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terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Lembrança

 Yuri Yarosh.

Lembro o pudor da paisagem
e a fanfarra de perfumes
que o claro clarim dos lírios
abria nas madrugadas.
Lembro o susto dos insetos
na castidade das águas,
e as asas do pó fugindo
atrás da luz desnudada.
Lembro a fala dos caminhos
ao longo dos passos cegos,
e os ventos enovelados
na cabeleira das nuvens.
Lembro o bulício da palha
quando pisavas a tarde,
os olhos cheios de folhas
e as mãos repletas de ninhos.
Lembro a noite dos meus olhos
sem luas no seu silêncio,
quando ficavas na sombra
e a sombra ficava estrela.
Lembro a palavra parada
na flor adiada da boca,
e lembro o beijo retido
ao gesto alado de adeuses.


Guilherme de Almeida, “O Anjo de Sal”, 1951

sábado, 2 de novembro de 2013

O ciúme

Christiane Vleugels


Minha melhor lembrança é esse instante no qual,
pela primeira vez, me entrou pela retina
tua silhueta provocante e fina
como um punhal.
Depois, passaste a ser unicamente aquela
que a gente se habitua a achar apenas bela
e que é quase banal.
E agora que te tenho em minhas mãos, e sei
que os teus nervos se enfeixam todos em meus dedos
e os teus sentidos são cinco brinquedos
com que brinquei;
agora que não mais me és inédita; agora
que compreendo que, tal como eu te vira outrora,
nunca mais te verei;
agora que, de ti, por muito que me dês,
já não me podes dar a impressão que me deste,
a primeira impressão que me fizeste;
— louco, talvez,
tenho ciúmes de quem não te conhece ainda
e, cedo ou tarde, te verá, pálida e linda,
pela primeira vez!


Guilherme de Almeida
In Poemas escolhidos, 1931

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

O ciúme

© Shazida Khatun


Minha melhor lembrança é esse instante no qual,
pela primeira vez, me entrou pela retina
tua silhueta provocante e fina
como um punhal.
Depois, passaste a ser unicamente aquela
que a gente se habitua a achar apenas bela
e que é quase banal.

E agora que te tenho em minhas mãos, e sei
que os teus nervos se enfeixam todos em meus dedos
e os teus sentidos são cinco brinquedos
com que brinquei;
agora que não mais me és inédita; agora
que compreendo que, tal como eu te vira outrora,
nunca mais te verei;

agora que, de ti, por muito que me dês,
já não me podes dar a impressão que me deste,
a primeira impressão que me fizeste;
— louco, talvez,
tenho ciúmes de quem não te conhece ainda
e, cedo ou tarde, te verá, pálida e linda,
pela primeira vez!


Guilherme de Almeida

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Fetichismo


Fabrizio R.

Sou fetichista, adoro tudo
que é teu: a página marcada
de um livro; o sono de veludo
da tua lânguida almofada;
um cravo esplêndido e vermelho
que morre; a vida singular
que tu puseste em cada espelho,
ao sortilégio de um olhar;

aquele acorde,aquela escala
que do teu piano andou suspensa
na ressonância desta sala;
a tua lâmpada; a presença
imperativa de um perfume:
o teu chapéu... - tudo afinal
que vem de ti,que te resume,
tem seu prestígio emocional!

E este contato voluptuoso
com tanta coisa evocativa
é tão sensual, tão delicioso
para minha alma sensitiva,
que espero, cheio de ansiedade,
cada momento em que te vais,
e chego mesmo a ter vontade
de que não voltes nunca mais!


 Guilherme de Almeida

domingo, 11 de novembro de 2012

Cuidado




Ó namorados que passais, sonhando,
quando boia, no céu, a lua cheia!
Que andais traçando corações na areia
e corações nos peitos apagando!

Desperta os ninhos vosso passo... E quando
pelas bocas em flor o amor chilreia,
nem sei se é o vosso beijo que gorjeia,
se são as aves que se estão beijando...

Mais cuidado! Não vá vossa alegria
afligir tanta gente que seria
feliz sem nunca ouvir nem ver!

Poupai a ingenuidade delicada
dos que amaram sem nunca dizer nada,
dos que foram amados sem saber!


Guilherme de Almeida

sábado, 6 de outubro de 2012

Arco-Íris: 2- Azul

boris geer


Primavera. 
Um pedaço de céu caiu na terra: 
em tufos fofos de flocos frouxos frívolas hortênsias 
volantes como crinolinas fúteis 
desmancham-se em reverências 
ou passeiam como sombrinhas lindamente inúteis 
ou pousam empoadas de ar como pompons. O céu 
é um grande linho muito passado no anil 
que o vento enfuna num varal de vidro. Ele é o 
toldo azul de um bazar 
onde brinca vestido de ar 
um clown elástico, ágil e sutil. 


Guilherme de Almeida

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Indiferença

Shaun Stubley


Hoje, voltas-me o rosto, se ao teu lado
passo. E eu, baixo os meus olhos se te avisto.
E assim fazemos, como se com isto,
pudéssemos varrer nosso passado.

Passo esquecido de te olhar, coitado!
Vais, coitada, esquecida de que existo.
Como se nunca me tivesses visto,
como se eu sempre não te houvesse amado

Mas, se às vezes, sem querer nos entrevemos,
se quando passo, teu olhar me alcança
se meus olhos te alcançam quando vais.

Ah! Só Deus sabe! Só nós dois sabemos.
Volta-nos sempre a pálida lembrança. 
Daqueles tempos que não voltam mais!


