voltaram para as casas da granja; Bola-de-Neve e Napoleão mandaram buscar escada e fizeram-na encostar a parede do fundo do celeiro grande. Explicaram que, segundo os estudos que haviam feito nos últimos três meses, era possível resumir os princípios do Animalismo em sete Mandamentos. Esses sete mandamentos seriam agora escritos na parede, constituindo a lei inalterável pela qual a Granja dos bichos deveria reger sua vida sempre.
Com alguma dificuldade (pois não é fácil para um porco equilibrar-se numa escada de mão), Bola-de-Neve subiu e começou a trabalhar, enquanto Garganta, alguns degraus abaixo, segurava a lata de tinta. Os Mandamentos foram escritos na parede alcatroada em grandes letras brancas que podiam ser lidas a muitos metros de distância.

Eram os seguintes:

OS SETE MANDAMENTOS

1.Qualquer coisa que ande sobre duas pernas é inimigo.
2. O que andar sobre quatro pernas, ou tiver asas, é amigo.
3. Nenhum animal usará roupa.
4. Nenhum animal dormirá em cama.
5. Nenhum animal beberá álcool.
6. Nenhum animal matará outro animal.
7. Todos os animais são iguais.


George Orwell, A revolução dos bichos
tradução: Heitor Aquino Ferreira
Companhia das Letras, p. 24,25

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

George Orwell, 1984

Winston escrevia no diário:

Faz três anos. Era uma noite escura, uma ruela sem luz, perto duma grande estação ferroviária. Ela estava parada perto duma porta, sob um lampião que mal iluminava o lugar. Tinha rosto jovem, com pintura espessa. Foi realmente a pintura que me chamou a atenção, pois era branca como uma máscara, e os lábios muito vermelhos, brilhantes. As mulheres do Partido nunca se pintam. Não havia ninguém mais na rua, nem teletela. Ela disse dois dólares e eu...

 Por um minuto foi difícil continuar. Fechou os olhos e apertou com os dedos, tentando afastar a visão que insistia em voltar. Tinha uma tentação quase indomável de berrar um bando de palavras indecentes a pleno pulmão. Ou bater a cabeça na parede, dar um pontapé na mesa ou atirar o tinteiro pela janela - fazer algo violento, doloroso ou ruidoso que pudesse apagar a lembrança que o atormentava.
Nosso pior inimigo, refletiu, é o sistema nervoso. A qualquer momento a tensão que há dentro da gente pode-se traduzir num sintoma visível. Pensou num homem com quem cruzara na rua, havia algumas semanas: um sujeito de aspecto comum, membro do Partido, de trinta e cinco ou quarenta anos, alto e magro, levando uma pasta. Estavam a apenas alguns metros de distância quando o lado esquerdo do rosto do homem se contorceu subitamente num espasmo. Tornou a acontecer quando cruzaram: era apenas um tremor, um arrepio, rápido como o clique do obturador duma máquina fotográfica, mas evidentemente habitual. Lembrou-se de ter pensado na ocasião: esse pobre diabo está danado. O mais aterrorizante era o ato talvez ser inconsciente. O pior de todos os perigos era falar dormindo. Não havia meio de se proteger contra aquilo.
Ele suspirou e continuou escrevendo:

Entrei com ela pela porta e atravessamos um quintal, chegando à cozinha dum porão. Contra a parede havia uma cama, e sobre a mesa uma lâmpada, muito fraquinha. Ela...

