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sábado, 2 de agosto de 2014

Canção pensativa



Um toque da solidão, e um dedo
severo me traz à realidade: não depender
dos meus amores, não me enfeitar
demais com sua graça, mas ver
que cada um de nós é um coração sozinho.

Cada um de nós perenemente
é um espelho a se mirar, sabendo
que mesmo se nesse leito frio e branco
um outro amor quer derramar-se em nós,
entre gélido cristal e alma ardente
levanta-se paredes para sempre.

(E para sempre
a amante solidão nos chama e abraça.)


Lya Luft, em "Secreta mirada"

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Canção como aviso



As minhas emoções estão intactas
como antes de acordar: serenas
nesta solidão, nem sei se esperam.
Será preciso alimentar de novo
a chama adormecida
do amor que armou incêndios na penumbra
e me apagou.

Estou aqui ainda, enriquecida a mais
com as memórias doces da alegria.
Para me alumiar, quem venha agora
terá de compreender o meu receio
de que seja longa só a fantasia
e breve a permanência de quem veio.


 Lya Luft, em "Secreta Mirada", 1997.

domingo, 10 de novembro de 2013

Pensar é transgredir

Jose Royo


Não lembro em que momento percebi que viver deveria ser uma permanente reinvenção de nós mesmos — para não morrermos soterrados na poeira da banalidade embora pareça que ainda estamos vivos.

Mas compreendi, num lampejo: então é isso, então é assim. Apesar dos medos, convém não ser demais fútil nem demais acomodada. Algumas vezes é preciso pegar o touro pelos chifres, mergulhar para depois ver o que acontece: porque a vida não tem de ser sorvida como uma taça que se esvazia, mas como o jarro que se renova a cada gole bebido.


Para reinventar-se é preciso pensar: isso aprendi muito cedo.


Apalpar, no nevoeiro de quem somos, algo que pareça uma essência: isso, mais ou menos, sou eu. Isso é o que eu queria ser, acredito ser, quero me tornar ou já fui. Muita inquietação por baixo das águas do cotidiano. Mais cômodo seria ficar com o travesseiro sobre a cabeça e adotar o lema reconfortante: "Parar pra pensar, nem pensar!"

O problema é que quando menos se espera ele chega, o sorrateiro pensamento que nos faz parar. Pode ser no meio do shopping, no trânsito, na frente da tevê ou do computador. Simplesmente escovando os dentes. Ou na hora da droga, do sexo sem afeto, do desafeto, do rancor, da lamúria, da hesitação e da resignação.

Sem ter programado, a gente pára pra pensar.

Pode ser um susto: como espiar de um berçário confortável para um corredor com mil possibilidades. Cada porta, uma escolha. Muitas vão se abrir para um nada ou para algum absurdo. Outras, para um jardim de promessas. Alguma, para a noite além da cerca. Hora de tirar os disfarces, aposentar as máscaras e reavaliar: reavaliar-se.

Pensar pede audácia, pois refletir é transgredir a ordem do superficial que nos pressiona tanto.

Somos demasiado frívolos: buscamos o atordoamento das mil distrações, corremos de um lado a outro achando que somos grandes cumpridores de tarefas. Quando o primeiro dever seria de vez em quando parar e analisar: quem a gente é, o que fazemos com a nossa vida, o tempo, os amores. E com as obrigações também, é claro, pois não temos sempre cinco anos de idade, quando a prioridade absoluta é dormir abraçado no urso de pelúcia e prosseguir, no sono, o sonho que afinal nessa idade ainda é a vida.

Mas pensar não é apenas a ameaça de enfrentar a alma no espelho: é sair para as varandas de si mesmo e olhar em torno, e quem sabe finalmente respirar.

Compreender: somos inquilinos de algo bem maior do que o nosso pequeno segredo individual. É o poderoso ciclo da existência. Nele todos os desastres e toda a beleza têm significado como fases de um processo.


Se nos escondermos num canto escuro abafando nossos questionamentos, não escutaremos o rumor do vento nas árvores do mundo. Nem compreenderemos que o prato das inevitáveis perdas pode pesar menos do que o dos possíveis ganhos.


Os ganhos ou os danos dependem da perspectiva e possibilidades de quem vai tecendo a sua história. O mundo em si não tem sentido sem o nosso olhar que lhe atribui identidade, sem o nosso pensamento que lhe confere alguma ordem.

Viver, como talvez morrer, é recriar-se: a vida não está aí apenas para ser suportada nem vivida, mas elaborada. Eventualmente reprogramada. Conscientemente executada. Muitas vezes, ousada.
Parece fácil: "escrever a respeito das coisas é fácil", já me disseram. Eu sei. Mas não é preciso realizar nada de espetacular, nem desejar nada excepcional. Não é preciso nem mesmo ser brilhante, importante, admirado.

Para viver de verdade, pensando e repensando a existência, para que ela valha a pena, é preciso ser amado; e amar; e amar-se. Ter esperança; qualquer esperança.

