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sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Diane Leonard 


Não há guarda-chuva
contra o poema
subindo de regiões onde tudo é surpresa
como uma flor mesmo num canteiro.

Não há guarda-chuva
contra o amor
que mastiga e cospe como qualquer boca,
que tritura como um desastre.

Não há guarda-chuva
contra o tédio:
o tédio das quatro paredes, das quatro
estações, dos quatro pontos cardeais.

Não há guarda-chuva
contra o mundo
cada dia devorado nos jornais
sob as espécies de papel e tinta.

Não há guarda-chuva
contra o tempo,
rio fluindo sob a casa, correnteza
carregando os dias, os cabelos.


João Cabral de Melo Neto, in: À Carlos Drummond de Andrade.
Poema publicado originalmente no livro "O Engenheiro", de 1945

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Morte e Vida Severina (Trecho)



Falam os vizinhos, amigos, pessoas que vieram com presentes, etc


—— De sua formosura 
já venho dizer: 
é um menino magro, 
de muito peso não é, 
mas tem o peso de homem, 
de obra de ventre de mulher. 

—— De sua formosura 
deixai-me que diga: 
é uma criança pálida, 
é uma criança franzina, 
mas tem a marca de homem, 
marca de humana oficina. 

—— Sua formosura 
deixai-me que cante: 
é um menino guenzo 
como todos os desses mangues, 
mas a máquina de homem 
já bate nele, incessante. 

—— Sua formosura 
eis aqui descrita: 
é uma criança pequena, 
enclenque e setemesinha, 
mas as mãos que criam coisas 
nas suas já se adivinha. 


—— De sua formosura 
deixai-me que diga: 
é belo como o coqueiro 
que vence a areia marinha. 

—— De sua formosura 
deixai-me que diga: 
belo como o avelós 
contra o Agreste de cinza. 

—— De sua formosura 
deixai-me que diga: 
belo como a palmatória 
na caatinga sem saliva. 

—— De sua formosura 
deixai-me que diga: 
é tão belo como um sim 
numa sala negativa. 


—— é tão belo como a soca 
que o canavial multiplica. 

—— Belo porque é uma porta 
abrindo-se em mais saídas. 

—— Belo como a última onda 
que o fim do mar sempre adia. 

—— é tão belo como as ondas 
em sua adição infinita. 


—— Belo porque tem do novo 
a surpresa e a alegria. 

—— Belo como a coisa nova 
na prateleira até então vazia. 

—— Como qualquer coisa nova 
inaugurando o seu dia. 

—— Ou como o caderno novo 
quando a gente o principia. 


—— E belo porque o novo 
todo o velho contagia. 

—— Belo porque corrompe 
com sangue novo a anemia. 

—— Infecciona a miséria 
com vida nova e sadia. 

—— Com oásis, o deserto, 
com ventos, a calmaria.


João Cabral de Melo Neto

quarta-feira, 14 de março de 2012

Habitar o flamenco






Como se habita uma cidade

Se pode habitar o Flamenco

como sua cidade, seus nativos,

Seus bairros, sua moral, seu tempo.

Sua linguagem: um falar com coisas
  
E jamais do oito mas do oitenta

Seus nativos: toda uma gente

Que existe espigada e morena 



Seus bairros: todos os sotaques

Em que divide seus acentos

Sua moral: a vida que se abre
E se esgota num instante intenso

 Seu tempo: borracha que estica

 Em segundos de passar lento,

Lendo de sesta, sesta insone

 Em que se está aceso e
extremo.



João Cabral de Melo Neto
imagens: Richard Young

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Douglas Hofmann


A bailarina feita
de borracha e pássaro
dança no pavimento
anterior do sonho.

A três horas de sono,
mais além dos sonhos,
nas secretas câmaras
que a morte revela.

Entre monstros feitos
a tinta de escrever,
a bailarina feita
de borracha e pássaro.

Da diária e lenta
borracha que mastigo
Do inseto ou pássaro
que não sei caçar.


João Cabral de  Melo Neto

quinta-feira, 30 de setembro de 2010


O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. 
O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. 
O amor comeu meus cartões de visita. 
O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. 
O amor comeu metros e metros de gravatas. 
O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. 
O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas.
Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. 
Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. 
Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. 
Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. 
Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, 
o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. 
Bebeu a água dos copos e das quartinhas. 
Comeu o pão de propósito escondido.
Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. 
O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua
chutando pedras. 
Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. 
Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. 
Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. 
Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia.

Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. 
Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minhamão asseguravam. 
Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta.
Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. 
Meu inverno e meu verão. 
Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte. 


João Cabral de Melo Neto

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Lição de poesia


Toda a manhã consumida
como um sol imóvel
diante da folha em branco:
princípio do mundo, lua nova.