 Rilhou os dentes. Gostaria de cuspir. Ao mesmo tempo que na mulher da cozinha do porão pensou em Katharine, sua esposa. Winston era casado - ou fora casado; com certeza ainda era casado, pois, tanto quanto sabia, a esposa não morrera. Parecera inalar de novo o odor morto da cozinha do porão, um  cheiro misto de percevejos, roupa suja e perfume ordinário, e no entanto atraente, porque nenhuma mulher do Partido usava perfume, nem se podia imaginar que se fizesse tal coisa. Só os proles usavam perfumes. Para ele, aquele cheiro trazia à mente o ato sexual.
A escapada com aquela mulher fora a primeira, em dois anos ou mais. Andar com prostitutas era proibido, naturalmente, mas era dessas regras que às vezes os militantes  tinham coragem de quebrar. Era perigoso, mas não era caso de vida ou morte. Ser apanhado com uma marafona poderia significar cinco anos num acampamento de trabalhos forçados; apenas isso, se não houvesse outra infração. E era fácil, contanto que se evitasse ser surpreendido no ato. Os bairros pobres pululavam de mulheres prontas a se entregarem. Algumas podiam ser compradas até por uma garrafa de gim, que os proles não tinham direito de beber. Tacitamente o partido até se inclinava a incentivar a prostituição, para dar saída a instintos que não podiam ser totalmente suprimidos. Mera luxúria não tinha maior importância, contanto que fosse furtiva e sem alegria, e só envolvesse mulheres de uma classe submersa e desprezada. O crime imperdoável era a promiscuidade entre membros do Partido. Mas - embora esse crime fosse variavelmente confessado pelos acusados, nos grandes expurgos - era difícil imaginar que acontecesse.
O objetivo do partido não era simplesmente impedir que homens e mulheres criassem lealdades difíceis de controlar. Seu propósito real, não declarado, era roubar todo o prazer ao ato sexual. Não tanto o amor como o erotismo era o inimigo, tanto dentro como fora do casamento. Todos os casamentos entre membros do Partido tinham que ser aprovados por um comitê nomeado para esse fim e- embora o princípio jamais fosse claramente declarado - a permissão era sempre recusada se o casal desse a impressão de haver qualquer atração física. O único fim reconhecido do casamento era procriar filhos para o serviço do Partido. A cópula devia ser considerada uma pequena operação ligeiramente repugnante, como um clister. Isto tampouco era dito em voz alta, mas de modo indireto era ensinado a cada membro do Partido, desde a infância. Havia até organizações como a Liga Juvenil Anti-Sexo, que advogava completo celibato para ambos os sexos. Todas as crianças deveriam nascer por inseminação artificial (insemart) e educadas em instituições públicas. Isto, Winston sabia, não era para se levar de todo a sério, mas de certo modo se encaixava na ideologia geral do Partido. O Partido estava procurando matar o instinto sexual ou, se não fosse possível matá-lo, torcê-lo e torná-lo indecente. Ele não sabia o porquê dessa conduta, mas assim era, e lhe parecia natural que assim fosse. E, no que se referia às mulheres, os esforços do Partido haviam logrado considerável êxito.
Ele tornou a pensar em Katharine. [...]

Winston suspirou alto. Tornou a apanhar a caneta e escreveu:

Ela atirou-se na cama e, imediatamente, sem qualquer preliminar, da maneira mais grosseira e horrível que se pode imaginar, levantei-lhe a saia. Eu...

Tornou a ver-se, à luz débil do abajur as narinas cheias do odor do percevejo e perfume barato, e no coração uma sensação de derrota e ressentimento que, naquele mesmo momento, vinha de cambulhada com a recordação do corpo branco de Katharine, congelado para sempre pelo poder hipnótico do Partido. Por que teria de ser sempre assim? Porque não poderia ter uma mulher própria em vez de ter que recorrer a aventuras sórdidas , com intervalo de vários anos? Um amor genuíno, porém, era quase difícil de imaginar. Todas as mulheres do Partido eram iguais. Nelas a castidade era tão profunda quanto a lealdade ao Partido. Por meio de cuidadoso condicionamento, em tenra idade, por meio de jogos e água fria, pelo lixo que lhes impingiam na escola, nos Espiões e na Liga Juvenil, por meio de conferências, paradas, canções, lemas e música marcial, tinham expulso o sentimento natural. A razão dizia-lhe que devia haver exceções, mas no fundo do coração não acreditava nisso. Eram todas inexpugnáveis, como desejava o Partido. E o que ele queria, mais do que ser amado, era deitar abaixo aquela muralha de virtudes, mesmo que fosse apenas uma vez na vida inteira. Executado com êxito, o ato sexual era rebelião. O desejo era crimidéia. Despertar o instinto de Katharine, se o tivesse conseguido, seria como que seduzi-la, embora fosse sua esposa.
Mas era preciso escrever o resto da história. E ele escreveu:

Levantei o abajur. Quando a vi sob a luz...