Questionar o que nos é imposto, sem rebeldias insensatas mas sem demasiada sensatez. Saborear o bom, mas aqui e ali enfrentar o ruim. Suportar sem se submeter, aceitar sem se humilhar, entregar-se sem renunciar a si mesmo e à possível dignidade.

Sonhar, porque se desistimos disso apaga-se a última claridade e nada mais valerá a pena. Escapar, na liberdade do pensamento, desse espírito de manada que trabalha obstinadamente para nos enquadrar, seja lá no que for.

E que o mínimo que a gente faça seja, a cada momento, o melhor que afinal se conseguiu fazer.


Lya Luft

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Bem que eu queria dormir.

Eric G. Thompson


Bem que eu queria dormir.
mas a culpa chamou-me a noite inteira.
Eu preferia fugir,
mas a morte arranhava a minha porta.

Devia esquecer o amor,
mas esse não desiste de mim:
me agarra, me devora e me vomita
no alto da escada.
enganosa luz.
Bela dama: basta uma palavra tua.



Lya Luft
Im Mulher no palco, 1984

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Canção da pequena melancolia

 © Rony Asmara Rikin


Um anjo vem todas as noites: 
senta-se ao pé de mim e passa 
sobre meu coração a asa tensa, 
como se fosse o meu melhor amigo. 

Esse fantasma que chega e me abraça 
(asas cobrindo a ferida do flanco) 
é todo o amor que resta entre ti e mim 
e está comigo.


Lya Luft
In Secreta Mirada, 1997 

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Canção do Recomeço



A casa que voltei depois de tantos anos
bóia como uma ilha de aguapés na noite
presa por uma raiz a um tempo doce e dolorosa,
que me define.

Na madrugada, caminho pela casa como no fundo do mar
onde essa raiz se finca.
Pelas vidraças, o jardim são algas;
meus filhos dormem em seus quartos como quando
eram meninos:
nossas respirações, como sentimento, fundem-se
neste bojo.

Este é meu lugar aonde voltei depois de tantos anos
como quem, misturando peças dos enigmas mais
arcaicos, montasse laboriosamente o seu quebra-cabeça.


Lya Luft, In Mulher no palco, 1984

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Canção do amor sereno

Christian Schloe 

Vem sem receio: eu te recebo 
Como um dom dos deuses do deserto 
Que decretaram minha trégua, e permitiram 
Que o mel de teus olhos me invadisse. 

Quero que o meu amor te faça livre, 
Que meus dedos não te prendam 
Mas contornem teu raro perfil 
Como lábios tocam um anel sagrado. 

Quero que o meu amor te seja enfeite 
E conforto, porto de partida para a fundação 
Do teu reino, em que a sombra 
Seja abrigo e ilha. 

Quero que o meu amor te seja leve 
Como se dançasse numa praia uma menina.


Lya Luft

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Canção em campo vasto

Eric Montoya 


Deixa-me amar-te com ternura, tanto 
que nossas solidões se unam, 
e cada um falando em sua margem 
possa escutar o próprio canto. 

Deixa-me amar-te com loucura, ambos 
cavalgando mares impossíveis 
em frágeis barcos e insuficientes velas, 
pois disso se fará a nossa voz. 

Ajuda-me a amar-te sem receio: 
a solidão é um campo muito vasto 
que não se deve atravessar a sós.


Lya Luft
In Secreta Mirada, 1997

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Auto-retrato

ninho marchini


Alguém diz que sou bondosa: 
está tão enganado que dá pena. 
Alguém diz que sou severa, 
e acho graça. 
Não sou áspera nem amena: 
estou na vida como o jardineiro 
se entrega em cada rosa.


Lya Luft
In Para Não Dizer Adeus

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Canção em segredo

john white alexander


Dentro desta mulher 
um anjo menino 
brinca de ciranda na calçada 
e tem fome de futuro. 
Dentro desta mulher 
uma criança se debruça na janela 
vendo chegar o amor 
e se julga imortal. 

Dentro desta mulher 
uma guerreira constrói sua vida 
depois de parir filhos para o mundo. 
Dentro desta mulher 
outra mulher enterra o seu amor perdido 
e mesmo assim espera. 

Dentro desta mulher 
o mistério das coisas 
finge dormir. 


Lya Luft, in Secreta Mirada

terça-feira, 4 de junho de 2013

Canção em outras palavras



O melhor cuidado com o amor 
é deixar que floresça, 
pois amor não se cultiva: é flor 
selvagem, bela por ser livre. 
Como as estações do ano, ele se abre, 
dorme, e volta a perfumar a vida. 
Amor é dom que se recebe 
com ternura, para que não pereça 
sua delicadeza em nossa angústia. 

O amor não deve encerrar a coisa possuída, 
mas ser parapeito de janela, ou cais 
de onde se desprendam os revôos 
e partam os navios da beleza 
para voltar ou não, conforme amarmos: 
nem de menos 
nem demais.


Lya Luft, Secreta Mirada

terça-feira, 28 de maio de 2013

Canção pensativa

Jeremy Mann

Um toque da solidão, e um dedo 
severo me traz à realidade: não depender 
dos meus amores, não me enfeitar 
demais com sua graça, mas ver 
que cada um de nós é um coração sozinho. 

