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sexta-feira, 20 de julho de 2012

O Fenômeno Futuro

alexander_matev


Um céu pálido, sobre o mundo que se esvai em decrepitude, vai talvez partir junto com as nuvens: os farrapos da púrpura repisada dos poentes se esmaecem num rio a dormir no horizonte submerso de raios e água. As árvores se entediam e, sob sua folhagem embranquecida (pela poeira do tempo mais do que aquela dos caminhos), ergue-se a casa de pano do Exibidor de coisas Passadas: muitos candeeiros esperam o crepúsculo e reavivam os rostos de uma turba infeliz, vencida pela moléstia imortal e o pecado de séculos, de homens junto de suas pobres cúmplices grávidas de miseráveis frutos com os quais há de perecer a terra. No silêncio inquieto de todos os olhos suplicando ao longe pelo sol que, sob a água, soçobra com o desespero de um grito, eis o mero aranzel: “Nenhum anúncio vos regala com o espetáculo interior, pois não existe agora pintor capaz de propiciar uma sombra triste. Eu trago, viva (e preservada através dos anos pela soberania ciência), uma Mulher de outrora. Uma certa loucura, ingênua e original, um êxtase de ouro, não sei mais o quê! por ela eleita, sai cabeleira se curva, com o encanto dos tecidos, em torno de uma face que ilumina a nudez sanguínea de seus lábios. Em lugar da veste vã, ela tem um corpo, e os olhos, semelhantes às pedras raras! Não valem esse mirar que se projeta de sua carne afortunada: seios suspensos como se estivessem cheios de um leite eterno, apontando para o céu, para as pernas polidas que retêm o sal do primeiro mar”. Lembrando –se de suas pobres mulheres, calvas, mórbidas e prenhes de horror, os maridos se comprimem: elas também, por curiosidade, melancólicas, querem ver. Quando todos tiverem contemplado a nobre criatura, vestígio de alguma época já maldita, uns indiferentes, pois não terão possuído força de compreender, mas outros, aflitos, e a pálpebra úmida de lágrimas resignadas se contemplarão, enquanto que os poetas desses tempos, sentindo reacenderem-se olhos amortecidos, seguirão para sua lâmpada, ébrio o cérebro, por um instante, de uma glória obscura, tomados pelo Ritmo e no olvido de existir numa época que sobreviveu à beleza.


 Stéphane Mallarmé
Tradução: José Lino Grünewald

quinta-feira, 22 de março de 2012

Suspiro



Minha alma demanda, ó irmã tão serena,
Tua fronte onde sonha um outono sardento,
E o errante céu do teu olhar angélico,
Tal como a suspirar, num jardim melancólico,
Fiel, um jacto branco sobe para o Azul!
— Para o Azul de Outubro pálido, terno e puro,
Nos lagos a mirar o langor infinito:
E deixa à flor da água onde a fulva agonia
Das folhas voga ao vento abrindo um frio sulco
O sol quente a arrastar seu longo raio ruivo.


Stéphane Mallarmé

terça-feira, 10 de agosto de 2010


Le vif oeil dont tu regardes
Jusques à leur contenu
Me separe de mes hardes
Et comme um dieu je vais nu.

*
 O olho vivo com que vês
Até o seu conteúdo
Me aparta de minhas vestes.
E como um deus vou desnudo.


Stéphane Mallarmé
Trad. Augusto de Campos

terça-feira, 27 de julho de 2010

Brisa Marinha

Hélène Béland

A carne é triste, sim, e eu li todos os livros.
Fugir! Fugir! Sinto que os pássaros são livres,
Ébrios de se entregar à espuma e aos céus imensos.
Nada, nem os jardins dentro do olhar suspensos,
Impede o coração de submergir no mar
Ó noites! nem a luz deserta a iluminar
Este papel vazio com seu branco anseio,
Nem a jovem mulher que preme o filho ao seio.
Eu partirei! Vapor a balouçar nas vagas,
Ergue a âncora em prol das mais estranhas plagas!
Um tédio, desolado por cruéis silêncios,
Ainda crê no derradeiro adeus dos lenços!
E é possível que os mastros, entre as ondas más,
Rompam-se ao vento sobre os náufragos, sem mas-
Tros, sem mastros, sem ilhas férteis, a vogar…
Mas, ó meu peito, ouve a canção que vem do mar!

*

La chair est triste, hélas! et j'ai lu tous les livres.
Fuir! là-bas fuir! Je sens que des oiseaux sont ivres
D'être parmi l'écume inconnue et les cieux!
Rien, ni les vieux jardins reflétés par les yeux
Ne retiendra ce coeur qui dans la mer se trempe
O nuits! ni la clarté déserte de ma lampe
Sur le vide papier que la blancheur défend
Et ni la jeune femme allaitant son enfant.
Je partirai! Steamer balançant ta mâture,
Lève l'ancre pour une exotique nature!

Un Ennui, désolé par les cruels espoirs,
Croit encore à l'adieu suprême des mouchoirs!
Et, peut-être, les mâts, invitant les orages
Sont-ils de ceux qu'un vent penche sur les naufrages
Perdus, sans mâts, sans mâts, ni fertiles îlots...
Mais, ô mon coeur, entends le chant des matelots!


Stéphane Mallarmé

domingo, 31 de janeiro de 2010

Brinde


Nada, esta espuma, virgem verso
A não designar mais que a copa;
Ao longe se afoga uma tropa
De sereias vária ao inverso.

Navegamos, ó meus fraternos
Amigos, eu já sobre a popa
Vós a proa em pompa que topa
A onda de raios e de invernos;

Uma embriaguez me faz arauto,
Sem medo ao jogo do mar alto,
Para erguer, de pé, este brinde

Solitude, recife, estrela
A não importa o que há no fim de
um branco afã de nossa vela.


 Stéphane Mallarmé