Depois da treva, a luzinha fraca do candeeiro de querosene lhe parecera muito clara. Pela primeira vez, pôde ver a mulher direito. Dera um passo para ela e se detivera, cheio de luxúria e terror. Tinha dolorosa consciência do risco que corria entrando ali. Era perfeitamente possível que as patrulhas o apanhassem na saída: podiam até estar esperando na porta, naquele momento. E se ele fosse embora sem realizar o que fora fazer!
Era preciso escrevê-lo, era preciso confessá-lo. O que vira de repente, sob a luz da lâmpada, era que se tratava duma velha. A pintura do rosto era tão grossa que dava a impressão de que ia rachar como uma máscara de cartão. Havia fios brancos no cabelo; mas o detalhe verdadeiramente revoltante era a boca, que se entreabria, revelando nada mais que uma caverna negra. A mulher não tinha dente algum.
Ele escreveu com pressa, aos garranchos:

Quando a vi sob a luz, percebi que se tratava duma velha, de uns cinquenta anos pelo menos. Mas fui em frente e fiz o que fora fazer.

Tornou a apertar as pálpebras com os dedos. Escreveu tudo, por fim, mas não fazia diferença. A terapia não dera resultado.Continuava, mais forte que nunca, o desejo de berrar obcenidades a plenos pulmões.



George Orwell, 1984

quinta-feira, 1 de abril de 2010

George Orwell, 1984

 
Dois Minutos de Ódio

Goldstein era o renegado e traidor que um dia, muitos anos atrás (exatamente quantos ninguém se lembrava), fora uma das figuras de proa do Partido, quase no mesmo plano que o próprio Grande Irmão, tendo depois se dedicado a atividades contra-revolucionárias, sendo por isso condenado à morte, da qual escapara, desaparecendo misteriosamente. O programa Dois Minutos de Ódio variava de dia a dia, sem que porém Goldstein deixasse de ser o personagem central cotidiano. Era o traidor original, o primeiro a conspurcar a pureza do Partido. Todos os subseqüentes crimes contra o Partido, todas as traições, atos de sabotagem, heresias, desvios, provinham diretamente dos seus ensinamentos. Nalguma parte do mundo ele continuava vivo e tramando suas conspirações: talvez no além-mar, sob a proteção dos seus patrões estrangeiros; talvez até mesmo – de vez em quando corria o boato – nalgum esconderijo na própria Oceania.
Winston sentiu contrair-se o diafragma. Nunca podia ver a face de Goldstein sem uma dolorosa mistura de emoções. Era um rosto judaico, magro, com um grande halo de cabelo branco esgrouviado e um pequeno cavanhaque – um rosto arguto e no entanto, de certo modo, intrinsecamente desprezível, com um ar de tolice senil no nariz comprido e fino no qual se equilibravam os óculos. Parecia a cara duma ovelha, e a voz também recordava um balido. Goldstein lançava o costumeiro ataque peçonhento às doutrinas do Partido – um ataque tão exagerado e perverso que uma criança poderia refutá-lo, e no entanto suficientemente plausível para encher o cidadão de alarme, de receio que outras pessoas menos equilibradas o pudessem aceitar. Insultava o Grande Irmão, denunciava a ditadura do Partido, exigia a imediata conclusão da paz com a Eurásia, advogava a liberdade de palavra, a liberdade de imprensa, a liberdade de reunião, a liberdade de pensamento, gritava histericamente que a revolução fora traída – e tudo numa linguagem rápida, polissilábica, que era uma espécie de paródia do estilo habitual dos oradores do Partido (...)
Antes do Ódio se haver desenrolado por trinta segundos, metade dos presentes soltava incontroláveis exclamações de fúria. Era demais, suportar a vista daquela cara de ovelha satisfeita e do poderio terrífico do exército eurasiano, mostrado na tela: além disso, ver ou mesmo pensar em Goldstein produzia automaticamente medo e raiva (...)
No segundo minuto o Ódio chegou ao frenesi. Os presentes pulavam nas cadeiras e berravam a plenos pulmões, esforçando-se para abafar a voz alucinante que saía da tela. A mulherzinha do cabelo de areia ficara toda rosa, e abria e fechava a boca como um peixe jogado à terra. Até o rosto másculo de O’Brien estava corado. Estava sentado muito teso na sua cadeira, o peito largo se alteando e agitando como se resistisse ao embate duma vaga. A morena atrás de Winston pusera-se a berrar “Porco! Porco! Porco!”. De repente, apanhou um pesado dicionário de Novilíngua e atirou-o à tela. O livro atingiu o nariz de Goldstein e ricocheteou; a voz continuou, inexorável. Num momento de lucidez, Winston percebeu que ele também estava gritando com os outros e batendo os calcanhares violentamente contra a travessa da cadeira. O horrível dos Dois Minutos de Ódio era que, embora ninguém fosse obrigado a participar, era impossível deixar de se reunir aos outros. Em trinta segundos deixava de ser preciso fingir. Parecia percorrer todo o grupo, como uma corrente elétrica, um horrível êxtase de medo e vindita, um desejo de matar, de torturar, de amassar rostos com um malho, transformando o indivíduo, contra a sua vontade, num lunático a uivar e fazer caretas.



