Mostrando postagens com marcador Emílio Moura. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Emílio Moura. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 17 de maio de 2022

Noturno


Tocai, tocai, ó flautas que ninguém ouve.

Silenciosas palavras que vos impregnais de eternidade:

falai ao nosso espírito.

Que carícia inesperada, que doçura tímida

nos pensamentos de jamais que ora regressam de ignorados ermos!


(Por que esta paisagem não se transfigura como se não houvesse tempo?)

Tocai, tocai, ó flautas que ainda guardais os velhos ritmos

de doces e antigas árias: tocai, tocai, de novo,

tocai até que a noite

seja apenas o antigamente

de vossa aérea e solitária música.


Emílio Moura 

terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Poema


De repente volta
o que nem sei se foi
sonhado ou vivido.
Que apelo me chega
desta voz que emerge
de tão fundas águas?
Alguém esquecido
no fundo dos tempos?
Meu anjo vencido?
Meu duplo secreto?
Que apelo indizível
me chama, me grita
que esqueça, que durma,
ou me divida em tantos
que nenhum seja eu?

Nem eu, nem ninguém. 

Emílio Moura 

domingo, 16 de novembro de 2014

Lamento em voz baixa



A vida que não tive
morre em mim até hoje.
Chega, límpida, pura,
sorri, pálida, foge.

A vida que não tive
salta, viva, de tudo.
Se me sorri nos olhos,
com que ilusão me iludo.

A vida que não tive
é o que há de mim em mim,
chama, orvalho, segredo
do nunca de onde vim. 


Emílio Moura

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Calmaria

lyse marion


Água estagnada,
nuvem parada,
folha perdida,
pássaro de asa
partida.

- Ó vento que morreis,
de leve, de leve,
despertai!

Luz que se apaga,
sombra diluída,
névoa que vaga,
voz que se cala,
ferida.

- Ó vento que adormeceis,
de manso, de manso,
gritai, gritai!

Tímida esperança,
pálido desejo:
a tarde tão mansa,
tão lânguida a noite
que vem.

Ó alma náufraga,
como tudo o mais:
desesperai! 


Emílio Moura

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Condição Humana

by_kubicki


Como captar da vida
o que rápido, foge
entre dúvidas? Como
reter o que, mal surge, 
já se desfaz: é sombra, 
algo vago, já neutro, 
réstia pálida, eco
de nada, de ninguém? 
Um minuto se esboça, 
rútilo se sonha, 
ardente se anuncia. 
Onde? Quando? Quem sabe? 
Sempre se sabe tarde, 
sem mais onde, nem quando.


Emílio Moura 

sábado, 11 de janeiro de 2014

Valentin Rekunenko

  
Como captar da vida
o que rápido, foge
entre dúvidas? Como
reter o que, mal surge,
já se desfaz: é sombra,
algo vago, já neutro,
réstia pálida, eco
de nada, de ninguém?
Um minuto se esboça,
rútilo se sonha,
ardente se anuncia.
Onde? Quando? Quem sabe?
Sempre se sabe tarde,
sem mais onde, nem quando


Emílio Moura, in: Itinerário poético

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Como a noite descesse...

Ron Jones


Como a noite descesse e eu me sentisse só, só e desesperado diante dos horizontes que se fechavam 
gritei alto, bem alto: ó doce e incorruptível Aurora! e vi logo 
só as estrelas é que me entenderiam. 

Era preciso esperar que o próprio passado desaparecesse, 
ou então voltar à infância. 
Onde, entretanto, quem me dissesse
ao coração trêmulo: 
- É por aqui! 

Onde, entretanto, quem me dissesse
ao espírito cego: 
- Renasceste: liberta-te! 

Se eu estava só, só e desesperado, 
por que gritar tão alto? 
Por que não dizer baixinho, como quem reza: 
- Ó doce e incorruptível Aurora... 

se só as estrelas é que me entenderiam? 


Emílio Moura 

domingo, 21 de julho de 2013

Canção

Radmila Dimitrovska



Viver não dói. O que dói 
é a vida que se não vive. 
Tanto mais bela sonhada, 
quanto mais triste perdida. 

Viver não dói. O que dói
é o tempo, essa força onírica
em que se criam os mitos
que o próprio tempo devora. 

Viver não dói. O que dói
é essa estranha lucidez, 
misto de fome e de sede
com que tudo devoramos. 

Viver não dói. O que dói, 
ferindo fundo, ferindo, 
é a distância infinita
entre a vida que se pensa
e o pensamento vivido. 

Que tudo o mais é perdido. 


Emílio Moura

terça-feira, 16 de julho de 2013

Toada





Minha infância está presente. 
É como se fora alguém. 
Tudo o que dói nesta noite, 
eu sei, é dela que vem. 