Já não podias desenhar
sequer uma linha;
um nome, sequer uma flor
desabrochava no verão da mesa:

nem no meio-dia iluminado,
cada dia comprado,
do papel, que pode aceitar,
contudo, qualquer mundo.

2.

A noite inteira o poeta
em sua mesa, tentando
salvar da morte os monstros
germinados em seu tinteiro.

Monstros, bichos, fantasmas
de palavras, circulando,
urinando sobre o papel,
sujando-o com seu carvão.

Carvão de lápis, carvão
da idéia fixa, carvão
da emoção extinta, carvão
consumido nos sonhos.

3.

A luta branca sobre o papel
que o poeta evita,
luta branca onde corre o sangue
de suas veias de água salgada.

A física do susto percebida
entre os gestos diários;
susto das coisas jamais pousadas
porém imóveis - naturezas vivas.

E as vinte palavras recolhidas
as águas salgadas do poeta
e de que se servirá o poeta
em sua máquina útil.

Vinte palavras sempre as mesmas
de que conhece o funcionamento,
a evaporação, a densidade
menor que a do ar.


João Cabral de Melo Neto

quarta-feira, 17 de junho de 2009

João Cabral de Melo Neto

Iovka Mechkarova


Trechos do poema
A PALO SECO
(Quaderna - 1960)

Se diz a palo seco
o cante sem guitarra;
o cante sem; o cante;
o cante sem mais nada;

se diz a palo seco
a esse cante despido:
ao cante que se canta
sob o silêncio a pino.

O cante a palo seco
é o cante mais só:
é cantar num deserto
devassado de sol;

é o mesmo que cantar
num deserto sem sombra
em que a voz só dispõe
do que ela mesma ponha.

A palo seco existem
situações e objetos:
Graciliano Ramos,
desenho de arquiteto,

as paredes caiadas,
a elegância dos pregos,
a cidade de Córdoba,
o arame dos insetos.

Eis uns poucos exemplos
de ser a palo seco,
dos quais se retirar
higiene ou conselho:

não de aceitar o seco
por resignadamente,
mas de empregar o seco
porque é mais contundente.

***

Trechos do poema
O CÃO SEM PLUMAS - "Discurso do Capibaribe"
(O cão sem plumas - 1949 - 1950)

Aquele rio
está na memória
como um cão vivo
dentro de uma sala.
Como um cão vivo
dentro de um bolso.
Como um cão vivo
debaixo dos lençóis,
debaixo da camisa,
da pele.

Um cão, porque vive,
é agudo.
O que vive
não entorpece.
O que vive fere.
O homem,
porque vive,
choca com o que vive.
Viver
é ir entre o que vive.

O que vive
incomoda de vida
o silêncio, o sono, o corpo
que sonhou cortar-se
roupas de nuvens.
O que vive choca,
tem dentes, arestas, é espesso.
O que vive é espesso
como um cão, um homem,
como aquele rio.

Aquele rio
é espesso
como o real mais espesso.
Espesso
por sua paisagem espessa,
onde a fome
estende seus batalhões de [secretas
e íntimas formigas.

E espesso
por sua fábula espessa;
pelo fluir
de suas geléias de terra;
ao parir
suas ilhas negras de terra.

Espesso,
porque é mais espessa
a vida que se luta
cada dia,
o dia que se adquire
cada dia,
(como uma ave
que vai cada segundo
conquistando seu vôo).

sexta-feira, 8 de maio de 2009

St. John The Baptist, Leonardo da Vinci, 1516 

À tinta e a lápis
Escrevem-se todos
Os versos do mundo.

Que monstros existem
Nadando no poço
Negro e fecundo?

Que outros deslizam
Largando o carvão
De seus ossos?

Como o ser vivo
Que é um verso,
Um organismo

Com sangue e sopro,
Pode brotar
De germes mortos?

O papel nem sempre
É branco como
A primeira manhã.

É muitas vezes
O pardo e pobre
Papel de embrulho;

É de outras vezes
De carta aérea,
Leve de nuvem.

Mas é no papel,
No branco asséptico,
Que o verso rebenta.

Como um ser vivo
Pode brotar
De um chão mineral?


João Cabral de Melo Neto

Imagem: À tinta e a lápis
Escrevem-se todos
Os versos do mundo.

Que monstros existem
Nadando no poço
Negro e fecundo?

Que outros deslizam
Largando o carvão
De seus ossos?

Como o ser vivo
Que é um verso,
Um organismo

Com sangue e sopro,
Pode brotar
De germes mortos?

O papel nem sempre
É branco como
A primeira manhã.

É muitas vezes
O pardo e pobre
Papel de embrulho;

É de outras vezes
De carta aérea,
Leve de nuvem.

Mas é no papel,
No branco asséptico,
Que o verso rebenta.

Como um ser vivo
Pode brotar
De um chão mineral?


João Cabral de Melo Neto