George Orwell, 1984

quarta-feira, 25 de março de 2009

Obra de Santiago Rusinol.
(…) Ocorreu-lhe que em momentos de crise o embate da pessoa nunca era com um inimigo externo, mas sempre com seu próprio corpo. Naquele momento, e apesar do gim, a dorzinha chata que sentia no estômago o impedia de encadear os pensamentos. E o mesmo acontece, observou ele, em todas as situações aparentemente heroicas ou trágicas. No campo de batalha, na câmara de tortura, num navio prestes a ir a pique, os motivos pelos quais a pessoa luta são sempre esquecidos, porque o corpo se dilata até ocupar o universo inteiro, e mesmo quando a pessoa não está paralisada pelo medo nem grita de dor, a vida é uma luta incessante contra ou o frio ou a insônia, contra um estômago embrulhado ou uma dor de dente.

George Orwell, in “1984”

quinta-feira, 5 de março de 2009

1984


4 de abril de 1984

Encostou-se ao espaldar. Descera sobre ele uma sensação de completo desespero. Para começar, não sabia com a menor certeza se o ano era mesmo 1984. Devia ser mais ou menos isso, pois estava convencido de que tinha trinta e nove anos, e acreditava ter nascido em 1944 ou 45; hoje em dia, porém, não era nunca possível fixar uma data num ou dois anos.
De repente ocorreu-lhe uma pergunta. Para quem estava escrevendo aquele diário? Para o futuro, os que não haviam nascido. Sua mente pairou um momento sobre a data duvidosa que escrevera e de repente se chocou contra a palavra duplipensar em Novilíngua. Pela primeira vez percebeu de todo a magnitude do que empreendera. Como poderia se comunicar com o futuro? Era impossível, pela própria natureza. Ou o futuro seria parecido com o presente, caso em que não lhe daria ouvidos, ou seria diferente, e nesse caso a sua situação não teria sentido.
Por algum tempo ficou olhando o papel estupidamente. A teletela agora tocava estridente música militar. O curioso era que ele parecia não só ter perdido o poder de se exprimir como esquecido o que tinha em mente. Havia semanas que se preparava para aquele momento, e nunca lhe passara pela cabeça a ideia de precisar de mais que coragem. Escrever seria fácil. Tudo que tinha a fazer era transferir para o papel o intérmino e inquieto monólogo que se desenrolava na sua mente, fazia anos. Naquele momento, todavia, até o monólogo secara. Além disso, a variz comichava danadamente. E não ousava coçá-la, pois quando o fazia sempre inflamava. Os segundos passavam. De nada tinha consciência exceto da brancura do papel à sua frente, a coceira acima do tornozelo, o berreiro da música e uma leve bebedeira causada pelo gim.
De repente, pôs-se a escrever por puro pânico, mal percebendo o que estava registrando. A letra miúda e infantil traçou linhas tortas pelo papel, abandonando primeiro as maiúsculas e depois até os pontos:
4 de abril de 1984. Ontem à noite...
***
Saber e não saber, ter consciência de completa veracidade ao exprimir mentiras cuidadosamente arquitetadas, defender simultaneamente duas opiniões opostas, sabendo-as contraditórias e ainda assim acreditando em ambas; usar a lógica contra a lógica, repudiar a moralidade em nome da moralidade, crer na impossibilidade da democracia e que o Partido era o guardião da democracia; esquecer tudo quanto fosse necessário esquecer, trazê-lo à memória prontamente no momento preciso, e depois torná-lo a esquecer; e acima de tudo, aplicar o próprio processo ao processo. Essa era a sutileza derradeira: induzir conscientemente a inconsciência, e então, tornar-se inconsciente do ato de hipnose que se acabava de realizar. Até para compreender a palavra "duplipensar" era necessário usar o duplipensar.

