terça-feira, 8 de junho de 2010
Emily Brontë, O morro dos ventos uivantes
... me pus a fechar as janelas, uma após outra. Ao chegar àquela em que ele se achava, perguntei, para atrair sua atenção, pois que ele não se mexia.
- Devo fechar esta?
Quando dizia isto, a luz clareou seu rosto. Oh! Sr. Lockwood, não posso exprimir o choque que senti diante daquela visão passageira! Aqueles profundos olhos negros! Aquele sorriso! Aquela palidez de fantasma! Acreditei ver não o Sr. Heathcliff, mas um espectro. No meu terror deixei a vela tombar de encontro à parede e fiquei no escuro.
- Sim, feche-a – respondeu ele, no seu tom habitual. – Ora, que falta de jeito! Por que conservava a vela horizontalmente? Vamos, depressa, traga outra.
Sai às carreiras, presa dum terror louco, e disse a José:
- O patrão deseja que você lhe leve uma luz e reacenda o fogo.
Eu não ousava voltar à sala naquele momento.
José juntou alguns tições na pá de ferro e partiu, mas voltou com eles quase imediatamente, trazendo também a bandeja com a ceia, e explicando que o Sr. Heathcliff ia deitar-se e não tinha precisão de nada até de manhã. Ouvimo-lo que, de fato, subia a escada no mesmo instante. Não se dirigiu, porém para seu quarto habitual, mas entrou no da cama de painéis, cuja janela, como já tive ocasião de dizer-lhe é bastante larga para dar passagem a uma pessoa. Veio-me a idéia de que ele meditava outra expedição noturna e que preferia que não suspeitássemos dela.
- Será ele um lobisomem ou um vampiro? – perguntava eu. Havia lido histórias a respeito desses horrendos demônios encarnados. Depois refleti que havia cuidado dele em sua infância, que fora testemunha de sua passagem à adolescência, que o havia seguido durante toda a sua existência e que era um absurdo ceder àqueles sentimentos de horror.
- Mas donde viera aquela criaturinha morena, recolhida por um homem de bem para ruína sua? – murmurou a superstição, no momento em que perdia a consciência da realidade, adormecendo. Meio a sonhar, esforçava-me por achar-lhe uma origem verossímel. Retomando as meditações a que estivera entregue quando acordada, repassava sua existência, sob todos os seus aspectos terríveis. Por fim figurei-me sua morte e seu funeral. A única lembrança que me resta é que estava muito aborrecida, porque era a mim que incumbia o encargo de compor a inscrição para seu túmulo, e que consultava a esse respeito o coveiro. Como não tinha ele nome de família, e não soubéssemos sua idade, éramos obrigados a contentar-nos com esta simples palavra: “Heathcliff”.
Emily Brontë, O morro dos ventos uivantes