Emílio Moura

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Toada dos que não podem amar

Jia Lu


Os que não podem amar 
estão cantando. 
A luz é tão pouca, o ar é tão raro
que ninguém sabe como ainda vivem. 
Os que não podem amar
estão cantando, 
estão cantando
e morrendo.

Ninguém ouve o canto que soluça
por detrás das grades. 


Emílio Moura

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Libertação

 Hélène Béland


Sou um poeta quase místico: 
A vida é bela quando é um êxtase.

Ah! não ter um pensamento, um só pensamento no cérebro, 
não vigiar a vida, a vida inquieta, a vida múltipla da sensibilidade, 
mas vivê-la, de olhos cerrados, num silêncio cheio de ritmos; 
não ouvir as palavras frias que mudam o destino, 
ou que o fazem semelhante a um autômato; 
e saber a toda hora, 
saber sempre 
que a vida é bela quando é um êxtase.


Emílio Moura

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Como a noite descesse...

Federica Erra


Como a noite descesse e eu me sentisse só, só e  desesperado diante dos horizontes  que se fechavam,
gritei alto, bem alto: ó doce e incorruptível Aurora! e vi logo que só as estrelas  é que me entenderiam.

Era preciso esperar que o próprio passado desaparecesse,
ou então voltar à infância.
Onde, entretanto, quem me dissesse
ao coração trêmulo:
— É por aqui!

Onde, entretanto, quem me dissesse
ao espírito cego:
— Renasceste: liberta-te!

Se eu estava só, só e desesperado,
por que gritar tão alto?
Por que não dizer baixinho, como quem reza:
— Ó doce e incorruptível Aurora...

se só as estrelas é que me entenderiam?


Emílio Moura

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Só agora


Só agora é que compreendo haver inventado
tantas maneiras de não ser,
ou de ser, dividido,
disperso.
Ah, vida simplesmente pensada
e não apenas vivida, ou se sonhando entre mil fogos,
e por isso despida
de seu dom de unidade ou de sua própria essência!
Colado à sombra das coisas, viajo desesperadamente,
dividido, disperso.
Onde estou, não sou.
Nunca sou totalmente.
E é um ficar, sem deter-me, e um partir, sem levar-me.

Emílio Moura

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

É preciso

Portrait of a lady - Jules Scalbert

Agora, que te encontrei, é como se eu já te houvesse perdido.
É preciso voltar e procurar de novo o que não encontrei nunca;
é preciso voltar e gritar bem alto que tu não existes,
gritar bem alto que não te vejo, nem te compreendo,
gritar bem alto que não sou teu.

Sim, é preciso que eu me convença
de que, mesmo quando te encontrei – forma efêmera,
sonho ou reflexo de outro sonho –, tu já não existias,
e de que eu serei forte e frio como aquele que não quer viver,
para te matar em mim, caso tu ressuscites.


Emílio Moura


sexta-feira, 18 de março de 2011

Libertação

by Victor Zamanski


Quando a multidão, que há de chegar, estiver toda, toda, nas ruas,
Ninguém mais se preocupará com o fio inquieto ou torturado de
meus pensamentos.
O meu vulto não projetará nenhuma sombra ao redor de mim.
Ninguém procurará entender, ninguém!
Certamente o sentido de minha derrota há de pairar como um
signo trágico sobre a cabeça de cada um deles,
mas será também como um signo inútil em que ninguém atenta.
Ah! então eu serei livre, livre,
e, antes de mim, como depois de mim, todos os mistérios
poderão permanecer invioláveis.

Emílio Moura

quarta-feira, 16 de março de 2011

Permanência da poesia

Gabriel Cornelius Ritter von Max (1840-1915)

Quando a luz desaparecer de todo,
Mergulharei em mim mesmo e te procurarei lá dentro.

A beleza é eterna.
A poesia é eterna.
A liberdade é eterna.
Elas subsistem, apesar de tudo.

É inútil assassinar crianças. É inútil atirar aos cães os que,
de repente, se rebelam e erguem a cabeça olímpica.
A beleza é eterna. A Poesia é eterna. A liberdade é eterna.
Podem exilar a poesia: exilada, ainda será mais límpida.

As horas passam, os homens caem,
A poesia fica.

Aproxima-te e escuta.
Há uma voz na noite!

Olha:
É uma luz na noite!


Emílio Moura

quarta-feira, 7 de outubro de 2009


Joseph Marcou.


Às vezes, subitamente, a poesia te visita.
Pura.
Infinitamente pura.
Como uma rosa.
Melhor ainda:
como a ideia de rosa.


Emílio Moura

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Canção



Não quero ver esta rosa, 
nem saber por que floriu. 
A cor mais bela do Arco-Íris
foi a cor que ninguém viu. 

Não quero ouvir este canto, 
nem saber de seu sentido. 
Quem é que me conta 
o que foi perdido?

Emílio Moura