***

De repente, por uma espécie desse esforço violento com que, num pesadelo, se arranca a cabeça do travesseiro, Winston conseguiu transferir para a moça de cabelo escuro, sentada atrás dele, o ódio que antes dedicava à figura da tela. Belas e vívidas alucinações lhe atravessaram o cérebro. Haveria de matá-la a golpes de um cajado de borracha. Amarrá-la-ia nua a um poste e a crivaria de flechas como São Sebastião. Possui-la-ia e a degolaria no momento do gozo. Além disso, percebeu mais claro que antes porque a odiava. Odiava-a porque era jovem, bonita e assexuada, porque desejava ir para a cama com ela, e porque nunca o faria, porque na cinturinha fina e convidativa, que parecia pedir que a segurassem com o braço, só havia a odiosa faixa escarlate, o agressivo símbolo de castidade. O ódio chegou ao clímax. A voz de Goldstein transformara-se de fato num balido de ovelha, e por um instante o rosto se transformou numa cara de carneiro. Depois a cara de carneiro se fundiu na de um soldado eurasiano que parecia avançar, enorme e terrível, com a metralhadora de mão rugindo, parecendo saltar da superfície da tela, de modo tão real que alguns da primeira fileira se inclinaram para trás.

***

Com aquelas horrendas crianças, pensou, essa pobre mulher deve levar uma vida de terror. Dali a um ano, ou dois, começarão a observá-la dia e noite, à cata de sintomas de heterodoxia. Quase todas as crianças eram horríveis. O pior de tudo é que, com auxílio de organizações tais como os Espiões, eram sistematicamente transformadas em pequenos selvagens incontroláveis, e no entanto nelas não se produzia qualquer tendência de se rebelar contra a disciplina do Partido. Ao contrário, adoravam o Partido, e tudo quanto tinha ligação com ele. As canções, as procissões, as bandeiras, as caminhadas. a ordem unida com fuzis de madeira, berrar palavras de ordem, adorar o Grande Irmão - era para elas uma espécie de jogo formidável. Toda sua ferocidade era posta para fora, dirigida contra os inimigos do Estado, contra os forasteiros, traidores, sabotadores, ideocriminosos. Era quase normal que as pessoas de mais de trinta tivessem medo aos próprios filhos. E com fartos motivos, pois rara era a semana em que o Times não publicasse um tópico contando Como um pequeno salafrário - "herói infantil" era a expressão usada - ouvira alguma observação comprometedora e denunciara os pais à Polícia do Pensamento.

***

Novilíngua, duplipensar, a mutabilidade do passado. Sentiu-se como quem vagueia nas florestas do fundo do mar, perdido num mundo monstruoso onde ele próprio era o monstro. Estava só. O passado morto, o futuro inimaginável. Que certeza haveria de estar ao seu lado uma única criatura humana viva? E de que maneira saber que o domínio do Partido não duraria para sempre? Como resposta, os três lemas da fachada branca do Ministério da Verdade lhe voltaram à mente: GUERRA É PAZ LIBERDADE É ESCRAVIDÃO IGNORÂNCIA É FORÇA

***

Até do dinheiro aqueles olhos o perseguiam. Moedas, selos, capas de livros, faixas, cartazes, maços de cigarro - em toda parte. Sempre os olhos fitando o indivíduo, a voz a envolvê-lo. Adormecido ou desperto, trabalhando ou comendo, dentro e fora de casa, no banheiro ou na cama - não havia fuga. Nada pertencia ao indivíduo, com exceção de alguns centímetros cúbicos dentro do crânio.

***

Tornou a indagar de si próprio: para quem estaria escrevendo o diário? Para o futuro, para o passado - para uma época que talvez fosse imaginária - E diante dele abria-se não a morte, mas o aniquilamento. O diário seria reduzido a cinzas e ele a vapor. Somente a Polícia do Pensamento leria o seu escrito, antes de suprimi-lo e eliminá-lo da lembrança. Como poderia apelar para o futuro sendo impossível a sobrevivência física de um vestígio do indivíduo, e até mesmo de uma palavra anônima rabiscada num pedaço de papel?

***

Não é fazendo ouvir a nossa voz mas permanecendo são de mente que preservamos a herança humana. Ele voltou à mesa, molhou a pena e escreveu: Ao futuro ou ao passado, a uma época em que o pensamento seja livre, em que os homens sejam diferentes uns dos outros e que não vivam sós - a uma época em que a verdade existir e o que foi feito não puder ser desfeito: Cumprimentos da era de uniformidade, da era da solidão, da era do Grande Irmão, da era do duplipensar!