Cada um de nós perenemente 
é um espelho a se mirar, sabendo 
que mesmo se nesse leito frio e branco 
um outro amor quer derramar-se em nós, 
entre gélido cristal e alma ardente 
levanta-se paredes para sempre. 

(E para sempre 
a amante solidão nos chama e abraça.)


Lya Luft
In Secreta Mirada

domingo, 26 de maio de 2013

Círculos

Serge Marshennikov

Na vida na morte 
esta chama, esta fonte, 
esta noite invadida: 
seus panos na cama 
seus passos na casa 
sua voz ao meu lado, 
meu bem no seu mundo 
varando meu peito: 
me povoa, me coroa 
de beijos e mágoas 
me prende em sua rede, 
me define, me redime 
me inventa e desinventa 
me habita e transfigura, 
no ritmo das águas 
deste rio sem fundo 
que chama na fonte 
da morte, na vida.


Lya Luft
In Para não dizer adeus

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Convite

tiiti garelli


Não sou a areia 
onde se desenha um par de asas 
ou grades diante de uma janela. 
Não sou apenas a pedra que rola 
nas marés do mundo, 
em cada praia renascendo outra. 
Sou a orelha encostada na concha 
da vida, sou construção e desmoronamento, 
servo e senhor, e sou 
mistério 

A quatro mãos escrevemos este roteiro 
para o palco de meu tempo: 
o meu destino e eu. 
Nem sempre estamos afinados, 
nem sempre nos levamos 
a sério.


Lya Luft 
In Perdas e Ganhos, 2003

quarta-feira, 22 de maio de 2013

robert hefferan



OS
Homens são passos; mulheres são perfumes 
que se aproximam, param e se esquivam 
sem lançar raízes nessa treva. 
Beijam-se às vezes, como num murmúrio, 
e eu abro meus lábios tão precários, 
para depois, num mundo só de beijos, 
pousar a mão sobre meus olhos mortos, 
como se baixasse nesses entrevados 
o teu carinho, a medo. 



Lya Luft
In Mulher no Palco, 1984 

domingo, 19 de maio de 2013

Essa máscara


Yvonne Olgers



Essa máscara de placidez 
tanto me absorveu, que hoje 
não há distância entre eu e ela: 
revela a minha face, 
suave e sutil, 
e que me torna amiga. 

Sou ela, ou serei eu? 
Talvez, por tão antiga, 
seja ela o meu rosto e seja máscara 
esse outro perfil que olha para dentro. 
Mansa por fora: dentro uma floresta escura, 
poço de paixão, abismo e arremesso.


Lya Luft
In Mulher no palco, 1984

terça-feira, 14 de maio de 2013

Lembro-me de ti

© Natalia Duplinskaya


Lembro-me de ti 
Nesse instante absoluto, 
A vida conduzida por um fio de música. 
Intenso e delicado, ele vai-nos fechando num casulo 
Onde tudo será permitido. 

Se é só isso que podemos ter, 
Que seja forte. Que seja único. 
Tão íntimo quanto ouvirmos a mesma melodia, 
Tendo o mesmo - esplêndido - pensamento.


Lya Luft
In Mulher no Palco, 1984

sábado, 11 de maio de 2013

Não é uma esperança



Não é uma esperança: 
é a voz de alguém clamando 
sempre que espero que algum anjo fale. 
Não sou ninguém, sentada neste espaço 
entre os espelhos do mar e os penhascos 
do coração. 
(Se eu me lançasse deles, enrolada 
nas tantas frases que formei na vida?) 

No mar-espelho fui jogando todas 
as máscaras sem olhos 
que me guardavam no avesso, e me vestiam. 
São delas essas mãos que agora emergem 
do mar, do sonho, da memória. 
e ao meu pescoço amarram suas tranças 
para levar.


Lya Luft
In Mulher no palco, 1984

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Dança Lenta

Escultura de Wolfgang Alexander Kossuth


Não somos nem bons nem maus:
somos tristes. Plantados entre chão
e estrelas, lutamos com sangue,
pedras e paus, sonho
e arte.

Nem vida nem morte:
somos lúcida vertigem,
glória e danação. Somos gente:
dura tarefa.
Com sorte, aqui e ali a ternura
faz parte.


Lya Luft, 
in Para Não Dizer Adeus

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Quando fecho a porta

Roman_Frances


Na parede atrás de minha mesa, 
ombro a ombro, 
a menina e seu pai, em dois retratos, 
conversam sobre o que há no escuro 
da noite, como entender o mundo, 
e por que as montanhas eram tão azuis. 
Quando apago a luz e fecho a porta, 
eles riem baixinho desta que hoje sou: 
ainda tão distraída e desassossegada, 
cheia de encantamento, susto e assombro. 
(E devem dizer, meneando as cabeças: 
Parece que ela nunca vai mudar.)


Lya Luft, In Para Não Dizer Adeus