Guilherme de Almeida

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Essa que eu hei de amar…

adolfo valente


Essa que eu hei de amar perdidamente um dia
será tão loura, e clara, e vagarosa, e bela,
que eu pensarei que é o sol que vem, pela janela,
trazer luz e calor a essa alma escura e fria.

E quando ela passar, tudo o que eu não sentia
da vida há de acordar no coração, que vela…
E ela irá como o sol, e eu irei atrás dela
como sombra feliz… — Tudo isso eu me dizia,

quando alguém me chamou. Olhei: um vulto louro,
e claro, e vagaroso, e belo, na luz de ouro
do poente, me dizia adeus, como um sol triste…

E falou-me de longe: "Eu passei a teu lado,
mas ias tão perdido em teu sonho dourado,
meu pobre sonhador, que nem sequer me viste!"


Guilherme de Almeida

segunda-feira, 16 de abril de 2012

O Idílio suave





Chegas. Vens tão ligeira
e és tão ansiosamente esperada, que enfim,
nem te sentindo o passo e já te tendo inteira,
completamente em mim,
quando, toda Watteau, silenciosa, apareces,
é como se não viesses.

Vens... E ficas tão perto
de mim, e tão diluída em minha solidão,
que eu me sinto sozinho e acho imenso e deserto
e vazio o salão...
E, sem te ouvir nem ver, arde-me em febre a face,
como se eu te esperasse!

Partes. Mas é tão pouco
o que de ti se vai que ainda te vejo o arfar
do seio, e o teu cabelo, e o teu vestido louco,
e a carícia do olhar,
e a tua boca em flor a dizer-me doidices,
como se não partisses!


Guilherme de Almeida

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

A canção do tédio

David_Hamilton


Anda uma estrela pelo céu,
sozinha, arrastando um véu
de viúva.
- É a chuva.

Rola um soluço leve no ar,
bem longo no seu rolar,
bem lento.
- É o vento.

Perpassa o passo oco de algum
fantasma, quieto como um
segredo.
- É o medo.

Batem à porta. Abro. Quem é?
Uma alta sombra, de pé,
se eleva.
- É a treva.

Mas, desde então, alguém está
comigo. É inútil. Não há
remédio.
- É o tédio.


Guilherme de Almeida

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

A Hóspede

Kathrin Longhurst


Não precisa bater quando chegares.
Toma a chave de ferro que encontrares
Sobre o pilar, ao lado da cancela.
E abre com ela
A porta baixa, antiga e silenciosa.

Entra, aí tens a poltrona, o livro, a rosa o cântaro de barro.
E o pão de trigo.
O cão amigo pousará nos teus joelhos a cabeça.
Deixa que a noite vagarosa desça.
Cheiram a relva e sol, na arca e nos quartos, os linhos fartos.
E cheira a lar o azeite da candeia.

Dorme. Sonha. Desperta.
Da colméia nasce a manhã de mel contra a janela.
Fecha a cancela e vai.
Há sol nos frutos dos pomares.
Não olhes para trás quando tomares o caminho sonâmbulo que desce.
Caminha e esquece.


Guilherme de Almeida

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Felicidade



Ela veio bater à minha porta
e falou-me a sorrir, subindo a escada:
“ - Bom dia, árvore velha e desfolhada”
e eu respondi: “ -Bom dia, folha morta!”

Entrou: e nunca mais me disse nada...
Até que um dia (quando, pouco importa!)
houve canções na ramaria torta
e houve bandos de noivos pela estrada...

Então chamou-me e disse:“Vou-me embora!
Sou a felicidade! Vive agora
da lembrança do muito que te fiz”

E foi assim que em plena primavera,
só quando ela partiu contou quem era...
E nunca mais eu me senti feliz!


Guilherme de Almeida

quarta-feira, 13 de julho de 2011


Amo pela alegria infinita de amar:
pela promessa de felicidade
que há de sempre florir no teu sorriso,
que há de eternamente arder no teu olhar...

Amo pela alegria luminosa do amor:
do amor que é como um sol
para o qual eu me volto todo, cada dia,
hipnotizado como um girassol...

Amo ― e este amor
é toda a esplêndida, a única alegria
da minha vida...

E se algum dia
tu me vires chorando, partido de dor,
como uma pobre coisa desgraçada,
como uma triste flor esmigalhada
entre os teus dedos, meu amor,
não enxugues meu pranto! Ri!
Ri teu sorriso de ouro!
Sacode tua vida como um guizo
sobre a minha!

E, depois, deixa-me só, pensando
que é de alegria que eu estou chorando!


Guilherme de Almeida

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Harmonia Velha

by  Zindy S. D. Nielsen

O teu beijo resume
Todas as sensações dos meus sentidos
A cor, o gosto, o tato, a música, o perfume
Dos teus lábios acesos e estendidos
Fazem a escala ardente com que acordas o fauno encantador
Que, na lira sensual de cinco cordas,
Tange a canção do amor!

E o tato mais vibrante,
O sabor mais sutil, a cor mais louca,
O perfume mais doido, o som mais provocante
Moram na flor triunfal da tua boca!
Flor que se olha, e ouve, e toca, e prova, e aspira;
Flor de alma, que é também
Um acorde em minha lira,
Que é meu mal e é meu bem...

Se uma emoção estranha
o gosto de uma fruta, a luz de um poente -
chega a mim, não sei de onde, e bruscamente ganha
qualquer sentido meu, é a ti somente
que ouço, ou aspiro, ou provo, ou toco, ou vejo...
E acabo de pensar
Que qualquer emoção vem de teu beijo
Que anda disperso no ar...


Guilherme de Almeida