***

No fim, o Partido anunciaria que dois e dois são cinco, e todos teriam que acreditar. Era inevitável que o proclamasse mais cedo ou mais tarde: exigia-o a lógica de sua posição. Sua filosofia negava tacitamente não apenas a validez da experiência como a própria existência da realidade externa. O bom senso era a heresia das heresias. E o que mais aterrorizava não era que matassem o cidadão por pensar diferente, mas a possibilidade de terem razão. Por que, afinal de contas, como sabemos que dois e dois são quatro? Ou que existe a lei da gravidade? Ou que o passado é inalterável? Se tanto o passado como o mundo externo só existem na mente, e se a mente em si é controlável... então?

***

Winston encostou-se ao peitoril da janela. Não adiantava continuar. Ia comprar mais cerveja quando o velho de repente se levantou e se encaminhou rápido para o mictório fedorento, ao lado da sala. O segundo meio litro estava funcionando. Winston ficou um minuto ou dois olhando a caneca vazia, e mal notou quando os pés o levaram de novo para a rua. Dali a vinte anos, no máximo, refletiu ele, a pergunta simples e momentosa "Antes da Revolução a vida era melhor que agora?" deixaria de ser respondível para todo o sempre. De fato, porém, já era irrespondível, pois alguns dispersos sobreviventes do mundo antigo eram incapazes de comparar uma época com outra. Lembravam-se de um milhão de coisas inúteis, duma briga com um colega, a busca de uma bomba de bicicleta, a expressão no rosto de uma irmã falecida, o rodopio da poeira numa manhã de vento, setenta anos atrás: mas todos os fatos relevantes já estavam fora do alcance da sua visão. Eram como a formiga, que pode ver pequenos objetos, mas não enxerga os grandes. E quando a memória falhava, e os registos escritos eram falsificados - era forçoso aceitar a assertiva do Partido de que tinham melhorado as condições da vida humana, porque não existia, nem jamais poderia existir, qualquer padrão de comparação.

***

Era à noite que vinham buscar a gente, sempre à noite.

***

Ocorreu-lhe que, em momentos de crise, nunca se luta com um inimigo externo, mas com o próprio organismo.
***

Como é que um homem afirma o seu poder sobre outro, Winston?
Winston refletiu.
- Fazendo-o sofrer.
- Exatamente. Fazendo-o sofrer. A obediência não basta. A menos que sofra, como podes ter certeza de que ele obedece tua vontade e não a dele? O poder reside em infligir dor e humilhação. O poder está em se despedaçar os cérebros humanos e tornar a juntá-los da forma que se entender. Começas a distinguir que tipo de mundo estamos criando? É exatamente o contrário das estúpidas utopias hedonísticas que os antigos reformadores imaginavam. Um mundo de medo, traição e tormento, um mundo de pisar ou ser pisado, um mundo que se tornará cada vez mais impiedoso, à medida que se refina. O progresso em nosso mundo será o progresso no sentido de maior dor. As velhas civilizações proclamavam-se fundadas no amor ou na justiça. A nossa funda-se no ódio. Em nosso mundo não haverá outras emoções além do medo, fúria, triunfo e autodegradação. Destruiremos tudo mais - tudo. Já estamos liquidando os hábitos de pensamento que sobreviveram de antes da Revolução. Cortamos os laços entre filho e pai, entre homem e homem, entre mulher e homem. Ninguém mais ousa confiar na esposa, no filho ou no amigo. Mas no futuro não haverá esposas nem amigos. As crianças serão tomadas das mães ao nascer, como se tiram os ovos da galinha. O instinto sexual será extirpado. A procriação será uma formalidade anual como a renovação de um talão de racionamento. Aboliremos o orgasmo. Nossos neurologistas estão trabalhando nisso. Não haverá lealdade, exceto lealdade ao Partido. Não haverá amor, exceto amor ao Grande Irmão. Não haverá riso, exceto o riso de vitória sobre o inimigo derrotado. Não haverá nem arte, nem literatura, nem ciência. Quando formos onipotentes, não teremos mais necessidade de ciência. Não haverá mais distinção entre a beleza e a feiura. Não haverá curiosidade, nem fruição do processo da vida. Todos os prazeres concorrentes serão destruídos. Mas sempre... não te esqueças, Winston... sempre haverá a embriaguez do poder, constantemente crescendo e constantemente se tornando mais sutil. Sempre, a todo momento, haverá o gozo da vitória, a sensação de pisar um inimigo inerme. Se queres uma imagem do futuro, pensa numa bota pisando um rosto humano - para sempre.

George Orwell, 1984